11 de novembro de 2014

O regresso

Luís Farinha


     Não vinha aqui há mais de um ano. É tempo, pois, de pedir desculpa aos que por acaso ou costume têm vindo aqui dar uma olhadela às prosas que me atrevo a alinhavar e viram frustrado o seu intento. Esta ausência deve-se a um período sabático que me impus até deixar passar a crescente onda de desânimo que me toldou a inspiração durante largo tempo. Na idade que já tenho e depois de uma vida vivida à exaustão, repleta de episódios e situações cujas memórias nem sempre são bem vindas, senti-me soçobrar ao peso dos acontecimentos que nos últimos tempos vêm infernizando o dia-a-dia dos portugueses. Daí a minha ausência deste espaço que outra coisa não intenta senão ajudar a despertar a vontade de pensar dos que não têm tempo nem pachorra para se porem a decifrar os porquês do que se lhes vai passando à volta.

     Vim ao mundo no último ano da década de 20 do século passado. Imaginem, portanto, quantos testemunhos fui acumulando em tão longo percurso, umas vezes como simples observador outras como interveniente mais ou menos directo. Quantos exemplos, bons, sublimes, maus e não raramente repulsivos fui acumulando no meu repositório de memórias. É por isso que não me custa admitir que sou, hoje, o idoso que a vida fez de mim: um velho inconformado, céptico, dado à cisma e à desesperança de que melhores dias virão para os que chegarem depois. Daí, o tom amargo que, por vezes, não consigo evitar nos textos que aqui deixo.

     Ao ouvir alguém afirmar que estamos em tempo de mudança, querendo significar que após o cumprimento da tarefa de devastação em curso virão dias melhores, penso que toda a razão me assiste quando, falando com os meus botões, raciocino que em mais de oitenta anos de vida todas as mudanças a que assisti redundaram no agravamento das parcas condições que parecem intrínsecas da raça lusitana. Como uma maldição, depois de cada curva da longa estrada que nos foi dado percorrer há sempre mais um buraco onde acabamos por nos atascar; é o que acontece agora, mais uma vez. Sustentam alguns que nada nos vem por acaso, que numa espécie de destino marcado não nos podemos furtar àquilo que está prescrito no nosso código genético. Seja ou não assim, de alguma forma terá de ser explicada a razão por que, desde tempos imemoriais, este rincão localizado na ponta da Europa não consegue sair da tosca situação de penúria em que quase sempre tem vivido atolado. Em tempos recentes atribuíamos ao penoso regime político que nos submeteu a quase meio século de vergonhosa subserviência a causa da nossa penúria; quarenta e tal anos depois, numa manhã de Abril, um punhado de militares sem medo ofereceu-nos a oportunidade de mudar radicalmente tal estado de coisas erradicando a nefanda ditadura que nos mantinha açaimados. Após muitos anos passados desde então constata-se afinal que os ricos não param de enriquecer ainda mais enquanto os pobres continuam a ser esbulhados do essencial. Falta de talento dos que se voluntariaram para proceder à mudança?, talvez. Aproveitamento da oportunidade para uns quantos satisfazerem a sua ânsia de afirmação social e material?, não sei. Penso que as duas coisas têm um elo comum: a cega determinação de uma geração que acredita num mundo constituído por duas classes: uns milhões que trabalham para produzir riqueza e uns milhares que a chamam a si. Só isso pode explicar as injustiças sociais que, em permanente crescença,  marcam o quotidiano desta sociedade em convulsão.   

     Certo é que se antes alimentávamos a esperança de uma vida melhor quando - e se - o regime mudasse, verificamos - quatro décadas passadas sobre a tal manhã de Abril - que tudo mudou de facto: o português comum é hoje mais precário do que antes, sendo, para cúmulo, acusado pelos que se passeiam pelos corredores do poder de ser o causador da degradante penúria a que Portugal chegou. Antes era Salazar o culpado da pobreza em que nos arrastávamos, hoje somos nós, cidadãos, o alvo para que apontam os génios que - eles sim - alimentam o plano de empobrecimento em curso.

     Coisas do destino.  

     Bem… desculpas apresentadas, deixo ficar a promessa de que estou de volta. Virei aqui com a assiduidade possível para repartir com os leitores curiosos ou de passagem uma ou outra experiência ou memória singular por mim vivida nesta longa viagem através do tempo. Para além disso, apenas um ou outro apontamento sobre o desvario que vai por aí…        

26 de agosto de 2013

O português que se fala


Luís Farinha

 

 

     Sobrevoar Lisboa, de noite, no regresso de mais uma viagem de trabalho ou de prazer, é um gozo que se renova em cada vez que acontece. Pelo menos é o que eu costumo sentir. A última foi em 20 de Maio passado, no regresso de Lyon (França). Chovia quando embarquei, lá, e continuava a chover quando vi aproximarem-se as luzes da cidade de Lisboa. Num bom voo, como quase sempre, tentei cobrir aquele espaço de duas horas assistindo aos esforços dos assistentes de bordo (antigos comissários) a tentarem vender alguns artigos de discutível interesse e os jogos da raspadinha que, para minha surpresa, têm agora tanta saída lá em cima, entre as nuvens, como cá em baixo, nos cafés cá do meu bairro.

 

     Aterragem perfeita apesar da chuva persistente. Duas assistentes  portuguesas (antigas hospedeiras de bordo), na cabine junto à escada da saída, na cauda do avião, acompanhavam a operação de desembarque. Uma delas, armada de microfone, apresentava os habituais agradecimentos da companhia transportadora, à mistura com os avisos da praxe na hora do adeus. E foi aí que a coisa aconteceu. “Continua a chover, por favor tenham cuidado com os degraus, apõem-se nos corrimões”. Surpreendidas, ficaram a olhar o senhor que, na passagem, lhes recomendou a meia voz: “meninas, não se diz corrimões mas sim corrimãos” e iniciei a descida sem olhar para trás.

 

@

 

     Não sendo um 'crítico' no sentido em que, nos media, isso é entendido, não resisto à trazer aqui dois reparos que me causam uma espécie de urticária. Por isso aí vai...

 

Os 'Entões' estão na moda?

 

     Ouve-se todos os dias nas rádios e nos vários canais de televisão. Nestes, a moda pegou para valer. De microfone na mão, não há repórter que se preze que não avie meia dúzia de sonoros 'entões' durante uma intervenção de um ou dois minutos. É um regalo! Quase sempre a despropósito, o 'entões' saltitam de frase em frase salpicando a verborreia para que a notícia, o acontecimento, tenha mais emoção. Para que o público caia em êxtase perante tanto dinamismo jornalístico.

 

 

Exemplos ficcionados:

"É esperada hoje, no Porto, a chegada da rainha da Holanda afim de acompanhar a inauguração do 'Porto, Capital da Cultura'. Espera-se então que a rainha chegue por volta das 17 horas".

  

Ou:

 

Hoje, às quatro e meia da tarde, um grave acidente rodoviário pôs termo à vida de dois jovens de 23 e 29 anos. Uma viatura de alta cilindrada despistou-se então na recta do Dafundo, na Marginal, indo embater, de frente, numa camioneta de carga que seguia na direcção de Algés. Do brutal acidente resultou então a morte dos dois jovens que seguiam no BMW havendo ainda que lamentar ferimentos graves no condutor da camioneta. Quando os bombeiros chegaram ao local, poucos minutos após o acidente, já nada puderam fazer em favor dos dois jovens, limitando-se então a transportar para o hospital o motorista ferido.                

 

Ou:

 

"No Martim Moniz, em Lisboa, desabou um prédio que há muito ameaçava ruína.

Felizmente não se registaram então vitimas entre os moradores.

Foi ontem que a ocorrência teve então lugar numa das zonas mais tradicionais da Capital".

 

     Além de inaceitáveis por serem utilizados fora de contexto, estes "entões..." entram na lista daqueles lugares-comuns que os mestres designam por "bengalas" - expressões utilizadas apenas com o intuito de estabelecer a ligação 'começo, meio e fim' das frases que procuram a todo o custo adicionar emoção ao acontecimento que está a decorrer.

     É feio, inestético e confirma apenas a pobreza de recursos linguísticos do noticiarista.

     Embora muito menos frequente, o 'então' despropositado é já usado também por um ou dois 'pivots' televisivos. Daqui a teoria de se ter tornado moda a que alguns profissionais não conseguiram resistir. A confirmar-se essa eventualidade, torna-se ainda mais grave o que já por si me parece lamentável.         

 

Modismos (1)

 

     Ainda no âmbito da comunicação social falada houve tempos em que se tornou moda acrescentar a consoante "s" aos verbos terminados em "r". Assim, ouvia-se pronunciar frequentemente: "morrer´s" em vez de morrer; "viver´s" em vez de viver; "fazer´s" em vez de fazer; "ir´s" em vez de ir; "acabar´s" em vez de acabar; "sorrir's" em vez de sorrir; "escapar's" em vez de escapar; "escrever's" em vez de escrever; "falar´s" em vez de falar... Na prática, esta moda proporcionava frases com imensa piada, como: "Fique para ver's, é já a seguir's".

 

     A primeira pessoa a quem ouvi usar esta preciosidade, um novel apresentador que eu nunca vira antes, dava-se ares de grande vedeta. Profusa gesticulação, transbordante desembaraço, verbosidade fluida e uma forma estranha de a pronunciar. A incontida presunção de que dava mostras não demorou a arregimentar um sem número de seguidores. Rapidamente, aquele falar estranho transformou-se em moda irresistível, principalmente entre os recém-chegados à comunicação social falada. Hoje, muitos anos passados, a experiência acabaria por levar a melhor. Ele aí continua, na televisão, agora contido mas sempre fluente na palavra fácil, escorreita e despretensiosa. Um  apresentador aceitável.

 

Infelizmente, registo a continuidade desse modismo, que acabou por passar à história, na figura de um jornalista-pivot num dos canais generalistas. E sinto pena   que a sua sobriedade profissional não se estenda ao hábito malsonante dos 'esses' a terminarem os verbos acabados em 'erre'. A menos que tal anormalidade se deva a um defeito contraído na estrutura dentária, na língua ou no aparelho fonador. Se tal for o caso aqui deixo as minhas desculpas, consciente de que no melhor pano cai a nódoa.

 

Nota final (2)

 

     Creio que vale a pena explicar por que decidi trazer aqui estes dois reparos.

 

     É incontestável que o mundo está em constante mudança, porém nem sempre no bom sentido. Será por isso que sinto uma confessada relutância em aceitar o que se confunda com o mau gosto. A falta de brio profissional é, igualmente, um dos pecados que sempre me causaram arrepios, evitando por isso o contágio degradante que tal prática implica. Como jornalista de longo curso, vi - e continuo a observar - muitos sinais de degradação de uma profissão que em tempos idos criou grandes figuras mercê do zelo cuidado do seu desempenho. 

 

 

18 de agosto de 2013

Com sua licença, Senhor PM


Luís Farinha

  Permita-me, Dr. Passos Coelho, que lhe fale com franqueza: os seus actos enquanto chefe do governo têm vindo a demonstrar claramente – ao longo do tempo que leva no lugar que ocupa – que padece duma confrangedora carência de consciência social e humanista. Será isso, na minha opinião, que o impede de desempenhar com êxito pleno a função tão difícil que lhe foi confiada.

  Ostentando confrangedora insensibilidade, o senhor tem marcado os seus contactos com os dez milhões de portugueses que estão à sua mercê como se fossem os culpados da bancarrota que o País atravessa. E tal insinuação é falsa, como bem sabe, senhor primeiro-ministro. Os culpados desta desgraça devem ser encontrados em estratos que nada têm que ver connosco, os cidadãos rasteiros: políticos carreiristas, empresários de nomeada, especuladores financeiros sem carácter, ladrões furtivos que se escondem por detrás das posições-chave onde se delineiam os grandes negócios deste país em plena desordem social e económica à espreita de ocasiões propícias para desencadearem golpadas bem rendosas, corruptos e corruptores sem migalha de escrúpulos, gente suja que usa roupa cara enquanto se coloca a jeito para desviar para si ou para terceiros o que à Nação pertence. São eles e não o povo anónimo que, dando ouvidos aos apelos mil vezes repetidos pelos promotores do compre agora e pague depois, se atreveu a meter-se na compra a crédito de uma casa de duas assoalhadas para meter a família, de um carrito utilitário ou de uma ou outra bugiganga que a publicidade engenhosa dos grandes grupos de distribuição ainda agora lhes continua a enfiar pelos olhos adentro. O povo é fraco, senhor doutor, é fraco e talvez imprevidente, convenhamos, e os homens de negócios, no afã de embolsarem mais milhões, sabem bem como despertar-lhe o desejo de posse que vive latente no fundo dos seus anseios.

   Voltando à postura de juiz inclemente que o senhor exibe quando fala aos portugueses (lembro-me sempre de um professor que aturei na instrução primária…) concluo que de duas uma: está mesmo convencido de que somos nós, o povo, os culpados de tudo o que de errado e vil se passa em Portugal ou, não sendo assim, é porque o senhor carece da sensibilidade que se tem como indispensável a quem se voluntaria para desempenhar o cargo que lhe foi confiado.

   Perdoe-me a franqueza, senhor doutor, mas quando o vejo dirigir-se ao microfone para falar ao país e, com ar severo e dedo no ar, debita a sua reprimenda e anuncia a consequente punição que, mais uma vez, decidiu aplicar aos ‘culposos’, vem-me de imediato à ideia um antigo colega seu que ainda por cá andava há meio século atrás.

   E fico preocupado…
 
   Fico preocupado porque sinto reavivar a impressão de que o senhor doutor Passos Coelho parece não ter ainda entendido que foi escolhido não para dar continuidade ou cobertura à imundície que a súcia de espertalhões que o precederam no cargo que agora ocupa vieram espalhando ao longo de muitos anos. E é por isso que me atrevo a vir lembrar-lhe que o senhor foi eleito, exactamente, para acabar com esse crime. Que veio para acabar com as manobras de empobrecimento sistémico do povo, com o desígnio maquiavélico inventado para benefício dos abutres que enxameiam e conspurcam a política e a economia deste nosso rincão habitado por dez milhões de seres humanos, homens, mulheres, crianças e velhos que, acredito, na sua imensa maioria não merecem – não podem ser confundidos com essa canalha imunda.

   Face a essa carência elementar, própria de quem pouco sabe da vida, parece ser altura de lhe sugerir a toma de quaisquer medidas adequadas à correcção do lapso. Pode começar, senhor primeiro-ministro por imaginar-se a sobreviver, como um de nós, às dificuldades que tem vindo a implementar, cada vez mais contundentes e tomando por alvo preferencial o sacrificado povo do seu país.

   Não lhe quero mal, senhor, até porque – acredite – sou hoje um dos que se sentem responsáveis pelo lugar que ocupa. Votei em si não por erro de estratégia mas porque, apesar da minha idade avançada, conservo uma incurável tendência para acreditar nas patranhas que me contam.  

   Há pessoas que, pela sua dificuldade em conseguir medir a gravidade das consequências decorrentes dos seus actos, arriscam decisões que a teoria financeira aponta como recomendáveis mas que, na prática, revelam ser atentatórias da boa moral e injustas quando impostas a outros a quem é negado o direito de contrapor. É o que se passa em Portugal neste momento da história. Desta vez o seu intérprete é o senhor.

   Teimo em acreditar que não o faz por maldade, mas antes por carência de discernimento, por falta de experiência de vida.

   O que acabo de lhe dizer é um desabafo, eu sei. Talvez, antes, mais um grito de aflição face ao país sem esperança que estou prestes a deixar aos meus filhos e netos que olham assustados para o horizonte vazio que têm pela frente.

   Senhor primeiro-ministro pare para pensar, por favor. Procure – se ainda for a tempo – rever a incongruência da sua governação. Antes que o seu nome seja gravado na história como o coveiro desta nação milenar, chamada Portugal.

Obrigado. Passe bem…  

15 de julho de 2013

“Quem sabe faz, quem não sabe dá conselhos”

Luís Farinha


   É um ditado antigo que o quotidiano confirma a cada passo: “Quem sabe faz, quem não sabe dá conselhos”. Antigo, mas cada dia mais transparente entre os que criaram e alimentam a convicção de que a sabença se esgota nas suas mentes privilegiadas. Tal fenómeno ocorre, hoje, com inusitada frequência, sendo corriqueira entre os que se comprazem em exibir a erudição em que se têm como excepcionais.

   Os políticos, em particular, são useiros obstinados desta demonstração de superioridade sobre os outros mortais. Tal como os treinadores de bancada, também eles se convencem que as soluções inquestionáveis sobre o que for pulsam, latentes, nos escaninhos das suas mentes superiores. E é assim que, por artes e manhas, acabam por convencer os crédulos que o país só terá futuro com a sua contribuição. Só que, passado algum tempo de exercício no centro do poder, a maioria desses predestinados estatela-se ao comprido, acabando por sair de cena pela esquerda baixa.

   É isso que tem vindo a acontecer depois que os militares nos ofereceram a revolução dos cravos e os políticos garantiram que Portugal ia mudar. Tinham razão, caramba! O país mudou: hoje os ricos cresceram em número e ficam cada vez mais opulentos, enquanto isso a classe média foi já esfrangalhada e os pobres estão finalmente e sem contemplações, a ser promovidos a indigentes.

   Exagero? Olhem que não.

Haja em conta os despedimentos em massa, a miserabilidade crescente do povo, os desempregados sem esperança e, em particular os jovens sem futuro, a quem é negado um plano de vida, o direito a uma existência digna. Vale-lhes a sabedoria inesgotável do centro do poder que os aconselha a irem viver para outro lado, a procurarem além fronteiras o trabalho que aqui não encontram. E, brademos aos céus(!), é precisamente a estes, aos mais pobres, aos mais desprovidos, que os senhores governantes, os ‘cérebros’, apontam as baterias atribuindo-lhes a incumbência de pagar – não se sabe bem como – a famosa ‘austeridade’, designação exaustivamente repetida nos corredores do poder.

   Mas o que é ainda mais inacreditável, são esses – os que se autopromoveram a governantes dos dez milhões de portugueses – que ainda deixam a pairar a falsa ideia de que os culpados da situação paupérrima a que o país chegou são exactamente os pobres, os que têm sido permanentemente quilhados pela distinta galera política, um pecado que os torna, desde logo, merecedores dessa ‘penitência’.

   É o que ressalta da atitude sobranceira, altiva, arrogante, inquisitiva, exibida pelos senhores doutores Passos Coelho e Vitor Gaspar, quando vinham comunicar aos portugueses mais um agravamento ou introdução de uma nova taxa contributiva, um novo imposto ou mais um corte nas já paupérrimas reformas e pensões dos idosos deste desgraçado país.     

   Na verdade, talvez não possamos acusar os governantes, estes e os outros, de não terem mudado Portugal. Mudaram sim, senhores: transformaram-no num atoleiro, lotado de despojados.           
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   Aconteceu recentemente com o senhor doutor Gaspar quando, na sua missiva de adeus, teve a franqueza de – embora tarde de mais – reconhecer os becos sem saída em que se meteu, confundindo a árvore com a floresta. Afinal as teorias que tinha como infalíveis serviram apenas para precipitar no abismo o povo desta nação dando cabo da vida de milhões de portugueses que ficaram na miséria e de milhares de jovens a quem roubou o futuro que mereciam e a que tinham direito. Uma semana depois, sorridente, regressou à actividade que antes desempenhava: consultor do conselho de administração do Banco de Portugal. No seu gabinete confortável vai continuar a dar conselhos, acção em que é especialista, usufruindo da boa e rendosa vida que tinha antes da sua desgraçada aventura política. Com esta aprendeu, pelo menos, que para governar um país não basta manipular com mestria uma simples calculadora. Segundo ele próprio escreveu na sua carta de adeus, acabou por reconhecer que não fora talhado para a prática governamental. Algo que todos percebemos desde o princípio do seu desempenho, sem precisar de desenhos. Dar conselhos é, sem sombra de dúvida, o ofício que lhe cabe como uma luva.  



6 de julho de 2013

KARMA, o mentalista

Luís Farinha


O espectáculo teve lugar no antigo e já extinto Teatro Monumental, no Saldanha, em Lisboa. Um evento que – se a memória não me atraiçoa – foi organizado pelo pessoal da TAP. Vão quase 50 anos. Entre os vários artistas convidados lembro-me da Maria Armanda, ainda na fase pré-fadista e do Palhaço Raulito. Fui contratado para a apresentação.

Ocorreu-me essa lembrança quando li há pouco, no livro Lisboa, anos 60, de Joana Stichini Vilela e Nick Mirozowki, uma referência a um feito levado a cabo pelo mentalista Raul Karma, no ano distante de 1964. Num fim de tarde, em Setembro, perante a incredulidade de ‘meia Lisboa’ Karma conduziu um automóvel – de olhos vendados e com um saco de pano espesso enfiado na cabeça, desde a Praça Duque de Saldanha à Praça do Areeiro, ‘num total de 2.250 metros’.

Eu assisti. Embora afastado, acompanhei parte do percurso e posso assegurar que o êxito não podia ter sido maior!

Passado tanto tempo, a leitura desta ousada demonstração trouxe-me de volta o tal espectáculo do Monumental igualmente ocorrido na década de 60 do século passado. Lembrei-me do Palhaço Raulito, da rábula do pato que ele trazia sobraçado e que era capaz de somar como qualquer bom aluno desse tempo, perito na tabuada. O tempo não perdoa e já não tenho presente o nome que ele dava ao pato quando lhe perguntava: “Toma atenção: quanto soma dois mais dois?”, e o pato grasnava: “Quá, quá, quá, quá”! Essa ou outra adição ou subtracção que o artista lhe propunha. Finalizada a cena do pato, o palhaço foi buscar um longo serrote de cortar madeira, um arco de violino e, manipulando-os com mestria, encheu o salão de música celestial. 
Já no fim da sua actuação, quando nos bastidores lhe perguntei como é que ele conseguira aquele prodígio do pato, respondeu-me: “Olha lá, se te apertassem os tomates tu ficavas calado?”

Pois é… como já perceberam, o Palhaço Raulito, vestido e pintado a preceito e o Professor Karma, era uma e a mesma pessoa. Só que o Karma começou a ser conhecido algum tempo depois de o palhaço ter terminado a sua carreira.

Conhecemo-nos na adolescência, tinha eu 15 anitos e ele 17. Tornámo-nos amigos e colegas de trabalho nos CTT, corria o ano de 1944. Era uma amizade estreita, nunca posta em causa e assim continuámos pelos anos adiante. Sem cerimónia entrava na sua casa, na Travessa das Mónicas, na Graça, o bairro lisboeta onde ambos vivíamos, sendo sempre recebido com afecto pelos seus pais: a D. Maria do Carmo e o senhor Raul Januário, guarda-fiscal, homem de respeito. Vindos da Nazaré, de onde o Raul Júnior era natural, fixaram-se no velho bairro.

Contrariados mas complacentes, os seus progenitores não viam com simpatia mas aceitavam o que, de resto, era inevitável: a recusa do filho para seguir uma carreira profissional dita normal. A sua vocação apontava decididamente para o mundo do espectáculo e, particularmente, para a arte circense. Seria, de resto, essa opção irremediável que acabaria por nos afastar. Lembro-me de, numa última tentativa para o persuadir a retroceder na decisão tomada, o ir visitar a um circo montado num terreno devoluto, à Rua Damasceno Monteiro, mas a sua decisão estava tomada e era irredutível: o circo era a sua vida, garantiu-me. Foi depois disso que o afastamento mútuo se foi ampliando, não por decisão tomada por quaisquer das partes mas devido à itinerância da sua actividade. Para trás deixou ainda uma outra vocação que só os mais próximos, como eu, tiveram oportunidade de lhe reconhecer: a música. O Raul era um músico excelente.

Reencontrei-o, muito anos depois, no restaurante Chicote, no Areeiro, onde actuava, já na pele do Professor Karma. Amigos como sempre, constatei, mas afastados pelas circunstâncias que acompanham o processo de crescimento da gente nova, independente. Infelizmente, Raul Januário Júnior, o Palhaço Raulito ou, se preferirem, Raul Karma – o mentalista, deixou este mundo em 2001. Contava 74 anos, deixando viúva a sua companheira de sempre, Cidália Moreira, a fadista cigana, restando-me a lembrança de tempos que de vez em quando ainda me trazem de volta alguns episódios inapagáveis. Como o que hoje vos trouxe e aqui deixo, num singelo acto de partilha.            

1 de julho de 2013

Outra vida… outros tempos!

Luís Farinha

   Ainda acontece nas minhas deambulações por esta Lisboa onde nasci e vivi a maior parte da aventura fascinante do dia-a-dia. Depois de tantos anos, Lisboa tornou-se um vício de que me sinto dependente… incuravelmente dependente.

   Mas ia eu a dizer que ainda me acontece, quando ando por Lisboa, ser visitado por memórias que irrompem do fundo dos tempos, e que me fazem recordar rostos, corpos, histórias, cenas e situações. Umas que se mantêm bem vivas, como se o passado se limitasse ao dia de ontem, outras que se foram esbatendo ao correr incessante duma vida muito vivida, restando delas, apenas, vagas lembranças que não resistiram ao rodar imparável do tempo.

   Ainda há dias, por exemplo, passei à porta do edifício onde comecei as andanças da rádio, corria o ano de 1961. Lá, no bairro onde nasci, na Graça, curiosamente na mesma rua onde frequentei a Instrução Primária, na velhíssima Voz do Operário.

   Tantos anos que passaram…

   Entre outras coisas, as lembranças trouxeram-me de volta a Alda Maria, minha colega na Rádio Voz de Lisboa e esposa do director da emissora; e com ela, o programa “Um Cantinho e Você”, com os pedidos dos ouvintes e o “Programa dos Doentes”, uma rubrica que procurava amenizar os que jaziam nos leitos dos “estabelecimentos hospitalares” ou “nas suas residências”, como ela dizia.

   Que longe vão esses tempos…

   Dos colegas de então, já poucos restam agora. A Alda Maria, uma bonita mulher, suicidou-se, atirando-se do alto do 3.º andar onde morava, na Av. Infante Santo, em Lisboa. O António Silva, operador de som e sonoplasta de grande talento, encontrei-o há uns anos, num fim de tarde chuvoso, a vender lotaria junto ao Marquês de Pombal. Ao Armando Baetas, locutor, perdi-lhe o rasto desde que se afastou da rádio. O Fernando Pires, outro operador de som, também já não pertence ao mundo dos vivos. Paulo de Medeiros, idem. O meu compadre José Manuel Bento, locutor, também já se foi, há largos anos, para o outro lado da vida. A sua mulher, Maria Elvira Bento, é hoje uma jornalista de que pouco ouço falar. O Artur Pereira, locutor, não sei o que foi feito dele. Lembro-me ainda das graçolas que fazia-mos com a sua arraigada claustrofobia e, em particular, de uma viagem que fizemos ao Porto, em trabalho: foi num mês de Dezembro – chuvoso p´ra caramba – e fomos e viemos com as janelas do carro escancaradas. Quando, quase gelado, eu as tentava fechar, logo o Artur entrava em pânico. Ainda sobre o seu horror aos espaços fechados, as piadas passaram a ser mais que muitas quando nos contou que as suas noites, na cama, eram alucinantes: tudo porque ele só conseguia adormecer com os pés de fora o que resultava nas lutas titânicas que mantinha com a esposa que, principalmente no Inverno, só dormia com os pés tapados. Resultado: enquanto ele puxava os lençóis para cima, ela puxava-os para baixo. Recordei ainda o L.F.A. que, como vim a descobrir casualmente, acumulava então a profissão de locutor com a de chefe de brigada da PIDE, a mal afamada instituição policial do antigo regime. Talvez porque se sentiu descoberto, afastou-se, nunca mais o vi. Outros, um pouco mais novos e que apareceram mais tarde, dando boa conta de si: o António Sala, vindo da Rádio Ribatejo; o Júlio César, que antes fazia imitações em espectáculos, aqui e ali; o João Paulo Diniz; o António Crespo – um puto que desempenhava as funções de estafeta e outros de que já não recordo os nomes.

   Lembrei-me desses e de muitos outros, quando – numa recente visita ao meu velho bairro – passei pelo edifício da RVL, na Rua da Voz de Operário, onde tudo começou…

   Vão mais de 50 anos… mas parece que foi há um ou dois meses!

   Como o tempo passa depressa; e como nos agarramos às lembranças que fizeram de nós as pessoas que hoje somos…

27 de junho de 2013

O protagonismo

Luís Farinha


O protagonismo está na moda.
  
Ser importante aos olhos dos outros é hoje a preocupação maior de qualquer indivíduo, independentemente da sua real valia ou do lugar que ocupa na esfera em que se move. Mostrar influência satisfaz mais do que sentir-se amado.
  
Este é o homem (e a mulher) actual: pimpão, intolerante, superior. É o novo homem que a sociedade inventou, os valores que hoje se consagram são a vacuidade, a presunção, o faz-de-conta. Um homem altaneiro na aparência, mas por dentro árido e seco como uma seara em Agosto.
  
A sua fome de importância chega a ser demencial. Para a satisfazer, renuncia a tudo o que até há pouco era fundamental para a afirmação fosse de quem fosse. Era assim quando a estatura do homem se avaliava pela sua verticalidade. Ser recto no julgamento, confiável no carácter e honesto em todas as situações era, noutros tempos, os atributos maiores que distinguiam os seres verdadeiramente superiores. Ter a honra de ser honrado e cultivar a dignidade em todas as circunstâncias, constituía o património maior que um homem podia legar aos seus descendentes.

Porém, essa concepção tem vindo a desvanecer-se ao correr dos tempos. Já não é um princípio assente, uma condição primordial, passou de moda…
  
Hoje avalia-se o homem (e a mulher) por aquilo que parece e não pelo que realmente é, pelo que vale. A imagem de marca é um culto que passou a fazer parte da cosmética social. Invertidos os valores em que antes a sociedade se escorava, assiste-se actualmente à promoção da aparência, à exaltação do faz-de-conta.
  
Para serem aceites pela opinião pública as figuras e os figurões contratam quem lhes cuide da aparência exterior, mesmo que depois, no dia-a-dia, as suas acções desmintam a imagem que procuram fazer passar. O estilo trauliteiro substitui a seriedade, mais difícil de sustentar (o teatro político é disso palco privilegiado). A falta de inteligência é mascarada com uma postura arrogante, mais fácil de exibir. A fidelidade à palavra dada vai deixando de ter sentido. Recordo ainda quando para honrar um compromisso bastava um aperto de mão. Hoje, nem mil assinaturas reconhecidas pelo tabelião garantem seja o que for. Aliás, é inegável que, forma geral, se vai impondo e aceitando o conceito de que tudo tem um preço, até o respeito próprio. A justiça passou a ser apenas uma força de expressão vazia de sentido. A palavra, com o uso imponderado, acabou por transformar-se numa pedra de arremesso.
  
Enfim, paulatina mas seguramente, a sociedade tal como a conheci vem caindo em desuso.
  
São os efeitos da modernidade, hoje tão glorificada, dizem. Não concordo, de todo: são, antes, sinais premonitórios de um mundo em processo de mudança. Um mundo que não será mais o que conhecemos até aos finais do século XX. Os primeiros sinais já não deixam margem para dúvidas: o mundo actual aponta, inequivocamente, para uma sociedade composta de duas classes, os que têm tudo e os que nada têm, agora e nos tempos que estão para vir. Em essência, baseia-se no princípio de que para que os primeiros vivam na abundância insaciável, têm os outros que sobreviver num estado de penúria cada vez mais profunda, mais acentuada e falha de tudo, até do essencial. Só assim – e os exemplos já são bem visíveis – o poder financeiro pode crescer sem parança. Olhando as estruturas que sustentam a sociedade actual, fácil é concluir que, forma geral, todas elas estão a ser reformadas (e já vão funcionando) ao jeito de um mundo pensado para dois grandes grupos: o que trabalha no duro, sem regras e sem proveitos, enquanto o outro, sentado, vai contando sofregamente os milhões provenientes do esforço dos que produzem em troco de quase nada.

O protagonismo está na moda. A prova de que assim é decorre do facto, hoje tornado comum, de que ser ex-ministro (ou ex-membro dum governo) é que está a dar. Os exemplos são mais que muitos e estão à vista de todos, aqui, neste nosso Portugal pequenino.