19 de junho de 2013
18 de junho de 2013
Caridade versus solidariedade
Luís Farinha
Todos os dias colhemos exemplos de que entre caridade e solidariedade há uma enorme diferença. Pena é que a maioria de nós não se aperceba das diferenças que distinguem uma da outra.
A caridade serve, sobretudo, para calar a consciência de quem dá, mas avilta quem a recebe. Pelo contrário, ser solidário é viver de braços abertos para receber os aflitos. É como estender a mão a quem dela precisa na hora da desgraça. É sofrer com a dor dos seus irmãos e alegrar-se com a sua felicidade. Solidariedade é, para quem a oferece, um sentimento que enobrece e um bálsamo, para quem a recebe.
Por isso eu digo que, parecendo uma sinonímia, há uma diferença abismal que impõe reflexão.
No decorrer da minha já longa vida, senti algumas vezes a indiferença de alguns amigos e conhecidos em certos momentos menos bons que experimentei. Porém, não esquecerei jamais os que me aquietaram nos momentos de ansiedade e rejubilaram mais adiante com a minha felicidade.
Neste nosso Portugal que se afunda no abismo da desesperança, muitos há que atingiram já o patamar mais raso. Famílias inteiras sofrem hoje na carne os efeitos da desordem que lhes caiu no colo. O desânimo está instalado e, de acordo com os especialistas, não há grandes hipóteses de os portugueses da vulgarmente designada classe média voltarem a gozar a euforia económica que marcou o quotidiano das últimas duas décadas. Foi um período nascido de uma sucessão de erros cometidos ao longo de anos por governantes mal amanhados que confundiram a árvore com a floresta. Que se deixaram turvar com as patacas aparentemente inesgotáveis vindas da Europa, levando a que, por arrasto, os cidadãos acabassem por medir o seu dia-a-dia pelo mesmo diapasão.
O país está em frangalhos graças às acções destemperadas de um grupo de novos arquitectos políticos cujas teorias económicas não ponho em causa, embora reconheça que padecem duma enfermidade grave: são falhos de dimensão humana que lhes facilite a aplicação prática da sabedoria adquirida nos compêndios universitários. Resulta daí que a notória falta de experiência profissional (que as suas falhas denunciam) somente seja ultrapassada pela arrogância do poder discricionário que ostentam com ufania.
Voltemos porém ao parágrafo inicial…
Face à derrocada estrondosa da economia em Portugal e à incapacidade demonstrada pelos actuais governantes no sentido de encontrarem formas menos contundentes de a enfrentar, eis que – para surpresa dos mais cépticos – têm-se multiplicado os actos e acções de solidariedade em benefício dos que vêm sendo mais atingidos pelo desabamento. Homens e mulheres, jovens e idosos cônscios do seu lugar no mundo têm surpreendido tudo e todos com a sua abnegação. Acorrem com a sua ajuda – agrupados ou individualmente – minimizando com o seu humanismo os efeitos da sangria obstinada levada a cabo sobre os que menos têm.
Nestas horas de profunda adversidade tem havido inúmeros gestos de solidariedade, sendo inumeráveis os que têm sentido o apelo voluntário de dividir o pouco de que dispõem com aqueles que já nada possuem. São actos abnegados de amplo significado, credores por isso do mais profundo respeito. Marca indelével da chama que habita o coração dos portugueses não será vã esta demonstração de filantropia, estou certo. Em meio à tragédia que nos assola, tenho visto exemplos sem conta de caridade e de solidariedade. Sendo que a primeira provém normalmente de instituições que encaram o auxílio dispensado como o exercício espectável da sua natureza, a segunda destaca-se porque emana de pessoas singulares ou agrupadas para o efeito, gente que nada ou pouco tendo de seu não nega mesmo assim a sua solidariedade aos que têm ainda menos e que sofrem muito mais.
É uma lição com que a vida, por desgraça nossa, nos tem vindo a confrontar ultimamente.
15 de junho de 2013
A selva à minha porta…
Luís Farinha
Os últimos tempos têm vindo a ser marcados por uma sucessão de acontecimentos, quaisquer deles capaz de adulterar a tranquilidade e a paz de espírito que o cidadão comum precisa para ir empurrando a vida para a frente.
Aliás, chega a ser difícil perceber onde vamos nós buscar reservas de energia depois de diariamente sermos submetidos à avalanche de notícias trazidas pela comunicação social. Notícias a que, obviamente, ainda temos de ir acrescentando os altos e baixos da nossa própria vida pessoal.
A verdade é que nós, os humanos, temos muito mais resistência anímica do que é suposto, à primeira vista. Queixamo-nos, lamentamo-nos, mas (sabe Deus como...) lá vamos andando em frente, através do mar revolto da vida. À espera não sei do quê.
É certo que, às vezes, alguns de nós, lá nos deixamos envolver mais do que a conta nos problemas que nos rodeiam e então perdemos de todo o controlo de nós mesmos. Mas, forma geral, passada a onda alterosa que nos submergiu durante algum tempo, aí estamos de novo, prontos a enfrentar os problemas que, afinal, já fazem parte deste mundo louco em que nos foi dado viver. Que mais nos resta, afinal?
Misturados com os próprios problemas pessoais, os últimos tempos têm-nos trazido, por acréscimo, uma série de conceitos que chegam e sobram para ensombrar os amanhãs que estão para vir. Um grupo de políticos de recente geração, impantes de soberana sabença, tem-nos vindo a impor um estilo de vida baseado na teoria de que os pobres têm de ficar cada vez mais pobres para que os ricos sejam cada vez mais ricos. A urgência da implantação de tal filosofia tem marcado o quotidiano dos portugueses a um ponto que toca já a raia da loucura. Sinal insofismável desse tresvario é a sucessão de notícias que diariamente dão conta da imparável precipitação de ocorrências alucinadas que vão por aí. Suicídios, homicídios aloucados, assaltos violentos visando os mais idosos, conflitos de vária ordem, crianças maltratadas, vulgarização dos crimes de colarinho branco e outras, muitas outras ocorrências inexplicáveis que apontam o dedo acusador à transformação brutal que vai sendo imposta aos cidadãos.
O desemprego imparável, as promessas de tempos piores que estão para vir, a arrogância dos poderosos, a ausência de perspectivas, a fome, o caminho para o vazio, o desaparecimento das pequenas coisas que permitem cumprir o sonho. Sim, o sonho, porque sonhar é o que resta aos que pouco mais têm.
Por falar em sonhos, fosse lá pelo que fosse, talvez porque a vida real se me vá tornando um fardo difícil de levar, a noite passada tive um sonho bonito que, durante o tempo que durou, me restituiu a paz de espírito. Foi um sonho tão bonito que, quando despertei, grande foi a minha frustração ao verificar que tudo não passara afinal da utopia trazida pelos anseios que se agitam nos recônditos do meu subconsciente.
Sonhei que vivia num mundo onde não havia guerras. Num mundo em que não existiam crianças com fome e crescidas no medo, submetidas à bestialidade. Sonhei que todos os homens eram iguais e que deixara de haver a impudicícia a separá-los. Sonhei, imaginem, que a palavra ‘poder’ fora erradicada e que, em seu lugar, os governos eram agora constituídos por homens sábios, de boa fé, de carácter.
Acordei a sorrir, transbordante de felicidade!
Aos poucos, porém, enquanto ia tomando consciência de que tudo fora um sonho e de que o mundo real continuava a ser aquele em que eu sempre vivera, senti a decepção submergir-me, senti a raiva crescer e a náusea a aumentar.
Quis correr de volta ao meu sonho bonito, mas não encontrei o caminho para lá chegar.
Então, relutante, levantei-me, vesti-me e regressei à selva que me esperava lá fora.
14 de junho de 2013
Um caso do acaso…
Luís Farinha
Vão 35... 40 anos?
Por aí...
Dessa época recordo o período confuso do 25 de Abril, que aconteceu um par de anos depois de a ter conhecido...
Como e em que circunstâncias a vi pela primeira vez?
Bom... um amigo perguntou-me se eu seria capaz de arranjar emprego – ‘um emprego mesmo modesto’ - para uma jovem amiga sua.
Quis o acaso (o acaso tem destas coisas...) que a oportunidade surgisse três ou quatro dias depois. Um emprego numa sapataria, no Chiado, em Lisboa.
Por indicação minha a jovem foi lá... e conseguiu o lugar.
"Uma boa empregada!" - dizia meses depois o meu amigo Felício, o seu novo patrão.
Curiosamente, perdi-a de vista depois desse episódio fugaz... Pelo menos estive sem a ver durante mais de um ano.
Um dia, tomava eu café, com um colega, no Foia, no Campo de Santana, em Lisboa, quando a jovem da mesa ao lado me cumprimentou com um aceno da cabeça...
Correspondi, sem a reconhecer.
Vendo a minha hesitação, lembrou-me então quem era: “eu sou…”
E fez-se luz!
Só que não percebi como é que uma empregada de balcão, estava alí, às quatro da tarde, sentada, calmamente, a tomar café! E foi essa a questão que lhe pus, prevendo já ouvir o relato dum eventual desentendimento laboral.
Tinha deixado o emprego que eu lhe conseguira, explicou-me, para se dedicar a tempo inteiro à realização dum sonho: tirar o curso de enfermeira. A escola funcionava a dois passos, na Artur Ravara, localizada no Hospital dos Capuchos. Aproveitara um intervalo para vir ali tomar café…
Em tom casual contou-me que vivia um período algo difícil. Tinha esgotado as reservas amealhadas que lhe permitiam manter-se a estudar, sem trabalhar. Segundo confessou, todo o dinheiro que havia conseguido guardar tinha chegado ao fim. Por isso, adiantou com evidente desgosto, tinha de pôr de lado o velho sonho e voltar a empregar-se.
Por natureza impulsivo, só voltei a mim depois de me ter oferecido para a ajudar. Porém, ciente das armadilhas que a bondade esconde, desde logo achei por bem não deixar pairar a dúvida. E fi-lo – reconheci depois – de forma um tanto brusca: “Mas faço questão de frisar que não pretendo nada em troca”, adverti-a. “Você é uma jovem simpática mas confesso-lhe que, além do mais, não faz o meu género. É em nome da amizade que tenho ao Henrique (o nosso amigo comum) que a vou ajudar mais esta vez”. E rematei: “Faça de conta que encontrou uma velha tia que se dispôs a valer-lhe”.
... e ajudei-a até ao final do curso, três ou quatro meses depois. Tarefa que aliás terminou da melhor maneira com o desejado diploma de enfermeira.
E foi assim que a história começou. Tantos anos passados posso garantir, hoje, que aquele meu gesto espontâneo não servira para acobertar outra intenção que não aquela que referi: quis ajudar alguém em manifesta dificuldade, a amiga dum amigo que eu estimava e de quem já não sei há largos anos. Mais do que as palavras que dela ouvia foi o seu olhar contristado que fez disparar o pouco que de bom terei dentro de mim. Como noutros momentos do meu percurso de vida, só depois me deu para reflectir acerca do episódio que acabara de viver. Só então me dei conta de que por mais que eu insistisse ou jurasse ninguém iria acreditar, daí em diante, na lisura da minha oferta àquela rapariga. Quem me conheça de longa data sabe bem que, em questões de sexo, com ou sem paixão, nunca recorri à compra de amor. Excepção óbvia no breve período da adolescência quando a natureza me começou a impor a satisfação das sensações que o corpo me exigia. Era um tempo em que os namoros se ficavam por um beijo furtivo ou uma carícia fugaz. Sem espaço, na maioria das vezes, para ir mais além.
A sua primeira colocação, na nova profissão, ocorreu logo depois de terminar o curso. E a amizade entretanto estabelecida foi-se reduzindo a um ou outro breve encontro para – segundo dizia – dar-me notícia da sua evolução na carreira que eu a ajudara a construir. Entretanto, um acaso fortuito fez o que eu jamais previra. A amizade redundou em algo mais, numa situação que eu estava bem longe de prever e sobretudo de querer. Durou enquanto durou até que um dia cada um de nós partiu ao encontro de outros destinos, seguindo rumos diferentes.
Foi um dos casos do acaso que a vida reserva a cada um de nós…
Alguns anos depois, vi-a na televisão, num programa de que não recordo o nome. A minha protegida dera uma nova volta à sua vida, pondo de lado a profissão de enfermeira – a velha aspiração que eu ajudei a concretizar. Transformara-se numa empresária ligada à moda.
E o seu nome continua a brilhar no néon duma conhecida boutique da cidade de Lisboa.
Casou, venceu... criando renome nessa actividade.
Nunca mais a vi…
4 de junho de 2013
Feia, suja e má
Luís Farinha
Para quê vir aqui armar ao pingarelho, fingindo o que não sou, tentando passar a ideia de que, sem a minha intervenção, o mundo acabará por soçobrar? De que me serviria dar-me ares de que, comigo, outros aprenderiam a conhecer aquilo que só eu fui (ou sou) capaz de decifrar? Que faço parte dos que ficarão na história por terem trazido ao mundo pilhas de sabedoria? Que interesse poderia ter o meu percurso de vida, para vir aqui brandir com petulância as experiências que acumulei, como se fossem singulares os amores que vivi, as pessoas que conheci, as proezas que realizei? A verdade é que nos meus muitos anos de vida nunca fui herói em actos relevantes, nunca encontrei motivos para me enfatuar. Limitei-me a ser um sujeito naturalmente pertinaz nos anseios e realizações que levei a cabo, sendo certo, no entanto, que feito o balanço, à distância de tantos anos decorridos só encontro agora mais motivos de contrição do que de ufania.
Pela ordem natural estarei na recta final duma vida que vai longa. Restam-me as lembranças guardadas nos recônditos da memória e uma constante reflexão sobre as pessoas e coisas que hoje fazem parte da minha história deixada para trás. Revivo muitos episódios que me foram gratos e outros que de bom grado melhor seria não terem acontecido. Revejo locais, rostos e figuras que pontuaram momentos imorredoiros do meu percurso de vida. E alguns, outros, que olhados à distância do tempo melhor seria não ter conhecido. Ouço ainda o eco de muitas palavras ditas e outras que me arrependo de ter calado. Vivi paixões correspondidas, mas tenho pena, hoje, de não poder recuar no tempo para pedir perdão de, em algumas delas, ter deixado crescer expectativas que não fui capaz de levar a bom termo.
A vida ensinou-me muitas coisas importantes. Dela, estou certo, aprendi lições que contribuíram para a formação do ser humano que hoje sou. Só lamento, porém, que na recta final que agora vivo para nada sirva tanta experiência acumulada. Na corrida a caminho de um futuro que idealizei promitente esqueci-me de cultivar influências que aplanassem a longa estrada que tinha pela frente. Tarde, só agora me apercebo que devia ter parado para pensar, mas andava demasiado ocupado a trabalhar no duro, sem tempo para chamar a mim algumas das coisas boas que a sociedade mantinha em recato, guardadas para uns quantos escolhidos. Hoje, olho em redor quedando-me pasmado com as enormidades a que me é dado assistir, não reconhecendo o mundo em que me foi dado viver, o país de que sempre me orgulhei, a cidade onde nasci e vivi todas as fases desta minha vida cansada e as pessoas com quem me cruzava nos tempos em que ainda acreditava que a pulhice não passava de uma alusão retórica. Para meu desespero só tardiamente me apercebi de que por esta sociedade de faz de conta em que vivemos se pavoneia uma infinidade de celerados perversos disfarçados de “gente boa”. Eles andam por aí, dissimulados, espreitando oportunidades para lançar as unhas aduncas sobre os indefesos cidadãos. Nos negócios, nos corredores da política, no Estado e fora dele, nas ruas e às portas das nossas casas. É um mundo novo criado por legiões de homens sem honra, sem brio, vazios de dignidade. E é esse mundo que eu – com imensa pena – vou legar ao meu filho. Que ele um dia me consiga perdoar a leviandade de o ter chamado a esta vida que não pediu, feia, suja e má.
5 de maio de 2013
Portugal sem futuro
Luís Farinha
Mil novecentos e vinte e nove foi marcado por dois acontecimentos dignos de nota: foi o ano em que lancei ao mundo o meu primeiro vagido e também aquele em que se registou uma recessão económica que, pelas piores razões, ficou inscrita na história de forma inapagável. Se o primeiro evento passou despercebido às gentes mais distraídas, o segundo ainda hoje é apontado como exemplo daquilo que mais assusta os cidadãos do mundo: a duvidosa capacidade dos que chamam a si a tarefa de amanhar a vida dos outros.
Foi nesse ano longínquo do século XX que o mundo foi abalado por uma profunda crise cujas consequências, de tão graves, causaram o descalabro económico do mundo. Estranhamente, porém, 84 anos depois, quando até os mais propensos ao cepticismo começavam a acreditar que a história não se repetiria, eis que o voltamos a experimentar novo solavanco, este bem mais terrível do que o que ocorreu no ano em que eu fui chamado a fazer parte desta vida em permanente desvario. Pior do que isso, desta vez Portugal parece estar no centro do sismo, integrado num pequeno grupo de nações europeias que estão a ser conduzidas à mais profunda miséria económica e social. Contudo, olhando com atenção fácil é concluir que o que está acontecendo nada tem a ver com mais uma crise circunstancial que, corrigida, logo nos reconduziria à vidinha relativamente aceitável a que nos habituámos nos últimos anos. Se a derrocada económica de 1929 conseguiu ser debelada nos finais da 2ª Grande Guerra Mundial, década e meia depois de ter irrompido, hoje assiste-se ao desmoronamento do estilo de vida que veio depois e que parecia ter sido ganho para sempre. Afinal, é bem claro agora, os homens sábios, os crânios políticos que tantas loas cantam acabaram por nos mostrar que não passam de meros vendedores de promessas, de ilusionistas hábeis na arte da dissimulação, gente para quem, no fim das contas, a única coisa a preservar é a sua própria vidinha, o seu bem-estar económico nunca suficientemente satisfeito ao mesmo tempo que dão lustro à sua imagem de importância. Só que ainda não repararam que estão a deixar bem à mostra a sua falta de vergonha.
Para cúmulo, estes homens empoleirados no privilégio do mando sobre os seus semelhantes não foram capazes – ou não conseguiram – reter as advertências sérias que o mundo lhes tem vindo a propiciar. São cábulas e irresponsáveis. Vaidosos do seu estatuto social e míopes a todo o resto. Sem rebuço, permitem-se até o desplante de ostentar sobranceira indiferença pelos danos que, por insuficiente capacidade, por ineficácia da sua acção ou por outros interesses inconfessáveis, causam aos que neles confiaram as suas vidas, o seu futuro.
É este o Portugal de hoje, numa Europa toda ela ameaçando soçobrar ao peso da ignomínia dos novos ‘donos do mundo’ obstinadamente empenhados na construção de uma sociedade alicerçada na supremacia do poder financeiro absoluto, sem espaço para a prática de uma democracia plural onde todos poderiam usar o direito de viver com dignidade, independentemente do seu estrato social.
A verdade é que Portugal, a Europa e o Mundo estão em processo de transformação social, levada a cabo pela implantação duma plutocracia desenfreada. O projecto para implementar a servidão dos mais fracos nunca foi tão notório. Está bem à vista de quem olhar para o caso português. Haja em conta o plano posto em prática pelo executivo governativo de última geração para proceder aos cortes continuados de apoios sociais ao cidadão comum. Ao cerceamento dos já parcos salários dos trabalhadores. À implantação de novas tributações ou ao agravamento das já existentes – manobras fiscais de lógica diabólica de que o famigerado TSU se tornou exemplo espantoso. E como se não bastasse o exorbitante desaforo dessas medidas – por si só claramente alucinadas – atente-se com atenção na forma desumanamente arrogante como as mesmas vão anunciadas ao povo da nação quando os principais figurões da governança – anafados da importância e da impunidade plena que julgam ser-lhes devida – usam palavras e ares a deixarem entender que os culpados da miséria que assola o país são os portugueses que se debatem na penúria, sendo o continuado agravamento das medidas aplicadas o merecido castigo. Chega a ser obscena a severidade que esses senhores exibem quando, depois de anunciadas as últimas ‘punições’ prometem para breve outras ainda mais severas.
Notória é a cega determinação dos homens no exercício do poder em Portugal quando decidem implantar uma nova tributação aos já exauridos pagadores dos milhões abusivamente desviados para obras não prioritárias ou de todo descabidas, ou para um maior conforto dos bolsos insaciáveis dos já habituais beneficiários da riqueza nacional. Não se poupam a esforços para fazer crer que só com austeridade será possível ultrapassar os problemas que, segundo eles, os portugueses causaram. Notável é também o esforço de tais tribunos no sentido de que a essa austeridade deve ser poupada a classe dos endinheirados, gente que não andou a acumular riqueza para a mesma ser depois utilizada em benefício da súcia de pobretanas que não têm direito a nada. Só assim pode ser entendida, de resto, a violência dessas medidas e a severidade com que são anunciadas. Na verdade, sendo a riqueza da Nação produzida e pertença de todos os portugueses, torna-se evidente que para alguns poderem ficar cada vez mais ricos, muitos outros têm de ficar cada vez mais pobres. Chama-se a isto a negação da equidade – um termo inadequadamente usado e abusado pelos cérebros tortuosos dos novos donos do poder. Vem a propósito lembrar o caso daquele senhor a quem foi atribuída a reforma de 170 mil euros mensais (fora ao resto) sem esquecer que se trata de um português que exerceu a sua actividade num estabelecimento bancário, em Portugal, em concorrência com outros do mesmo ramo. Por mais que se tente tornear a evidência com argumentos que a justiça sanciona, na sua essência trata-se de um caso claro de fuga à lógica e à razão mais lineares.
Agora, novas medidas de austeridade foram decididas pela dupla Coelho/Gaspar. Como sempre, os alvos são os trabalhadores (da Função Pública) e os pensionistas e reformados. Daí, concluir-se que temos mais do mesmo. O projecto social está, irrevogavelmente, apostado no aniquilamento da classe média (que de média já nada tem), na lógica dum Portugal sem futuro.
13 de março de 2013
A “crise” que mete medo!
Luís Farinha
Se a crise for entendida como uma situação de penúria transitória, ocorrida num dado período devido a circunstâncias anómalas, teremos de reconhecer que Portugal é, efectivamente, um país eternamente adiado. Por cá a crise não é coisa circunstancial, é um problema crónico, já vem de longe; de tão longe que um cidadão que hoje conte 80 anos, pertencente à classe média baixa, o chamado filho do povo, jamais deixou de viver encalacrado. No antigo regime essas dificuldades eram-lhe impostas pelo sistema político instituído por Salazar, ele próprio o arquétipo do português não apegado aos bens terrenos, preferindo aferrolhar o ouro a bom recato. Depois, quase quarenta anos após o 25 de Abril, a grande maioria dos portugueses continuam a viver à rasca, não só devido à manifesta incompetência dos governantes que desde então têm vindo a ocupar as cadeiras do Poder como pela protecção por eles dispensada às artimanhas económicas e financeiras dos atafulhadores da riqueza que é de todos. A expressão “apertar o cinto” foi institucionalizada sendo agora a marca que distingue o cidadão luso dos seus “primos” europeus.
O cenário em que o País vive na actualidade é realmente assustador. A tal ponto que até os próprios governantes já se não atrevem a prometer melhores condições de vida nos anos que aí vêm. Daí a opinião de que a situação presente não deve ser olhada como se de mais uma crise se trate porque, como parece evidente, estamos a assistir à plena transformação da sociedade que nos foi mostrada durante breves décadas e da qual – por confusão – todos usufruímos na medida em que governantes mal preparados não tiveram a argúcia de controlar atempadamente um terreno em desvario onde a acção nefasta das feras sequiosas instalaram o desnorteio.
Em resultado dessa imprevidência desenha-se agora no horizonte o regresso aos tempos dos sonhos que não passam disso mesmo. Dos anseios não satisfeitos. Da esperança oca, nunca saciada. É já por demais evidente o regresso à penúria, ao desespero da espessa maioria dos portugueses enquanto uma pequena minoria se lambuza despudoradamente com a riqueza por todos produzida.
É talvez a oportunidade para os portugueses se convencerem de que não podem tentar imitar os cidadãos dos chamados países ricos da Europa querendo, como eles, viver com alguma largueza. Prova disso é a situação de endividamento familiar, verdadeiramente catastrófico, provocado pelo excessivo optimismo manifestado pelo poder político nos seus discursos de faz-de-conta ao longo das últimas décadas, enquanto Portugal soçobrava a olhos vistos. Face ao clima delirante assim introduzido, o portuga imprudente não foi capaz de resistir ao cerrado assalto das instituições financeiras que, com o beneplácito das entidades governamentais, trouxeram o canto da sereia, o compre-agora-e-pague-depois, despertando nas gentes o natural desejo de possuir, impulso geralmente embrionário em todas as camadas sociais. Os avisos de contenção lançados pelos que conseguiam não perder o sentido da realidade sendo, por isso, capazes de discernir as consequências do abismo que se estava a cavar, não surtiram qualquer efeito. Adquirir passou a ser o passatempo preferido dos portugueses que, com o cartãozinho de plástico substituindo o dinheiro vivo, se esqueceram de fazer contas. O resultado desse destempero está á vista e, como noutros casos, provavelmente a culpa vai morrer solteira.
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