14 de junho de 2013

Um caso do acaso…

Luís Farinha


   Vão 35... 40 anos?
   Por aí...
   Dessa época recordo o período confuso do 25 de Abril, que aconteceu um par de anos depois de a ter conhecido...
   Como e em que circunstâncias a vi pela primeira vez?
   Bom... um amigo perguntou-me se eu seria capaz de arranjar emprego – ‘um emprego mesmo modesto’ - para uma jovem amiga sua.
   Quis o acaso (o acaso tem destas coisas...) que a oportunidade surgisse três ou quatro dias depois. Um emprego numa sapataria, no Chiado, em Lisboa.
   Por indicação minha a jovem foi lá... e conseguiu o lugar.
   "Uma boa empregada!" -  dizia meses depois o meu amigo Felício, o seu novo patrão.
    Curiosamente, perdi-a de vista depois desse episódio fugaz... Pelo menos estive sem a ver durante mais de um ano.
  
   Um dia, tomava eu café, com um colega, no Foia, no Campo de Santana, em Lisboa, quando a jovem da mesa ao lado me cumprimentou com um aceno da cabeça...
   Correspondi, sem a reconhecer.
   Vendo a minha hesitação, lembrou-me então quem era: “eu sou…”
   E fez-se luz!
   Só que não percebi como é que uma empregada de balcão, estava alí, às quatro da tarde, sentada, calmamente, a tomar café! E foi essa a questão que lhe pus, prevendo já ouvir o relato dum eventual desentendimento laboral.
   Tinha deixado o emprego que eu lhe conseguira, explicou-me, para se dedicar a tempo inteiro à realização dum sonho: tirar o curso de enfermeira. A escola funcionava a dois passos, na Artur Ravara, localizada no Hospital dos Capuchos. Aproveitara um intervalo para vir ali tomar café…
   Em tom casual contou-me que vivia um período algo difícil. Tinha esgotado as reservas amealhadas que lhe permitiam manter-se a estudar, sem trabalhar. Segundo confessou, todo o dinheiro que havia conseguido guardar tinha chegado ao fim. Por isso, adiantou com evidente desgosto, tinha de pôr de lado o velho sonho e voltar a empregar-se.

   Por natureza impulsivo, só voltei a mim depois de me ter oferecido para a ajudar. Porém, ciente das armadilhas que a bondade esconde, desde logo achei por bem não deixar pairar a dúvida. E fi-lo – reconheci depois – de forma um tanto brusca: “Mas faço questão de frisar que não pretendo nada em troca”, adverti-a. “Você é uma jovem simpática mas confesso-lhe que, além do mais, não faz o meu género. É em nome da amizade que tenho ao Henrique (o nosso amigo comum) que a vou ajudar mais esta vez”. E rematei: “Faça de conta que encontrou uma velha tia que se dispôs a valer-lhe”.

   ... e ajudei-a até ao final do curso, três ou quatro meses depois. Tarefa que aliás terminou da melhor maneira com o desejado diploma de enfermeira.
  
   E foi assim que a história começou. Tantos anos passados posso garantir, hoje, que aquele meu gesto espontâneo não servira para acobertar outra intenção que não aquela que referi: quis ajudar alguém em manifesta dificuldade, a amiga dum amigo que eu estimava e de quem já não sei há largos anos. Mais do que as palavras que dela ouvia foi o seu olhar contristado que fez disparar o pouco que de bom terei dentro de mim. Como noutros momentos do meu percurso de vida, só depois me deu para reflectir acerca do episódio que acabara de viver. Só então me dei conta de que por mais que eu insistisse ou jurasse ninguém iria acreditar, daí em diante, na lisura da minha oferta àquela rapariga. Quem me conheça de longa data sabe bem que, em questões de sexo, com ou sem paixão, nunca recorri à compra de amor. Excepção óbvia no breve período da adolescência quando a natureza me começou a impor a satisfação das sensações que o corpo me exigia. Era um tempo em que os namoros se ficavam por um beijo furtivo ou uma carícia fugaz. Sem espaço, na maioria das vezes, para ir mais além.

   A sua primeira colocação, na nova profissão, ocorreu logo depois de terminar o curso. E a amizade entretanto estabelecida foi-se reduzindo a um ou outro breve encontro para – segundo dizia – dar-me notícia da sua evolução na carreira que eu a ajudara a construir. Entretanto, um acaso fortuito fez o que eu jamais previra. A amizade redundou em algo mais, numa situação que eu estava bem longe de prever e sobretudo de querer. Durou enquanto durou até que um dia cada um de nós partiu ao encontro de outros destinos, seguindo rumos diferentes.

   Foi um dos casos do acaso que a vida reserva a cada um de nós…

   Alguns anos depois, vi-a na televisão, num programa de que não recordo o nome. A minha protegida dera uma nova volta à sua vida, pondo de lado a profissão de enfermeira – a velha aspiração que eu ajudei a concretizar. Transformara-se numa empresária ligada à moda.
  
   E o seu nome continua a brilhar no néon duma conhecida boutique da cidade de Lisboa.

   Casou, venceu... criando renome nessa actividade.

   Nunca mais a vi…

4 de junho de 2013

Feia, suja e má

Luís Farinha


Para quê vir aqui armar ao pingarelho, fingindo o que não sou, tentando passar a ideia de que, sem a minha intervenção, o mundo acabará por soçobrar? De que me serviria dar-me ares de que, comigo, outros aprenderiam a conhecer aquilo que só eu fui (ou sou) capaz de decifrar? Que faço parte dos que ficarão na história por terem trazido ao mundo pilhas de sabedoria? Que interesse poderia ter o meu percurso de vida, para vir aqui brandir com petulância as experiências que acumulei, como se fossem singulares os amores que vivi, as pessoas que conheci, as proezas que realizei? A verdade é que nos meus muitos anos de vida nunca fui herói em actos relevantes, nunca encontrei motivos para me enfatuar. Limitei-me a ser um sujeito naturalmente pertinaz nos anseios e realizações que levei a cabo, sendo certo, no entanto, que feito o balanço, à distância de tantos anos decorridos só encontro agora mais motivos de contrição do que de ufania.

Pela ordem natural estarei na recta final duma vida que vai longa. Restam-me as lembranças guardadas nos recônditos da memória e uma constante reflexão sobre as pessoas e coisas que hoje fazem parte da minha história deixada para trás. Revivo muitos episódios que me foram gratos e outros que de bom grado melhor seria não terem acontecido. Revejo locais, rostos e figuras que pontuaram momentos imorredoiros do meu percurso de vida. E alguns, outros, que olhados à distância do tempo melhor seria não ter conhecido. Ouço ainda o eco de muitas palavras ditas e outras que me arrependo de ter calado. Vivi paixões correspondidas, mas tenho pena, hoje, de não poder recuar no tempo para pedir perdão de, em algumas delas, ter deixado crescer expectativas que não fui capaz de levar a bom termo. 

A vida ensinou-me muitas coisas importantes. Dela, estou certo, aprendi lições que contribuíram para a formação do ser humano que hoje sou. Só lamento, porém, que na recta final que agora vivo para nada sirva tanta experiência acumulada. Na corrida a caminho de um futuro que idealizei promitente esqueci-me de cultivar influências que aplanassem a longa estrada que tinha pela frente. Tarde, só agora me apercebo que devia ter parado para pensar, mas andava demasiado ocupado a trabalhar no duro, sem tempo para chamar a mim algumas das coisas boas que a sociedade mantinha em recato, guardadas para uns quantos escolhidos. Hoje, olho em redor quedando-me pasmado com as enormidades a que me é dado assistir, não reconhecendo o mundo em que me foi dado viver, o país de que sempre me orgulhei, a cidade onde nasci e vivi todas as fases desta minha vida cansada e as pessoas com quem me cruzava nos tempos em que ainda acreditava que a pulhice não passava de uma alusão retórica. Para meu desespero só tardiamente me apercebi de que por esta sociedade de faz de conta em que vivemos se pavoneia uma infinidade de celerados perversos disfarçados de “gente boa”. Eles andam por aí, dissimulados, espreitando oportunidades para lançar as unhas aduncas sobre os indefesos cidadãos. Nos negócios, nos corredores da política, no Estado e fora dele, nas ruas e às portas das nossas casas. É um mundo novo criado por legiões de homens sem honra, sem brio, vazios de dignidade. E é esse mundo que eu – com imensa pena – vou legar ao meu filho. Que ele um dia me consiga perdoar a leviandade de o ter chamado a esta vida que não pediu, feia, suja e má.

5 de maio de 2013

Portugal sem futuro

Luís Farinha


Mil novecentos e vinte e nove foi marcado por dois acontecimentos dignos de nota: foi o ano em que lancei ao mundo o meu primeiro vagido e também aquele em que se registou uma recessão económica que, pelas piores razões, ficou inscrita na história de forma inapagável. Se o primeiro evento passou despercebido às gentes mais distraídas, o segundo ainda hoje é apontado como exemplo daquilo que mais assusta os cidadãos do mundo: a duvidosa capacidade dos que chamam a si a tarefa de amanhar a vida dos outros.

Foi nesse ano longínquo do século XX que o mundo foi abalado por uma profunda crise cujas consequências, de tão graves, causaram o descalabro económico do mundo. Estranhamente, porém, 84 anos depois, quando até os mais propensos ao cepticismo começavam a acreditar que a história não se repetiria, eis que o voltamos a experimentar novo solavanco, este bem mais terrível do que o que ocorreu no ano em que eu fui chamado a fazer parte desta vida em permanente desvario. Pior do que isso, desta vez Portugal parece estar no centro do sismo, integrado num pequeno grupo de nações europeias que estão a ser conduzidas à mais profunda miséria económica e social. Contudo, olhando com atenção fácil é concluir que o que está acontecendo nada tem a ver com mais uma crise circunstancial que, corrigida, logo nos reconduziria à vidinha relativamente aceitável a que nos habituámos nos últimos anos. Se a derrocada económica de 1929 conseguiu ser debelada nos finais da 2ª Grande Guerra Mundial, década e meia depois de ter irrompido, hoje assiste-se ao desmoronamento do estilo de vida que veio depois e que parecia ter sido ganho para sempre. Afinal, é bem claro agora, os homens sábios, os crânios políticos que tantas loas cantam acabaram por nos mostrar que não passam de meros vendedores de promessas, de ilusionistas hábeis na arte da dissimulação, gente para quem, no fim das contas, a única coisa a preservar é a sua própria vidinha, o seu bem-estar económico nunca suficientemente satisfeito ao mesmo tempo que dão lustro à sua imagem de importância. Só que ainda não repararam que estão a deixar bem à mostra a sua falta de vergonha.

Para cúmulo, estes homens empoleirados no privilégio do mando sobre os seus semelhantes não foram capazes – ou não conseguiram – reter as advertências sérias que o mundo lhes tem vindo a propiciar. São cábulas e irresponsáveis. Vaidosos do seu estatuto social e míopes a todo o resto. Sem rebuço, permitem-se até o desplante de ostentar sobranceira indiferença pelos danos que, por insuficiente capacidade, por ineficácia da sua acção ou por outros interesses inconfessáveis, causam aos que neles confiaram as suas vidas, o seu futuro.

É este o Portugal de hoje, numa Europa toda ela ameaçando soçobrar ao peso da ignomínia dos novos ‘donos do mundo’ obstinadamente empenhados na construção de uma sociedade alicerçada na supremacia do poder financeiro absoluto, sem espaço para a prática de uma democracia plural onde todos poderiam usar o direito de viver com dignidade, independentemente do seu estrato social.

A verdade é que Portugal, a Europa e o Mundo estão em processo de transformação social, levada a cabo pela implantação duma plutocracia desenfreada. O projecto para implementar a servidão dos mais fracos nunca foi tão notório. Está bem à vista de quem olhar para o caso português. Haja em conta o plano posto em prática pelo executivo governativo de última geração para proceder aos cortes continuados de apoios sociais ao cidadão comum. Ao cerceamento dos já parcos salários dos trabalhadores. À implantação de novas tributações ou ao agravamento das já existentes – manobras fiscais de lógica diabólica de que o famigerado TSU se tornou exemplo espantoso. E como se não bastasse o exorbitante desaforo dessas medidas – por si só claramente alucinadas – atente-se com atenção na forma desumanamente arrogante como as mesmas vão anunciadas ao povo da nação quando os principais figurões da governança – anafados da importância e da impunidade plena que julgam ser-lhes devida – usam palavras e ares a deixarem entender que os culpados da miséria que assola o país são os portugueses que se debatem na penúria, sendo o continuado agravamento das medidas aplicadas o merecido castigo. Chega a ser obscena a severidade que esses senhores exibem quando, depois de anunciadas as últimas ‘punições’ prometem para breve outras ainda mais severas.

Notória é a cega determinação dos homens no exercício do poder em Portugal quando decidem implantar uma nova tributação aos já exauridos pagadores dos milhões abusivamente desviados para obras não prioritárias ou de todo descabidas, ou para um maior conforto dos bolsos insaciáveis dos já habituais beneficiários da riqueza nacional. Não se poupam a esforços para fazer crer que só com austeridade será possível ultrapassar os problemas que, segundo eles, os portugueses causaram. Notável é também o esforço de tais tribunos no sentido de que a essa austeridade deve ser poupada a classe dos endinheirados, gente que não andou a acumular riqueza para a mesma ser depois utilizada em benefício da súcia de pobretanas que não têm direito a nada. Só assim pode ser entendida, de resto, a violência dessas medidas e a severidade com que são anunciadas. Na verdade, sendo a riqueza da Nação produzida e pertença de todos os portugueses, torna-se evidente que para alguns poderem ficar cada vez mais ricos, muitos outros têm de ficar cada vez mais pobres. Chama-se a isto a negação da equidade – um termo inadequadamente usado e abusado pelos cérebros tortuosos dos novos donos do poder. Vem a propósito lembrar o caso daquele senhor a quem foi atribuída a reforma de 170 mil euros mensais (fora ao resto) sem esquecer que se trata de um português que exerceu a sua actividade num estabelecimento bancário, em Portugal, em concorrência com outros do mesmo ramo. Por mais que se tente tornear a evidência com argumentos que a justiça sanciona, na sua essência trata-se de um caso claro de fuga à lógica e à razão mais lineares.   

Agora, novas medidas de austeridade foram decididas pela dupla Coelho/Gaspar. Como sempre, os alvos são os trabalhadores (da Função Pública) e os pensionistas e reformados. Daí, concluir-se que temos mais do mesmo. O projecto social está, irrevogavelmente, apostado no aniquilamento da classe média (que de média já nada tem), na lógica dum Portugal sem futuro.          

13 de março de 2013

A “crise” que mete medo!

Luís Farinha


Se a crise for entendida como uma situação de penúria transitória, ocorrida num dado período devido a circunstâncias anómalas, teremos de reconhecer que Portugal é, efectivamente, um país eternamente adiado. Por cá a crise não é coisa circunstancial, é um problema crónico, já vem de longe; de tão longe que um cidadão que hoje conte 80 anos, pertencente à classe média baixa, o chamado filho do povo, jamais deixou de viver encalacrado. No antigo regime essas dificuldades eram-lhe impostas pelo sistema político instituído por Salazar, ele próprio o arquétipo do português não apegado aos bens terrenos, preferindo aferrolhar o ouro a bom recato. Depois, quase quarenta anos após o 25 de Abril, a grande maioria dos portugueses continuam a viver à rasca, não só devido à manifesta incompetência dos governantes que desde então têm vindo a ocupar as cadeiras do Poder como pela protecção por eles dispensada às artimanhas económicas e financeiras dos atafulhadores da riqueza que é de todos. A expressão “apertar o cinto” foi institucionalizada sendo agora a marca que distingue o cidadão luso dos seus “primos” europeus.

O cenário em que o País vive na actualidade é realmente assustador. A tal ponto que até os próprios governantes já se não atrevem a prometer melhores condições de vida nos anos que aí vêm. Daí a opinião de que a situação presente não deve ser olhada como se de mais uma crise se trate porque, como parece evidente, estamos a assistir à plena transformação da sociedade que nos foi mostrada durante breves décadas e da qual – por confusão – todos usufruímos na medida em que governantes mal preparados não tiveram a argúcia de controlar atempadamente um terreno em desvario onde a acção nefasta das feras sequiosas instalaram o desnorteio.

Em resultado dessa imprevidência desenha-se agora no horizonte o regresso aos tempos dos sonhos que não passam disso mesmo. Dos anseios não satisfeitos. Da esperança oca, nunca saciada. É já por demais evidente o regresso à penúria, ao desespero da espessa maioria dos portugueses enquanto uma pequena minoria se lambuza despudoradamente com a riqueza por todos produzida.  

É talvez a oportunidade para os portugueses se convencerem de que não podem tentar imitar os cidadãos dos chamados países ricos da Europa querendo, como eles, viver com alguma largueza. Prova disso é a situação de endividamento familiar, verdadeiramente catastrófico, provocado pelo excessivo optimismo manifestado pelo poder político nos seus discursos de faz-de-conta ao longo das últimas décadas, enquanto Portugal soçobrava a olhos vistos. Face ao clima delirante assim introduzido, o portuga imprudente não foi capaz de resistir ao cerrado assalto das instituições financeiras que, com o beneplácito das entidades governamentais, trouxeram o canto da sereia, o compre-agora-e-pague-depois, despertando nas gentes o natural desejo de possuir, impulso geralmente embrionário em todas as camadas sociais. Os avisos de contenção lançados pelos que conseguiam não perder o sentido da realidade sendo, por isso, capazes de discernir as consequências do abismo que se estava a cavar, não surtiram qualquer efeito. Adquirir passou a ser o passatempo preferido dos portugueses que, com o cartãozinho de plástico substituindo o dinheiro vivo, se esqueceram de fazer contas. O resultado desse destempero está á vista e, como noutros casos, provavelmente a culpa vai morrer solteira. 

4 de março de 2013

Nem mais tempo…

Luís Farinha

“Em 21 de Janeiro, o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, solicitou ao      Eurogrupo a extensão dos prazos de maturidade dos empréstimos a                 Portugal, de modo a facilitar o regresso aos mercados”. (04.Março.2013 – CM)

Passos Coelho e Vítor Gaspar dão finalmente o dito por não dito ao ter agora (ainda que tardiamente) percebido que a sua miopia económica só podia ter um resultado: a queda no abismo. O slogn “Nem mais tempo nem mais dinheiro”, gritado obstinadamente pelos dois governantes era, além de claramente populista, inexequível e irremediavelmente suicidário. Os apelos veementes que de há muito lhes vinham a ser dirigidos pelos vários sectores de influência da vida portuguesa no sentido de ser corrigida a estratégia absurdamente adoptada, batiam numa espécie de muralha de betão, surda à lógica e à razão. E, entretanto, o declive foi-se inclinando cada vez mais.

Será que o ataque de deslumbramento que parece ter afectado o primeiro-ministro e o seu estratega financeiro desde que promovidos aos lugares que ocupam já terá sido ultrapassado? Façamos votos que o Divino os tenha iluminado…

Contudo, pelo sim ou pelo não talvez não seja demais ficarmos atentos ao que vier a seguir…

Seguidor da teoria de que nada acontece por acaso, permito-me apontar duas ou três razões que, acredito, podem ter contribuído para a tão notória (e criticada) indiferença manifestada pelos senhores Passos Coelho e Vítor Gaspar relativamente aos que, no terreno, anseiam por uma explicação que os faça entender a razão de uma nova taxa, o aumento de um imposto ou o corte de uma regalia. Na maioria dos casos, o conhecimento dessas decisões do Governo tem sido adquirido pelos cidadãos através dos media ou da desnutrida e apressada informação de um qualquer assessor ou secretário do gabinete da pasta. No vazio, fica assim não só a explicação cabal capaz de justificar a medida tomada como também a sensação de que, tal como no regime salazarista, o povo português continua a não ter o direito de ser ouvido seja a que pretexto for. Trata-se, de resto, da atitude igualmente adoptada por certas pessoas que, por razões nem sempre as mais íntegras, usufruem de elevada situação económica, levando-as – por isso – a sentirem-se no direito de perorar sobre a vida de quem pouco ou nada tem, dos que se debatem com a escassez de tudo e que se vêem de um dia para o outro a ser esbulhados do pouco que lhes resta, sem cerimónia ou sem que lhes expliquem por quê. “Aguenta, aguenta”, garantem esses filósofos de pacotilha do alto da sua abastança. E os governantes, pouco sábios e claramente ignorantes de como é a vida rasteira dos portugueses, acreditam e decidem em conformidade.

Não pretendo com isto apoucar a capacidade técnica dos jovens senhores que se sentam nas cadeiras do poder. Serão economistas de alto gabarito habituados à manipulação de números e a calcular os efeitos das suas manobras contabilísticas em favor de quem lhes oferece cargos supimpamente remunerados. Contudo, lamentavelmente, nunca ninguém lhes ensinou que os seus exercícios de aritmética pura não podem ser usados com frieza abstracta quando envolvem um povo, uma Nação. E no caso presente é isso que vem acontecendo, agora, neste nosso país.

10 de janeiro de 2013

Reformas, toca a baixar!

Luís Farinha


Sob o título "As reformas não param de baixar desde 1987", o jornal Correio da Manhã, do passado dia 20, publicava um estudo realizado pela Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios, segundo o qual "as pensões de reforma têm de baixar substancialmente durante os próximos anos".

No corpo da notícia, lá vinha... e cito: o estudo "considera que as novas regras da Segurança Social (que entraram em vigor em 1 de Junho) não asseguram a sustentabilidade do sistema de previdência a longo prazo". E mais abaixo: "Os responsáveis daquela Associação consideram que o executivo terá de descer o valor das reformas já em 2009 para permitir o equilíbrio financeiro do sistema".

A notícia do Correio da Manhã a que faço referência não terá deixado de incomodar os que usufruem baixas pensões, insuficientes para fazer face ao elevado custo de vida. Refiro-me, claro, ao elevado custo de vida para quem tem pensões e salários de miséria. Isto, porque há quem se pode dar ao luxo de ignorar o que custa a essas pessoas enfrentar o dia-a-dia.

Refiro, como exemplo, uma notícia publicada pelo Correio da Manhã de 17 de Setembro de 2004. A mesma dava conta de que, e cito... "Mira Amaral, um dos presidentes da Caixa Geral de Depósitos e ex-membro do governo liderado por Cavaco Silva, trouxe de reforma 18 mil euros/mês. E o jornal referia ainda que "Bagão Félix, ex-ministro da Segurança Social, no governo de Durão Barroso, considera esta reforma "violentadora da equidade social e quase obscena".

Por falar de Bagão Félix, lembro uma entrevista dada ao mesmo jornal, em 24 de Setembro de 2006. Respondendo à pergunta... "Quem tem 40 anos de idade pode estar seguro de que vai ter uma reforma daqui a 30 anos? A resposta a esta questão levantada pelo jornalista do Correio da Manhã, Bagão Félix respondeu... "Não, não pode. Uma pessoa, daqui a 50 anos, não terá Segurança Social". E rematou... "Ou se altera completamente o sistema, ou então vai minguando cada vez mais o valor da reforma".

A respeito do fosso enorme que separa as pensões do trabalhador comum dos que fazem carreira no aparelho do Estado, vem a propósito lembrar uma notícia do jornal generalista on-line Portugal Diário que reproduzia uma outra vinda a lume no jornal Público em Setembro de 2004. "António de Sousa, o ainda presidente da Caixa Geral de Depósitos (que" - dizia o jornal - "abandona o cargo na próxima sexta-feira, cuidou bem do seu futuro". E acrescentava..."Antes de passar a pasta a Victor Martins, António de Sousa tem direito a 615 mil euros (qualquer coisa como 123 mil contos) a título de complemento de reforma". A respeito deste caso, a revista Visão destacava..."Não é caso único. Quem passa pela Administração do banco público tem direito a ordenado de luxo e a uma reforma sumptuosa".

Às vezes - embora raramente - é até o próprio privilegiado que reconhece a injustiça do sistema em uso, no que respeita a remunerações e reformas. Isso aconteceu com Victor Constâncio, governador do Banco de Portugal que - como referia o Correio da Manhã de 11 de Março de 2006 - "o seu salário, cerca de 25 mil euros por mês, é demasiado elevado".

Tudo isto vem a propósito do recente estudo levado a cabo pela Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios, publicado no passado dia 20, pelo Correio da Manhã, segundo o qual "as pensões de reforma têm de baixar substancialmente durante os próximos anos".

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Esta crónica, que escrevi e li, na Rádio Miramar, em 27 de Setembro de 2007, é prova mais que evidente que a questão das reformas e pensões é um problema que vem de longe. Já há meia dúzia de anos os reformados e pensionistas eram um alvo a abater pelos novos mandantes desta nação sem rumo. Neste momento não resisto a perguntar: que é feito das contribuições depositadas mensalmente na Segurança Social por mim e pelos meus patrões ao longo de largas décadas, uma contribuição destinada a garantir-me uma velhice sem sobressaltos. Foram 70 anos de labor contínuo (dos 11 aos 81 anos) percurso apenas interrompido dois anos (1950/1952) em que cumpri o serviço militar obrigatório.
É certo que os cofres da Previdência (como então se chamava) foram saqueados inúmeras vezes pelos governos pós-25 de Abril para satisfazer os pagamentos e respectivos juros dos empréstimos contraídos no estrangeiro para financiar os excessos cometidos nesse período. Mas, teimoso como sou, insisto na convicção de que esses “desvios” foram repostos. Outra hipótese é inconcebível, a menos que… bom, deixa para lá. Os portugueses são gente séria.
Assim sendo, por quê então esta ânsia de subtrair o estado à obrigação contraída há tantos anos? De fazer ouvidos moucos à lógica e à decência?            

Que cada um reflicta e retire deste cenário as devidas ilações...

30 de dezembro de 2012

Portugal, uma nação ajoelhada

Luís Farinha


2012 chegou ao fim sem honra nem glória. Portugal conseguiu mostrar ao mundo como no breve espaço de um ano é possível reduzir a nada os anseios de um povo inteiro. Como a obstinação de uns quantos consegue comprometer – quiçá irremediavelmente – o futuro duma Nação.

Falta de experiência, diz-se…
  
Ser inexperiente não é crime. Lamentável é alguém sem preparação adequada atrever-se à governação dum país, sem consciência das consequências funestas que pode desencadear com tamanha leviandade.
“O Bispo de Setúbal disse que, se fosse presidente, nomearia ‘um governo de pessoas competentes, que soubessem governar’. Salientou ainda que um ministro deveria ir a uma junta de especialistas para ser avaliado, antes de ser nomeado.”
Terá razão D. Manuel Martins, porém mal estamos quando ao político pretendente ao exercício do poder falta capacidade bastante para se avaliar a si próprio. A menos, claro, que as eventuais sequelas resultantes do seu atrevimento sejam para ele um mal menor que o tempo sempre acaba por apagar. Há quem escolha Paris para fazer esquecer, outros o têm conseguido apenas com um bom período de abstinência política.
No decorrer de 2012 os portugueses tiveram motivos de sobra para se arrependerem da sua opção de voto. O ar sério de Passos Coelho, a sua palavra fácil e o apelo à vulnerabilidade dos cidadãos cansados do desatino instalado pela governação socratiziana, deram como resultado o actual estado das coisas. Iludidos pelas promessas que queriam ouvir e acreditando na capacidade governativa do novo personagem os portugueses acorreram às urnas de voto pondo a cruzinha no espaço a ele reservado. Eu fui um desses…
Em palavras simples, estampámo-nos contra a parede! Passo a passo mas num andamento sem desvios nem paranças foi-nos imposto o caminho da miséria. O desemprego, a pobreza, a fome e tudo o que daí resulta são agora o cenário que se nos oferece. E, o que é pior, sem quaisquer sinais de retrocesso à vista. As perspectivas são, aliás, assustadoras. Para cúmulo, os membros deste governo, imperturbáveis detentores do Poder, primam pela soberana indiferença que, em todos os seus actos, manifestam pelos pobres da nação e isso é o que mais dói, o que mais indigna os que não se inscrevem na lista privilegiada dos endinheirados ou dos que tiveram a arte de se colocar a jeito das sinecuras do regime. Aliás, é cada vez mais convincente a opinião de que tal política discriminatória é resultante de um plano macabro de destruição da classe rasa. Nem de outra maneira consegue ser entendido o obstinado empenho manifestado pelo governo no sentido de tornar os pobres ainda mais pobres, até ao insustentável. Não será isso o que se passa, convenhamos, mas que parece, lá isso parece! No breve espaço de um ano a classe média foi despromovida dessa condição social ingressando à força na camada desvalida. Entretanto, os que já viviam na escassez foram empurrados à bruta para a indigência. E se mesmo assim os “sacrifícios” continuam apontados aos que já pouco ou nada têm o que restará a Portugal e aos portugueses? Que raio de governação é esta? 
Voltando às declarações do ex-Bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, “Todos os dias somos surpreendidos por medidas que nos ofendem, na medida em que nos tornam menos capazes de viver ou de sobreviver.” Estas palavras tocam o ponto fulcral desta espécie de opereta bufa que nos foi dado viver. E quando o senhor doutor Pedro Passos Coelho apareceu na televisão em ar compungido a dizer que ‘este não foi o Natal que ‘merecíamos’’ a taça transbordou. Então, uma pergunta se impõe: Se merecíamos outro Natal, por que não cuidou a tempo e horas que esse nos fosse oferecido? Afinal, quando o senhor doutor Passos Coelho se disponibilizou e foi nomeado para o cargo que ocupa foi para governar Portugal ou generalizar a miséria? É que pedir sacrifícios num período de crise a um povo que ainda come três refeições diárias é uma coisa, mas impô-la a quem já nem uma engole é outra bem diferente.
Contudo, estarão os cidadãos cientes da responsabilidade que nos cabe na situação actual que o país atravessa? Levaremos em devida conta os excessos por nós cometidos durante a aparente bonança que “abençoou” Portugal durante um largo período? Lembrar-nos-emos dos ouvidos moucos que fizemos quando soaram os raros avisos de contenção? Não! Continuámos a acorrer alegremente ao endividamento, à aquisição de bens e serviços que nos eram sugeridos pelos galifões empreendedores de negócios. Compre agora e pague depois! Precisa de dinheiro? Venha buscá-lo! E, enquanto durou este delírio colectivo que medidas foram tomadas pelos iluminados membros dos sucessivos governos para lhe pôr cobro? Nenhuma, talvez pelo contrário… Ajudaram à festa investindo ‘sem rei nem roque’ em obras faustosas e não prioritárias não se eximindo a autorizar salários e prémios principescos (quase sempre imerecidos) aos seus apaniguados. Como se atrevem, os de hoje, a olhar de soslaio os pobres deste país, tratando-os como responsáveis da triste situação criada e lançando sobre eles o anátema da culpa enquanto inventam novas formas de os empobrecer ainda mais?
É inegável a ostensiva animosidade com que o cidadão comum olha o actual executivo político que nos governa. Quando o secretário de Estado da Saúde, Fernando Leal Costa diz que "Temos uma enorme margem potencial de poupança que está muito nas mãos dos cidadãos", está mesmo a pôr-se a jeito para ouvir uma risada, mas quando lembra que os portugueses têm a obrigação de contribuir para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS), prevenindo doenças e recorrendo menos aos serviços” é a gargalhada geral. Quer dizer, segundo o senhor Leal Costa os portugueses que recorrem aos hospitais em busca de auxílio na eminência de um AVC é por culpa sua que o fazem. O mesmo se passa quando se trata dum cancro, duma pneumonia, duma crise renal e por aí adiante. Enquanto isso, o Estado dá-se à comodidade de não promover políticas de prevenção das doenças. Nesta, como noutras situações, o papel dos governantes consiste, segundo tudo indica, em estabelecer, exigir, ameaçar e punir os pobres, já que aos ricos não convém incomodar.