10 de janeiro de 2013

Reformas, toca a baixar!

Luís Farinha


Sob o título "As reformas não param de baixar desde 1987", o jornal Correio da Manhã, do passado dia 20, publicava um estudo realizado pela Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios, segundo o qual "as pensões de reforma têm de baixar substancialmente durante os próximos anos".

No corpo da notícia, lá vinha... e cito: o estudo "considera que as novas regras da Segurança Social (que entraram em vigor em 1 de Junho) não asseguram a sustentabilidade do sistema de previdência a longo prazo". E mais abaixo: "Os responsáveis daquela Associação consideram que o executivo terá de descer o valor das reformas já em 2009 para permitir o equilíbrio financeiro do sistema".

A notícia do Correio da Manhã a que faço referência não terá deixado de incomodar os que usufruem baixas pensões, insuficientes para fazer face ao elevado custo de vida. Refiro-me, claro, ao elevado custo de vida para quem tem pensões e salários de miséria. Isto, porque há quem se pode dar ao luxo de ignorar o que custa a essas pessoas enfrentar o dia-a-dia.

Refiro, como exemplo, uma notícia publicada pelo Correio da Manhã de 17 de Setembro de 2004. A mesma dava conta de que, e cito... "Mira Amaral, um dos presidentes da Caixa Geral de Depósitos e ex-membro do governo liderado por Cavaco Silva, trouxe de reforma 18 mil euros/mês. E o jornal referia ainda que "Bagão Félix, ex-ministro da Segurança Social, no governo de Durão Barroso, considera esta reforma "violentadora da equidade social e quase obscena".

Por falar de Bagão Félix, lembro uma entrevista dada ao mesmo jornal, em 24 de Setembro de 2006. Respondendo à pergunta... "Quem tem 40 anos de idade pode estar seguro de que vai ter uma reforma daqui a 30 anos? A resposta a esta questão levantada pelo jornalista do Correio da Manhã, Bagão Félix respondeu... "Não, não pode. Uma pessoa, daqui a 50 anos, não terá Segurança Social". E rematou... "Ou se altera completamente o sistema, ou então vai minguando cada vez mais o valor da reforma".

A respeito do fosso enorme que separa as pensões do trabalhador comum dos que fazem carreira no aparelho do Estado, vem a propósito lembrar uma notícia do jornal generalista on-line Portugal Diário que reproduzia uma outra vinda a lume no jornal Público em Setembro de 2004. "António de Sousa, o ainda presidente da Caixa Geral de Depósitos (que" - dizia o jornal - "abandona o cargo na próxima sexta-feira, cuidou bem do seu futuro". E acrescentava..."Antes de passar a pasta a Victor Martins, António de Sousa tem direito a 615 mil euros (qualquer coisa como 123 mil contos) a título de complemento de reforma". A respeito deste caso, a revista Visão destacava..."Não é caso único. Quem passa pela Administração do banco público tem direito a ordenado de luxo e a uma reforma sumptuosa".

Às vezes - embora raramente - é até o próprio privilegiado que reconhece a injustiça do sistema em uso, no que respeita a remunerações e reformas. Isso aconteceu com Victor Constâncio, governador do Banco de Portugal que - como referia o Correio da Manhã de 11 de Março de 2006 - "o seu salário, cerca de 25 mil euros por mês, é demasiado elevado".

Tudo isto vem a propósito do recente estudo levado a cabo pela Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios, publicado no passado dia 20, pelo Correio da Manhã, segundo o qual "as pensões de reforma têm de baixar substancialmente durante os próximos anos".

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Esta crónica, que escrevi e li, na Rádio Miramar, em 27 de Setembro de 2007, é prova mais que evidente que a questão das reformas e pensões é um problema que vem de longe. Já há meia dúzia de anos os reformados e pensionistas eram um alvo a abater pelos novos mandantes desta nação sem rumo. Neste momento não resisto a perguntar: que é feito das contribuições depositadas mensalmente na Segurança Social por mim e pelos meus patrões ao longo de largas décadas, uma contribuição destinada a garantir-me uma velhice sem sobressaltos. Foram 70 anos de labor contínuo (dos 11 aos 81 anos) percurso apenas interrompido dois anos (1950/1952) em que cumpri o serviço militar obrigatório.
É certo que os cofres da Previdência (como então se chamava) foram saqueados inúmeras vezes pelos governos pós-25 de Abril para satisfazer os pagamentos e respectivos juros dos empréstimos contraídos no estrangeiro para financiar os excessos cometidos nesse período. Mas, teimoso como sou, insisto na convicção de que esses “desvios” foram repostos. Outra hipótese é inconcebível, a menos que… bom, deixa para lá. Os portugueses são gente séria.
Assim sendo, por quê então esta ânsia de subtrair o estado à obrigação contraída há tantos anos? De fazer ouvidos moucos à lógica e à decência?            

Que cada um reflicta e retire deste cenário as devidas ilações...

30 de dezembro de 2012

Portugal, uma nação ajoelhada

Luís Farinha


2012 chegou ao fim sem honra nem glória. Portugal conseguiu mostrar ao mundo como no breve espaço de um ano é possível reduzir a nada os anseios de um povo inteiro. Como a obstinação de uns quantos consegue comprometer – quiçá irremediavelmente – o futuro duma Nação.

Falta de experiência, diz-se…
  
Ser inexperiente não é crime. Lamentável é alguém sem preparação adequada atrever-se à governação dum país, sem consciência das consequências funestas que pode desencadear com tamanha leviandade.
“O Bispo de Setúbal disse que, se fosse presidente, nomearia ‘um governo de pessoas competentes, que soubessem governar’. Salientou ainda que um ministro deveria ir a uma junta de especialistas para ser avaliado, antes de ser nomeado.”
Terá razão D. Manuel Martins, porém mal estamos quando ao político pretendente ao exercício do poder falta capacidade bastante para se avaliar a si próprio. A menos, claro, que as eventuais sequelas resultantes do seu atrevimento sejam para ele um mal menor que o tempo sempre acaba por apagar. Há quem escolha Paris para fazer esquecer, outros o têm conseguido apenas com um bom período de abstinência política.
No decorrer de 2012 os portugueses tiveram motivos de sobra para se arrependerem da sua opção de voto. O ar sério de Passos Coelho, a sua palavra fácil e o apelo à vulnerabilidade dos cidadãos cansados do desatino instalado pela governação socratiziana, deram como resultado o actual estado das coisas. Iludidos pelas promessas que queriam ouvir e acreditando na capacidade governativa do novo personagem os portugueses acorreram às urnas de voto pondo a cruzinha no espaço a ele reservado. Eu fui um desses…
Em palavras simples, estampámo-nos contra a parede! Passo a passo mas num andamento sem desvios nem paranças foi-nos imposto o caminho da miséria. O desemprego, a pobreza, a fome e tudo o que daí resulta são agora o cenário que se nos oferece. E, o que é pior, sem quaisquer sinais de retrocesso à vista. As perspectivas são, aliás, assustadoras. Para cúmulo, os membros deste governo, imperturbáveis detentores do Poder, primam pela soberana indiferença que, em todos os seus actos, manifestam pelos pobres da nação e isso é o que mais dói, o que mais indigna os que não se inscrevem na lista privilegiada dos endinheirados ou dos que tiveram a arte de se colocar a jeito das sinecuras do regime. Aliás, é cada vez mais convincente a opinião de que tal política discriminatória é resultante de um plano macabro de destruição da classe rasa. Nem de outra maneira consegue ser entendido o obstinado empenho manifestado pelo governo no sentido de tornar os pobres ainda mais pobres, até ao insustentável. Não será isso o que se passa, convenhamos, mas que parece, lá isso parece! No breve espaço de um ano a classe média foi despromovida dessa condição social ingressando à força na camada desvalida. Entretanto, os que já viviam na escassez foram empurrados à bruta para a indigência. E se mesmo assim os “sacrifícios” continuam apontados aos que já pouco ou nada têm o que restará a Portugal e aos portugueses? Que raio de governação é esta? 
Voltando às declarações do ex-Bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, “Todos os dias somos surpreendidos por medidas que nos ofendem, na medida em que nos tornam menos capazes de viver ou de sobreviver.” Estas palavras tocam o ponto fulcral desta espécie de opereta bufa que nos foi dado viver. E quando o senhor doutor Pedro Passos Coelho apareceu na televisão em ar compungido a dizer que ‘este não foi o Natal que ‘merecíamos’’ a taça transbordou. Então, uma pergunta se impõe: Se merecíamos outro Natal, por que não cuidou a tempo e horas que esse nos fosse oferecido? Afinal, quando o senhor doutor Passos Coelho se disponibilizou e foi nomeado para o cargo que ocupa foi para governar Portugal ou generalizar a miséria? É que pedir sacrifícios num período de crise a um povo que ainda come três refeições diárias é uma coisa, mas impô-la a quem já nem uma engole é outra bem diferente.
Contudo, estarão os cidadãos cientes da responsabilidade que nos cabe na situação actual que o país atravessa? Levaremos em devida conta os excessos por nós cometidos durante a aparente bonança que “abençoou” Portugal durante um largo período? Lembrar-nos-emos dos ouvidos moucos que fizemos quando soaram os raros avisos de contenção? Não! Continuámos a acorrer alegremente ao endividamento, à aquisição de bens e serviços que nos eram sugeridos pelos galifões empreendedores de negócios. Compre agora e pague depois! Precisa de dinheiro? Venha buscá-lo! E, enquanto durou este delírio colectivo que medidas foram tomadas pelos iluminados membros dos sucessivos governos para lhe pôr cobro? Nenhuma, talvez pelo contrário… Ajudaram à festa investindo ‘sem rei nem roque’ em obras faustosas e não prioritárias não se eximindo a autorizar salários e prémios principescos (quase sempre imerecidos) aos seus apaniguados. Como se atrevem, os de hoje, a olhar de soslaio os pobres deste país, tratando-os como responsáveis da triste situação criada e lançando sobre eles o anátema da culpa enquanto inventam novas formas de os empobrecer ainda mais?
É inegável a ostensiva animosidade com que o cidadão comum olha o actual executivo político que nos governa. Quando o secretário de Estado da Saúde, Fernando Leal Costa diz que "Temos uma enorme margem potencial de poupança que está muito nas mãos dos cidadãos", está mesmo a pôr-se a jeito para ouvir uma risada, mas quando lembra que os portugueses têm a obrigação de contribuir para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS), prevenindo doenças e recorrendo menos aos serviços” é a gargalhada geral. Quer dizer, segundo o senhor Leal Costa os portugueses que recorrem aos hospitais em busca de auxílio na eminência de um AVC é por culpa sua que o fazem. O mesmo se passa quando se trata dum cancro, duma pneumonia, duma crise renal e por aí adiante. Enquanto isso, o Estado dá-se à comodidade de não promover políticas de prevenção das doenças. Nesta, como noutras situações, o papel dos governantes consiste, segundo tudo indica, em estabelecer, exigir, ameaçar e punir os pobres, já que aos ricos não convém incomodar.

16 de dezembro de 2012

O meu sonho por cumprir

Luís Farinha


A vida é mesmo assim, formada de algumas coisas boas, à mistura com muitas outras que nos perturbam até ao fundo da alma.

Meus amigos... a vida é tudo isso, mas é também a única que temos. E, mais não seja, isso é já razão bastante para não nos deixarmos vencer nas horas amargas, porque depois de cada instante há sempre outro que vem chegando e a verdade é que tudo na nossa vida só precisa de um breve instante para mudar.

É por isso, meus amigos que eu - apesar dos anos que já deixei para trás  continuo a acreditar que daqui a uma hora ou quem sabe se apenas a um breve minuto a vida me vai oferecer aquilo por que eu sempre esperei, que eu sempre desejei...

É uma postura optimista, um acto de fé, uma forma de estar na vida. Pode ser uma dessas coisas… podem ser essas coisas todas.

De qualquer modo, já atingi aquele estágio da existência em que só me resta assistir ao renascer das manhãs que ainda me forem concedidas. Teimosamente, mantenho viva a esperança de que, numa delas, o meu sonho tenha acabado por materializar-se. Que os homens tenham acabado finalmente por tomar consciência de que andaram tempo demais a cultivar a desordem, o caos, a instabilidade, sua e dos outros. Que neste mundo alucinado e alucinante em que me foi dado viver já não há motivos para a denúncia das injustiças que faziam parte do quotidiano. Quero constatar que cessou a ambição desmedida, a falta de sentido da honra, a valorização do vazio, o abuso do poder, a demagogia, a cultura do protagonismo. Que, embora tardiamente, foram por fim escorraçadas as moléstias que fizeram do mundo dito civilizado aquilo em que o transformaram.

A vida, meus amigos, não é bem aquilo que a maioria de nós sonhou, realmente não é. Contudo, é importante que não percamos a faculdade de sonhar, de amar a vida. É importante, sobretudo, que mantenhamos a perspectiva de que, para cada um de nós, tudo na vida pode mudar num instante apenas, bastando para isso um pequeno quase-nada e, sobretudo, que a sensatez desceu sobre as mentes deturpadas pela ganância do dinheiro, pela sede do poder, pela ausência dos valores que distinguem (consagram) o homem merecedor de um mundo melhor, o homem civilizado.

Recordo-me que quando era jovem quase sempre adormecia com um pensamento que me fazia feliz. Acreditava então que o dia de amanhã seria o tal em que, finalmente, me iria acontecer aquela grande aventura que eu esperava há muito tempo.

Era um pensamento ingénuo?
Talvez fosse, mas a verdade é que ele alimentou grande parte da minha adolescência e do período que lhe sucedeu.

E sabem uma coisa? Muitos anos depois, nesta idade em que normalmente as utopias já não comandam a vida, ainda dou por mim, de vez em quando, a adormecer com o pensamento de que o amanhã que aí vem é que me trará, finalmente, a realização do tal sonho que sempre me embalou. Será isto um sinal evidente de decrepitude? De senilidade? Aceito que pensem que sim porque – acreditem – teimoso que sou não consigo perder a esperança…

5 de dezembro de 2012

E depois, como será?

Luís Farinha


A minha mulher não pára de me acruzinar os ouvidos apodando-me de ‘protestante compulsivo’. Cansado dos seus remoques já não sei o que mais fazer para a convencer que protestar é um direito que me assiste. Que protestar é, além disso, um exercício a que a minha condição de cidadão cônscio me obriga.

Que “não vale a pena”, diz ela…

E insiste… “Eles estão-se borrifando para os teus direitos. Então tu não vês a indiferença…”

Realmente vejo e não gosto. Não gosto, sobretudo, que os meus escassos recursos tenham sido postos à mercê da máquina trituradora do senhor Gaspar, um técnico de contas que, baseado em complicados diagramas teóricos, permite-se dispor da minha carteira ao jeito dos “carteiros” da carreira 28 dos amarelos de Lisboa. Esta é, reconheço tardiamente, uma espécie de castigo merecido para quem, como eu, acreditando em balelas pôs a cruzinha no quadrado errado no boletim de voto.

Eu sei… pronto! Eu sei que agora já é tarde para me arrepender.

Ingenuamente, com o meu voto ajudei a criar uma situação que acabou por se virar contra mim ao ponto de pôr em causa a tranquilidade e a paz até aqui reinantes lá em casa e que ameaçam vir a complicar-se ainda mais.

“Lá estás tu atascado nas patranhas dessa gente!”, atira ela quando dá comigo a ler ou a ouvir as ‘últimas’ do dia.

Tudo isto porque criei o péssimo hábito de não perder os noticiários e debates políticos e económicos dos jornais e da televisão desde que, assustado até ao tutano, me apercebi de que estava a assistir – em crescente desatino – ao desabar estrondoso da sociedade portuguesa sem atinar com o que possa fazer para emendar o meu erro e impedir que isso aconteça. Além disso, figuras nas quais depositei o que me restava de esperança têm vindo a mostrar-me – com crescente veemência – quão fácil é enganar um povo inteiro. Homens na força da vida, bem falantes, persuasivos, transbordantes de argumentação acabaram por me revelar a sua insciência acerca das coisas da vida, do saber que só a vivência nua e crua pode amestrar. Ao correr do tempo têm-me vindo a mostrar uma cada vez mais transparente insensibilidade no tocante a questões relativas à experiência humana e social – valor preponderante para creditar qualquer aspirante a governante de uma nação.

“São ainda muito jovens…” pondera a minha mulher como a desculpá-los das traquinices que cometem.

São jovens, eu sei e até, consta, possuem incontestável valor profissional. Muito recomendáveis, portanto. Desde que não se lhes atribua, evidentemente, o papel de decisores em coisas que manifestamente não entendem, como as singularidades intrínsecas de um povo que, com uma trajectória de cerca de 900 anos, tem evidente dificuldade em estabelecer correlação aceitável com a actualidade arquitectada pelos iluminados que projectam um mundo novo controlado por uma oligarquia marcadamente orientada para o despotismo económico.

Em síntese, a situação de miséria para que os portugueses foram atirados. A crescente incapacidade de resistirem ao pandemónio sócio-económico instalado pelos novos donos do mundo. O desassossego, o medo, a revolta que grassa e se amplia assustadoramente na sociedade portuguesa são realidades que, por estranho que seja, parecem deixar indiferentes os governantes que se voluntariaram para desempenhar o papel de intérpretes desta tragédia. Como se de antemão soubessem que esse é o caminho que convém prosseguir com vista a uma mudança radical do até agora modus vivendi de Portugal.

Certo é que o povo português não pode inocentar-se do desgoverno financeiro que, no plano individual, causou a si próprio. Não haverá desculpas que justifiquem os excessos por si cometidos durante o “carnaval” que se instalou e cresceu no país nas últimas décadas. Contudo, isso não aconteceu por birra ou acaso. Não foi o cidadão comum que, a seu belo prazer, decidiu adoptar um modo de vida a que aspirava, naturalmente, mas ao qual não podia chegar. Outras foram as razões que o levaram aos excessos. O “Compre agora e pague depois”, o “Precisa de dinheiro? Venha buscá-lo! Ficamos à sua espera!” “Aproveite as facilidades que criámos para si!”. “Compre, adquira, leve… a prestações, com facilidades, sem sentir!” E, enquanto essas mensagens troavam nos meios de comunicação, outros preparavam os caminhos da abundância para si próprios. Com os aparentemente inesgotáveis apoios financeiros que só por milagre poderiam ser solvidos os bancos concediam empréstimos a investidores sem currículo e a pedreiros promovidos a construtores que se lançaram na compra de terrenos, começando a edificar casas de “sonho” para todos, alargando assim as periferias das cidades principais até à exaustão. E este louco bem-estar insuflado nas massas sub-repticiamente pelos novos experts das transacções por impulso foi implantando hábitos de consumo que antes não passavam de quimeras nunca satisfeitas num país pobre como Portugal. Entretanto, nesse longo cruzeiro de fantasia, a ousadia de advertências no sentido de alertar para os perigos da insolvência trazida pelas desassisadas facilidades oferecidas tinha uma resposta pronta: “As prestações são a única forma de termos o que precisamos”. Assim foi com as casas, férias, viagens, automóveis, roupas de marca, bugigangas caseiras, os últimos modelos de telemóveis e outros gadgets electrónicos para exibir aos amigos deixando-os de água na boca, enfim… um nunca acabar de coisas para comprar a prestações. E o resultado está à vista…

Posto isto, se para aí estiverem virados talvez seja de bom senso fazerem uma pausa afim de ponderar duas coincidências curiosas entretanto registadas: 1) Se olharmos com alguma atenção para o que se passa na Europa acabarão por constatar que não é só Portugal que sofre a inclemência de medidas de contenção económica e social aparentemente desordenadas. Países, como a Espanha, Grécia, Itália, Irlanda (uns mais do que outros, naturalmente) amargam situações similares embora, de maneira menos aguda, os sinais de desequilíbrio económico, financeiro e social sejam já visíveis noutros que normalmente são tidos como ricos. Daqui, a conclusão de que o mundo vive não um período de crise, mas antes uma metamorfose que objectiva o aprofundamento do fosso já visível entre os ricos e os pobres. Nunca como hoje a criação de uma nova ordem mundial foi tão evidente. Prova disso, asseguram os estudiosos empenhados em acompanhar esse movimento de transmutação (por cá inventou-se a REFUNDAÇÃO), é o cenário que vem tomando forma desde o surgimento da “crise” que abala o mundo, com destaque assinalável na Europa. 2) Todas as medidas de “recuperação”(!) económica-financeira decididas pelos governantes dos países em crise para – segundo afirmam – os tirar da fossa em que estão atolados têm mostrado um sinal comum que é significativo: essas acções, forma geral, apontam para um objectivo insofismável: contribuem para o aumento incessante da pobreza ao mesmo tempo que procuram favorecer a ampliação da riqueza das classes mais abastadas. Em Portugal, exemplo disso é o episódio da TSU (Taxa Social Única) que vai ficar para a história como exemplo do que pode ajudar a dar cabo do que resta de dignidade dum povo em profunda aflição económica e financeira. Ao contrário do mítico Robin Wood que roubava aos ricos para dar aos pobres, os indizíveis senhores que nos governam presentearam-nos com um plano brilhante que consistia na sábia aritmética de tirar aos pobres para dar aos ricos. Assim, às claras, sem receio das ilações (e reacções) que esta acção inqualificável não deixaria de provocar numa nação marcada pela penúria crescente. O resultado desta tentativa de inverter a lógica elementar acabou por mostrar que a arrogância tem limites quando a recusa de colaborar em tamanho insulto foi claramente repudiada por alguns dos que seriam seus directos beneficiários.

Pois é… a minha mulher não pára de me seringar, mas que acham? Eu decidi e está decidido! Enquanto em Portugal a liberdade de opinião e de expressão não voltarem a ser proibidas eu uso e usarei o direito de dizer que o rei vai nu. Depois…bem, depois logo se verá.

E fico-me por aqui. As notícias das oito vão começar…  

7 de novembro de 2012

Quero o meu bairro de volta!

Luís Farinha


Nasci num dos bairros populares de Lisboa, um dos aglomerados onde, tradicionalmente, os habitantes se querem, se estimam e se entreajudam quando os problemas batem à porta. Assisti e participei num sem número de situações comprovantes dessa familiaridade amiga, experiências que me permitem, hoje, repudiar os inevitáveis contrapontos com que (alguns) sempre procuram estabelecer discordância opinativa. Vivi nesse bairro cerca de meio século, quase 50 anos. Ainda hoje lá vivem alguns familiares e os amigos que me restam neste último quartel da vida que Deus me deu para viver. Já não são muitos, é verdade, a idade não perdoa e há sempre um dia em que os mais quebrantados partem para a derredaiera viagem.

Um dia, provavelmente contagiado pelo 25 de Abril, numa das reviravoltas que sempre ocorrem depois de uma revolução, dando ouvidos ao apelo de mudança decidi partir de armas e bagagem para a periferia de Lisboa, de preferência - decidi - numa zona com o mar à vista. Hoje, decorridos que são trinta e muitos anos reconheço que me precipitei. Por razões que não sei explicar, as memórias que me trazem algum prazer têm sempre por cenário o velho bairro onde nasci e vivi a primeira metade dos anos que já conto, o que considero sintomático.

É verdade que encontrei um mundo novo, mais cosmopolita, cheio de gente diferente a morar em avenidas e ruas de ampla largura, algo bem diferente das vilas, becos e travessas daquela espécie de ninho onde nasci. É certo que nos primeiros anos tive o privilégio de poder contemplar o mar do alto do meu terraço - e utilizo o verbo ‘ter’ no pretérito perfeito simples porque, mesmo em desacordo com o Plano de Urbanização aprovado para o local, alguém autorizou a implantação de um masmarro de betão, de altura desmedida, mesmo em frente da minha casa. Reconheço que, talvez para me compensarem, acabaram por vender o andar em frente do meu terraço, a meia dúzia de metros, a uma senhora dotada de exuberantes atributos físicos que, quando eu lia ou escrevia no terraço, sentado na minha cadeira, me fazia companhia do outro lado da rua. Contudo, sendo eu uma pessoa de natureza discreta, pouco dada a deslumbramentos embasbacados, acabei por retirar do terraço o meu assento predilecto, transferindo-o para a traseira da casa, virada para um frondoso jardim de onde assistia aos passeios diários dos canídeos que, pela trela, ali iam (e continuam a ir…) satisfazer as suas necessidades fisiológicas. Isto aconteceu por altura da revolução dos cravos, como já referi, quando a modernidade se instalou no país.

Entretanto, passado que foi o período de encantamento que a mudança me ofereceu, dei por mim a ser invadido por um vago desapontamento que não tardou a transformar-se em franca consciência do erro cometido. Quero o meu bairro de volta. Não me sinto bem aqui. Falta-me qualquer coisa indefinida que se está transformando em pesadelo! Posto em palavras breves, eram estas as reflexões que ressumavam do meu estado de espírito malcontente. Sentia falta dos bons dias que dava e recebia quando pela manhã saia de casa a caminho do trabalho. Dos sorrisos de amizade que os acompanhavam. Dos reencontros ocasionais ou previstos com os amigos de todas as horas, os tais que me acompanharam e que eu acompanhei nos bons e maus momentos, deles e meus. Dos que partilhavam comigo e eu com eles as confidências mais intimas, os anseios que alimentávamos no decurso da mútua fraternidade que desde sempre foi a matriz das nossas relações, partindo depois felizes pelas palavras de incitamento ou de advertência que dava ou recebia. Não me restavam dúvidas de que os meus novos vizinhos eram diferentes, de natureza singular, pessoas feitas de matéria estranha à qual, por mais que me esforçasse, não conseguia adaptar-me.

Até hoje – e já lá vão trinta e tal anos – tudo continua na mesma. Na minha rua, nos prédios contíguos ao meu, vive muita gente que eu não conheço. Homens e mulheres com quem me cruzo desde há anos mas dos quais nem sei o nome, uma amalgama de cidadãos dos quais apenas distingo raríssimas excepções. Nada de cumprimentos, de um sorriso de simpatia, de um gesto desafectado. Todos preocupados apenas com as suas vidinhas privadas, com os seus ‘popós’ brilhantes, com a exibição ostensiva das suas singularidades, das trivialidades que os distingue dos demais. Do efeito que se esfalfam a mostrar quão acima estão da mediana ‘gentinha’ que os cerca, como eu.

Não! Realmente por mais que o deseje, confesso-me incapaz de vir a adaptar-me ao modus vivendi que caracteriza a zona que escolhi para viver. Só que, infelizmente, sou eu agora quem se recusa a mudar por estar velho demais para mudanças.

*
Quando abri a caixa do correio não queria acreditar. Numa folha de papel dobrada em quatro uma notificação da Polícia Municipal do concelho onde resido dava-me como destinatário de uma denúncia de contra-ordenação sob a acusação de “alimentar aves atirando pela janela produtos alimentícios”. Tal designação, abrangente, logo me trouxe a imagem bizarra de alguém ter estado entretido a atirar pela janela da minha casa: uns bifes do lombo, um cozido à portuguesa, um bacalhau com ‘batatas a murro’ ou uma bem temperada sopa de legumes para alimentar os pássaros.    

Fiquei estupefacto!

Indagando junto da minha consorte, veio pronto o esclarecimento: “fui eu, realmente”, confessou. “Quando vi tantas aves a depenicar em vão pelo meio da relva peguei num meio papo-seco, já duro, que tive o cuidado de humedecer, e lancei-o para o relvado do jardim (existente nas traseiras do prédio, como já referi) na intenção de mitigar a fome das aves que por ali deambulavam em busca do que comer. Nunca pensei” - diz-me ela agora - “que um pobre papo-seco ressequido tinha o poder de despertar o que de mais sórdido um indivíduo pode guardar na sua alma fétida: a avidez da denúncia”. Na altura, quando vi as aves em manifesta carência alimentar só me ocorreu lançar mão de algo que lhes calasse a fome. Agi impulsivamente e só depois racionalizei que o não devia ter feito”.

Compreendo a clara indignação da minha companheira de mais de meio século. Se a ocorrência tivesse tido lugar no velho bairro onde ambos nascemos e vivemos tantos anos certo estou que o vizinho incomodado com aquele gesto de ternura ter-nos-ia batido à porta para lembrar que é proibido dar de comer aos pássaros e que esse crime é ressarcido com pesadas coimas. No caso vertente, um reparo feito directamente, de viva voz, entre pessoas que se querem bem, lembrando a legislação vigente e o desejo de pretender evitar eventuais consequências punitivas, teria colmatado o delito cometido, sendo digna de agradecimento. Ao contrário, a descida à denúncia soez só serve para dar corpo a um ou mais pontos contidos no parágrafo que se segue:

Os tais produtos alimentícios (destaque-se o plural) que o denunciante viu como um banquete pantagruélico não passavam, afinal, de um meio papo-seco já impróprio para voltar à mesa. Torna-se assim evidente que a ideia de exorbitar o corpo de delito denunciado manifesta, no seu autor, duas ou três aberrações a ter em conta: 1) ao sujeito deve agradar-lhe alimentar (vá-se lá saber porquê…) uma mal dissimulada antipatia relativamente os seus vizinhos; 2) talvez considere que estes estão aquém do seu nível sócio-intelectual ou, em alternativa, 3)) padece de um pendor patológico delirante que era muito apreciado nas hostes repressivas do antigo regime mas que hoje só emerge em casos de incurável transtorno psicológico.

Crédulo como sempre fui e cônscio dos meus deveres de cidadão responsável desloquei-me às instalações da Polícia Municipal da minha zona de residência prontificando-me a liquidar a eventual multa. Entreguei o aviso deixado na minha caixa de correio e fiquei a aguardar. Contudo, pelo que observava, as sucessivas tentativas feitas para localizar o processo levantado contra mim mostravam-se teimosamente vãs. Até que por fim…

“Mau caro senhor, este papel é uma falsificação. Primeiro, não faz parte dos impressos padrão utilizados por nós para notificar quem quer que seja. Depois não encontramos nos nossos serviços qualquer referência a este caso. Aliás, nunca deixamos uma notificação na caixa do correio, entregamo-lo em mão e, no caso de o destinatário estar ausente, voltamos outra e outra vez até o encontrarmos.” E acrescentou “De resto o número de processo aqui indicado nem sequer existe”. E prosseguiu, com duas perguntas insistentes: “O senhor falou ou foi abordado por algum agente na altura da ocorrência? “Não viu nenhum agente no prédio?” Neguei as duas hipóteses, evidentemente. E finalmente ouvi a opinião de um agente que pela natureza das suas funções deve já ter testemunhado situações tão inverosímeis como a que eu apresentava: “deve ter sido alguém da vizinhança...”

Face às circunstâncias estranhas em que fui envolvido e depois de ter acedido ao pedido de autorização para fotocopiarem o malfadado papel, só me restou guardá-lo depois no bolso, agradecer a atenção dispensada e sair, cogitando para os meus botões: ‘quem teria falsificado o presumível documento? E com que propósito o fez? Quem seria capaz de tamanha abjecção?’ Claro está, que não sou adivinho, mas já galguei muita estrada de vida vivida e, nesse longo percurso, conheci alguns tratantes que confundi com gente boa e que me levaram ao engano. Daí ter somado, no caso que relato, algumas conclusões que não serão de todo desprezíveis. Permitam que as guarde para mim…    

Este episódio ocorreu de facto em Outubro de 2012 e a sua narração, aqui, vem à guisa de ilustração para que melhor se compreenda o texto que o antecede.

10 de outubro de 2012

“O país está de tanga!”

Luís Farinha


Recuando no tempo recordo ainda quando há anos o então primeiro-ministro Durão Barroso lançou o brado de alerta: "O país está de tanga"! Tratava-se de um aviso à navegação, aviso que teve o efeito de um balde de água fria atirada pela cabeça abaixo dos que já se convenciam de que estávamos próximos dos nossos vizinhos europeus no que respeita ao nível de vida.

Será por isso, crêem agora muitos, que a supracitada frase de Barroso esteve na base e deu motivo à sua inopinada "fuga" para Bruxelas, deixando perplexos os que ingenuamente acreditaram nas suas promessas eleitorais. Mais ainda quando, na cerimónia da tomada de posse, o ouviram jurar que iria cumprir com honra o lugar para que fora designado.

É provável que outros primeiros-ministros antes ou depois dele se sentissem obrigados a não aceitar o emprego que lhe ofereciam em Bruxelas, respeitando a palavra dada, mas ele lá saberá por que terá decidido da maneira tão pouco edificante: a verdade é que “mandou às malvas” o compromisso tomado com os portugueses e despediu-se “à francesa” como quem diz… “quem vier atrás que feche a porta e, já agora, que não se esqueça de apagar a luz”. Atrás de si deixou o caos. Decorria o ano de 2004.

Se nessa altura Portugal estava de tanga, hoje provavelmente até a tanga já lhe caiu.

O País atravessa o momento mais crítico das últimas décadas… isso é incontestável. A tal ponto que até já não vale a pena os mais idosos gastarem as meninges na ânsia de preverem o que lhes está guardado para resto dos seus dias, enquanto os mais novos vão perdendo a esperança de que melhores tempos virão, antes de serem velhos.   

A crise veio para ficar, é fácil de entender. O que é verdadeiramente assustador é o país que vamos legar aos nossos filhos, netos e, se calhar, aos bisnetos. Isso é que é inquietante. São eles que herdarão os prejuízos dos pecados e excessos hoje cometidos pela sucessão de políticos mal amanhados que, por azar, nos têm saído em rifa.

Por agora já muita gente faz votos de que, face à impossibilidade desta penúria melhorar a curto prazo, pelo menos que as coisas não fiquem muito pior do que já estão. O que, convenhamos, parece uma miragem se levarmos em conta o cenário actual.

Na televisão, rádio e jornais vimos e ouvimos opiniões e debates alarmantes sobre a tempestade que nos avassala. Neles faz-se a análise da mais que precária situação económica presente, ao mesmo tempo que se contestam as medidas que os actuais governantes entendem como inevitáveis. Enquanto isso, o povo vai aos poucos, finalmente, acordando da letargia a que se tem acomodado, considerando agora os excessos e abusos contra si cometidos ao longo dos últimos meses. O anúncio da projectada alteração da Taxa Social Única (TSU) foi, por assim dizer, a gota de água que fez transbordar o copo já cheio de outros desmandos igualmente iníquos perpetrados contra o povo da Nação. Parece, assim, ter chegado o momento de dizer: basta! Daqui se poderá concluir que daqui para a frente já nada será como dantes. Basta que levemos em conta a manifestação do Terreiro do Paço em 15 de Setembro passado e as que se lhe sucederam.

4 de outubro de 2012

Lembrar o passado em Lisboa


Luís Farinha


Eu não sei se isso acontece convosco. Não sei se, como eu, também lhes dá de vez em quando para recordar o tempo da vossa juventude, como se o estivessem a viver de novo. A mim acontece-me, principalmente quando vagueio por esta Lisboa que foi o berço e o espaço geográfico da minha vida inteira. Acontece-me também quando, fechado nos silêncios que vão sendo cada vez maiores, tento evocar os amigos (homens e mulheres) que foram ficando pelo longo caminho que deixei para trás.

Umas vezes, as recordações deixam-me feliz; outras, pelo contrário, trazem-me alguma tristeza. Tudo isso porque, como vocês sabem, a vida de cada um de nós não tem, exactamente, aquela cor rosa suave com que muitos, à viva força, a querem pintar.

O que interessa, meus amigos, é que no balanço da vida vivida de um sujeito como eu, que já começou a contar o tempo em sentido decrescente, o saldo seja francamente positivo, como foi o meu.

Por falar disso e por estranho que pareça, a verdade é que o balanço que a maioria de nós faz da vida que deixou para trás, é quase sempre positiva. E isso, porque se dos episódios que vivemos fizemos um bom aproveitamento, então os que rotulamos de menos felizes servem, pelo menos, para enriquecer a experiência que mais tarde ou mais cedo acaba por dar frutos.

É claro que há também quem da vida não consiga extrair ensinamento nenhum, por mais inteligente que se julgue, mas isso não vem agora a propósito…

No fundo, só é pena que quando a vida já nos ensinou tudo o que havia para aprender, quase sempre já é tarde para utilizarmos as lições que ela nos facultou.

Talvez seja por isso mesmo que hoje me limito a olhar com saudade para o tempo que passou, convencido que se uma máquina do tempo me levasse de volta à juventude que ficou para trás, tornaria provavelmente a fazer os mesmos disparates, os tais que hoje não passam de recordações prestes a extinguir-se, como eu próprio me vou extinguindo ao correr imparável a caminho do pó de onde um dia vim. Contudo, de uma coisa estou eu certo: essas vivências ajudaram a fazer de mim o velho que hoje sou e de que não me envergonho.

Chamem-lhe nostalgia, saudade, o que quiserem. Para mim, recordar é apenas um dos poucos exercícios que me restam, porque velho que sou, só me sobra o passado, já que o presente pouco tem de atractivo.

Dizia eu que as recordações me assaltam com mais frequência quando vagueio por Lisboa. Porém, verdade seja dita que, na cidade grande, já poucas referências vão sobrando do tempo em que ela, mais humanizada, era um encanto para os olhos e um prazer para os sentidos.

Tal como acontece com a vida que até agora vivi, Lisboa não é hoje mais do que uma vaga lembrança perdida nos fumos do tempo. Tempo que ficou para trás e que jamais voltará.

No fim de contas, meus amigos, é sempre penoso virar a última página de um belo livro que se leu com prazer.