22 de setembro de 2012

Onde pára a consciência social?

Luís Farinha


Numa crónica aqui publicada há algum tempo tentei mostrar como em Portugal tem sido possível – sendo já corrente – os cidadãos percorrerem uma vida inteira a dar no duro a fim de se integrarem como membros de pleno direito na comummente designada “classe média”. Só que, concluem mais tarde, já na curva descendente de uma vida revestida de decepções, tudo não passou de um esforço inglório, ao verem-se reduzidos a uma condição económica sumamente precária e humilhante. É então, ainda que tardiamente, que conseguem perceber como o sistema trata a classe rasca dos que vivem unicamente do seu trabalho. Limpo o suor do rosto, alquebrado por uma vida inteira de expectativas defraudadas, resta ao povo da Nação as sobras de um Estado pensado para benefício dos seus protegidos e da sempre crescente fauna de espertalhões sem pejo, que vivem à espreita de uma boa oportunidade para chamar a si os frutos do trabalho alheio, a riqueza que a todos pertence. Este continua a ser um cenário que tem vindo a expandir-se e que, pelo que nos é dado observar, promete perpetuar-se ao longo de incontáveis gerações vindouras.

Ser pobre, na verdadeira acepção do termo, parece ser o destino que tem vindo a implantar-se nos nossos dias ante a loquacidade presumida e iludível dos que se chegam à frente prometendo retirar a nação do lamaçal para onde foi precipitada pela ganância de muitos e a inaptidão de uma sucessão de políticos mal alinhavados. Na verdade, o sentimento geral dos cidadãos comuns aponta cada vez com mais veemência para uma realidade que ressalta das conversas ocasionais: Portugal está a ser remetido para o rol dos países mais desvalidos no contexto das nações europeias. O ponto crucial conducente a essa conclusão, na opinião do povo anónimo, foi o pedido angustiado de ajuda externa, ajuda que acabou por ser concedida a custo especulativo de meter medo ao medo e da consequente perda de autonomia que nos foi imposta e que nos avilta enquanto nação independente quase milenar.

Os portugueses vivem, nos tempos que correm, em profunda expectação. Como se pisassem terreno minado, olham a estrada que têm em frente sem vislumbrarem o caminho a seguir. O destino, pressentem, é um deserto chamado nenhures e por isso ficam parados, absortos, revoltados com a sua ingenuidade, sem conseguirem atinar como foi possível terem-se deixado cair no logro que uma caterva de indivíduos - para quem a honra não passa duma expressão retórica - lhes armou. E por aí se quedam, sem defesa, à mercê das aves de rapina que esvoaçam à sua volta, espreitando onde podem bicar sem que castigo lhes venha. Indo mais ao fundo da questão, de uma coisa estou certo: se a riqueza da nação se esfumou é porque foi dissipada em aplicações abusivas ou inadequadas ou porque alguns - por vias escusas - dela se assenhoraram sub-repticiamente, à socapa dos que para a mesma contribuíram: os cidadãos sistematicamente despojados dos seus direitos fundamentais para que aos ricos não falte o adubo que lhes faz crescer os cabedais. Ou então há que admitir que a lógica é uma expressão vazia de significado.

Convém não perder de vista que os ricos são insaciáveis. Por mais que esbulhem e amontoem não curam a obsessão de verem os milhões acumulados aumentarem até ao infinito. Não é em vão que a Forbes se dá ao cuidado de, anualmente, anunciar ao mundo os nomes dos ricos mais ricos do planeta. O anafado Carlos Slim Helu, do México, é o nababo que a todos leva a palma com os seus 74 mil milhões de dólares. Depois vêm os outros, os que se esfalfam para, sem perder tempo com minudências, conseguirem destronar o sôfrego acumulador de dinheiro. Somando sempre, em 2011 a fortuna de todos os bilionários dignos desse título chegava ao total de 4,5 triliões de dólares. Deles fazem parte, obviamente, alguns nomes portugueses, gente renomada pelas fortunas que detêm e pelos negócios que exploram. Pessoas que conseguiram enriquecer numa sociedade manifestamente pelintra, ressaltando ainda a constatação de que têm sido ajudadas pelo regime a manter incólumes - se não mesmo a engordar - as suas riquezas, por razões que escapam à classe rasteira.     
Prova insofismável da linha de orientação que acalenta os sonhos dos que se deleitam nas fortunas construídas ou herdadas pode ser extrapolada duma notícia que veio a lume em data recente:
“Gina Rinehart (a mulher mais rica do mundo), dona de uma fortuna de cerca de 14 515 milhões de euros, enriqueceu depois de herdar o dinheiro e de se ter tornado a principal acionista da empresa mineira australiana Hancok.
Rinehart culpou as políticas ‘socialistas’ anti-empresas por infestar a Austrália de pobres e vagabundos, instando o governo a reduzir o salário mínimo e os impostos às empresas se não quiser acabar como a Grécia.”

Tal exemplo serve para mostrar a dificuldade que os bem instalados têm em aceitar uma sociedade que leve em conta os interesses dos que vivem exclusivamente do seu labor. Além de que explica, igualmente, por que é que os políticos no poder são tão destros a criar contribuições que penalizem os trabalhadores  enquanto, ao mesmo tempo, favoreçam os patrões. Na dicotomia ‘ricos versus pobres’ o esquema prevalecente obedece à seguinte regra: menos impostos para os primeiros, menos salários para quem os ajuda a enriquecer. Daqui ressalta uma conclusão elementar: uns seriam menos ricos se os outros fossem menos pobres.

Como se sabe a sociedade portuguesa tem dois milhões de carenciados. Nada menos do que dois em cada dez portugueses sobrevivem com menos de 60 por cento da média nacional de rendimentos. E o que mais dói em tudo isto é que enquanto o Estado faz “vista grossa” aos grandes caloteiros fiscais (embora saiba bem quem são e onde estão), aperta até ao estertor os membros da “classe média” que, por imposição da lei instituída não podem escamotear um centavo que seja do seu rendimento de trabalho. Esta forma de “colheita” é mais fácil e “muito mais cómoda”, daí a razão da preferência que o estado demonstra pela cobrança activa a contribuintes passivos.

Discutíveis são as normas impostas por quem, muito senhor de si e cioso do seu poder, ordena acções concebidas no conforto dos seus gabinetes sem ter em conta as particularidades que norteiam a vida de todos os cidadãos. Sempre que tal acontece fica desnudada a muitas vezes comprovada ausência de consciência social.

16 de setembro de 2012

Por favor, não me enganem mais!

Luís Farinha

Estou absolutamente convencido de que, ao contrário do que muito boa gente pretende, somos apenas o somatório daquilo que a vida fez de nós.

Pode ser que os sinais genéticos que trazemos das origens possam também contribuir para a formação da nossa personalidade, aceito que assim seja, mas… meus amigos, não tenho qualquer dúvida de que as boas ou más pessoas que somos, resultam quase inteiramente da maneira como, ao longo da existência, fomos absorvendo as lições que a vida nos deu.

Tudo isto porque nada acontece por acaso!

São os pequenos e grandes acontecimentos da vida de cada um de nós, as boas e más recordações que vamos guardando nos recessos do nosso subconsciente que, no presente, marcam a maneira de ser que caracteriza as pessoas em que nos tornámos. Por exemplo: o amor que somos capazes de dar aos outros só pode ser ditado pela brandura que as lições da vida plantaram no nosso coração. Do mesmo modo, a impaciência ou a dureza que demonstramos nas nossas relações com os que nos rodeiam, só podem ser inspiradas pelas injustiças e pelas experiências amargas que fomos somando ao longo do tempo que deixámos para trás.

Não vale a pena fingirmos que somos o que não somos. Como diz a sabedoria do povo, “a mentira tem pernas curtas”!

Quer isto dizer que a bondade da alma é um sentimento que se não pode imitar eternamente. Do mesmo modo, a maldade do coração torna-se indisfarçável quanto mais nos esforçamos para a esconder.   

É por isso que eu acredito que cada um é apenas aquilo que a vida fez de si, não fazendo sentido que andemos por aí fingindo o que não somos. Com isso, não enganamos ninguém. Ou melhor… só nos enganamos a nós próprios.

Gente de faz-de-conta é o que há demais por aí. Encontramo-la por todos os cantos, no seu afã de parecer o que não é, na sua canseira de enganar os outros. Nos meios de comunicação, na vida social, na política, nas relações mais íntimas…

É por isso que me apetece dizer a alguns que me abraçam, fingindo afectos que não sentem: por favor, não me enganem mais!

Seja pela idade que já tenho, ou do muito que vivi. Seja até, quem sabe, em função destas duas razões, a verdade é que cada vez me doe mais a dissimulação dos impostores.

14 de setembro de 2012

Percebem… ou é preciso fazer um desenho?

Luís Farinha


Se a memória não me falha, após a revolução de Abril nenhum governo foi tão repudiado pelos cidadãos como o actual.

As sucessivas investidas contra a classe média, em particular contra os que estão no fundo da escala laboral da Nação, têm vindo a fazer crescer a animosidade de milhões de portugueses, mais ainda porque, em compensação, torna-se por demais notório o empenho dos que a si chamaram a incumbência de ‘governar’ Portugal de salvaguardar os interesses privados dos detentores de riqueza.

Embora tendo em conta o grave desequilíbrio económico gerado e desenvolvido pela sucessão de governantes inaptos que têm ocupado as cadeiras do poder, é por demais evidente o projecto de mudança social que move e orienta os novos inquilinos de São Bento. Por mais que neguem esse desígnio não há outra forma de justificar as medidas que têm vindo a ser tomadas, com destaque para as que foram anunciadas às 19,20 horas do passado dia 7 de Setembro passado, uns breves minutos antes do jogo da bola transmitido pela RTP1.

Sublinhe-se que até esse pormenor é susceptível de levantar suspeitas, dada a fixação que os portugueses têm num bom desafio à ‘borla’, para mais com o Ronaldo em campo. Contas feitas, era concebível que logo que o jogo começasse a má impressão causada pelas “novidades” do doutor Coelho seria de imediato diluída.

Afinal, não foi isso que aconteceu, como se constatou pelas reacções verificadas nas horas que se seguiram e que continuam a crescer em volume e agudeza.

Na verdade o povo da Nação começa a denotar uma viva animosidade face ao constante agravamento das medidas de austeridade que, escudadas na imagem duma Troyca impiedosa, parecem indiciar desígnios que não encaixam lá muito bem na prometida ‘vida melhor para os portugueses’.

Na entrevista que o primeiro-ministro concedeu à RTP1 no passado dia 13 ficou bem clara a sua determinação em não introduzir alterações ao modelo governativo adoptado pelo executivo em funções. Tal posição contrasta porém com a onda de protestos emanante de todos os sectores da vida pública, inclusive de figuras destacadas dos próprios partidos no poder, o que é sintomático da discrepância que anda no ar. Desta grave conjuntura ressalta então o seguinte dilema: como se irá conseguir a concórdia indispensável ao restabelecimento do equilíbrio da sociedade e, em particular das forças no terreno para levar adiante a tão almejada estabilidade económica e social da Nação Portuguesa?

É preciso, é urgente considerar que o que está em jogo não é uma trivial peleja despoletada pela teimosia de que a minha é maior que a tua. O centro da questão reside na procura e criação de um clima de tranquilidade para um povo já cansado de promessas inócuas.

Percebem… ou é preciso fazer um desenho?                

6 de setembro de 2012

À beira do abismo?

Luís Farinha


Quando iniciei a publicação do blogue “Histórias do tempo que passa” tive o cuidado de advertir os eventuais leitores de que este projecto consistia em tornar públicos alguns episódios ocorridos ao longo dos meus muitos anos de vida. Como então sublinhei, era minha intenção fazer eco de algumas estórias verdadeiras que pela sua peculiaridade pudessem mostrar aos homens e mulheres de hoje quão diferente é o tempo presente em comparação ao que então vivi. Contudo, ressalvei a possibilidade de uma vez ou outra me permitir abordar aspectos relativos à situação lamentável que Portugal atravessa, dando assim vazão à ansiedade que se aninha, subliminarmente, no sangue dos que um dia escolheram a minha profissão como modo de vida, tornando-nos incapazes de assistir, mudos e quedos, à sedição que nos envolve, por mais sossegados - ou afastados - que nos queiramos manter.

*
Quem diria que a situação dramática que se vivia há pouco mais de um ano viria a decompor-se em ritmo imparável, como veio a acontecer?

Afinal, ao contrário do que muitos pensavam (eu incluído quando dei início a este blogue) Portugal não atravessava uma crise mais ou menos grave, igual ou parecida com outras antes ocorridas e mais ou menos resolvidas e ultrapassadas. Um ano e meio depois, ao que assistimos é à transformação da sociedade tal como a conhecemos durante largos anos. Afastámo-nos a passos largos e irrevogavelmente dum tempo que nos permitiu ir enganando o dia-a-dia num cenário político e económico que nos implantou a convicção de que depressa voltaríamos a viver de promessas, de desculpas, do faz-de-conta, do deixa andar, de “os ricos que paguem a crise”.

Afinal, pese embora as mensagens de esperança dos políticos no poder, esta crise – se assim preferirem chamar ao que está a acontecer – veio para ficar, não havendo quaisquer expectativas, assentes em bases consistentes, de que entretanto venha a ocorrer um retrocesso que nos leve a acreditar que estamos de regresso à vida que tínhamos antes do desencadeio da calamidade ora implantada. Vida que não era boa, na verdadeira acepção do que isso queira significar, mas à qual estávamos habituados, fazendo de nós, portugueses, se não seres acéfalos, insensíveis, pelo menos cidadãos acomodados e viciados na falsa convicção de que é ao estado que pertence o papel de mentor da nossa vida inteira.

Participar na vida colectiva da Nação é a obrigação de todos os que aqui nasceram e têm vivido. Esse é, de resto, o apelo subjectivo que o governo em exercício nos tenta inculcar sempre que tem em vista a introdução de mais uma taxa contributiva, o aumento de outra já existente ou a anulação de um qualquer benefício que antes servia de máscara à pobreza endémica dos portugueses. Trata-se, é verdade, de um recurso plausível no contexto duma nação em crise, mais ainda se se constatar que o “sacrifício” é repartido por TODOS proporcionalmente à condição económica de cada um, e que o próprio estado vai finalmente tomar em mãos a sua auto-disciplina pondo ponto final à rebaldaria de confundir gastos essenciais com esbanjamento à tripa-forra, uma das razões que empurraram Portugal para o lodaçal em que acabou por se atolar.

Mas será isso expectável?

Todos sabemos que não.

Quando na guerra do Solnado, um sábio sabido descobriu a forma mágica de poupar dinheiro nas munições que se gastavam no campo de batalha, estabelecendo que, daí em diante, atar-se-ia um cordel a cada bala que, depois do disparo, seria puxada para em seguida voltar a ser utilizada, todos ficámos boquiabertos com o sentido de poupança do tal estratega. Só que por azar nosso esse cérebro já deu a alma ao criador não nos podendo ajudar agora, nesta hora de aperto. Contudo, não consigo impedir-me de imaginar o que ele faria nas circunstâncias actuais… Homens daqueles já não há.

E é pena…

Crédulo como sou, confesso que senti reacender-se a minha já desgastada capacidade de expectação quando o actual painel governativo entrou em funções. Gente nova, aureolada com currículos profissionais de se lhes tirar o chapéu fizeram-me olhar com renovada esperança para os tempos que iam seguir-se. Para cúmulo, com uma ou outra excepção, a maioria dos elementos acabados de tomar posse não vinham contagiados pela gonorreia politiqueira que tantos estragos já tinham causado ao país nos sucessivos governos em funções desde há décadas a esta parte.

Foi curto o meu devaneio…

Um par de meses depois já não consegui evitar que a decepção me atingisse, acabando de vez com a ilusão de que - como ouvia aos velhos quando eu era criança - não há bem que sempre dure nem mal que não se acabe, um aforismo que, vim a descobrir mais tarde, nos empurrava para o conceito de que nada é definitivo, convidando-nos a aceitar as contingências do dia-a-dia, por mais dolorosas que fossem. Voltando porém à actualidade, decorrido o período da “Lua-de-mel”, conclui que as cadeiras existentes nas nobres salas do poder devem estar contaminadas com um vírus pestilento a que ninguém consegue resistir. Só isso, de resto, conseguirá explicar a mudança insidiosa que vinha já chispando sinais de alerta face a algumas acções inadequadas dos tão dotados(!) artífices da desejada (e prometida) recuperação da economia nacional. Só um eventual contágio infeccioso poderia explicar que a arquitectura do plano gizado com vista a essa recuperação passasse, desde logo, pelo sacrifício dos que menos condições económicas tinham para o fazer. Na repartição das medidas adoptadas, foi a classe não protegida que foi chamada a avançar enquanto os mais endinheirados, os ‘imunes’ (como lhes chama José Gil) se esfalfavam a pôr a salvo, no estrangeiro, as suas fortunas acumuladas à custa do esforço dos eternos ‘pagantes’ da Nação. Afinal, foi neste pequeno país, na ponta da Europa, que essas fortunas foram acumuladas - ou pelo menos iniciadas -, quer aceitemos ou não essa realidade.    


Embora discretamente afastado da política activa, Diogo Freitas do Amaral foi convidado da jornalista Fátima Campos Ferreira para uma entrevista na RTP, no passado dia 5 de Setembro. Razão do convite: comentar a situação preocupante que Portugal atravessa. Embora comedido nas suas observações, como é jeito seu, Freitas do Amaral não deixou de reconhecer que considera o actual executivo governamental como não estando à altura da tarefa para que foi nomeado, afirmando ainda que “A receita da Troika está errada”. A “austeridade punitiva” exercida pelo governo tomando por alvo preferencial a já tão debilitada classe média com o objectivo de enfrentar a actual situação, foi também comentada pelo entrevistado em jeito de crítica à incapacidade demonstrada para pôr em marcha outras medidas que, na sua opinião, terão sempre de passar pelo aumento da produtividade. Fugir a essa realidade, assegura, só pode aprofundar ainda mais a já dramática situação em que nos encontramos. Relativamente ao mutismo obstinado dos senhores governantes quando se evoca a falta de proporcionalidade sempre que se trata de impor mais um aumento fiscal, uma sobretaxa qualquer ou a criação de um novo imposto será curioso referir como a opinião de Freitas do Amaral acerca desta questão é coincidente com a da chamada classe média, a que mais sofre com a negação de uma mais justa justiça social. “Acho que devia haver, da parte do governo, uma tributação especialmente pesada sobre as pessoas que mais têm, porque há um velho princípio que consta da civilização ocidental e da doutrina cristã que é: ‘Dos que podem aos que precisam. E há muita gente a precisar e muita gente a não dar o que pode’. E o ex-ministro rematou: "Uma pessoa que, na modéstia dos nossos índices salariais, ganha mais de dez mil euros por mês é uma pessoa privilegiada. E os que ganham 50 [mil] são muito privilegiados. E os que ganham 200 mil euros, porque os há, esses são tubarões".

Do que tenho lido e ouvido ultimamente acerca do manifesto desmoronamento da sociedade portuguesa fico com a impressão de que a insistir em navegar nesta onda Pedro Passos Coelho se arrisca a ficar na história não como o salvador mas como o coveiro da pátria. Saldo que seria lamentável para ele, para mim que nele votei e para Portugal que bem merecia outro destino.

Vai longo o meu comentário. Mas como é óbvio, não podia deixar de explicar a que se ficou devendo o ‘desvio’ registado, relativamente ao projecto que há cerca de um ano e meio me lembrei de pôr em marcha.   

29 de agosto de 2012

O adultério é tão velho como o mundo!

Luís Farinha
  
  
É uma verdade incontestável e a prová-lo estão vários capítulos da história, que nos contam casos ocorridos com personagens que a história registou e perpetuou através dos tempos.

Sendo verdade, mesmo assim tenho para mim que a infidelidade conjugal tem vindo a acompanhar o avanço da sociedade pelos caminhos tortuosos da modernidade.

Na verdade, parece que tudo se conjuga para que a tão exaltada "fidelidade no casamento" esteja a tornar-se um conceito démodé a que só os mais velhos ainda se atêm.

E não deixam de ter alguma razão os que assim se expressam acerca desta velha questão...

Noutros tempos, o casamento era coisa para toda a vida! Os votos e as juras de fidelidade eterna eram para ser levadas a sério - pelo menos para a maioria dos casais. Isto, porque nesses tempos recuados havia já muito boa gente que fazia essa jura... mas que depois, vencida pela rotina que tudo adormece, lá acabava por dar a chamada “facadinha” no matrimónio.

Hoje, pelo contrário, ainda antes de "darem o nó", os jovens já vão dizendo, assim numa espécie de pré-aviso e com toda a naturalidade, que "se o casamento não der certo, estamos sempre a tempo de ir cada um à sua vida..."

... e o resultado dessa predisposição está bem à vista de toda a gente.

Actualmente, quantos casamentos se salvam do naufrágio? E quantos não acabam, de facto, na separação, pura e simples? Devemos aceitar a teoria de que isto tem algo a ver com a materialidade da sociedade dos nossos dias?

Pensando bem, sim... até talvez tenha ligação!

A mulher está mais emancipada do que antigamente, porque o ter de sair de casa logo pela manhã para cumprir a sua parte na angariação do "pão nosso de cada dia", a tanto a obriga. E quando regressa a casa, depois de um dia de trabalho a dar no duro, carrega consigo o "stress" produzido pelos problemas laborais, pelo medo de perder o emprego, pela luta pela sobrevivência, pelo ter que aturar patrões, chefes e colegas...

...e, em muitos casos, qual é o ambiente de intimidade que vai encontrar no "doce ninho" caseiro?

Talvez por isso mesmo, ela se veja, de repente, perante a tentação de uma evasão a tudo isso, perante o desejo insistente de fugir à rotina, de se "vingar" do tanto que a vida lhe exige e do tão pouco que recebe em troca...

Depois, há também a descoberta de outras formas de encarar os preconceitos e nisso os meios de comunicação, nomeadamente a televisão, têm uma grossa fatia de responsabilidade; que o diga quem dedica muito do seu tempo a ver as intermináveis telenovelas lamechas com que somos inundados...

Mas... a infidelidade vem também do elemento masculino do casal, do marido, dirão os leitores...

... é verdade, e também com ele, é válido o que eu disse acerca das esposas, evidentemente. No fim de contas, a verdade é que a carne é fraca e as tentações do mundo actual são mais que muitas! Ao mesmo tempo, o casamento é hoje, normalmente, o desfecho natural de paixões que o tempo se encarrega de desvanecer mais ou menos rapidamente; só muito raro ele, o casamento, é o remate normal do desejo de compartilhar, não só a cama, mas também a própria vida.

Enfim, amigos...

É altura, penso eu, de alguém se lembrar de perguntar: “mas... a que propósito veio ele hoje falar disto?”

Pois é, meus caros, realmente nada acontece por acaso. Se em jeito de conversa informal decidi hoje falar da infidelidade conjugal, é porque tomei conhecimento de mais um exemplo de que no melhor pano cai a nódoa. Desta vez, a nódoa caiu na vida de um casal que muito estimo. Duas pessoas cuja vida em comum eu considerava acima de uma situação desse tipo.

Infelizmente aconteceu o que eu menos esperava. O que prova, além do resto, que na vida, afinal, nada pode ser tomado como definitivo.


23 de agosto de 2012

Vamos reflectir…

Luís Farinha

Penso que é tempo de reflectir sobre os valores que têm vindo a desaparecer, tornando o mundo menos belo, as pessoas mais feias, o dia-a-dia cada vez mais sombrio.


Ultimamente dá-me muitas vezes para ficar a pensar no que vou deixar para trás. Fico a pensar, sobretudo, no bem que não consegui fazer, no amor que não fui capaz de dar, nas boas acções que deixei por realizar. E quando isso me acontece fico desolado, acreditem. Porém logo concluo que é tarde para corrigir o que só agora considero com importância bastante.

Provavelmente porque tenho consciência de que o tempo que passou foi para mim bem mais longo do que o futuro que imagino à minha frente, dou comigo a tentar fazer o balanço do que deixo para trás. Penso que é tempo de reflectir sobre momentos que não cuidei de preservar, agora que os valores que tornavam a vida mais aliciante e apetecível têm vindo a desaparecer, gerando um mundo menos belo, pessoas mais feias, um dia-a-dia cada vez mais sombrio.

Mas será que as pessoas, tal como acontece comigo, ainda sentirão capacidade para pensar nessas coisas? Ou esses são valores que a sociedade fez cair em desuso e eu é que, em desespero, a eles me agarro para pensar que a minha vida podia ter sido diferente do que foi se tivesse parado para pensar?

Quando olho à volta, verifico que hoje se tomam como qualidades formas de comportamento que antes eram consideradas autênticas aberrações de carácter. E os exemplos disso são-me oferecidos pelo próprio ofício que escolhi, o jornalismo, que se transformou num espectáculo quase sempre deprimente onde a “notícia” se mede, não pela sua importância intrínseca mas pelo efeito que se espera venha a causar. E, igualmente, pela classe política, cada vez mais falha de pudor, prometendo o que de antemão já sabe que não vai cumprir, enganando deliberadamente os eleitores.

Uma coisa é certa: a sociedade em que hoje vivo não é, nem pouco mais ou menos, aquela que eu imaginava nos tempos em que, jovem que eu era, ainda mantinha em pleno a capacidade de sonhar. Se então não canalizei esses sonhos como devia e podia, a culpa é só minha, pertence-me por inteiro, talvez porque não fui capaz de intuir o futuro.

Entrado na idade mentalmente adulta tenho vindo a assistir à transformação da sociedade nesta coisa feia que hoje é. Vejo valores antes essenciais, transformarem-se em excrescências dum sistema corrupto. Testemunho a consagração da vacuidade e a apoteose do protagonismo. Com surpresa, constato que tudo se vende e compra, inclusive o respeito próprio. A palavra dada, o compromisso inviolável, passaram a ser coisas vazias de sentido. A vergonha, que antes açaimava a indignidade, está hoje afastada dos compêndios da conduta pessoal. Evidente é a glorificação inebriante do poder económico que tudo impõe de acordo com os seus interesses privados. Sempre nessa esteira, para muitos dos seus sectários toldados pela determinação posta nesse propósito subjugante a honra torna-se elástica e o amor-próprio, por tão incómodo, sempre acaba por cair em desuso. Acreditem, tenho pena desses pobres-diabos, os ricaços que, na ânsia demente da insaciável sede de importância e do vício da ostentação a qualquer preço, ficam até incapazes de raciocinar que o dinheiro, os bens materiais e o poder a todos os níveis não são, como pensam, coisas imperecíveis. É assim, alimentando a pueril ilusão de pertencerem a uma casta dilecta vão exaurindo a sua própria existência, a única que lhes foi concedida, deles restando, no fim do caminho, um feixe de ossos anónimos ou um punhado de cinzas que retornarão à terra que outros hão-de pisar.

É esta a sociedade consagrada no começo do 3.º milénio. É este o mundo que legamos aos vindouros.

21 de agosto de 2012

Os labirintos da droga

Luís Farinha


Há razões para acreditar que chegaremos a um tempo em que nos vamos envergonhar do país que deixamos aos nossos filhos

O comandante da Divisão da PSP interrompeu a entrevista que me estava a dar e olhou para os recém-chegados com o ar ausente de quem já está habituado a cenas como aquela. Na esquadra acabavam de entrar dois agentes e com eles um jovem, seguro por um braço. Soube logo a seguir que se tratava de um toxicodependente com passagens habituais pela polícia. Um dos muitos que para satisfazerem o vício não recuam perante nada, inclusive o tráfico e o roubo. A impressão causada por este episódio veio-me confirmar que a abordagem aos problemas da toxicodependência não pode continuar a ser feita com discursos, apelos, processos de intenções com o único propósito de acalmar a turba.

Agora, quando para este flagelo já poucas são as hipóteses de cura, é que todo o mundo lamenta o ponto a que se chegou. Fazem-se e desfazem-se leis, inventam-se [no papel] esquemas de luta contra a proliferação da droga, abre-se – aqui e ali – mais um centro de recuperação [retiros que não passam de meros paliativos face à complexidade do problema], organizam-se tímidas campanhas para desincentivar o consumo, enfim... como baratas tontas procuram-se meios para remediar hoje o que antes, e a tempo, a sociedade não soube prevenir.

É errado pensar que a toxicodependência está consignada a alguns países, a algumas regiões, a determinadas cidades, a uns quantos estratos sociais. Não, o flagelo está disseminado por todo o mundo e vive ao lado de todos nós. O jovem que nós conhecemos, a menina que vimos crescer, o filho do nosso amigo, a nossa própria filha, ou filho, podem ser, sem que disso suspeitemos, consumidores habituais de droga, escravos desse vício maldito.

Os sinistros traficantes da morte insinuam-se nas escolas dos nossos filhos, nos nossos postos de trabalho, no café que frequentamos e até nas esquinas do bairro onde vivemos. Como ratos, eles proliferam por todo o lado, promovendo o hábito, semeando a desgraça, impondo o seu comércio miserável.

Instituiu-se o "Dia Mundial da Luta Contra a Toxicodependência", uma espécie de grito de alarme e de apelo desesperado de quem já pouco mais pode fazer. Entretanto, todos os dias mais jovens continuam a morrer, vítimas do vício odioso. Jovens para os quais a vida era, ainda ontem, um mundo de promessas. Todos os dias os jornais nos contam histórias de mortes desnecessárias de jovens que acabam no vão de uma escada, numa retrete pública ou noutro tugúrio infame, como se, de repente, tivessem decidido jogar a própria vida numa última e derradeira dose.

Entretanto, alguma coisa mais precisa de ser feita, quanto antes. No tempo que nos resta para nos redimirmos da acomodação cúmplice a que nos temos remetido durante anos seguidos. Só assim, talvez um dia não tenhamos de nos envergonhar do mundo que deixamos às gerações que hão-de vir.

18 de agosto de 2012

Falando de leituras

Luís Farinha


Era ainda criança, 9, 10 anos, quando – vá-se lá saber porquê – apanhei o hábito (ou o vício?) de ler. Sem pruridos de escolha, livro que me caísse nas mãos era de imediato devorado, acontecendo que, na maioria dos casos, nada restava dele para o dia seguinte. Dado, emprestado, cedido pela biblioteca ambulante que todas as semanas, em dia certo, estacionava no Jardim da Graça, o velho bairro de Lisboa onde nasci e vivi metade da minha vida, certo era que nesse período distante a leitura era o meu passatempo preferido. Percorri Camilo, Eça, Torga, Herculano, Aquilino, Virgílio Ferreira, à mistura com outros, muitos outros autores portugueses que não tiveram talento ou tempo para marcar lugar na história da literatura. Em dada altura, saltei para os brasileiros Jorge Amado, Érico Veríssimo, Drummond de Andrade, Assis e uma lista infindável de policiais de bolso, numa amálgama de letras que se tornaram companhia cúmplice de noitadas bem passadas pela madrugada adentro, sempre atento ao “controlo” paterno para quem o gasto desnecessário da luz do candeeiro de petróleo ou das velas de parafina era absolutamente interdito. Quantas páginas virei debaixo dos cobertores para que a luz da vela não denunciasse a minha infracção às ordens impostas pela escassez económica reinante nos tempos da minha infância. Os “missais”, (era esta a designação intencionalmente depreciativa como lá em casa eram apodados os livros) vinham emprestar significado às palavras que mais adiante ouviria ao meu pai quando eu, dando vazão ao que me ia na alma, mostrei o firme propósito de continuar a estudar mal terminasse a instrução primária: “cá em casa não há espaço para doutores!” dizia, como se fosse ponto assente que “estudar” era um privilégio de ostentação exclusivo das famílias mais ou menos abastadas. Outros tempos, penso hoje, esbatida que está a decepção que então sentia, calado. Só mais tarde, já dono do meu querer, tive ocasião de preencher lacunas que ficaram abertas à espera de melhores dias. Cumpri o meu destino, atrevo-me a julgar. E isso serve-me de compreensão e consolo no ocaso duma existência muito vivida. As decepções vão-se diluindo ao longo de cada etapa vencida, aprendi, bem ciente, agora, de como a repetição dos equívocos em que tropecei pela vida fora contribuiu para a construção do céptico que hoje sou.

Do mal, o menos…
    
O tempo passou e ultrapassados que estão os oitenta recordo o meu pai com imensa saudade. Como hoje gostaria de ouvir a sua voz severa a ordenar-me: “acaba lá com o missal e apaga-me essa luz, se faz favor!”

Sorrio, mas não é por maldade, asseguro-vos…


*

Falando de leituras, permitam-me trazer aqui uma ocorrência curiosa, recente e que deveras me apraz contar-vos.

Leitor compulsivo, como já referi, confesso que ainda hoje – e talvez mais do que nunca - os livros continuam a ser a minha praia, como agora se diz. Romance, ensaio, biografia, história, policial… confesso a minha dificuldade em assumir preferência, pois se o conteúdo é apelativo e para cúmulo está bem escrito, qualquer livro suscita de imediato o meu interesse. Foi isso que aconteceu com a obra que acabei de ler, três volumes de peso cujo autor, confesso, me era desconhecido.

Fazendo a minha ronda habitual aos expositores da livraria que habitualmente frequento, deparei com um livro que desde logo me espevitou a curiosidade. O autor, um jornalista de nacionalidade sueca, prematuramente falecido, nada me dizia, como já referi, mas logo me apercebi que a sua escrita era fluida e isenta daqueles preciosismos linguísticos tão em moda, agora, mas dos quais confesso, começo a ficar cansado.



“Os homens que odeiam as mulheres” é o título do primeiro volume duma trilogia designada “Millenniun”. O autor: Stieg Larsson, era um jornalista e activista político olhado de soslaio pela extrema-direita sueca e alvo de várias ameaças de morte feitas por gente incomodada com a posição política que, enquanto jornalista, assumia publicamente.

Só a meio do terceiro volume da trilogia Millennium decidiu procurar editor para a obra a que deitara mãos. Quis o destino, porém, que não tenha assistido ao sucesso internacional em que a mesma haveria de se tornar, com cerca de 15 milhões de livros vendidos. Larsson morreu repentinamente, vítima de um colapso cardíaco fulminante (segundo a notícia oficial) ao subir apressadamente ao 7.º piso do prédio onde estava instalada a redacção da revista da fundação por si criada, a Expo, através da qual denunciava as poderosas organizações da extrema-direita do seu país. Tinha 50 anos.

Voltando à prometida ocorrência, nessa primeira noite de leitura do livro recém- adquirido (coisa para 539 páginas…) logo me apercebi da singularidade e da força emanante da história ali contada. Assim, num impulso repentino peguei no telefone e liguei para a livraria, no centro comercial, e fiz a pergunta que me impacientava: “Têm os 2.º e 3.º volumes da trilogia Millennium? Sim? Por favor reservem-me um exemplar de cada. Amanhã passo a buscá-los. Obrigado…”

Como já referi, terminei agora a leitura do último volume da obra. Foram, no seu todo, 2100 páginas lidas com incontida sofreguidão. Há muito que não assumia uma tarefa dessa ordem com tamanha absorção, não por culpa minha mas talvez porque, ao correr do tempo, me fui tornando mais exigente. Não terá sido por acaso que a Trilogia Millennium me prendeu à leitura com uma espécie de frenesim que me sabia tão bem. Daí o permitir-me pensar (como antes referi) que a culpa não é minha. Culpa, se alguém a tem, deve ser atribuída por inteiro a Stieg Larsson pelo talento enorme que teve a arte e o saber de passar para o papel.

Se a distracção, como aconteceu comigo, ainda não vos permitiu reparar na Trilogia Millennium aqui deixo a advertência: não deixem escapar a oportunidade de a compulsar.

Acreditem que vale a pena…

8 de agosto de 2012

Já basta o que basta!

Luís Farinha


Neste nosso martirizado país há duas áreas de criminalidade cuja frequência e gravidade têm vindo a crescer sem que - pelo menos aparentemente - sejam tomadas medidas susceptíveis de as minimizar. Refiro-me à pedofilia e aos incêndios que têm vindo a devastar o que resta da floresta portuguesa. É certo que a delinquência vem registando nos últimos tempos, na sua globalidade, uma gravidade preocupante, porém as que acima destaco parecem em vias de se tornarem de todo insanáveis por razões que escapam ao cidadão comum já assoberbado de medo por outras razões.

Não quero com isto significar que, tanto a pedofilia como os fogos postos [ou causados por descuido], sejam actos condenáveis recentes, mas lá que têm vindo a aumentar gradual e rapidamente isso é verdade. Basta acompanhar as notícias dadas à estampa diariamente para o confirmar.

Dir-me-ão (e é verdade) que antigamente, no tempo da outra senhora, a censura - com a sua obstinação no sentido de preservar a idílica imagem de Portugal como “um jardim à beira-mar plantado” ou um país de “brandos costumes” - portava-se como cão-de-fila não deixando a comunicação social dar conta do que, no seu entender, manchava a reputação bucólica da nação edificada e mantida em estado puro pelo senhor presidente do conselho de ministros de então. É igualmente verdade que nesses tempos a polícia (GNR incluída) não era ainda ensinada a tratar o delinquente comum com respeito e parcimónia. Era bruta a explicar as coisas e, mal entrava no posto levando o sujeito preso por arreata, em vez de começar a fazer perguntas ia logo cumprimentando e dando as boas vindas ao eventual criminoso com umas bordoadas, assim em jeito de apresentação. Seja porque os tempos eram outros ou lá pelo que fosse, a verdade é que as famílias podiam sair à noite a ver as montras iluminadas das “baixas” de Lisboa ou Porto sem medo de serem assaltadas ou maltratadas e de dia ainda não usavam o hábito de evitar as ruas pouco concorridas, sempre alerta, olhando de soslaio ou por cima do ombro.

Mas voltando à execrável pedofilia é de crer que tal crime vem de longe, de muito longe. Acontece, porém, que a relevância suscitada pela liberdade de imprensa trazida pelo 25 de Abril põe agora a nu um crime que antes era ocultado pelo antigo regime em nome dos tais “brandos costumes” a que já fiz referência. Acresce ainda o facto de que o abuso sexual das crianças é, em muitos casos, uma bestialidade que ocorre no seio das próprias famílias e, nesses casos, a vergonha suscitada por tais acções canalhas evita normalmente que o seu conhecimento chegue ao domínio público.

Outro caso, porém, é o que tem os incêndios como cenário. Fogos sempre houveram e a sua ocorrência sempre teve origem em três causas directas: 1. falta de prevenção na limpeza e vigilância das matas; 2. descuido dos seus utentes nas queimadas mal protegidas e 3. fogo posto. No primeiro caso é ao estado que devem ser imputadas as culpas. A falta dessa medida é notória e persistente vá-se lá saber porquê. No segundo, elas as culpas, são devidas ao descuido ou irresponsabilidade de quem por esta ou aquela razão frequenta os locais arborizados sendo sintomática da falta de civismo dessas criaturas. Repetindo-me: já que a limpeza das propriedades privadas é da responsabilidade dos seus proprietários a falta de cuidado na limpeza das mesmas ou da sua utilização indevida deviam ser fiscalizadas sistematicamente pelas autoridades, nomeadamente no princípio das épocas quentes e secas, penalizando com dureza os prevaricadores. Resta abordar aqui os incêndios popularmente designados de fogo-posto. O vandalismo, a embriaguez seja de que tipo for, a vingança pueril, o interesse monetário, a maldade na sua expressão mais crua, a imbecilidade e a loucura são geralmente as causas susceptíveis de transformar o ser humano num animal irracional capaz desse crime hediondo. Chegados a essa conclusão, resta às autoridades perseguir e privar da liberdade por largo tempo os autores deste desvario devendo essa acção ser entendida como uma prioridade da justiça. Só isso, conclui-se, pode levar os energúmenos a considerar que realmente o crime não compensa.
           
As entidades oficiais bem jogam com a abstracção dos números das estatísticas, tentando com essa engenharia aritmética mostrar que estão atentas aos problemas da nação, acabando quase sempre por concluir que, afinal, o diabo não é tão feio como o pintam. Senhores políticos, do alto dos meus muitos anos já vividos permito-me recomendar-vos que essa estratégia já deu o que tinha a dar. De estatísticas buriladas está o cidadão cansado. É árvore que já deu frutos… mas que secou.

Eu sei, nós sabemos que por vontade dos senhores governantes os problemas aqui enunciados não deviam ser focados assim tão frontalmente porque fazem prova da descorada operacionalidade de algumas cadeiras sensíveis do poder. Mas, como qualquer burro teimoso, não consigo alhear-me de que há mais anos do que aqueles que alguns dos senhores têm de vida me venho esforçando para constituir a pedra de tropeço de alguns políticos que têm vindo a alcandorar-se nos altos poleiros dos governos da Nação para melhor servirem os seus interesses pessoais e os do seu círculo de influência partidária.

Fiquemos por aqui…   

Vamos mas é arregaçar as mangas e trabalhar a sério pois é isso que o povo espera e precisa.

Medidas, senhores, medidas…

Deixemo-nos de querer mostrar a beleza da montra, quando no armazém a indigência é deprimente.

Já basta o que basta!

28 de julho de 2012

O que é feito de ti, António!

Luís Farinha


Escrito e publicado em
11.Março.1997
  
Vou contar-lhes a história de António, um homem que conheci há uns três anos no Hospital-Prisão de Caxias, quando ali fui fazer um trabalho jornalístico. É uma história que fala do que pode acontecer a qualquer um de nós, quando o destino se empenha em dar-nos cabo da vida…
  
António esteve emigrado em França durante 23 anos. Com ele, vivendo naquela pátria adoptiva de cerca de um milhão de portugueses, esteve sempre a sua mulher. Lá lhe nasceram filhos e de lá voltou, um dia, cansado de tantos sacrifícios, ruído das imensas saudades da sua terra, tão perto de Lisboa.

Regressado, montou no sítio onde nasceu uma oficina de reparações de automóveis, o seu ofício de sempre, onde continuou a fazer pela vida. Comprou uma casa... e deixou-se ir, ao sabor de um dia-a-dia rotineiro, vendo os filhos arrumarem as suas vidas e esperando a velhice que entretanto ainda vinha longe.

Só que, segundo o seu relato, António e a mulher nunca se deram lá muito bem. Embora gostasse dela, o feitio de ambos, verdadeiramente incompatível, não lhes consentia um relacionamento amigável. Depois do regresso a Portugal a vida em comum de António e da mulher foi piorando progressivamente e, embora a idade já não convidasse a grandes mudanças, certo é que acabaram por se separar, indo cada um para seu lado.

Um dia, já bem perto dos cinquenta, António iniciou uma nova relação quando encontrou uma mulher que também já fora casada. Porém... talvez porque o seu feitio mais não permitia, algum tempo depois a convivência com o seu novo amor também passou a não ser pacífica. Era um "pega e larga" (palavras suas) em que os intervenientes nunca conseguiam entender-se. Mais do que uma vez, a vida em comum esteve prestes a consumar-se para ser, logo depois, uma e outra vez adiada, à espera de melhores dias...

E a vida ia assim andando - ou desandando - para António e para os seus familiares.

Um dia, esgotada de vez a paciência, farto daquela espécie de inferno que ele próprio se encarregara de ajudar a criar, de cabeça perdida, num acto irreflectido António pegou na espingarda caçadeira e disparou sobre a mulher com quem mantinha aquela espécie de relação doentia. Depois, desvairado, dirigiu-se a casa da esposa, de quem se separara havia três anos e voltou a atirar. Em seguida, acabou por fazer um último disparo... contra si próprio. No somatório de consequências a esposa morreu, a outra mulher ficou inutilizada para o resto da vida e António foi parar ao hospital com o lado direito do tronco estraçalhado pelo disparo. Levado a tribunal, depois de socorrido e tratado, foi condenado a 20 anos de prisão por homicídio tentado e consumado.

Um dia destes, durante algum tempo, estive à conversa com António, na cadeia onde cumpre a pena que lhe foi aplicada. Detido há três anos, e agora com 52, o homem que tenho na frente é um ser solitário, calmo e resignado. Fala serenamente e lamenta angustiado aquele dia de loucura de há três anos atrás. Além disso, tem uma mágoa. Os filhos votaram-no ao mais absoluto desprezo e isso, sim, é o que mais lhe dói.

Era isso o que António me dizia quando na sala onde estávamos entrou uma jovem. Parada, olhou à volta procurando alguém. No instante seguinte os seus olhos encontraram os de António e então caminhou até à nossa mesa. Em pé, um em frente do outro, calados, ele expectante, ela com os olhos vidrados tentando reter as lágrimas que teimavam em explodir… depois, num impulso retido a custo, a jovem abriu os braços cingindo o pai comovidamente.

E ali ficaram, olhos nos olhos, calados, deixando que o silêncio evitasse palavras que, quem sabe, talvez trouxessem o desencanto. De resto, para quê as palavras, se o perdão era tão expressivo no rosto da jovem e o remorso tão evidente nos olhos cheios de água de António.

Saí devagar, sem me despedir, deixando-os sós, entregues à sua emoção. Achei melhor não perturbar aquele momento único na vida de António.

Às vezes, ser jornalista não é coisa fácil, acreditem que não…

26 de julho de 2012

“Esta pressa de agora…”

Luís Farinha
  

Passamos a vida a correr...

Melhor seria dizer que passamos a vida a correr atrás de coisa nenhuma!

É a ânsia de partir e de chegar. É o afogo e a cultura do “já devia lá estar!” É a pressa, o afã, a ansiedade, a impaciência. É o frenesi da loucura colectiva em que transformámos o dia-a-dia.

É assim que vivemos, ou melhor, é assim que não vivemos!

Sim, porque essa coisa de dizermos que esta é a vida que temos nos tempos que correm, não passa de uma expressão falaciosa. Porque, se virmos bem, esta é uma vida que não temos! Uma vida que não vivemos...

Porque isto assim, este corre-corre atrás de coisa nenhuma não passa de uma forma de ir gastando o tempo sem honra nem proveito.

Afinal, a pouco e pouco fomo-nos transformando em meros cumpridores de horários. E o mais curioso é que acabamos por não cumprir coisa nenhuma, uma vez que nunca chegamos a tempo seja aonde for.

É verdade ou não é?

E se pensam que estou a exagerar quando digo que somos assim uma espécie de atrasados compulsivos, basta observar a maneira como conduzimos nas estradas, ou nas ruas das cidades.

Já repararam na frustração que sentimos por não podermos ocupar o lugar de quem segue na frente ou na faixa do lado?

Quando conduzem na cidade, ainda não se deram conta da impaciência com que tocam a buzina assim que no semáforo se acende o sinal verde. Como se chegar e partir fosse uma coisa automática?

Na estrada, nas longas filas de viaturas que às vezes se formam, já repararam nos disparates que fazemos para ultrapassar o carro da frente, para em seguida continuarmos a passo de caracol?

Nas filas seja do que for que tenha um balcão ou um guichete já observaram as cenas que se fazem quando alguém se lembra de assomar à frente só para pedir um impresso para preencher? E tudo isso para depois, quando chega a sua vez, ficarem à conversa fiada, a falar de futebol, da telenovela ou de outra banalidade qualquer com o funcionário que o atendeu?

É... disfarçamos a frustração latente com essa imitação de urgência. E isso azeda-nos o dia-a-dia. Faz da nossa vida um caos, um inferno pegado.

É por isso que eu digo que temos de reaprender a viver. Temos de vencer essa apetência pelo... “já devia lá estar”. Temos, enfim de pensar que quanto mais corremos, mais depressa chegamos ao fim. E o fim, meus amigos é uma palavra feia, que soa mal, uma coisa que ninguém gosta de sentir. 
  
Acalmemos, portanto. Aprendamos a glosar as coisas boas que cada vez são mais difíceis de encontrar. Como a paciência, a calma, a tranquilidade.

Creiam que vale a pena. De resto, para nos envenenar a alma e os sentidos já basta a merda de vida que temos pela frente…

14 de julho de 2012

O direito à diferença

Luís Farinha


Afinal, ao contrário do que diz a canção, todos somos diferentes, poucos somos iguais.

Com a mudança política emergente da revolução de Abril, muitas expressões até aí “proibidas” foram introduzidas no linguajar dos portugueses. De todas elas, porém, a que trouxe verdadeiros acordes de música celestial aos ouvidos de muita gente foi o célebre direito à diferença.

Muitos portugueses, talvez a maioria, pensou então que, de uma vez por todas, ficaria estabelecido o conceito universalista de, como diz a canção do Paulo de Carvalho, somos todos diferentes, todos somos iguais.

Afinal, a realidade está aí para nos lembrar que não é bem assim. Que as cantigas são óptimas para embalar os sonhos.

Frase de muitas leituras, direito à diferença passou a soar, sobretudo, como um hino à liberdade das minorias. Trouxe consigo, na singeleza da sua construção, uma aragem de esperança àqueles grupos de cidadãos que até aí estavam proibidos de existir: associações políticas, religiosas e de cidadania; classes profissionais não agrupadas em sindicatos hipotecados ao Estado Novo; intelectuais não alinhados ou mais contestatários; homens e mulheres de cor e raça diferentes; minorias com outras opções de vida. E assim por diante.

O direito à diferença passou a ser a bandeira dos que sempre ousaram não alinhar com o estabelecido, com o convencional. Transformou-se em pedra de arremesso dos que, até aí, viviam exilados nos seus pequenos guetos. Dos que normalmente pagavam caro - às vezes com a própria vida - a temeridade de ser, pensar e querer de maneira não convencional. O 25 de Abril trouxe consigo, realmente, essa enorme conquista democrática: o direito à diferença. Mas não conseguiu fazê-la acompanhar da necessária mudança das mentalidades retrógradas.

Ainda hoje, e já passaram quase três décadas depois da mudança do regime político, há quem insista em querer preservar as velhas memórias do antigamente, em querer reinventar o sistema de restrições que fazia medrar a classe dos privilegiados. São os que ainda hoje, muitos anos depois da madrugada de Abril, fazem o que podem para perpetuar essa parte do passado que muitos pretendem esquecido, definitivamente, nos recessos do tempo. Os que mascaram das causas mais nobres as intenções inconfessáveis, quando não mesmo as suas pulhices. E para que elas colham, apelam ao populismo e, não raras vezes, à manipulação maquiavélica da opinião pública.

O ofício de jornalista tem-me mostrado isso vezes de mais. É assim que nascem as ditaduras: calando as vozes discordantes; erradicando as minorias; recusando o tão exaltado direito à diferença. Não foi assim que o salazarismo conseguiu garantir a sua permanência no poder durante décadas?

Não foi esse o modus operandi que permitiu a Adolfo Hitler deitar fogo à Europa com o aplauso de milhões e milhões de apaniguados dentro e fora da Alemanha? Por cá, quantas vezes isso já aconteceu depois de Abril? Quantas vezes foi exercida oposição a esse direito fundamental, sublinhado na Constituição da República? Quantos casos se podem contar? Foi a oposição ao direito de recusar o serviço militar por objecção de consciência. A resistência à assimilação dos imigrantes de outras raças na sociedade portuguesa. Os condicionalismos que, durante muito tempo, cercearam o voto dos imigrantes portugueses espalhados pelo mundo. A liberdade religiosa sistematicamente posta em causa a despeito de se tratar de um direito consagrado na Constituição. E, pior que tudo, a condenação implícita ou explícita de pensar e ser diferente, um direito que a Constituição reconhece mas que os grupos de pressão e as instituições com objectivos escusos porfiam à exaustão.

Em cada uma destas situações tem havido sempre quem se mostre vivamente apostado em organizar campanhas de defesa dos interesses da velha e boa “sociedade”, mobilizando meios e organizando oposição cerrada às minorias, sobretudo se estas se regem pelo direito à diferença. Afinal, ao contrário do que diz a canção, todos somos diferentes, poucos somos iguais.

© DR Luís Farinha Texto publicado em: 09/08/2003

28 de junho de 2012

Os novos ‘cavalheiros de indústria’


Luís Farinha


O regime está podre. De há uns anos a esta parte e vindos não se sabe bem de onde apareceram na sociedade portuguesa uns estranhos personagens animados de um projecto maquiavélico: enriquecer muito e rapidamente sem olhar a meios, inclusive à custa de quem trabalha, os mais fáceis de esbulhar. Constituídos em quadrilhas organizadas ou mesmo a solo, para atingir os seus planos os tratantes cuidaram de introduzir-se nos lugares-chave do aparelho do estado ou nos círculos influentes capazes de lhes facultarem acesso aos centros de decisão. A partir daí foi um nunca mais acabar de façanhas escabrosas, umas mais rendosas que outras mas todas altamente ruinosas para os cofres da nação e para os bolsos dos cidadãos contribuintes.
Em consequência da permissividade instalada no regime e da acção nefasta desses novos bandoleiros engravatados, em meia dúzia de anos, como navio cheio de rombos Portugal bateu com o casco no fundo. É certo que os tribunais estão cheios de dossiers que apontam nas mais diversas direcções mas a justiça, emperrada e pouco dada a questionar o sistema instalado, vai permitindo que os processos prescrevam e os meliantes se continuem a rir do povo que vão esbulhando, certos que estão da costumeira impunidade que por cá assentou arraiais.
Os casos de corrupção e arranjismo que chegaram ao domínio público e ficaram famosos são mais que muitos, a tal ponto que só recorrendo aos arquivos dos tribunais seria possível enumerá-los na sua assustadora quantificação. Os que neste momento me ocorrem são:
                         
“Caso Vale e Azevedo”
“Caso Caldeira”
“Caso Fátima Felgueiras”
“Caso Portucalle”
“Caso Gondomar”
“Caso Moderna”
“Caso Independente”
“Caso Furacão”
“Caso da Câmara de Lisboa”
“Caso Apito Dourado”
“Caso Face Oculta”
“Caso Isaltino”
“Caso Freeport”
“Caso BCP”
"Caso BPP"
“Caso dos submarinos”
“Caso SNS”

Mas há mais, há muitos mais…

Muitos dos processos a criar teias de aranha nos diversos tribunais portugueses serão, como referi, resultado da lenta capacidade de resposta da máquina judiciária, mas não deixa de ser sintomática a crítica que a directora do DIAP de Lisboa, Maria José Morgado, fez à prestação da PJ, no que toca à acção contra a criminalidade económico-financeira, numa declaração ao DN em 31 de Março de 2010. "Ao nível da Polícia Judiciária registam-se dificuldades graves no âmbito do combate ao crime …/… económico-financeiro. Tais dificuldades traduzem-se na quase paralisação de certos processos no crime económico”. Sendo uma declaração de alguém que, por força da voluntariedade e capacidade profissional demonstradas ao longo dos anos, é de ter em conta.

Que não se pense, contudo, que esta dificuldade em garantir um combate adequado aos crimes de “colarinho branco” é um problema confinado apenas a Portugal. Quem lê a imprensa estrangeira facilmente dará conta de quão difícil é contrariar a acção dos criminosos que agem no silêncio dos seus gabinetes. Citando Rodrigo Strini Franco, delegado da Polícia Federal de São Paulo (Brasil): “o criminoso de colarinho branco possui um plus, um escudo, uma imunidade que o exclui do poderio penal”. Com tal asserção, fácil é concluir que a criminalidade de colarinho branco gere uma notável desigualdade no controlo judicial. Voltando a Rodrigo Franco atente-se neste conceito: “Basta verificar a população carcerária para que se constate a origem das pessoas que lá estão”.

‘Para bom entendedor meia palavra basta’, diz a sabedoria popular. Tão sábia como: ‘com a vida dos outros podemos nós bem’, querendo significar que o que nos deve incomodar é o que se passa neste nosso rincão lusitano. Porém, vivemos num período de globalização que, por arrastamento, abre as fronteiras nacionais ao bom e ao mau que nos chegam lá de fora, quer queiramos ou não. É conveniente levar em conta esta realidade para que o espírito nos não atraiçoe com juízos de valor mesquinhos na toma das decisões menos comuns que se nos deparam pela vida adiante.

É perfeitamente concebível – e até desejável – que qualquer cidadão, por mais anónimo que seja, saiba (e consiga) projectar a sua vida pela via do enriquecimento resultante do trabalho sério. Há um sem número de casos que ilustram esta referência, casos que suscitam a admiração e o respeito geral. Tomemos um exemplo: Rui Nabeiro, um português oriundo de uma família humilde que, muito jovem ainda, fundou a empresa Delta Cafés, corria o ano de 1961. Muito trabalho depois era titular de uma sólida fortuna baseada no labor sem tréguas e na rectidão dos processos entretanto por si postos em marcha. Tendo deixado para trás os 80 anos e uma carreira de que se orgulha, Manuel Rui Azinhais Nabeiro é hoje uma figura que os portugueses respeitam e o exemplo vivo do homem rico que, por mérito próprio, é apontado como o arquétipo duma raça em vias de extinção.

Não é única a referência que acabo de citar. Outras mais poderia aqui revelar, o que me daria enorme prazer, mas esta serviu apenas para mostrar a diferença que hoje marca as actividades obscuras duma súcia de ricaços feitos à pressa, os tais que de ‘colarinho branco’ e gravata a condizer enxameiam a nova sociedade lusa, os muitos que optaram pelo enriquecimento construído de manigâncias, de conluios, de pouca-vergonha. Os gananciosos que não recuam perante a sordidez de tirar partido da lástima que avassala o Portugal de nós todos.
Que os filhos e netos desses trapaceiros encapotados não assimilem o exemplo vergonhoso que receberam por herança é o meu voto sincero.