7 de novembro de 2012

Quero o meu bairro de volta!

Luís Farinha


Nasci num dos bairros populares de Lisboa, um dos aglomerados onde, tradicionalmente, os habitantes se querem, se estimam e se entreajudam quando os problemas batem à porta. Assisti e participei num sem número de situações comprovantes dessa familiaridade amiga, experiências que me permitem, hoje, repudiar os inevitáveis contrapontos com que (alguns) sempre procuram estabelecer discordância opinativa. Vivi nesse bairro cerca de meio século, quase 50 anos. Ainda hoje lá vivem alguns familiares e os amigos que me restam neste último quartel da vida que Deus me deu para viver. Já não são muitos, é verdade, a idade não perdoa e há sempre um dia em que os mais quebrantados partem para a derredaiera viagem.

Um dia, provavelmente contagiado pelo 25 de Abril, numa das reviravoltas que sempre ocorrem depois de uma revolução, dando ouvidos ao apelo de mudança decidi partir de armas e bagagem para a periferia de Lisboa, de preferência - decidi - numa zona com o mar à vista. Hoje, decorridos que são trinta e muitos anos reconheço que me precipitei. Por razões que não sei explicar, as memórias que me trazem algum prazer têm sempre por cenário o velho bairro onde nasci e vivi a primeira metade dos anos que já conto, o que considero sintomático.

É verdade que encontrei um mundo novo, mais cosmopolita, cheio de gente diferente a morar em avenidas e ruas de ampla largura, algo bem diferente das vilas, becos e travessas daquela espécie de ninho onde nasci. É certo que nos primeiros anos tive o privilégio de poder contemplar o mar do alto do meu terraço - e utilizo o verbo ‘ter’ no pretérito perfeito simples porque, mesmo em desacordo com o Plano de Urbanização aprovado para o local, alguém autorizou a implantação de um masmarro de betão, de altura desmedida, mesmo em frente da minha casa. Reconheço que, talvez para me compensarem, acabaram por vender o andar em frente do meu terraço, a meia dúzia de metros, a uma senhora dotada de exuberantes atributos físicos que, quando eu lia ou escrevia no terraço, sentado na minha cadeira, me fazia companhia do outro lado da rua. Contudo, sendo eu uma pessoa de natureza discreta, pouco dada a deslumbramentos embasbacados, acabei por retirar do terraço o meu assento predilecto, transferindo-o para a traseira da casa, virada para um frondoso jardim de onde assistia aos passeios diários dos canídeos que, pela trela, ali iam (e continuam a ir…) satisfazer as suas necessidades fisiológicas. Isto aconteceu por altura da revolução dos cravos, como já referi, quando a modernidade se instalou no país.

Entretanto, passado que foi o período de encantamento que a mudança me ofereceu, dei por mim a ser invadido por um vago desapontamento que não tardou a transformar-se em franca consciência do erro cometido. Quero o meu bairro de volta. Não me sinto bem aqui. Falta-me qualquer coisa indefinida que se está transformando em pesadelo! Posto em palavras breves, eram estas as reflexões que ressumavam do meu estado de espírito malcontente. Sentia falta dos bons dias que dava e recebia quando pela manhã saia de casa a caminho do trabalho. Dos sorrisos de amizade que os acompanhavam. Dos reencontros ocasionais ou previstos com os amigos de todas as horas, os tais que me acompanharam e que eu acompanhei nos bons e maus momentos, deles e meus. Dos que partilhavam comigo e eu com eles as confidências mais intimas, os anseios que alimentávamos no decurso da mútua fraternidade que desde sempre foi a matriz das nossas relações, partindo depois felizes pelas palavras de incitamento ou de advertência que dava ou recebia. Não me restavam dúvidas de que os meus novos vizinhos eram diferentes, de natureza singular, pessoas feitas de matéria estranha à qual, por mais que me esforçasse, não conseguia adaptar-me.

Até hoje – e já lá vão trinta e tal anos – tudo continua na mesma. Na minha rua, nos prédios contíguos ao meu, vive muita gente que eu não conheço. Homens e mulheres com quem me cruzo desde há anos mas dos quais nem sei o nome, uma amalgama de cidadãos dos quais apenas distingo raríssimas excepções. Nada de cumprimentos, de um sorriso de simpatia, de um gesto desafectado. Todos preocupados apenas com as suas vidinhas privadas, com os seus ‘popós’ brilhantes, com a exibição ostensiva das suas singularidades, das trivialidades que os distingue dos demais. Do efeito que se esfalfam a mostrar quão acima estão da mediana ‘gentinha’ que os cerca, como eu.

Não! Realmente por mais que o deseje, confesso-me incapaz de vir a adaptar-me ao modus vivendi que caracteriza a zona que escolhi para viver. Só que, infelizmente, sou eu agora quem se recusa a mudar por estar velho demais para mudanças.

*
Quando abri a caixa do correio não queria acreditar. Numa folha de papel dobrada em quatro uma notificação da Polícia Municipal do concelho onde resido dava-me como destinatário de uma denúncia de contra-ordenação sob a acusação de “alimentar aves atirando pela janela produtos alimentícios”. Tal designação, abrangente, logo me trouxe a imagem bizarra de alguém ter estado entretido a atirar pela janela da minha casa: uns bifes do lombo, um cozido à portuguesa, um bacalhau com ‘batatas a murro’ ou uma bem temperada sopa de legumes para alimentar os pássaros.    

Fiquei estupefacto!

Indagando junto da minha consorte, veio pronto o esclarecimento: “fui eu, realmente”, confessou. “Quando vi tantas aves a depenicar em vão pelo meio da relva peguei num meio papo-seco, já duro, que tive o cuidado de humedecer, e lancei-o para o relvado do jardim (existente nas traseiras do prédio, como já referi) na intenção de mitigar a fome das aves que por ali deambulavam em busca do que comer. Nunca pensei” - diz-me ela agora - “que um pobre papo-seco ressequido tinha o poder de despertar o que de mais sórdido um indivíduo pode guardar na sua alma fétida: a avidez da denúncia”. Na altura, quando vi as aves em manifesta carência alimentar só me ocorreu lançar mão de algo que lhes calasse a fome. Agi impulsivamente e só depois racionalizei que o não devia ter feito”.

Compreendo a clara indignação da minha companheira de mais de meio século. Se a ocorrência tivesse tido lugar no velho bairro onde ambos nascemos e vivemos tantos anos certo estou que o vizinho incomodado com aquele gesto de ternura ter-nos-ia batido à porta para lembrar que é proibido dar de comer aos pássaros e que esse crime é ressarcido com pesadas coimas. No caso vertente, um reparo feito directamente, de viva voz, entre pessoas que se querem bem, lembrando a legislação vigente e o desejo de pretender evitar eventuais consequências punitivas, teria colmatado o delito cometido, sendo digna de agradecimento. Ao contrário, a descida à denúncia soez só serve para dar corpo a um ou mais pontos contidos no parágrafo que se segue:

Os tais produtos alimentícios (destaque-se o plural) que o denunciante viu como um banquete pantagruélico não passavam, afinal, de um meio papo-seco já impróprio para voltar à mesa. Torna-se assim evidente que a ideia de exorbitar o corpo de delito denunciado manifesta, no seu autor, duas ou três aberrações a ter em conta: 1) ao sujeito deve agradar-lhe alimentar (vá-se lá saber porquê…) uma mal dissimulada antipatia relativamente os seus vizinhos; 2) talvez considere que estes estão aquém do seu nível sócio-intelectual ou, em alternativa, 3)) padece de um pendor patológico delirante que era muito apreciado nas hostes repressivas do antigo regime mas que hoje só emerge em casos de incurável transtorno psicológico.

Crédulo como sempre fui e cônscio dos meus deveres de cidadão responsável desloquei-me às instalações da Polícia Municipal da minha zona de residência prontificando-me a liquidar a eventual multa. Entreguei o aviso deixado na minha caixa de correio e fiquei a aguardar. Contudo, pelo que observava, as sucessivas tentativas feitas para localizar o processo levantado contra mim mostravam-se teimosamente vãs. Até que por fim…

“Mau caro senhor, este papel é uma falsificação. Primeiro, não faz parte dos impressos padrão utilizados por nós para notificar quem quer que seja. Depois não encontramos nos nossos serviços qualquer referência a este caso. Aliás, nunca deixamos uma notificação na caixa do correio, entregamo-lo em mão e, no caso de o destinatário estar ausente, voltamos outra e outra vez até o encontrarmos.” E acrescentou “De resto o número de processo aqui indicado nem sequer existe”. E prosseguiu, com duas perguntas insistentes: “O senhor falou ou foi abordado por algum agente na altura da ocorrência? “Não viu nenhum agente no prédio?” Neguei as duas hipóteses, evidentemente. E finalmente ouvi a opinião de um agente que pela natureza das suas funções deve já ter testemunhado situações tão inverosímeis como a que eu apresentava: “deve ter sido alguém da vizinhança...”

Face às circunstâncias estranhas em que fui envolvido e depois de ter acedido ao pedido de autorização para fotocopiarem o malfadado papel, só me restou guardá-lo depois no bolso, agradecer a atenção dispensada e sair, cogitando para os meus botões: ‘quem teria falsificado o presumível documento? E com que propósito o fez? Quem seria capaz de tamanha abjecção?’ Claro está, que não sou adivinho, mas já galguei muita estrada de vida vivida e, nesse longo percurso, conheci alguns tratantes que confundi com gente boa e que me levaram ao engano. Daí ter somado, no caso que relato, algumas conclusões que não serão de todo desprezíveis. Permitam que as guarde para mim…    

Este episódio ocorreu de facto em Outubro de 2012 e a sua narração, aqui, vem à guisa de ilustração para que melhor se compreenda o texto que o antecede.

10 de outubro de 2012

“O país está de tanga!”

Luís Farinha


Recuando no tempo recordo ainda quando há anos o então primeiro-ministro Durão Barroso lançou o brado de alerta: "O país está de tanga"! Tratava-se de um aviso à navegação, aviso que teve o efeito de um balde de água fria atirada pela cabeça abaixo dos que já se convenciam de que estávamos próximos dos nossos vizinhos europeus no que respeita ao nível de vida.

Será por isso, crêem agora muitos, que a supracitada frase de Barroso esteve na base e deu motivo à sua inopinada "fuga" para Bruxelas, deixando perplexos os que ingenuamente acreditaram nas suas promessas eleitorais. Mais ainda quando, na cerimónia da tomada de posse, o ouviram jurar que iria cumprir com honra o lugar para que fora designado.

É provável que outros primeiros-ministros antes ou depois dele se sentissem obrigados a não aceitar o emprego que lhe ofereciam em Bruxelas, respeitando a palavra dada, mas ele lá saberá por que terá decidido da maneira tão pouco edificante: a verdade é que “mandou às malvas” o compromisso tomado com os portugueses e despediu-se “à francesa” como quem diz… “quem vier atrás que feche a porta e, já agora, que não se esqueça de apagar a luz”. Atrás de si deixou o caos. Decorria o ano de 2004.

Se nessa altura Portugal estava de tanga, hoje provavelmente até a tanga já lhe caiu.

O País atravessa o momento mais crítico das últimas décadas… isso é incontestável. A tal ponto que até já não vale a pena os mais idosos gastarem as meninges na ânsia de preverem o que lhes está guardado para resto dos seus dias, enquanto os mais novos vão perdendo a esperança de que melhores tempos virão, antes de serem velhos.   

A crise veio para ficar, é fácil de entender. O que é verdadeiramente assustador é o país que vamos legar aos nossos filhos, netos e, se calhar, aos bisnetos. Isso é que é inquietante. São eles que herdarão os prejuízos dos pecados e excessos hoje cometidos pela sucessão de políticos mal amanhados que, por azar, nos têm saído em rifa.

Por agora já muita gente faz votos de que, face à impossibilidade desta penúria melhorar a curto prazo, pelo menos que as coisas não fiquem muito pior do que já estão. O que, convenhamos, parece uma miragem se levarmos em conta o cenário actual.

Na televisão, rádio e jornais vimos e ouvimos opiniões e debates alarmantes sobre a tempestade que nos avassala. Neles faz-se a análise da mais que precária situação económica presente, ao mesmo tempo que se contestam as medidas que os actuais governantes entendem como inevitáveis. Enquanto isso, o povo vai aos poucos, finalmente, acordando da letargia a que se tem acomodado, considerando agora os excessos e abusos contra si cometidos ao longo dos últimos meses. O anúncio da projectada alteração da Taxa Social Única (TSU) foi, por assim dizer, a gota de água que fez transbordar o copo já cheio de outros desmandos igualmente iníquos perpetrados contra o povo da Nação. Parece, assim, ter chegado o momento de dizer: basta! Daqui se poderá concluir que daqui para a frente já nada será como dantes. Basta que levemos em conta a manifestação do Terreiro do Paço em 15 de Setembro passado e as que se lhe sucederam.

4 de outubro de 2012

Lembrar o passado em Lisboa


Luís Farinha


Eu não sei se isso acontece convosco. Não sei se, como eu, também lhes dá de vez em quando para recordar o tempo da vossa juventude, como se o estivessem a viver de novo. A mim acontece-me, principalmente quando vagueio por esta Lisboa que foi o berço e o espaço geográfico da minha vida inteira. Acontece-me também quando, fechado nos silêncios que vão sendo cada vez maiores, tento evocar os amigos (homens e mulheres) que foram ficando pelo longo caminho que deixei para trás.

Umas vezes, as recordações deixam-me feliz; outras, pelo contrário, trazem-me alguma tristeza. Tudo isso porque, como vocês sabem, a vida de cada um de nós não tem, exactamente, aquela cor rosa suave com que muitos, à viva força, a querem pintar.

O que interessa, meus amigos, é que no balanço da vida vivida de um sujeito como eu, que já começou a contar o tempo em sentido decrescente, o saldo seja francamente positivo, como foi o meu.

Por falar disso e por estranho que pareça, a verdade é que o balanço que a maioria de nós faz da vida que deixou para trás, é quase sempre positiva. E isso, porque se dos episódios que vivemos fizemos um bom aproveitamento, então os que rotulamos de menos felizes servem, pelo menos, para enriquecer a experiência que mais tarde ou mais cedo acaba por dar frutos.

É claro que há também quem da vida não consiga extrair ensinamento nenhum, por mais inteligente que se julgue, mas isso não vem agora a propósito…

No fundo, só é pena que quando a vida já nos ensinou tudo o que havia para aprender, quase sempre já é tarde para utilizarmos as lições que ela nos facultou.

Talvez seja por isso mesmo que hoje me limito a olhar com saudade para o tempo que passou, convencido que se uma máquina do tempo me levasse de volta à juventude que ficou para trás, tornaria provavelmente a fazer os mesmos disparates, os tais que hoje não passam de recordações prestes a extinguir-se, como eu próprio me vou extinguindo ao correr imparável a caminho do pó de onde um dia vim. Contudo, de uma coisa estou eu certo: essas vivências ajudaram a fazer de mim o velho que hoje sou e de que não me envergonho.

Chamem-lhe nostalgia, saudade, o que quiserem. Para mim, recordar é apenas um dos poucos exercícios que me restam, porque velho que sou, só me sobra o passado, já que o presente pouco tem de atractivo.

Dizia eu que as recordações me assaltam com mais frequência quando vagueio por Lisboa. Porém, verdade seja dita que, na cidade grande, já poucas referências vão sobrando do tempo em que ela, mais humanizada, era um encanto para os olhos e um prazer para os sentidos.

Tal como acontece com a vida que até agora vivi, Lisboa não é hoje mais do que uma vaga lembrança perdida nos fumos do tempo. Tempo que ficou para trás e que jamais voltará.

No fim de contas, meus amigos, é sempre penoso virar a última página de um belo livro que se leu com prazer.

22 de setembro de 2012

Onde pára a consciência social?

Luís Farinha


Numa crónica aqui publicada há algum tempo tentei mostrar como em Portugal tem sido possível – sendo já corrente – os cidadãos percorrerem uma vida inteira a dar no duro a fim de se integrarem como membros de pleno direito na comummente designada “classe média”. Só que, concluem mais tarde, já na curva descendente de uma vida revestida de decepções, tudo não passou de um esforço inglório, ao verem-se reduzidos a uma condição económica sumamente precária e humilhante. É então, ainda que tardiamente, que conseguem perceber como o sistema trata a classe rasca dos que vivem unicamente do seu trabalho. Limpo o suor do rosto, alquebrado por uma vida inteira de expectativas defraudadas, resta ao povo da Nação as sobras de um Estado pensado para benefício dos seus protegidos e da sempre crescente fauna de espertalhões sem pejo, que vivem à espreita de uma boa oportunidade para chamar a si os frutos do trabalho alheio, a riqueza que a todos pertence. Este continua a ser um cenário que tem vindo a expandir-se e que, pelo que nos é dado observar, promete perpetuar-se ao longo de incontáveis gerações vindouras.

Ser pobre, na verdadeira acepção do termo, parece ser o destino que tem vindo a implantar-se nos nossos dias ante a loquacidade presumida e iludível dos que se chegam à frente prometendo retirar a nação do lamaçal para onde foi precipitada pela ganância de muitos e a inaptidão de uma sucessão de políticos mal alinhavados. Na verdade, o sentimento geral dos cidadãos comuns aponta cada vez com mais veemência para uma realidade que ressalta das conversas ocasionais: Portugal está a ser remetido para o rol dos países mais desvalidos no contexto das nações europeias. O ponto crucial conducente a essa conclusão, na opinião do povo anónimo, foi o pedido angustiado de ajuda externa, ajuda que acabou por ser concedida a custo especulativo de meter medo ao medo e da consequente perda de autonomia que nos foi imposta e que nos avilta enquanto nação independente quase milenar.

Os portugueses vivem, nos tempos que correm, em profunda expectação. Como se pisassem terreno minado, olham a estrada que têm em frente sem vislumbrarem o caminho a seguir. O destino, pressentem, é um deserto chamado nenhures e por isso ficam parados, absortos, revoltados com a sua ingenuidade, sem conseguirem atinar como foi possível terem-se deixado cair no logro que uma caterva de indivíduos - para quem a honra não passa duma expressão retórica - lhes armou. E por aí se quedam, sem defesa, à mercê das aves de rapina que esvoaçam à sua volta, espreitando onde podem bicar sem que castigo lhes venha. Indo mais ao fundo da questão, de uma coisa estou certo: se a riqueza da nação se esfumou é porque foi dissipada em aplicações abusivas ou inadequadas ou porque alguns - por vias escusas - dela se assenhoraram sub-repticiamente, à socapa dos que para a mesma contribuíram: os cidadãos sistematicamente despojados dos seus direitos fundamentais para que aos ricos não falte o adubo que lhes faz crescer os cabedais. Ou então há que admitir que a lógica é uma expressão vazia de significado.

Convém não perder de vista que os ricos são insaciáveis. Por mais que esbulhem e amontoem não curam a obsessão de verem os milhões acumulados aumentarem até ao infinito. Não é em vão que a Forbes se dá ao cuidado de, anualmente, anunciar ao mundo os nomes dos ricos mais ricos do planeta. O anafado Carlos Slim Helu, do México, é o nababo que a todos leva a palma com os seus 74 mil milhões de dólares. Depois vêm os outros, os que se esfalfam para, sem perder tempo com minudências, conseguirem destronar o sôfrego acumulador de dinheiro. Somando sempre, em 2011 a fortuna de todos os bilionários dignos desse título chegava ao total de 4,5 triliões de dólares. Deles fazem parte, obviamente, alguns nomes portugueses, gente renomada pelas fortunas que detêm e pelos negócios que exploram. Pessoas que conseguiram enriquecer numa sociedade manifestamente pelintra, ressaltando ainda a constatação de que têm sido ajudadas pelo regime a manter incólumes - se não mesmo a engordar - as suas riquezas, por razões que escapam à classe rasteira.     
Prova insofismável da linha de orientação que acalenta os sonhos dos que se deleitam nas fortunas construídas ou herdadas pode ser extrapolada duma notícia que veio a lume em data recente:
“Gina Rinehart (a mulher mais rica do mundo), dona de uma fortuna de cerca de 14 515 milhões de euros, enriqueceu depois de herdar o dinheiro e de se ter tornado a principal acionista da empresa mineira australiana Hancok.
Rinehart culpou as políticas ‘socialistas’ anti-empresas por infestar a Austrália de pobres e vagabundos, instando o governo a reduzir o salário mínimo e os impostos às empresas se não quiser acabar como a Grécia.”

Tal exemplo serve para mostrar a dificuldade que os bem instalados têm em aceitar uma sociedade que leve em conta os interesses dos que vivem exclusivamente do seu labor. Além de que explica, igualmente, por que é que os políticos no poder são tão destros a criar contribuições que penalizem os trabalhadores  enquanto, ao mesmo tempo, favoreçam os patrões. Na dicotomia ‘ricos versus pobres’ o esquema prevalecente obedece à seguinte regra: menos impostos para os primeiros, menos salários para quem os ajuda a enriquecer. Daqui ressalta uma conclusão elementar: uns seriam menos ricos se os outros fossem menos pobres.

Como se sabe a sociedade portuguesa tem dois milhões de carenciados. Nada menos do que dois em cada dez portugueses sobrevivem com menos de 60 por cento da média nacional de rendimentos. E o que mais dói em tudo isto é que enquanto o Estado faz “vista grossa” aos grandes caloteiros fiscais (embora saiba bem quem são e onde estão), aperta até ao estertor os membros da “classe média” que, por imposição da lei instituída não podem escamotear um centavo que seja do seu rendimento de trabalho. Esta forma de “colheita” é mais fácil e “muito mais cómoda”, daí a razão da preferência que o estado demonstra pela cobrança activa a contribuintes passivos.

Discutíveis são as normas impostas por quem, muito senhor de si e cioso do seu poder, ordena acções concebidas no conforto dos seus gabinetes sem ter em conta as particularidades que norteiam a vida de todos os cidadãos. Sempre que tal acontece fica desnudada a muitas vezes comprovada ausência de consciência social.

16 de setembro de 2012

Por favor, não me enganem mais!

Luís Farinha

Estou absolutamente convencido de que, ao contrário do que muito boa gente pretende, somos apenas o somatório daquilo que a vida fez de nós.

Pode ser que os sinais genéticos que trazemos das origens possam também contribuir para a formação da nossa personalidade, aceito que assim seja, mas… meus amigos, não tenho qualquer dúvida de que as boas ou más pessoas que somos, resultam quase inteiramente da maneira como, ao longo da existência, fomos absorvendo as lições que a vida nos deu.

Tudo isto porque nada acontece por acaso!

São os pequenos e grandes acontecimentos da vida de cada um de nós, as boas e más recordações que vamos guardando nos recessos do nosso subconsciente que, no presente, marcam a maneira de ser que caracteriza as pessoas em que nos tornámos. Por exemplo: o amor que somos capazes de dar aos outros só pode ser ditado pela brandura que as lições da vida plantaram no nosso coração. Do mesmo modo, a impaciência ou a dureza que demonstramos nas nossas relações com os que nos rodeiam, só podem ser inspiradas pelas injustiças e pelas experiências amargas que fomos somando ao longo do tempo que deixámos para trás.

Não vale a pena fingirmos que somos o que não somos. Como diz a sabedoria do povo, “a mentira tem pernas curtas”!

Quer isto dizer que a bondade da alma é um sentimento que se não pode imitar eternamente. Do mesmo modo, a maldade do coração torna-se indisfarçável quanto mais nos esforçamos para a esconder.   

É por isso que eu acredito que cada um é apenas aquilo que a vida fez de si, não fazendo sentido que andemos por aí fingindo o que não somos. Com isso, não enganamos ninguém. Ou melhor… só nos enganamos a nós próprios.

Gente de faz-de-conta é o que há demais por aí. Encontramo-la por todos os cantos, no seu afã de parecer o que não é, na sua canseira de enganar os outros. Nos meios de comunicação, na vida social, na política, nas relações mais íntimas…

É por isso que me apetece dizer a alguns que me abraçam, fingindo afectos que não sentem: por favor, não me enganem mais!

Seja pela idade que já tenho, ou do muito que vivi. Seja até, quem sabe, em função destas duas razões, a verdade é que cada vez me doe mais a dissimulação dos impostores.

14 de setembro de 2012

Percebem… ou é preciso fazer um desenho?

Luís Farinha


Se a memória não me falha, após a revolução de Abril nenhum governo foi tão repudiado pelos cidadãos como o actual.

As sucessivas investidas contra a classe média, em particular contra os que estão no fundo da escala laboral da Nação, têm vindo a fazer crescer a animosidade de milhões de portugueses, mais ainda porque, em compensação, torna-se por demais notório o empenho dos que a si chamaram a incumbência de ‘governar’ Portugal de salvaguardar os interesses privados dos detentores de riqueza.

Embora tendo em conta o grave desequilíbrio económico gerado e desenvolvido pela sucessão de governantes inaptos que têm ocupado as cadeiras do poder, é por demais evidente o projecto de mudança social que move e orienta os novos inquilinos de São Bento. Por mais que neguem esse desígnio não há outra forma de justificar as medidas que têm vindo a ser tomadas, com destaque para as que foram anunciadas às 19,20 horas do passado dia 7 de Setembro passado, uns breves minutos antes do jogo da bola transmitido pela RTP1.

Sublinhe-se que até esse pormenor é susceptível de levantar suspeitas, dada a fixação que os portugueses têm num bom desafio à ‘borla’, para mais com o Ronaldo em campo. Contas feitas, era concebível que logo que o jogo começasse a má impressão causada pelas “novidades” do doutor Coelho seria de imediato diluída.

Afinal, não foi isso que aconteceu, como se constatou pelas reacções verificadas nas horas que se seguiram e que continuam a crescer em volume e agudeza.

Na verdade o povo da Nação começa a denotar uma viva animosidade face ao constante agravamento das medidas de austeridade que, escudadas na imagem duma Troyca impiedosa, parecem indiciar desígnios que não encaixam lá muito bem na prometida ‘vida melhor para os portugueses’.

Na entrevista que o primeiro-ministro concedeu à RTP1 no passado dia 13 ficou bem clara a sua determinação em não introduzir alterações ao modelo governativo adoptado pelo executivo em funções. Tal posição contrasta porém com a onda de protestos emanante de todos os sectores da vida pública, inclusive de figuras destacadas dos próprios partidos no poder, o que é sintomático da discrepância que anda no ar. Desta grave conjuntura ressalta então o seguinte dilema: como se irá conseguir a concórdia indispensável ao restabelecimento do equilíbrio da sociedade e, em particular das forças no terreno para levar adiante a tão almejada estabilidade económica e social da Nação Portuguesa?

É preciso, é urgente considerar que o que está em jogo não é uma trivial peleja despoletada pela teimosia de que a minha é maior que a tua. O centro da questão reside na procura e criação de um clima de tranquilidade para um povo já cansado de promessas inócuas.

Percebem… ou é preciso fazer um desenho?                

6 de setembro de 2012

À beira do abismo?

Luís Farinha


Quando iniciei a publicação do blogue “Histórias do tempo que passa” tive o cuidado de advertir os eventuais leitores de que este projecto consistia em tornar públicos alguns episódios ocorridos ao longo dos meus muitos anos de vida. Como então sublinhei, era minha intenção fazer eco de algumas estórias verdadeiras que pela sua peculiaridade pudessem mostrar aos homens e mulheres de hoje quão diferente é o tempo presente em comparação ao que então vivi. Contudo, ressalvei a possibilidade de uma vez ou outra me permitir abordar aspectos relativos à situação lamentável que Portugal atravessa, dando assim vazão à ansiedade que se aninha, subliminarmente, no sangue dos que um dia escolheram a minha profissão como modo de vida, tornando-nos incapazes de assistir, mudos e quedos, à sedição que nos envolve, por mais sossegados - ou afastados - que nos queiramos manter.

*
Quem diria que a situação dramática que se vivia há pouco mais de um ano viria a decompor-se em ritmo imparável, como veio a acontecer?

Afinal, ao contrário do que muitos pensavam (eu incluído quando dei início a este blogue) Portugal não atravessava uma crise mais ou menos grave, igual ou parecida com outras antes ocorridas e mais ou menos resolvidas e ultrapassadas. Um ano e meio depois, ao que assistimos é à transformação da sociedade tal como a conhecemos durante largos anos. Afastámo-nos a passos largos e irrevogavelmente dum tempo que nos permitiu ir enganando o dia-a-dia num cenário político e económico que nos implantou a convicção de que depressa voltaríamos a viver de promessas, de desculpas, do faz-de-conta, do deixa andar, de “os ricos que paguem a crise”.

Afinal, pese embora as mensagens de esperança dos políticos no poder, esta crise – se assim preferirem chamar ao que está a acontecer – veio para ficar, não havendo quaisquer expectativas, assentes em bases consistentes, de que entretanto venha a ocorrer um retrocesso que nos leve a acreditar que estamos de regresso à vida que tínhamos antes do desencadeio da calamidade ora implantada. Vida que não era boa, na verdadeira acepção do que isso queira significar, mas à qual estávamos habituados, fazendo de nós, portugueses, se não seres acéfalos, insensíveis, pelo menos cidadãos acomodados e viciados na falsa convicção de que é ao estado que pertence o papel de mentor da nossa vida inteira.

Participar na vida colectiva da Nação é a obrigação de todos os que aqui nasceram e têm vivido. Esse é, de resto, o apelo subjectivo que o governo em exercício nos tenta inculcar sempre que tem em vista a introdução de mais uma taxa contributiva, o aumento de outra já existente ou a anulação de um qualquer benefício que antes servia de máscara à pobreza endémica dos portugueses. Trata-se, é verdade, de um recurso plausível no contexto duma nação em crise, mais ainda se se constatar que o “sacrifício” é repartido por TODOS proporcionalmente à condição económica de cada um, e que o próprio estado vai finalmente tomar em mãos a sua auto-disciplina pondo ponto final à rebaldaria de confundir gastos essenciais com esbanjamento à tripa-forra, uma das razões que empurraram Portugal para o lodaçal em que acabou por se atolar.

Mas será isso expectável?

Todos sabemos que não.

Quando na guerra do Solnado, um sábio sabido descobriu a forma mágica de poupar dinheiro nas munições que se gastavam no campo de batalha, estabelecendo que, daí em diante, atar-se-ia um cordel a cada bala que, depois do disparo, seria puxada para em seguida voltar a ser utilizada, todos ficámos boquiabertos com o sentido de poupança do tal estratega. Só que por azar nosso esse cérebro já deu a alma ao criador não nos podendo ajudar agora, nesta hora de aperto. Contudo, não consigo impedir-me de imaginar o que ele faria nas circunstâncias actuais… Homens daqueles já não há.

E é pena…

Crédulo como sou, confesso que senti reacender-se a minha já desgastada capacidade de expectação quando o actual painel governativo entrou em funções. Gente nova, aureolada com currículos profissionais de se lhes tirar o chapéu fizeram-me olhar com renovada esperança para os tempos que iam seguir-se. Para cúmulo, com uma ou outra excepção, a maioria dos elementos acabados de tomar posse não vinham contagiados pela gonorreia politiqueira que tantos estragos já tinham causado ao país nos sucessivos governos em funções desde há décadas a esta parte.

Foi curto o meu devaneio…

Um par de meses depois já não consegui evitar que a decepção me atingisse, acabando de vez com a ilusão de que - como ouvia aos velhos quando eu era criança - não há bem que sempre dure nem mal que não se acabe, um aforismo que, vim a descobrir mais tarde, nos empurrava para o conceito de que nada é definitivo, convidando-nos a aceitar as contingências do dia-a-dia, por mais dolorosas que fossem. Voltando porém à actualidade, decorrido o período da “Lua-de-mel”, conclui que as cadeiras existentes nas nobres salas do poder devem estar contaminadas com um vírus pestilento a que ninguém consegue resistir. Só isso, de resto, conseguirá explicar a mudança insidiosa que vinha já chispando sinais de alerta face a algumas acções inadequadas dos tão dotados(!) artífices da desejada (e prometida) recuperação da economia nacional. Só um eventual contágio infeccioso poderia explicar que a arquitectura do plano gizado com vista a essa recuperação passasse, desde logo, pelo sacrifício dos que menos condições económicas tinham para o fazer. Na repartição das medidas adoptadas, foi a classe não protegida que foi chamada a avançar enquanto os mais endinheirados, os ‘imunes’ (como lhes chama José Gil) se esfalfavam a pôr a salvo, no estrangeiro, as suas fortunas acumuladas à custa do esforço dos eternos ‘pagantes’ da Nação. Afinal, foi neste pequeno país, na ponta da Europa, que essas fortunas foram acumuladas - ou pelo menos iniciadas -, quer aceitemos ou não essa realidade.    


Embora discretamente afastado da política activa, Diogo Freitas do Amaral foi convidado da jornalista Fátima Campos Ferreira para uma entrevista na RTP, no passado dia 5 de Setembro. Razão do convite: comentar a situação preocupante que Portugal atravessa. Embora comedido nas suas observações, como é jeito seu, Freitas do Amaral não deixou de reconhecer que considera o actual executivo governamental como não estando à altura da tarefa para que foi nomeado, afirmando ainda que “A receita da Troika está errada”. A “austeridade punitiva” exercida pelo governo tomando por alvo preferencial a já tão debilitada classe média com o objectivo de enfrentar a actual situação, foi também comentada pelo entrevistado em jeito de crítica à incapacidade demonstrada para pôr em marcha outras medidas que, na sua opinião, terão sempre de passar pelo aumento da produtividade. Fugir a essa realidade, assegura, só pode aprofundar ainda mais a já dramática situação em que nos encontramos. Relativamente ao mutismo obstinado dos senhores governantes quando se evoca a falta de proporcionalidade sempre que se trata de impor mais um aumento fiscal, uma sobretaxa qualquer ou a criação de um novo imposto será curioso referir como a opinião de Freitas do Amaral acerca desta questão é coincidente com a da chamada classe média, a que mais sofre com a negação de uma mais justa justiça social. “Acho que devia haver, da parte do governo, uma tributação especialmente pesada sobre as pessoas que mais têm, porque há um velho princípio que consta da civilização ocidental e da doutrina cristã que é: ‘Dos que podem aos que precisam. E há muita gente a precisar e muita gente a não dar o que pode’. E o ex-ministro rematou: "Uma pessoa que, na modéstia dos nossos índices salariais, ganha mais de dez mil euros por mês é uma pessoa privilegiada. E os que ganham 50 [mil] são muito privilegiados. E os que ganham 200 mil euros, porque os há, esses são tubarões".

Do que tenho lido e ouvido ultimamente acerca do manifesto desmoronamento da sociedade portuguesa fico com a impressão de que a insistir em navegar nesta onda Pedro Passos Coelho se arrisca a ficar na história não como o salvador mas como o coveiro da pátria. Saldo que seria lamentável para ele, para mim que nele votei e para Portugal que bem merecia outro destino.

Vai longo o meu comentário. Mas como é óbvio, não podia deixar de explicar a que se ficou devendo o ‘desvio’ registado, relativamente ao projecto que há cerca de um ano e meio me lembrei de pôr em marcha.