18 de agosto de 2012

Falando de leituras

Luís Farinha


Era ainda criança, 9, 10 anos, quando – vá-se lá saber porquê – apanhei o hábito (ou o vício?) de ler. Sem pruridos de escolha, livro que me caísse nas mãos era de imediato devorado, acontecendo que, na maioria dos casos, nada restava dele para o dia seguinte. Dado, emprestado, cedido pela biblioteca ambulante que todas as semanas, em dia certo, estacionava no Jardim da Graça, o velho bairro de Lisboa onde nasci e vivi metade da minha vida, certo era que nesse período distante a leitura era o meu passatempo preferido. Percorri Camilo, Eça, Torga, Herculano, Aquilino, Virgílio Ferreira, à mistura com outros, muitos outros autores portugueses que não tiveram talento ou tempo para marcar lugar na história da literatura. Em dada altura, saltei para os brasileiros Jorge Amado, Érico Veríssimo, Drummond de Andrade, Assis e uma lista infindável de policiais de bolso, numa amálgama de letras que se tornaram companhia cúmplice de noitadas bem passadas pela madrugada adentro, sempre atento ao “controlo” paterno para quem o gasto desnecessário da luz do candeeiro de petróleo ou das velas de parafina era absolutamente interdito. Quantas páginas virei debaixo dos cobertores para que a luz da vela não denunciasse a minha infracção às ordens impostas pela escassez económica reinante nos tempos da minha infância. Os “missais”, (era esta a designação intencionalmente depreciativa como lá em casa eram apodados os livros) vinham emprestar significado às palavras que mais adiante ouviria ao meu pai quando eu, dando vazão ao que me ia na alma, mostrei o firme propósito de continuar a estudar mal terminasse a instrução primária: “cá em casa não há espaço para doutores!” dizia, como se fosse ponto assente que “estudar” era um privilégio de ostentação exclusivo das famílias mais ou menos abastadas. Outros tempos, penso hoje, esbatida que está a decepção que então sentia, calado. Só mais tarde, já dono do meu querer, tive ocasião de preencher lacunas que ficaram abertas à espera de melhores dias. Cumpri o meu destino, atrevo-me a julgar. E isso serve-me de compreensão e consolo no ocaso duma existência muito vivida. As decepções vão-se diluindo ao longo de cada etapa vencida, aprendi, bem ciente, agora, de como a repetição dos equívocos em que tropecei pela vida fora contribuiu para a construção do céptico que hoje sou.

Do mal, o menos…
    
O tempo passou e ultrapassados que estão os oitenta recordo o meu pai com imensa saudade. Como hoje gostaria de ouvir a sua voz severa a ordenar-me: “acaba lá com o missal e apaga-me essa luz, se faz favor!”

Sorrio, mas não é por maldade, asseguro-vos…


*

Falando de leituras, permitam-me trazer aqui uma ocorrência curiosa, recente e que deveras me apraz contar-vos.

Leitor compulsivo, como já referi, confesso que ainda hoje – e talvez mais do que nunca - os livros continuam a ser a minha praia, como agora se diz. Romance, ensaio, biografia, história, policial… confesso a minha dificuldade em assumir preferência, pois se o conteúdo é apelativo e para cúmulo está bem escrito, qualquer livro suscita de imediato o meu interesse. Foi isso que aconteceu com a obra que acabei de ler, três volumes de peso cujo autor, confesso, me era desconhecido.

Fazendo a minha ronda habitual aos expositores da livraria que habitualmente frequento, deparei com um livro que desde logo me espevitou a curiosidade. O autor, um jornalista de nacionalidade sueca, prematuramente falecido, nada me dizia, como já referi, mas logo me apercebi que a sua escrita era fluida e isenta daqueles preciosismos linguísticos tão em moda, agora, mas dos quais confesso, começo a ficar cansado.



“Os homens que odeiam as mulheres” é o título do primeiro volume duma trilogia designada “Millenniun”. O autor: Stieg Larsson, era um jornalista e activista político olhado de soslaio pela extrema-direita sueca e alvo de várias ameaças de morte feitas por gente incomodada com a posição política que, enquanto jornalista, assumia publicamente.

Só a meio do terceiro volume da trilogia Millennium decidiu procurar editor para a obra a que deitara mãos. Quis o destino, porém, que não tenha assistido ao sucesso internacional em que a mesma haveria de se tornar, com cerca de 15 milhões de livros vendidos. Larsson morreu repentinamente, vítima de um colapso cardíaco fulminante (segundo a notícia oficial) ao subir apressadamente ao 7.º piso do prédio onde estava instalada a redacção da revista da fundação por si criada, a Expo, através da qual denunciava as poderosas organizações da extrema-direita do seu país. Tinha 50 anos.

Voltando à prometida ocorrência, nessa primeira noite de leitura do livro recém- adquirido (coisa para 539 páginas…) logo me apercebi da singularidade e da força emanante da história ali contada. Assim, num impulso repentino peguei no telefone e liguei para a livraria, no centro comercial, e fiz a pergunta que me impacientava: “Têm os 2.º e 3.º volumes da trilogia Millennium? Sim? Por favor reservem-me um exemplar de cada. Amanhã passo a buscá-los. Obrigado…”

Como já referi, terminei agora a leitura do último volume da obra. Foram, no seu todo, 2100 páginas lidas com incontida sofreguidão. Há muito que não assumia uma tarefa dessa ordem com tamanha absorção, não por culpa minha mas talvez porque, ao correr do tempo, me fui tornando mais exigente. Não terá sido por acaso que a Trilogia Millennium me prendeu à leitura com uma espécie de frenesim que me sabia tão bem. Daí o permitir-me pensar (como antes referi) que a culpa não é minha. Culpa, se alguém a tem, deve ser atribuída por inteiro a Stieg Larsson pelo talento enorme que teve a arte e o saber de passar para o papel.

Se a distracção, como aconteceu comigo, ainda não vos permitiu reparar na Trilogia Millennium aqui deixo a advertência: não deixem escapar a oportunidade de a compulsar.

Acreditem que vale a pena…

8 de agosto de 2012

Já basta o que basta!

Luís Farinha


Neste nosso martirizado país há duas áreas de criminalidade cuja frequência e gravidade têm vindo a crescer sem que - pelo menos aparentemente - sejam tomadas medidas susceptíveis de as minimizar. Refiro-me à pedofilia e aos incêndios que têm vindo a devastar o que resta da floresta portuguesa. É certo que a delinquência vem registando nos últimos tempos, na sua globalidade, uma gravidade preocupante, porém as que acima destaco parecem em vias de se tornarem de todo insanáveis por razões que escapam ao cidadão comum já assoberbado de medo por outras razões.

Não quero com isto significar que, tanto a pedofilia como os fogos postos [ou causados por descuido], sejam actos condenáveis recentes, mas lá que têm vindo a aumentar gradual e rapidamente isso é verdade. Basta acompanhar as notícias dadas à estampa diariamente para o confirmar.

Dir-me-ão (e é verdade) que antigamente, no tempo da outra senhora, a censura - com a sua obstinação no sentido de preservar a idílica imagem de Portugal como “um jardim à beira-mar plantado” ou um país de “brandos costumes” - portava-se como cão-de-fila não deixando a comunicação social dar conta do que, no seu entender, manchava a reputação bucólica da nação edificada e mantida em estado puro pelo senhor presidente do conselho de ministros de então. É igualmente verdade que nesses tempos a polícia (GNR incluída) não era ainda ensinada a tratar o delinquente comum com respeito e parcimónia. Era bruta a explicar as coisas e, mal entrava no posto levando o sujeito preso por arreata, em vez de começar a fazer perguntas ia logo cumprimentando e dando as boas vindas ao eventual criminoso com umas bordoadas, assim em jeito de apresentação. Seja porque os tempos eram outros ou lá pelo que fosse, a verdade é que as famílias podiam sair à noite a ver as montras iluminadas das “baixas” de Lisboa ou Porto sem medo de serem assaltadas ou maltratadas e de dia ainda não usavam o hábito de evitar as ruas pouco concorridas, sempre alerta, olhando de soslaio ou por cima do ombro.

Mas voltando à execrável pedofilia é de crer que tal crime vem de longe, de muito longe. Acontece, porém, que a relevância suscitada pela liberdade de imprensa trazida pelo 25 de Abril põe agora a nu um crime que antes era ocultado pelo antigo regime em nome dos tais “brandos costumes” a que já fiz referência. Acresce ainda o facto de que o abuso sexual das crianças é, em muitos casos, uma bestialidade que ocorre no seio das próprias famílias e, nesses casos, a vergonha suscitada por tais acções canalhas evita normalmente que o seu conhecimento chegue ao domínio público.

Outro caso, porém, é o que tem os incêndios como cenário. Fogos sempre houveram e a sua ocorrência sempre teve origem em três causas directas: 1. falta de prevenção na limpeza e vigilância das matas; 2. descuido dos seus utentes nas queimadas mal protegidas e 3. fogo posto. No primeiro caso é ao estado que devem ser imputadas as culpas. A falta dessa medida é notória e persistente vá-se lá saber porquê. No segundo, elas as culpas, são devidas ao descuido ou irresponsabilidade de quem por esta ou aquela razão frequenta os locais arborizados sendo sintomática da falta de civismo dessas criaturas. Repetindo-me: já que a limpeza das propriedades privadas é da responsabilidade dos seus proprietários a falta de cuidado na limpeza das mesmas ou da sua utilização indevida deviam ser fiscalizadas sistematicamente pelas autoridades, nomeadamente no princípio das épocas quentes e secas, penalizando com dureza os prevaricadores. Resta abordar aqui os incêndios popularmente designados de fogo-posto. O vandalismo, a embriaguez seja de que tipo for, a vingança pueril, o interesse monetário, a maldade na sua expressão mais crua, a imbecilidade e a loucura são geralmente as causas susceptíveis de transformar o ser humano num animal irracional capaz desse crime hediondo. Chegados a essa conclusão, resta às autoridades perseguir e privar da liberdade por largo tempo os autores deste desvario devendo essa acção ser entendida como uma prioridade da justiça. Só isso, conclui-se, pode levar os energúmenos a considerar que realmente o crime não compensa.
           
As entidades oficiais bem jogam com a abstracção dos números das estatísticas, tentando com essa engenharia aritmética mostrar que estão atentas aos problemas da nação, acabando quase sempre por concluir que, afinal, o diabo não é tão feio como o pintam. Senhores políticos, do alto dos meus muitos anos já vividos permito-me recomendar-vos que essa estratégia já deu o que tinha a dar. De estatísticas buriladas está o cidadão cansado. É árvore que já deu frutos… mas que secou.

Eu sei, nós sabemos que por vontade dos senhores governantes os problemas aqui enunciados não deviam ser focados assim tão frontalmente porque fazem prova da descorada operacionalidade de algumas cadeiras sensíveis do poder. Mas, como qualquer burro teimoso, não consigo alhear-me de que há mais anos do que aqueles que alguns dos senhores têm de vida me venho esforçando para constituir a pedra de tropeço de alguns políticos que têm vindo a alcandorar-se nos altos poleiros dos governos da Nação para melhor servirem os seus interesses pessoais e os do seu círculo de influência partidária.

Fiquemos por aqui…   

Vamos mas é arregaçar as mangas e trabalhar a sério pois é isso que o povo espera e precisa.

Medidas, senhores, medidas…

Deixemo-nos de querer mostrar a beleza da montra, quando no armazém a indigência é deprimente.

Já basta o que basta!

28 de julho de 2012

O que é feito de ti, António!

Luís Farinha


Escrito e publicado em
11.Março.1997
  
Vou contar-lhes a história de António, um homem que conheci há uns três anos no Hospital-Prisão de Caxias, quando ali fui fazer um trabalho jornalístico. É uma história que fala do que pode acontecer a qualquer um de nós, quando o destino se empenha em dar-nos cabo da vida…
  
António esteve emigrado em França durante 23 anos. Com ele, vivendo naquela pátria adoptiva de cerca de um milhão de portugueses, esteve sempre a sua mulher. Lá lhe nasceram filhos e de lá voltou, um dia, cansado de tantos sacrifícios, ruído das imensas saudades da sua terra, tão perto de Lisboa.

Regressado, montou no sítio onde nasceu uma oficina de reparações de automóveis, o seu ofício de sempre, onde continuou a fazer pela vida. Comprou uma casa... e deixou-se ir, ao sabor de um dia-a-dia rotineiro, vendo os filhos arrumarem as suas vidas e esperando a velhice que entretanto ainda vinha longe.

Só que, segundo o seu relato, António e a mulher nunca se deram lá muito bem. Embora gostasse dela, o feitio de ambos, verdadeiramente incompatível, não lhes consentia um relacionamento amigável. Depois do regresso a Portugal a vida em comum de António e da mulher foi piorando progressivamente e, embora a idade já não convidasse a grandes mudanças, certo é que acabaram por se separar, indo cada um para seu lado.

Um dia, já bem perto dos cinquenta, António iniciou uma nova relação quando encontrou uma mulher que também já fora casada. Porém... talvez porque o seu feitio mais não permitia, algum tempo depois a convivência com o seu novo amor também passou a não ser pacífica. Era um "pega e larga" (palavras suas) em que os intervenientes nunca conseguiam entender-se. Mais do que uma vez, a vida em comum esteve prestes a consumar-se para ser, logo depois, uma e outra vez adiada, à espera de melhores dias...

E a vida ia assim andando - ou desandando - para António e para os seus familiares.

Um dia, esgotada de vez a paciência, farto daquela espécie de inferno que ele próprio se encarregara de ajudar a criar, de cabeça perdida, num acto irreflectido António pegou na espingarda caçadeira e disparou sobre a mulher com quem mantinha aquela espécie de relação doentia. Depois, desvairado, dirigiu-se a casa da esposa, de quem se separara havia três anos e voltou a atirar. Em seguida, acabou por fazer um último disparo... contra si próprio. No somatório de consequências a esposa morreu, a outra mulher ficou inutilizada para o resto da vida e António foi parar ao hospital com o lado direito do tronco estraçalhado pelo disparo. Levado a tribunal, depois de socorrido e tratado, foi condenado a 20 anos de prisão por homicídio tentado e consumado.

Um dia destes, durante algum tempo, estive à conversa com António, na cadeia onde cumpre a pena que lhe foi aplicada. Detido há três anos, e agora com 52, o homem que tenho na frente é um ser solitário, calmo e resignado. Fala serenamente e lamenta angustiado aquele dia de loucura de há três anos atrás. Além disso, tem uma mágoa. Os filhos votaram-no ao mais absoluto desprezo e isso, sim, é o que mais lhe dói.

Era isso o que António me dizia quando na sala onde estávamos entrou uma jovem. Parada, olhou à volta procurando alguém. No instante seguinte os seus olhos encontraram os de António e então caminhou até à nossa mesa. Em pé, um em frente do outro, calados, ele expectante, ela com os olhos vidrados tentando reter as lágrimas que teimavam em explodir… depois, num impulso retido a custo, a jovem abriu os braços cingindo o pai comovidamente.

E ali ficaram, olhos nos olhos, calados, deixando que o silêncio evitasse palavras que, quem sabe, talvez trouxessem o desencanto. De resto, para quê as palavras, se o perdão era tão expressivo no rosto da jovem e o remorso tão evidente nos olhos cheios de água de António.

Saí devagar, sem me despedir, deixando-os sós, entregues à sua emoção. Achei melhor não perturbar aquele momento único na vida de António.

Às vezes, ser jornalista não é coisa fácil, acreditem que não…

26 de julho de 2012

“Esta pressa de agora…”

Luís Farinha
  

Passamos a vida a correr...

Melhor seria dizer que passamos a vida a correr atrás de coisa nenhuma!

É a ânsia de partir e de chegar. É o afogo e a cultura do “já devia lá estar!” É a pressa, o afã, a ansiedade, a impaciência. É o frenesi da loucura colectiva em que transformámos o dia-a-dia.

É assim que vivemos, ou melhor, é assim que não vivemos!

Sim, porque essa coisa de dizermos que esta é a vida que temos nos tempos que correm, não passa de uma expressão falaciosa. Porque, se virmos bem, esta é uma vida que não temos! Uma vida que não vivemos...

Porque isto assim, este corre-corre atrás de coisa nenhuma não passa de uma forma de ir gastando o tempo sem honra nem proveito.

Afinal, a pouco e pouco fomo-nos transformando em meros cumpridores de horários. E o mais curioso é que acabamos por não cumprir coisa nenhuma, uma vez que nunca chegamos a tempo seja aonde for.

É verdade ou não é?

E se pensam que estou a exagerar quando digo que somos assim uma espécie de atrasados compulsivos, basta observar a maneira como conduzimos nas estradas, ou nas ruas das cidades.

Já repararam na frustração que sentimos por não podermos ocupar o lugar de quem segue na frente ou na faixa do lado?

Quando conduzem na cidade, ainda não se deram conta da impaciência com que tocam a buzina assim que no semáforo se acende o sinal verde. Como se chegar e partir fosse uma coisa automática?

Na estrada, nas longas filas de viaturas que às vezes se formam, já repararam nos disparates que fazemos para ultrapassar o carro da frente, para em seguida continuarmos a passo de caracol?

Nas filas seja do que for que tenha um balcão ou um guichete já observaram as cenas que se fazem quando alguém se lembra de assomar à frente só para pedir um impresso para preencher? E tudo isso para depois, quando chega a sua vez, ficarem à conversa fiada, a falar de futebol, da telenovela ou de outra banalidade qualquer com o funcionário que o atendeu?

É... disfarçamos a frustração latente com essa imitação de urgência. E isso azeda-nos o dia-a-dia. Faz da nossa vida um caos, um inferno pegado.

É por isso que eu digo que temos de reaprender a viver. Temos de vencer essa apetência pelo... “já devia lá estar”. Temos, enfim de pensar que quanto mais corremos, mais depressa chegamos ao fim. E o fim, meus amigos é uma palavra feia, que soa mal, uma coisa que ninguém gosta de sentir. 
  
Acalmemos, portanto. Aprendamos a glosar as coisas boas que cada vez são mais difíceis de encontrar. Como a paciência, a calma, a tranquilidade.

Creiam que vale a pena. De resto, para nos envenenar a alma e os sentidos já basta a merda de vida que temos pela frente…

14 de julho de 2012

O direito à diferença

Luís Farinha


Afinal, ao contrário do que diz a canção, todos somos diferentes, poucos somos iguais.

Com a mudança política emergente da revolução de Abril, muitas expressões até aí “proibidas” foram introduzidas no linguajar dos portugueses. De todas elas, porém, a que trouxe verdadeiros acordes de música celestial aos ouvidos de muita gente foi o célebre direito à diferença.

Muitos portugueses, talvez a maioria, pensou então que, de uma vez por todas, ficaria estabelecido o conceito universalista de, como diz a canção do Paulo de Carvalho, somos todos diferentes, todos somos iguais.

Afinal, a realidade está aí para nos lembrar que não é bem assim. Que as cantigas são óptimas para embalar os sonhos.

Frase de muitas leituras, direito à diferença passou a soar, sobretudo, como um hino à liberdade das minorias. Trouxe consigo, na singeleza da sua construção, uma aragem de esperança àqueles grupos de cidadãos que até aí estavam proibidos de existir: associações políticas, religiosas e de cidadania; classes profissionais não agrupadas em sindicatos hipotecados ao Estado Novo; intelectuais não alinhados ou mais contestatários; homens e mulheres de cor e raça diferentes; minorias com outras opções de vida. E assim por diante.

O direito à diferença passou a ser a bandeira dos que sempre ousaram não alinhar com o estabelecido, com o convencional. Transformou-se em pedra de arremesso dos que, até aí, viviam exilados nos seus pequenos guetos. Dos que normalmente pagavam caro - às vezes com a própria vida - a temeridade de ser, pensar e querer de maneira não convencional. O 25 de Abril trouxe consigo, realmente, essa enorme conquista democrática: o direito à diferença. Mas não conseguiu fazê-la acompanhar da necessária mudança das mentalidades retrógradas.

Ainda hoje, e já passaram quase três décadas depois da mudança do regime político, há quem insista em querer preservar as velhas memórias do antigamente, em querer reinventar o sistema de restrições que fazia medrar a classe dos privilegiados. São os que ainda hoje, muitos anos depois da madrugada de Abril, fazem o que podem para perpetuar essa parte do passado que muitos pretendem esquecido, definitivamente, nos recessos do tempo. Os que mascaram das causas mais nobres as intenções inconfessáveis, quando não mesmo as suas pulhices. E para que elas colham, apelam ao populismo e, não raras vezes, à manipulação maquiavélica da opinião pública.

O ofício de jornalista tem-me mostrado isso vezes de mais. É assim que nascem as ditaduras: calando as vozes discordantes; erradicando as minorias; recusando o tão exaltado direito à diferença. Não foi assim que o salazarismo conseguiu garantir a sua permanência no poder durante décadas?

Não foi esse o modus operandi que permitiu a Adolfo Hitler deitar fogo à Europa com o aplauso de milhões e milhões de apaniguados dentro e fora da Alemanha? Por cá, quantas vezes isso já aconteceu depois de Abril? Quantas vezes foi exercida oposição a esse direito fundamental, sublinhado na Constituição da República? Quantos casos se podem contar? Foi a oposição ao direito de recusar o serviço militar por objecção de consciência. A resistência à assimilação dos imigrantes de outras raças na sociedade portuguesa. Os condicionalismos que, durante muito tempo, cercearam o voto dos imigrantes portugueses espalhados pelo mundo. A liberdade religiosa sistematicamente posta em causa a despeito de se tratar de um direito consagrado na Constituição. E, pior que tudo, a condenação implícita ou explícita de pensar e ser diferente, um direito que a Constituição reconhece mas que os grupos de pressão e as instituições com objectivos escusos porfiam à exaustão.

Em cada uma destas situações tem havido sempre quem se mostre vivamente apostado em organizar campanhas de defesa dos interesses da velha e boa “sociedade”, mobilizando meios e organizando oposição cerrada às minorias, sobretudo se estas se regem pelo direito à diferença. Afinal, ao contrário do que diz a canção, todos somos diferentes, poucos somos iguais.

© DR Luís Farinha Texto publicado em: 09/08/2003

28 de junho de 2012

Os novos ‘cavalheiros de indústria’


Luís Farinha


O regime está podre. De há uns anos a esta parte e vindos não se sabe bem de onde apareceram na sociedade portuguesa uns estranhos personagens animados de um projecto maquiavélico: enriquecer muito e rapidamente sem olhar a meios, inclusive à custa de quem trabalha, os mais fáceis de esbulhar. Constituídos em quadrilhas organizadas ou mesmo a solo, para atingir os seus planos os tratantes cuidaram de introduzir-se nos lugares-chave do aparelho do estado ou nos círculos influentes capazes de lhes facultarem acesso aos centros de decisão. A partir daí foi um nunca mais acabar de façanhas escabrosas, umas mais rendosas que outras mas todas altamente ruinosas para os cofres da nação e para os bolsos dos cidadãos contribuintes.
Em consequência da permissividade instalada no regime e da acção nefasta desses novos bandoleiros engravatados, em meia dúzia de anos, como navio cheio de rombos Portugal bateu com o casco no fundo. É certo que os tribunais estão cheios de dossiers que apontam nas mais diversas direcções mas a justiça, emperrada e pouco dada a questionar o sistema instalado, vai permitindo que os processos prescrevam e os meliantes se continuem a rir do povo que vão esbulhando, certos que estão da costumeira impunidade que por cá assentou arraiais.
Os casos de corrupção e arranjismo que chegaram ao domínio público e ficaram famosos são mais que muitos, a tal ponto que só recorrendo aos arquivos dos tribunais seria possível enumerá-los na sua assustadora quantificação. Os que neste momento me ocorrem são:
                         
“Caso Vale e Azevedo”
“Caso Caldeira”
“Caso Fátima Felgueiras”
“Caso Portucalle”
“Caso Gondomar”
“Caso Moderna”
“Caso Independente”
“Caso Furacão”
“Caso da Câmara de Lisboa”
“Caso Apito Dourado”
“Caso Face Oculta”
“Caso Isaltino”
“Caso Freeport”
“Caso BCP”
"Caso BPP"
“Caso dos submarinos”
“Caso SNS”

Mas há mais, há muitos mais…

Muitos dos processos a criar teias de aranha nos diversos tribunais portugueses serão, como referi, resultado da lenta capacidade de resposta da máquina judiciária, mas não deixa de ser sintomática a crítica que a directora do DIAP de Lisboa, Maria José Morgado, fez à prestação da PJ, no que toca à acção contra a criminalidade económico-financeira, numa declaração ao DN em 31 de Março de 2010. "Ao nível da Polícia Judiciária registam-se dificuldades graves no âmbito do combate ao crime …/… económico-financeiro. Tais dificuldades traduzem-se na quase paralisação de certos processos no crime económico”. Sendo uma declaração de alguém que, por força da voluntariedade e capacidade profissional demonstradas ao longo dos anos, é de ter em conta.

Que não se pense, contudo, que esta dificuldade em garantir um combate adequado aos crimes de “colarinho branco” é um problema confinado apenas a Portugal. Quem lê a imprensa estrangeira facilmente dará conta de quão difícil é contrariar a acção dos criminosos que agem no silêncio dos seus gabinetes. Citando Rodrigo Strini Franco, delegado da Polícia Federal de São Paulo (Brasil): “o criminoso de colarinho branco possui um plus, um escudo, uma imunidade que o exclui do poderio penal”. Com tal asserção, fácil é concluir que a criminalidade de colarinho branco gere uma notável desigualdade no controlo judicial. Voltando a Rodrigo Franco atente-se neste conceito: “Basta verificar a população carcerária para que se constate a origem das pessoas que lá estão”.

‘Para bom entendedor meia palavra basta’, diz a sabedoria popular. Tão sábia como: ‘com a vida dos outros podemos nós bem’, querendo significar que o que nos deve incomodar é o que se passa neste nosso rincão lusitano. Porém, vivemos num período de globalização que, por arrastamento, abre as fronteiras nacionais ao bom e ao mau que nos chegam lá de fora, quer queiramos ou não. É conveniente levar em conta esta realidade para que o espírito nos não atraiçoe com juízos de valor mesquinhos na toma das decisões menos comuns que se nos deparam pela vida adiante.

É perfeitamente concebível – e até desejável – que qualquer cidadão, por mais anónimo que seja, saiba (e consiga) projectar a sua vida pela via do enriquecimento resultante do trabalho sério. Há um sem número de casos que ilustram esta referência, casos que suscitam a admiração e o respeito geral. Tomemos um exemplo: Rui Nabeiro, um português oriundo de uma família humilde que, muito jovem ainda, fundou a empresa Delta Cafés, corria o ano de 1961. Muito trabalho depois era titular de uma sólida fortuna baseada no labor sem tréguas e na rectidão dos processos entretanto por si postos em marcha. Tendo deixado para trás os 80 anos e uma carreira de que se orgulha, Manuel Rui Azinhais Nabeiro é hoje uma figura que os portugueses respeitam e o exemplo vivo do homem rico que, por mérito próprio, é apontado como o arquétipo duma raça em vias de extinção.

Não é única a referência que acabo de citar. Outras mais poderia aqui revelar, o que me daria enorme prazer, mas esta serviu apenas para mostrar a diferença que hoje marca as actividades obscuras duma súcia de ricaços feitos à pressa, os tais que de ‘colarinho branco’ e gravata a condizer enxameiam a nova sociedade lusa, os muitos que optaram pelo enriquecimento construído de manigâncias, de conluios, de pouca-vergonha. Os gananciosos que não recuam perante a sordidez de tirar partido da lástima que avassala o Portugal de nós todos.
Que os filhos e netos desses trapaceiros encapotados não assimilem o exemplo vergonhoso que receberam por herança é o meu voto sincero.      

20 de junho de 2012

Os velhos do meu país

Luís Farinha
Quando naquele fim de tarde atravessava o Jardim Constantino, em Lisboa, não pude evitar uma breve paragem para observar uns velhotes que, apesar da morrinha que caía e da demasiada “frescura” que se fazia sentir, ali estavam, à volta de uma mesa improvisada e dum baralho de cartas. Jogavam, para matar o tempo inútil que é agora o seu.
O que me fez ficar com pele de galinha, foi a perspectiva de, também eu, um dia, poder fazer parte dum grupo como aquele.
Olhei aqueles rostos anónimos, quase sem expressão, e lembrei-me de muitos outros homens e mulheres, velhos como aqueles, que estiolam nos chamados “lares da terceira idade”, essa espécie de antecâmaras da morte cuja proximidade pressentem. Os "lares" para onde o egoísmo dos mais novos atira os seus idosos, como de trastes inúteis e incómodos se tratasse. Não, não estou a apontar o dedo seja a quem for, acreditem. A fazê-lo teria de começar por mim, pois ainda hoje (e já passaram tantos anos…) não consigo perdoar-me pela morte da senhora Virgínia, minha mãe, num desses locais desolantes inventados pela mesquinhes de que só os humanos são capazes.
Mas, voltando aos velhos do jardim, confesso que ante aquele quadro deplorável, fiquei profundamente consternado.
Induzido pelo cenário decrépito, acudiram-me à memória, de repente, algumas notícias lidas na imprensa referindo o repetitivo aviso de alguns governantes segundo os quais “o que cada português activo desconta para a segurança social, está a tornar-se insuficiente para manter o crescente número de aposentados”.
Se, como afirmam a cada passo os comentadores economistas, a segurança social não está de boa saúde, e se Portugal é hoje, reconhecidamente, um país de velhos, o que vai ser do cada vez maior número de pensionistas? É uma perspectiva que assusta, mais ainda quando os políticos manifestam uma tão evidente falta de talento para encontrar soluções capazes de garantir aos mais idosos a tranquilidade de que tanto precisam, e merecem...
Promessas têm-se ouvido muitas e é por isso que, sempre que se aproxima mais uma campanha eleitoral, se reacende a esperança dos idosos, levando-os a acreditar nas patranhas tão exaltadas pelos palavrosos candidatos a governantes. Entretanto, com as pensões de miséria que o Estado lhes concede relutantemente e lhes cerceia quando lhes dá na tineta, lá vão tentando enganar a miséria, enquanto alguns desses novos aristocratas do regime engendram para si reformas principescas, usando a seu favor o conhecimento adquirido no manejo da máquina do poder.
Ao cruzar o Jardim Constantino, parei a olhar aqueles idosos que ao frio jogavam as cartas para afastar a solidão. Quando por fim me afastei, senti os olhos húmidos. Mas não fiquem para aí a pensar que era de pena ou de raiva. Era da chuva miudinha que caía…
Entretanto, para trás ficou aquele grupo de velhos que do futuro nada esperam. Idosos que já há muito deixaram de sonhar.

16 de junho de 2012

Os vampiros

Luís Farinha



“Se há coisa que esta crise prova é que Marx não tinha razão nenhuma. Marx profetizou um "capitalismo" onde haveria um número cada vez maior de pobres, que seriam também cada vez mais pobres, enquanto o capital se concentraria nas mãos de um pequeno número de ricos cada vez mais ricos. Ora, como Popper lembrava à exaustão, não só o capitalismo retirou da pobreza milhões e milhões de "proletários", que hoje vivem comparativamente melhor do que alguma vez na história e vivem seguramente melhor do que em qualquer regime socialista, como difundiu a propriedade a uma escala nunca antes vista. A crise que vivemos desmente Marx no sentido mais exacto porque nasce da expectativa de sermos todos proprietários, mesmo que à custa do crédito.”

Quando acabei de ler este pedaço da prosa de Pedro Picoito no blogue Cachimbo de Magritte, dado à estampa em 04.10.08, fiquei a reflectir sobre a capacidade que alguns possuem de, mesmo à distância, serem capazes de captar os sinais avisadores de calamidades que muitos outros não conseguem sequer vislumbrar. Mais de três anos passaram sobre o escrito do historiador e, se para ele os equívocos eram já evidentes, o tempo que passou encarregou-se de confirmar quão vãs eram (e continuam a ser) as efabulações dos que se atrevem a conjecturar sobre os amanhãs que estão para vir. Para que as profecias dos mais sábios fossem acatadas como inquestionáveis seria necessário que o mundo fosse uma coisa estável e mais equilibrado o discernimento dos seus ocupantes transitórios relativamente à sociedade em que estão inseridos. Não é assim, porém: o mundo está em permanente mudança e os seus habitantes primam pela inconstância. Antes, o homem distinguia-se pela honra que emanava das suas acções públicas e privadas, hoje o seu paradigma é medido por uma coisa a que chamam sucesso, ainda que este seja resultante de práticas nada edificantes. Na actualidade Portugal é exemplo deste raciocínio. Olhemos as figuras salientes que ultimamente enxameiam as colunas dos media, contabilizemos os exemplos das que têm vindo a tornar-se notícia pelas piores razões e retiremos as ilações devidas. O balanço é confrangedor, chega mesmo a meter medo porque mostra até onde pode chegar a fome de importância que grassa na sociedade actual. Como a realidade bem mostra, a busca aloucada do enriquecimento fácil e a ganância desmedida são os factores que norteiam a busca do sucesso pessoal. Daí o culto da opulência, presente na pose sobranceira dos novos-ricos e, por associação, dos que mesmo vivendo de crédito se babam deleitados caricaturando a postura arrogante dos que teimam em querer passar a imagem de seres à parte, não confundíveis com os vulgares cidadãos sem pedigree.       
   
Nos últimos tempos Portugal tem vindo a mostrar ao mundo a endémica falta de talento dos seus políticos para gerir as coisas da governação. Ao contrário do que os mais ingénuos ainda possam pensar essa inabilidade não é uma coisa de agora. Como a história se encarrega de demonstrar trata-se de um estigma que vem de longe, dum tempo que já foi.

Nasci num ano de crise profunda. Mil novecentos e vinte e nove foi, como se sabe, um ano catastrófico para a economia e finança mundial. A Grande Depressão, designação com que essa calamidade ficou inscrita na história, embora tivesse origem no crash da bolsa de Nova Iorque (registado em Outubro desse ano) de imediato se propagou ao exterior, levando inúmeros países à pobreza mais rasteira. Portugal não foi excepção: a economia lusa, débil por natureza, viu-se de repente envolvida pelos fumos do descalabro geral mas, dando crédito ao velho adágio segundo o qual “há males que vêm por bem”, foi graças talvez ao isolamento do país no contexto internacional que os efeitos da Grande Depressão não foram aqui sentidos como noutros pontos do globo.    

A situação recente é, contudo, bem diferente. Sem ter ainda encontrado o destino prometido pela revolução de Abril, nos últimos 38 anos Portugal tem vindo a debater-se com uma sucessão de situações políco-económicas intrincadas criadas artificialmente por uma cadeia de sinistros personagens que, por artes e manhas, se vão infiltrando nos centros de decisão estratégicos afim de, à primeira oportunidade, conseguirem criar - para si e (ou) para os seus grupos de influência - as condições propícias ao enriquecimento fácil ou à engorda das fortunas recém adquiridas, como se de magia se tratasse. Tal acção, normalmente muito frutuosa, aliada à notória falta de talento dos que para “governar” se vão voluntariando, conduziu os portugueses à espécie de beco sem saída em que se encontram e do qual não vão conseguir sair nos anos que a vista alcança. A pobreza é cada vez mais profunda e tanto quanto é fácil depreender, essa precariedade veio para ficar. Já era assim no ano em que abri os olhos pela primeira vez (1929), e continua a ser, agora, 83 anos depois, quando se aproxima a hora de os fechar pela vez derradeira.

Nasci pobre e nessa condição vivi até à idade adulta. Depois, aos poucos, consegui afirmar-me no plano profissional e, sempre convencido que o trabalho seria a única coisa que me faria melhorar os amanhãs que viriam, cheguei à temeridade de acumular dois empregos a tempo inteiro durante quase duas décadas. O excesso impediu-me, porém, de continuar. Lembro ainda aquele fim de tarde em que um médico amigo me impôs a alternativa: “acabas com um dos teus empregos ou recuso-me a continuar a atender-te no meu consultório, agora escolhe!”. Depois de lhe assegurar que iria seguir o seu conselho veio ainda com outra condição: “Então, para já, sem adiamentos, quero-te de férias pela primeira vez durante os próximos 15 dias”. Contava eu, então, 40 anos de vida e quase 30 de labor contínuo…
A convicção de que só o trabalho, se conjugado com uma vida sem gastos extravagantes me consentiria olhar o futuro com alguma tranquilidade fez com que adoptasse essa condição fazendo dela a luz que norteou o caminho que guiou a minha vida inteira. Só agora, muito perto do fim, é que se me coloca algum cepticismo quanto ao futuro dos filhos dos nossos filhos, porque a acção equívoca dos portentos políticos que se têm sucedido nas cadeiras do poder para mais não dá. Só agora, quando o trabalho escasseia e o desemprego cresce numa proporção que mete medo, quando o país desceu à necessidade de ter de pedir ajuda externa para evitar o descalabro colectivo é que me dou conta de que as sucessivas gerações desses políticos de faz-de-conta se têm limitado a percorrer o caminho mais curto ao encontro do protagonismo que, mais adiante, lhes trará a riqueza que tanto anseiam. Tal equação pode ser confirmada pelas inúmeras fortunas construídas a partir do conceito de que o que está a dar é ser ex-ministro de qualquer coisa. Mandando a ética às urtigas, enquanto permanecem nos cadeirões da governança os políticos de ocasião vão tecendo as suas urdiduras de modo a futurar posições de privilégio nas empresas de alto gabarito que de algum modo se tornaram devedoras de favores entretanto recebidos. Depois é um nunca acabar de benesses que ficam muito para além da capacidade de compreensão dos pobres coitados para quem o cúmulo da felicidade consiste na satisfação das necessidades básicas familiares. As últimas décadas têm sido férteis em exemplos chocantes.

Tal como acontece comigo, também vocês – os cidadãos angustiados – vão chegar ao fim da vida sem entender que raio de papel lhes foi atribuído nesta farsa burlesca obrada pela lustrosa classe dos vampiros.    

7 de março de 2012

Portugal pelas ruas da amargura

Luís Farinha



Para comprovar a falta de talento dos políticos lusos para o exercício da governança basta observar como têm sido incapazes de, desde sempre, não terem conseguido retirar Portugal do lugar que ocupa por demérito na cauda da Europa. Por culpa de um chorrilho de medidas precipitadas tomadas pelos governantes mal amanhados que se têm passeado pelos corredores do poder e, sobretudo, em consequência dos efeitos perversos da centralização que o tornou dependente dos interesses dos seus primos ricos da Europa, Portugal está agora a ser fustigado duramente por uma desordem económica e social internas sem precedentes. O desastre é de tal monta que, em última instância, justificou até a directa intervenção estrangeira na governação do país.

Neste momento conjugam-se os maus ventos nesta ponta da Europa.
Deixando-se arrastar pela orgia de sedição que vai lá por fora e pelos excessos cometidos cá dentro, Portugal está - por assim dizer - virado de pernas para o ar. Na verdade, desde os grandes escândalos económicos aos despedimentos em massa. Desde o aumento da criminalidade até níveis nunca imaginados, à falência da Saúde, da Justiça, da Educação e da Segurança Social. Desde os gastos exorbitantes utilizados na construção de sumptuosos estádios de futebol e de um sem número de outras obras faraónicas edificadas a meio de uma precária situação económica sem precedentes. Desde as fugas fiscais e fraudes económicas dos que, para o efeito, atempadamente se colocaram a jeito, aos cortes desbragados dos salários dos trabalhadores, ao crescimento desmesurado das suas contribuições e ao aumento incessante do bens essenciais que atingem principalmente (e como de costume) os que menos têm, é mais que preocupante a situação presente dum Portugal que definha a olhos vistos havendo já indicadores de que uma eventual mudança para melhor não é previsível nos anos mais próximos.

Entretanto, no Parlamento, os políticos alijam responsabilidades acusando-se mutuamente enquanto trocam diatribes, adjectivando os adversários com expressões impróprias. Enquanto os do Governo falam, os da oposição armam sorrisos desdenhosos, sem lhes ocorrer que muito do que hoje o povo se queixa teve origem quando, eles próprios, ocupavam as cadeiras do poder.

Que confiança pode o cidadão comum extrair deste cenário de opereta bufa?

Pelo contrário, a credibilidade política vai esmaecendo de dia para dia por culpa exclusiva dos que tudo prometem em tempo de eleições mesmo que incapazes se sintam para resolver os grandes problemas nacionais de fundo.

E assim vai o Portugal pequenino que noutros tempos, com homens de outra têmpera, conseguiu dar novos mundos ao mundo.

O poder é dignificante quando exercido com saber e tendo em vista apenas o bem-estar e a melhoria de vida dos cidadãos. Infelizmente e de acordo com as provas dadas esse não é o caso decorrente. Esta é a conclusão da maioria dos portugueses que assiste com crescente preocupação ao agravamento progressivo das suas condições de vida, enquanto umas dúzias de espertalhões oportunistas tecem para si salários suculentos e reformas sumptuosas, deixando ao povo anónimo as sobras da sua ganância desmedida e o encargo de se haver com as nefastas consequências daí subjacentes.

É digna de reflexão a constante demonstração de ausência do sentido solidário das camadas bem instaladas da sociedade lusa: os políticos e beneficiários do sistema instalado, levando-nos a questionar como podem tais sujeitos com rendimentos de milhares de euros mensais ter ideia de como consegue sobreviver um trabalhador ou pensionista com rendimento de 300 ou 400 euros, aqueles a quem o senhor primeiro-ministro apoda de ‘piegas’. Os mesmos que se tornaram as vítimas preferenciais dos esburgos engendrados nos cómodos cadeirões do poder. O que estaria a pensar o mais alto magistrado da Nação ao queixar-se de que os seus rendimentos não chegam para satisfazer os seus encargos pessoais… o que se há-de pensar?  Como será que os ricos vêem o povo do seu país?

Por favor, um pouco de sensatez, meus senhores…    

24 de fevereiro de 2012

Óh p’ra mim há 80 anos!


Luís Farinha


“Mesmo com as casas de madeira, com a lama dos caminhos... quando acordei fiquei com saudade desse tempo das brincadeiras sem parque infantil”


De repente, sem aviso, o subconsciente prega-nos a partida.

Como é que episódios praticamente apagados da memória, inrropem, sem aviso, pela calada da noite, como a provar-nos que o que deixamos para trás acaba sempre por nos apanhar, quer queiramos ou não? Visões, sons, cheiros, pessoas, sentimentos... coisas que nos levam de volta aos tempos que já foram. Umas vezes, é um sonho bonito, e então, ficamos felizes e gratos com a viagem ao passado que ele nos levou a revisitar. Outras vezes são memórias que tínhamos como esquecidas mas que surgem do nada, inopinadamente, reabrindo feridas que pensávamos já saradas.

O sonho desta noite pertence ao primeiro grupo. Foi um sonho feliz!

Eu conto como foi...

Não escondo de ninguém, nem de resto vejo razão para o fazer, que a minha primeira infância foi passada num aglomerado de habitações mal amanhadas, na sua maioria construídas de madeira, uma porta, uma pequena janela e o interior composto de duas divisões normalmente separadas por uma cortina. Era numa quinta, à Penha de França, nesta Lisboa que hoje, vaidosa, abjura o passado. Ali, na Quinta da Bandeira, as ruas, ou antes, os caminhos eram de terra batida. Como referência, a quinta situava-se exactamente onde hoje se ergue a Escola Nuno Gonçalves, na avenida General Roçadas, artéria que ainda não existia nos idos da minha infância.

Para um garoto de 2, 3, 6 anos, viver nessas condições não seria exactamente razão de deleite. Mas nesses tempos, quando Lisboa acabava ali bem perto, no Areeiro, a maior parte das casas “pobres” não tinha água canalizada, nem saneamento básico e ainda se alumiava a petróleo, o que fazia com que viver num lar de madeira, como o meu, não fosse propriamente degradante porque era assim que vivia a grande maioria dos portugueses pobres, acrescendo ainda a circunstância de aquela ser a única habitação de que eu me lembrava. Daí não sentir falta do que não conhecia.

Enfim, como referi aquele era o modus vivendi da grossa fatia da população que habitava os chamados bairros tradicionais da capital portuguesa. Pelo menos daqueles que viviam dos seus ofícios, os operários. Há 80 e mais anos abundavam os artífices: carpinteiros, marceneiros, pedreiros, pintores, sapateiros, polidores, serralheiros, alfaiates, ourives, mecânicos, relojoeiros, latoeiros e um nunca acabar de tarefeiros indeterminados, todos eles a ganhar uma ninharia. O meu pai, ‘contramestre’ num pequeno fabricante de calçado em Lisboa, auferia 20 escudos diários, pagos à semana de seis dias, num patrão que o admitira há 18 anos atrás. Não havia, então o direito a férias nem subsídios disto e daquilo, inclusive o de doença – coisa que, de resto, o operariado aceitava sem protestar por ainda não ter adquirido consciência do que, muito depois, começou a entender-se comodireitos básicos dos trabalhadores. Não tinham ainda sido inventados os contratos de trabalho: os patrões admitiam os trabalhadores em condições que eles próprios estabeleciam e despediam-nos quando lhes dava na real gana, sem qualquer justificação laboral e sem indemnização. Em compensação, é também verdade que se arranjava emprego com mais facilidade, do mesmo modo que era muito fácil admitir quem realmente queria trabalhar. Os operários distinguiam-se pelos seus atributos profissionais, sendo vulgar designarem por “arte” o ofício que aprenderam. Só o seu bom desempenho profissional e o desábito de reivindicar era, nesse tempo, garantia de alguma estabilidade nos lugares que ocupavam.     

Uma coisa é (ou são) os nossos anseios ocultos, outra, bem diferente, é a realidade social deste país, realidade que não era boa nos meus tempos de garoto, e que continua a ser má, agora que já sou velho. Só que oitenta anos depois dessa época distante, aqueles que hoje se designam detrabalhadores continuam a ser pobres, embora, em boa verdade, eu sinta dificuldade em entender como pobre uma família que se queixa de que o que ganha não chega para pagar as prestações da casa, do automóvel, das férias, dos electrodomésticos e, ao mesmo tempo, compra os ténis, as roupas e utensílios escolares de marca, os telemóveis e as demais bugigangas electrónicas que as crianças da família exigem e a que têm direito.    

Voltando, porém, ao meu sonho, ele veio trazer-me à memória que, mesmo nas condições minguadas em que vivi a minha primeira infância, há vivências dessa época que me são muito gratas. A personagem do meu sonho foi a “avó”, uma velhota que morava na casa ao lado da nossa e a quem, toda a gente, com muito carinho, tratava com essa designação familiar.

A “avó”, do alto do seu saber feito de muita vida vivida, era quem diagnosticava e tratava as maleitas da criançada da quinta. Levantava as “espinhelas caídas”; “tirava” o Sol que atacava a miudagem que vivia à mercê dos caprichos do tempo... enfim, a “avó” era o SAP que não havia nesse tempo (hoje também já não há…), o médico que custava o que não podíamos pagar, o padre que não frequentávamos; era a amiga e conselheira dos casais desavindos, a confidente sempre disponível para toda a gente que a procurava.
Foi um sonho bonito, o da noite passada...

Voltei a vê-la, à simpática velhota, com os seus cabelos brancos, com as rugas bem vincadas que a idade lhe trouxera, com o seu sorriso bondoso. Senti-lhe a mão macia com que me afagava a face enquanto me “tirava” o Sol, com um copo de água, virado de borco sobre uma toalha, em cima da minha cabeça. Quase senti o sabor da colher de mel com que rematava cada consulta dada.

Mesmo com a casa de madeira, com a lama dos caminhos... quando acordei fiquei com saudade desse tempo das brincadeiras sem parque infantil. Das espigas altas onde nos perdíamos, das “azedas” que chupávamos, dos figos que roubávamos dos quintais dos vizinhos.

Que saudade...

Quem me procurasse na noite passada, não me encontrava, com certeza. Tinha partido de viagem aos tempos da minha infância. Tinha ido visitar a “avó”, uma figura que, só agora me dei conta, continua bem viva no fundo das minhas recordações.

22 de fevereiro de 2012

Esta noite eu sonhei...

É verdade que a realidade suja de que hoje é construído o quotidiano mundial, a miúdo nos ensombra o sono com noites mal dormidas, permitindo-nos ir tecendo conjecturas que contribuem para o desassossego que alimenta a nossa vida.

São as notícias apavorantes que a imprensa nos traz diariamente e que digerimos com imensa dificuldade. A crescente constatação da inaptidão demonstrada pela excelsa classe política para resolver os graves problemas que enfermam a Nação conduzindo-nos para um futuro cada vez mais inseguro. A crise económica portuguesa que há muito deixou de ser uma mera figura de retórica para se tornar uma realidade que todos sentimos dolorosamente nos bolsos. O aumento progressivo da criminalidade e da insegurança ante a postura da avestruz adoptada, neste e noutros casos, pelos que podem (e deviam) adiantar medidas que as minorasse. A denúncia de incontáveis casos provados de corrupção que, pela contumácia do crime, já nos habituaram a colocar sempre sob forte reserva as palavras e atitudes impantes duma chusma de senhores enfatuados que em bicos de pés nos querem à força convencer de que, sem a sua intervenção, Portugal será sempre um país sem futuro. A desfaçatez com que nos injectam doses maciças de escandaleiras mirabolantes na grande área do futebol, só para que nos passe despercebido o que vai acontecendo nos campos da política e da economia, cada dia mais periclitantes. É tudo isto que nos deixa a imagem dum país em processo de desmoronamento.

Enquanto isso, ocorre-nos nas noites de vigília, que na morna quietude dos gabinetes do poder se vai engendrando o esbanjamento de fortunas imensas na construção de novos campos da bola ao mesmo tempo que se vão forjando novas formas de esmifrar mais e mais a bolsa já bastante magra dos cidadãos, quer através de novas taxas e impostos, quer fazendo vista grossa ao sempre crescente aumento do custo de vida de quem já pouco ou nada tem para gastar.

Lá mais para o fim do meu sono desta noite deu-me ainda para evocar os fumos dos conflitos sangrentos cujos ecos vindos de longe chegam até nós fazendo com que nos sintamos impotentes face à matança desumana e desnecessária de tanta gente inocente por esse mundo fora e do crescente receio de que, um dia lá mais para diante, tal cenário de tragédia se propague a este nosso amado torrão nascido há novecentos anos na ponta da Europa.

Comecei por falar de sonhos e é a parte bonita do meu sonho desta noite que vos quero contar.

Sonhei, imaginem, que vivia num país, o meu, onde já não havia crianças e velhos com fome. Dei por mim a viver numa nação, a nossa, de gente honrada que subia ao poder para cumprir promessas feitas em áreas que antes criticava aos seus antecessores nas cadeiras do Poder. Sonhei que já se podia entrar num qualquer hospital sem receio de por lá morrer, devido ao desleixo ou à incúria de quem, por todos os meios, devia esforçar-se para minorar o sofrimento. Persuadi-me, no meu sonho bonito, de que os jovens já não estudavam em vão e que os idosos até olhavam o último quartel da vida sem receio de serem deixados apodrecer na penúria das suas pensões de miséria.

Cuidei, nesse sonho que me embalou a noite, que Portugal era agora um país independente e soberano que não vendia a honra em troca de um prato de lentilhas.

Mas a meio da noite, quando finalmente acordei, senti-me por instantes feliz até que, aos poucos, fui interiorizando que tudo não passara de um sonho. Na verdade, um sonho bonito mas longínquo que agora, já sem esperança, jamais verei realizado.

13 de fevereiro de 2012

… e quem fiscaliza as acções do Estado?

Luís Farinha


O debate que decorria na televisão tinha já entrado naquela fase morna, habitual, em que tudo fora dito e repetido até à exaustão, sem que valesse a pena continuar de olhos pregados no ecrã, adiando a ida para a cama, à espera que o sono viesse.

Não me recordo do nome do programa (o que lamento), lembro-me apenas que decorria na RTP1.

De repente, porém, os meus ouvidos despertaram da letargia em que tinham caído quando ouvi aquela frase que acabou por me roubar o sono, obrigando-me a ficar desperto, sem conseguir adormecer quando finalmente recolhi a lençóis.

Não me recordo do nome do autor da frase, pedindo-lhe desculpa pela omissão agora cometida. Tão-pouco serei capaz de reproduzir palavra por palavra o seu considerando, mas foi pouco mais ou menos assim:

"O Estado tem vindo a montar uma rede de controlo das mais variadas acções do dia-a-dia dos cidadãos. Porém, é caso para perguntar quem é que fiscaliza a acção do Estado?"

Este o sentido da pergunta que ouvi e que me tirou o sono durante um bom par de horas.

Falo dos abusos da governação cometidos contra os dez milhões de portugueses, dando como inquestionavelmente estabelecidas alterações decididas nos corredores do poder. Finalmente, conto ainda com a escassez de competência e a sobranceria manifestada em muitos serviços públicos, por funcionários claramente inaptos para o desempenho das tarefas para as quais estão a ser pagos. Permito-me sublinhar que não me refiro particularmente ao actual Governo em funções mas a todos os que passaram pelo poder em Portugal nos meus mais de oitenta anos de vida.

É evidente que nem em todos os serviços do Estado são merecedores do reparo que aqui deixo. Há repartições públicas onde encontro exemplos de funcionários com vontade de me servirem com eficiência através de explicações e acções objectivas, chegando alguns desses funcionários a exceder, no bom sentido, o limite das tarefas que lhes estão adstritas. São raros os casos em que isso acontece, é verdade. Mas será talvez por isso que tanto me surpreendo quando deparo com serviços do Estado onde me tratam com eficiência e atenção.

Observando a questão com desadorno sou levado a ter em conta as inúmeras ocasiões em que vou a uma repartição pública cumprir uma qualquer acção imposta pelo regime e sou atendido como se fosse rogar um subsídio ou outro qualquer favor a alguém que não conheço.

Tenho para mim que o Governo e os chefes de repartição estabelecem geralmente regras de boa receptividade, essenciais ao bom atendimento de qualquer cidadão. Contudo, nas questões de importância menor, dependendo da sua disposição no momento, os funcionários que nos atendem vão deixando que o cidadão contribuinte se desenrasque como puder, ao sabor da sua capacidade de improviso.

É por isso, acreditem, que reajo tão mal quando aos balcões de muitos serviços públicos me consideram abaixo de cão.

Isto vem a propósito da tal frase que ouvi na televisão...

O Estado tem vindo a montar uma rede de controlo das mais variadas acções do dia-a-dia dos cidadãos. Porém, é caso para perguntar... e quem é que fiscaliza a acção do Estado?

Pois é!