14 de setembro de 2012

Percebem… ou é preciso fazer um desenho?

Luís Farinha


Se a memória não me falha, após a revolução de Abril nenhum governo foi tão repudiado pelos cidadãos como o actual.

As sucessivas investidas contra a classe média, em particular contra os que estão no fundo da escala laboral da Nação, têm vindo a fazer crescer a animosidade de milhões de portugueses, mais ainda porque, em compensação, torna-se por demais notório o empenho dos que a si chamaram a incumbência de ‘governar’ Portugal de salvaguardar os interesses privados dos detentores de riqueza.

Embora tendo em conta o grave desequilíbrio económico gerado e desenvolvido pela sucessão de governantes inaptos que têm ocupado as cadeiras do poder, é por demais evidente o projecto de mudança social que move e orienta os novos inquilinos de São Bento. Por mais que neguem esse desígnio não há outra forma de justificar as medidas que têm vindo a ser tomadas, com destaque para as que foram anunciadas às 19,20 horas do passado dia 7 de Setembro passado, uns breves minutos antes do jogo da bola transmitido pela RTP1.

Sublinhe-se que até esse pormenor é susceptível de levantar suspeitas, dada a fixação que os portugueses têm num bom desafio à ‘borla’, para mais com o Ronaldo em campo. Contas feitas, era concebível que logo que o jogo começasse a má impressão causada pelas “novidades” do doutor Coelho seria de imediato diluída.

Afinal, não foi isso que aconteceu, como se constatou pelas reacções verificadas nas horas que se seguiram e que continuam a crescer em volume e agudeza.

Na verdade o povo da Nação começa a denotar uma viva animosidade face ao constante agravamento das medidas de austeridade que, escudadas na imagem duma Troyca impiedosa, parecem indiciar desígnios que não encaixam lá muito bem na prometida ‘vida melhor para os portugueses’.

Na entrevista que o primeiro-ministro concedeu à RTP1 no passado dia 13 ficou bem clara a sua determinação em não introduzir alterações ao modelo governativo adoptado pelo executivo em funções. Tal posição contrasta porém com a onda de protestos emanante de todos os sectores da vida pública, inclusive de figuras destacadas dos próprios partidos no poder, o que é sintomático da discrepância que anda no ar. Desta grave conjuntura ressalta então o seguinte dilema: como se irá conseguir a concórdia indispensável ao restabelecimento do equilíbrio da sociedade e, em particular das forças no terreno para levar adiante a tão almejada estabilidade económica e social da Nação Portuguesa?

É preciso, é urgente considerar que o que está em jogo não é uma trivial peleja despoletada pela teimosia de que a minha é maior que a tua. O centro da questão reside na procura e criação de um clima de tranquilidade para um povo já cansado de promessas inócuas.

Percebem… ou é preciso fazer um desenho?                

6 de setembro de 2012

À beira do abismo?

Luís Farinha


Quando iniciei a publicação do blogue “Histórias do tempo que passa” tive o cuidado de advertir os eventuais leitores de que este projecto consistia em tornar públicos alguns episódios ocorridos ao longo dos meus muitos anos de vida. Como então sublinhei, era minha intenção fazer eco de algumas estórias verdadeiras que pela sua peculiaridade pudessem mostrar aos homens e mulheres de hoje quão diferente é o tempo presente em comparação ao que então vivi. Contudo, ressalvei a possibilidade de uma vez ou outra me permitir abordar aspectos relativos à situação lamentável que Portugal atravessa, dando assim vazão à ansiedade que se aninha, subliminarmente, no sangue dos que um dia escolheram a minha profissão como modo de vida, tornando-nos incapazes de assistir, mudos e quedos, à sedição que nos envolve, por mais sossegados - ou afastados - que nos queiramos manter.

*
Quem diria que a situação dramática que se vivia há pouco mais de um ano viria a decompor-se em ritmo imparável, como veio a acontecer?

Afinal, ao contrário do que muitos pensavam (eu incluído quando dei início a este blogue) Portugal não atravessava uma crise mais ou menos grave, igual ou parecida com outras antes ocorridas e mais ou menos resolvidas e ultrapassadas. Um ano e meio depois, ao que assistimos é à transformação da sociedade tal como a conhecemos durante largos anos. Afastámo-nos a passos largos e irrevogavelmente dum tempo que nos permitiu ir enganando o dia-a-dia num cenário político e económico que nos implantou a convicção de que depressa voltaríamos a viver de promessas, de desculpas, do faz-de-conta, do deixa andar, de “os ricos que paguem a crise”.

Afinal, pese embora as mensagens de esperança dos políticos no poder, esta crise – se assim preferirem chamar ao que está a acontecer – veio para ficar, não havendo quaisquer expectativas, assentes em bases consistentes, de que entretanto venha a ocorrer um retrocesso que nos leve a acreditar que estamos de regresso à vida que tínhamos antes do desencadeio da calamidade ora implantada. Vida que não era boa, na verdadeira acepção do que isso queira significar, mas à qual estávamos habituados, fazendo de nós, portugueses, se não seres acéfalos, insensíveis, pelo menos cidadãos acomodados e viciados na falsa convicção de que é ao estado que pertence o papel de mentor da nossa vida inteira.

Participar na vida colectiva da Nação é a obrigação de todos os que aqui nasceram e têm vivido. Esse é, de resto, o apelo subjectivo que o governo em exercício nos tenta inculcar sempre que tem em vista a introdução de mais uma taxa contributiva, o aumento de outra já existente ou a anulação de um qualquer benefício que antes servia de máscara à pobreza endémica dos portugueses. Trata-se, é verdade, de um recurso plausível no contexto duma nação em crise, mais ainda se se constatar que o “sacrifício” é repartido por TODOS proporcionalmente à condição económica de cada um, e que o próprio estado vai finalmente tomar em mãos a sua auto-disciplina pondo ponto final à rebaldaria de confundir gastos essenciais com esbanjamento à tripa-forra, uma das razões que empurraram Portugal para o lodaçal em que acabou por se atolar.

Mas será isso expectável?

Todos sabemos que não.

Quando na guerra do Solnado, um sábio sabido descobriu a forma mágica de poupar dinheiro nas munições que se gastavam no campo de batalha, estabelecendo que, daí em diante, atar-se-ia um cordel a cada bala que, depois do disparo, seria puxada para em seguida voltar a ser utilizada, todos ficámos boquiabertos com o sentido de poupança do tal estratega. Só que por azar nosso esse cérebro já deu a alma ao criador não nos podendo ajudar agora, nesta hora de aperto. Contudo, não consigo impedir-me de imaginar o que ele faria nas circunstâncias actuais… Homens daqueles já não há.

E é pena…

Crédulo como sou, confesso que senti reacender-se a minha já desgastada capacidade de expectação quando o actual painel governativo entrou em funções. Gente nova, aureolada com currículos profissionais de se lhes tirar o chapéu fizeram-me olhar com renovada esperança para os tempos que iam seguir-se. Para cúmulo, com uma ou outra excepção, a maioria dos elementos acabados de tomar posse não vinham contagiados pela gonorreia politiqueira que tantos estragos já tinham causado ao país nos sucessivos governos em funções desde há décadas a esta parte.

Foi curto o meu devaneio…

Um par de meses depois já não consegui evitar que a decepção me atingisse, acabando de vez com a ilusão de que - como ouvia aos velhos quando eu era criança - não há bem que sempre dure nem mal que não se acabe, um aforismo que, vim a descobrir mais tarde, nos empurrava para o conceito de que nada é definitivo, convidando-nos a aceitar as contingências do dia-a-dia, por mais dolorosas que fossem. Voltando porém à actualidade, decorrido o período da “Lua-de-mel”, conclui que as cadeiras existentes nas nobres salas do poder devem estar contaminadas com um vírus pestilento a que ninguém consegue resistir. Só isso, de resto, conseguirá explicar a mudança insidiosa que vinha já chispando sinais de alerta face a algumas acções inadequadas dos tão dotados(!) artífices da desejada (e prometida) recuperação da economia nacional. Só um eventual contágio infeccioso poderia explicar que a arquitectura do plano gizado com vista a essa recuperação passasse, desde logo, pelo sacrifício dos que menos condições económicas tinham para o fazer. Na repartição das medidas adoptadas, foi a classe não protegida que foi chamada a avançar enquanto os mais endinheirados, os ‘imunes’ (como lhes chama José Gil) se esfalfavam a pôr a salvo, no estrangeiro, as suas fortunas acumuladas à custa do esforço dos eternos ‘pagantes’ da Nação. Afinal, foi neste pequeno país, na ponta da Europa, que essas fortunas foram acumuladas - ou pelo menos iniciadas -, quer aceitemos ou não essa realidade.    


Embora discretamente afastado da política activa, Diogo Freitas do Amaral foi convidado da jornalista Fátima Campos Ferreira para uma entrevista na RTP, no passado dia 5 de Setembro. Razão do convite: comentar a situação preocupante que Portugal atravessa. Embora comedido nas suas observações, como é jeito seu, Freitas do Amaral não deixou de reconhecer que considera o actual executivo governamental como não estando à altura da tarefa para que foi nomeado, afirmando ainda que “A receita da Troika está errada”. A “austeridade punitiva” exercida pelo governo tomando por alvo preferencial a já tão debilitada classe média com o objectivo de enfrentar a actual situação, foi também comentada pelo entrevistado em jeito de crítica à incapacidade demonstrada para pôr em marcha outras medidas que, na sua opinião, terão sempre de passar pelo aumento da produtividade. Fugir a essa realidade, assegura, só pode aprofundar ainda mais a já dramática situação em que nos encontramos. Relativamente ao mutismo obstinado dos senhores governantes quando se evoca a falta de proporcionalidade sempre que se trata de impor mais um aumento fiscal, uma sobretaxa qualquer ou a criação de um novo imposto será curioso referir como a opinião de Freitas do Amaral acerca desta questão é coincidente com a da chamada classe média, a que mais sofre com a negação de uma mais justa justiça social. “Acho que devia haver, da parte do governo, uma tributação especialmente pesada sobre as pessoas que mais têm, porque há um velho princípio que consta da civilização ocidental e da doutrina cristã que é: ‘Dos que podem aos que precisam. E há muita gente a precisar e muita gente a não dar o que pode’. E o ex-ministro rematou: "Uma pessoa que, na modéstia dos nossos índices salariais, ganha mais de dez mil euros por mês é uma pessoa privilegiada. E os que ganham 50 [mil] são muito privilegiados. E os que ganham 200 mil euros, porque os há, esses são tubarões".

Do que tenho lido e ouvido ultimamente acerca do manifesto desmoronamento da sociedade portuguesa fico com a impressão de que a insistir em navegar nesta onda Pedro Passos Coelho se arrisca a ficar na história não como o salvador mas como o coveiro da pátria. Saldo que seria lamentável para ele, para mim que nele votei e para Portugal que bem merecia outro destino.

Vai longo o meu comentário. Mas como é óbvio, não podia deixar de explicar a que se ficou devendo o ‘desvio’ registado, relativamente ao projecto que há cerca de um ano e meio me lembrei de pôr em marcha.   

29 de agosto de 2012

O adultério é tão velho como o mundo!

Luís Farinha
  
  
É uma verdade incontestável e a prová-lo estão vários capítulos da história, que nos contam casos ocorridos com personagens que a história registou e perpetuou através dos tempos.

Sendo verdade, mesmo assim tenho para mim que a infidelidade conjugal tem vindo a acompanhar o avanço da sociedade pelos caminhos tortuosos da modernidade.

Na verdade, parece que tudo se conjuga para que a tão exaltada "fidelidade no casamento" esteja a tornar-se um conceito démodé a que só os mais velhos ainda se atêm.

E não deixam de ter alguma razão os que assim se expressam acerca desta velha questão...

Noutros tempos, o casamento era coisa para toda a vida! Os votos e as juras de fidelidade eterna eram para ser levadas a sério - pelo menos para a maioria dos casais. Isto, porque nesses tempos recuados havia já muito boa gente que fazia essa jura... mas que depois, vencida pela rotina que tudo adormece, lá acabava por dar a chamada “facadinha” no matrimónio.

Hoje, pelo contrário, ainda antes de "darem o nó", os jovens já vão dizendo, assim numa espécie de pré-aviso e com toda a naturalidade, que "se o casamento não der certo, estamos sempre a tempo de ir cada um à sua vida..."

... e o resultado dessa predisposição está bem à vista de toda a gente.

Actualmente, quantos casamentos se salvam do naufrágio? E quantos não acabam, de facto, na separação, pura e simples? Devemos aceitar a teoria de que isto tem algo a ver com a materialidade da sociedade dos nossos dias?

Pensando bem, sim... até talvez tenha ligação!

A mulher está mais emancipada do que antigamente, porque o ter de sair de casa logo pela manhã para cumprir a sua parte na angariação do "pão nosso de cada dia", a tanto a obriga. E quando regressa a casa, depois de um dia de trabalho a dar no duro, carrega consigo o "stress" produzido pelos problemas laborais, pelo medo de perder o emprego, pela luta pela sobrevivência, pelo ter que aturar patrões, chefes e colegas...

...e, em muitos casos, qual é o ambiente de intimidade que vai encontrar no "doce ninho" caseiro?

Talvez por isso mesmo, ela se veja, de repente, perante a tentação de uma evasão a tudo isso, perante o desejo insistente de fugir à rotina, de se "vingar" do tanto que a vida lhe exige e do tão pouco que recebe em troca...

Depois, há também a descoberta de outras formas de encarar os preconceitos e nisso os meios de comunicação, nomeadamente a televisão, têm uma grossa fatia de responsabilidade; que o diga quem dedica muito do seu tempo a ver as intermináveis telenovelas lamechas com que somos inundados...

Mas... a infidelidade vem também do elemento masculino do casal, do marido, dirão os leitores...

... é verdade, e também com ele, é válido o que eu disse acerca das esposas, evidentemente. No fim de contas, a verdade é que a carne é fraca e as tentações do mundo actual são mais que muitas! Ao mesmo tempo, o casamento é hoje, normalmente, o desfecho natural de paixões que o tempo se encarrega de desvanecer mais ou menos rapidamente; só muito raro ele, o casamento, é o remate normal do desejo de compartilhar, não só a cama, mas também a própria vida.

Enfim, amigos...

É altura, penso eu, de alguém se lembrar de perguntar: “mas... a que propósito veio ele hoje falar disto?”

Pois é, meus caros, realmente nada acontece por acaso. Se em jeito de conversa informal decidi hoje falar da infidelidade conjugal, é porque tomei conhecimento de mais um exemplo de que no melhor pano cai a nódoa. Desta vez, a nódoa caiu na vida de um casal que muito estimo. Duas pessoas cuja vida em comum eu considerava acima de uma situação desse tipo.

Infelizmente aconteceu o que eu menos esperava. O que prova, além do resto, que na vida, afinal, nada pode ser tomado como definitivo.


23 de agosto de 2012

Vamos reflectir…

Luís Farinha

Penso que é tempo de reflectir sobre os valores que têm vindo a desaparecer, tornando o mundo menos belo, as pessoas mais feias, o dia-a-dia cada vez mais sombrio.


Ultimamente dá-me muitas vezes para ficar a pensar no que vou deixar para trás. Fico a pensar, sobretudo, no bem que não consegui fazer, no amor que não fui capaz de dar, nas boas acções que deixei por realizar. E quando isso me acontece fico desolado, acreditem. Porém logo concluo que é tarde para corrigir o que só agora considero com importância bastante.

Provavelmente porque tenho consciência de que o tempo que passou foi para mim bem mais longo do que o futuro que imagino à minha frente, dou comigo a tentar fazer o balanço do que deixo para trás. Penso que é tempo de reflectir sobre momentos que não cuidei de preservar, agora que os valores que tornavam a vida mais aliciante e apetecível têm vindo a desaparecer, gerando um mundo menos belo, pessoas mais feias, um dia-a-dia cada vez mais sombrio.

Mas será que as pessoas, tal como acontece comigo, ainda sentirão capacidade para pensar nessas coisas? Ou esses são valores que a sociedade fez cair em desuso e eu é que, em desespero, a eles me agarro para pensar que a minha vida podia ter sido diferente do que foi se tivesse parado para pensar?

Quando olho à volta, verifico que hoje se tomam como qualidades formas de comportamento que antes eram consideradas autênticas aberrações de carácter. E os exemplos disso são-me oferecidos pelo próprio ofício que escolhi, o jornalismo, que se transformou num espectáculo quase sempre deprimente onde a “notícia” se mede, não pela sua importância intrínseca mas pelo efeito que se espera venha a causar. E, igualmente, pela classe política, cada vez mais falha de pudor, prometendo o que de antemão já sabe que não vai cumprir, enganando deliberadamente os eleitores.

Uma coisa é certa: a sociedade em que hoje vivo não é, nem pouco mais ou menos, aquela que eu imaginava nos tempos em que, jovem que eu era, ainda mantinha em pleno a capacidade de sonhar. Se então não canalizei esses sonhos como devia e podia, a culpa é só minha, pertence-me por inteiro, talvez porque não fui capaz de intuir o futuro.

Entrado na idade mentalmente adulta tenho vindo a assistir à transformação da sociedade nesta coisa feia que hoje é. Vejo valores antes essenciais, transformarem-se em excrescências dum sistema corrupto. Testemunho a consagração da vacuidade e a apoteose do protagonismo. Com surpresa, constato que tudo se vende e compra, inclusive o respeito próprio. A palavra dada, o compromisso inviolável, passaram a ser coisas vazias de sentido. A vergonha, que antes açaimava a indignidade, está hoje afastada dos compêndios da conduta pessoal. Evidente é a glorificação inebriante do poder económico que tudo impõe de acordo com os seus interesses privados. Sempre nessa esteira, para muitos dos seus sectários toldados pela determinação posta nesse propósito subjugante a honra torna-se elástica e o amor-próprio, por tão incómodo, sempre acaba por cair em desuso. Acreditem, tenho pena desses pobres-diabos, os ricaços que, na ânsia demente da insaciável sede de importância e do vício da ostentação a qualquer preço, ficam até incapazes de raciocinar que o dinheiro, os bens materiais e o poder a todos os níveis não são, como pensam, coisas imperecíveis. É assim, alimentando a pueril ilusão de pertencerem a uma casta dilecta vão exaurindo a sua própria existência, a única que lhes foi concedida, deles restando, no fim do caminho, um feixe de ossos anónimos ou um punhado de cinzas que retornarão à terra que outros hão-de pisar.

É esta a sociedade consagrada no começo do 3.º milénio. É este o mundo que legamos aos vindouros.

21 de agosto de 2012

Os labirintos da droga

Luís Farinha


Há razões para acreditar que chegaremos a um tempo em que nos vamos envergonhar do país que deixamos aos nossos filhos

O comandante da Divisão da PSP interrompeu a entrevista que me estava a dar e olhou para os recém-chegados com o ar ausente de quem já está habituado a cenas como aquela. Na esquadra acabavam de entrar dois agentes e com eles um jovem, seguro por um braço. Soube logo a seguir que se tratava de um toxicodependente com passagens habituais pela polícia. Um dos muitos que para satisfazerem o vício não recuam perante nada, inclusive o tráfico e o roubo. A impressão causada por este episódio veio-me confirmar que a abordagem aos problemas da toxicodependência não pode continuar a ser feita com discursos, apelos, processos de intenções com o único propósito de acalmar a turba.

Agora, quando para este flagelo já poucas são as hipóteses de cura, é que todo o mundo lamenta o ponto a que se chegou. Fazem-se e desfazem-se leis, inventam-se [no papel] esquemas de luta contra a proliferação da droga, abre-se – aqui e ali – mais um centro de recuperação [retiros que não passam de meros paliativos face à complexidade do problema], organizam-se tímidas campanhas para desincentivar o consumo, enfim... como baratas tontas procuram-se meios para remediar hoje o que antes, e a tempo, a sociedade não soube prevenir.

É errado pensar que a toxicodependência está consignada a alguns países, a algumas regiões, a determinadas cidades, a uns quantos estratos sociais. Não, o flagelo está disseminado por todo o mundo e vive ao lado de todos nós. O jovem que nós conhecemos, a menina que vimos crescer, o filho do nosso amigo, a nossa própria filha, ou filho, podem ser, sem que disso suspeitemos, consumidores habituais de droga, escravos desse vício maldito.

Os sinistros traficantes da morte insinuam-se nas escolas dos nossos filhos, nos nossos postos de trabalho, no café que frequentamos e até nas esquinas do bairro onde vivemos. Como ratos, eles proliferam por todo o lado, promovendo o hábito, semeando a desgraça, impondo o seu comércio miserável.

Instituiu-se o "Dia Mundial da Luta Contra a Toxicodependência", uma espécie de grito de alarme e de apelo desesperado de quem já pouco mais pode fazer. Entretanto, todos os dias mais jovens continuam a morrer, vítimas do vício odioso. Jovens para os quais a vida era, ainda ontem, um mundo de promessas. Todos os dias os jornais nos contam histórias de mortes desnecessárias de jovens que acabam no vão de uma escada, numa retrete pública ou noutro tugúrio infame, como se, de repente, tivessem decidido jogar a própria vida numa última e derradeira dose.

Entretanto, alguma coisa mais precisa de ser feita, quanto antes. No tempo que nos resta para nos redimirmos da acomodação cúmplice a que nos temos remetido durante anos seguidos. Só assim, talvez um dia não tenhamos de nos envergonhar do mundo que deixamos às gerações que hão-de vir.

18 de agosto de 2012

Falando de leituras

Luís Farinha


Era ainda criança, 9, 10 anos, quando – vá-se lá saber porquê – apanhei o hábito (ou o vício?) de ler. Sem pruridos de escolha, livro que me caísse nas mãos era de imediato devorado, acontecendo que, na maioria dos casos, nada restava dele para o dia seguinte. Dado, emprestado, cedido pela biblioteca ambulante que todas as semanas, em dia certo, estacionava no Jardim da Graça, o velho bairro de Lisboa onde nasci e vivi metade da minha vida, certo era que nesse período distante a leitura era o meu passatempo preferido. Percorri Camilo, Eça, Torga, Herculano, Aquilino, Virgílio Ferreira, à mistura com outros, muitos outros autores portugueses que não tiveram talento ou tempo para marcar lugar na história da literatura. Em dada altura, saltei para os brasileiros Jorge Amado, Érico Veríssimo, Drummond de Andrade, Assis e uma lista infindável de policiais de bolso, numa amálgama de letras que se tornaram companhia cúmplice de noitadas bem passadas pela madrugada adentro, sempre atento ao “controlo” paterno para quem o gasto desnecessário da luz do candeeiro de petróleo ou das velas de parafina era absolutamente interdito. Quantas páginas virei debaixo dos cobertores para que a luz da vela não denunciasse a minha infracção às ordens impostas pela escassez económica reinante nos tempos da minha infância. Os “missais”, (era esta a designação intencionalmente depreciativa como lá em casa eram apodados os livros) vinham emprestar significado às palavras que mais adiante ouviria ao meu pai quando eu, dando vazão ao que me ia na alma, mostrei o firme propósito de continuar a estudar mal terminasse a instrução primária: “cá em casa não há espaço para doutores!” dizia, como se fosse ponto assente que “estudar” era um privilégio de ostentação exclusivo das famílias mais ou menos abastadas. Outros tempos, penso hoje, esbatida que está a decepção que então sentia, calado. Só mais tarde, já dono do meu querer, tive ocasião de preencher lacunas que ficaram abertas à espera de melhores dias. Cumpri o meu destino, atrevo-me a julgar. E isso serve-me de compreensão e consolo no ocaso duma existência muito vivida. As decepções vão-se diluindo ao longo de cada etapa vencida, aprendi, bem ciente, agora, de como a repetição dos equívocos em que tropecei pela vida fora contribuiu para a construção do céptico que hoje sou.

Do mal, o menos…
    
O tempo passou e ultrapassados que estão os oitenta recordo o meu pai com imensa saudade. Como hoje gostaria de ouvir a sua voz severa a ordenar-me: “acaba lá com o missal e apaga-me essa luz, se faz favor!”

Sorrio, mas não é por maldade, asseguro-vos…


*

Falando de leituras, permitam-me trazer aqui uma ocorrência curiosa, recente e que deveras me apraz contar-vos.

Leitor compulsivo, como já referi, confesso que ainda hoje – e talvez mais do que nunca - os livros continuam a ser a minha praia, como agora se diz. Romance, ensaio, biografia, história, policial… confesso a minha dificuldade em assumir preferência, pois se o conteúdo é apelativo e para cúmulo está bem escrito, qualquer livro suscita de imediato o meu interesse. Foi isso que aconteceu com a obra que acabei de ler, três volumes de peso cujo autor, confesso, me era desconhecido.

Fazendo a minha ronda habitual aos expositores da livraria que habitualmente frequento, deparei com um livro que desde logo me espevitou a curiosidade. O autor, um jornalista de nacionalidade sueca, prematuramente falecido, nada me dizia, como já referi, mas logo me apercebi que a sua escrita era fluida e isenta daqueles preciosismos linguísticos tão em moda, agora, mas dos quais confesso, começo a ficar cansado.



“Os homens que odeiam as mulheres” é o título do primeiro volume duma trilogia designada “Millenniun”. O autor: Stieg Larsson, era um jornalista e activista político olhado de soslaio pela extrema-direita sueca e alvo de várias ameaças de morte feitas por gente incomodada com a posição política que, enquanto jornalista, assumia publicamente.

Só a meio do terceiro volume da trilogia Millennium decidiu procurar editor para a obra a que deitara mãos. Quis o destino, porém, que não tenha assistido ao sucesso internacional em que a mesma haveria de se tornar, com cerca de 15 milhões de livros vendidos. Larsson morreu repentinamente, vítima de um colapso cardíaco fulminante (segundo a notícia oficial) ao subir apressadamente ao 7.º piso do prédio onde estava instalada a redacção da revista da fundação por si criada, a Expo, através da qual denunciava as poderosas organizações da extrema-direita do seu país. Tinha 50 anos.

Voltando à prometida ocorrência, nessa primeira noite de leitura do livro recém- adquirido (coisa para 539 páginas…) logo me apercebi da singularidade e da força emanante da história ali contada. Assim, num impulso repentino peguei no telefone e liguei para a livraria, no centro comercial, e fiz a pergunta que me impacientava: “Têm os 2.º e 3.º volumes da trilogia Millennium? Sim? Por favor reservem-me um exemplar de cada. Amanhã passo a buscá-los. Obrigado…”

Como já referi, terminei agora a leitura do último volume da obra. Foram, no seu todo, 2100 páginas lidas com incontida sofreguidão. Há muito que não assumia uma tarefa dessa ordem com tamanha absorção, não por culpa minha mas talvez porque, ao correr do tempo, me fui tornando mais exigente. Não terá sido por acaso que a Trilogia Millennium me prendeu à leitura com uma espécie de frenesim que me sabia tão bem. Daí o permitir-me pensar (como antes referi) que a culpa não é minha. Culpa, se alguém a tem, deve ser atribuída por inteiro a Stieg Larsson pelo talento enorme que teve a arte e o saber de passar para o papel.

Se a distracção, como aconteceu comigo, ainda não vos permitiu reparar na Trilogia Millennium aqui deixo a advertência: não deixem escapar a oportunidade de a compulsar.

Acreditem que vale a pena…