18 de agosto de 2012

Falando de leituras

Luís Farinha


Era ainda criança, 9, 10 anos, quando – vá-se lá saber porquê – apanhei o hábito (ou o vício?) de ler. Sem pruridos de escolha, livro que me caísse nas mãos era de imediato devorado, acontecendo que, na maioria dos casos, nada restava dele para o dia seguinte. Dado, emprestado, cedido pela biblioteca ambulante que todas as semanas, em dia certo, estacionava no Jardim da Graça, o velho bairro de Lisboa onde nasci e vivi metade da minha vida, certo era que nesse período distante a leitura era o meu passatempo preferido. Percorri Camilo, Eça, Torga, Herculano, Aquilino, Virgílio Ferreira, à mistura com outros, muitos outros autores portugueses que não tiveram talento ou tempo para marcar lugar na história da literatura. Em dada altura, saltei para os brasileiros Jorge Amado, Érico Veríssimo, Drummond de Andrade, Assis e uma lista infindável de policiais de bolso, numa amálgama de letras que se tornaram companhia cúmplice de noitadas bem passadas pela madrugada adentro, sempre atento ao “controlo” paterno para quem o gasto desnecessário da luz do candeeiro de petróleo ou das velas de parafina era absolutamente interdito. Quantas páginas virei debaixo dos cobertores para que a luz da vela não denunciasse a minha infracção às ordens impostas pela escassez económica reinante nos tempos da minha infância. Os “missais”, (era esta a designação intencionalmente depreciativa como lá em casa eram apodados os livros) vinham emprestar significado às palavras que mais adiante ouviria ao meu pai quando eu, dando vazão ao que me ia na alma, mostrei o firme propósito de continuar a estudar mal terminasse a instrução primária: “cá em casa não há espaço para doutores!” dizia, como se fosse ponto assente que “estudar” era um privilégio de ostentação exclusivo das famílias mais ou menos abastadas. Outros tempos, penso hoje, esbatida que está a decepção que então sentia, calado. Só mais tarde, já dono do meu querer, tive ocasião de preencher lacunas que ficaram abertas à espera de melhores dias. Cumpri o meu destino, atrevo-me a julgar. E isso serve-me de compreensão e consolo no ocaso duma existência muito vivida. As decepções vão-se diluindo ao longo de cada etapa vencida, aprendi, bem ciente, agora, de como a repetição dos equívocos em que tropecei pela vida fora contribuiu para a construção do céptico que hoje sou.

Do mal, o menos…
    
O tempo passou e ultrapassados que estão os oitenta recordo o meu pai com imensa saudade. Como hoje gostaria de ouvir a sua voz severa a ordenar-me: “acaba lá com o missal e apaga-me essa luz, se faz favor!”

Sorrio, mas não é por maldade, asseguro-vos…


*

Falando de leituras, permitam-me trazer aqui uma ocorrência curiosa, recente e que deveras me apraz contar-vos.

Leitor compulsivo, como já referi, confesso que ainda hoje – e talvez mais do que nunca - os livros continuam a ser a minha praia, como agora se diz. Romance, ensaio, biografia, história, policial… confesso a minha dificuldade em assumir preferência, pois se o conteúdo é apelativo e para cúmulo está bem escrito, qualquer livro suscita de imediato o meu interesse. Foi isso que aconteceu com a obra que acabei de ler, três volumes de peso cujo autor, confesso, me era desconhecido.

Fazendo a minha ronda habitual aos expositores da livraria que habitualmente frequento, deparei com um livro que desde logo me espevitou a curiosidade. O autor, um jornalista de nacionalidade sueca, prematuramente falecido, nada me dizia, como já referi, mas logo me apercebi que a sua escrita era fluida e isenta daqueles preciosismos linguísticos tão em moda, agora, mas dos quais confesso, começo a ficar cansado.



“Os homens que odeiam as mulheres” é o título do primeiro volume duma trilogia designada “Millenniun”. O autor: Stieg Larsson, era um jornalista e activista político olhado de soslaio pela extrema-direita sueca e alvo de várias ameaças de morte feitas por gente incomodada com a posição política que, enquanto jornalista, assumia publicamente.

Só a meio do terceiro volume da trilogia Millennium decidiu procurar editor para a obra a que deitara mãos. Quis o destino, porém, que não tenha assistido ao sucesso internacional em que a mesma haveria de se tornar, com cerca de 15 milhões de livros vendidos. Larsson morreu repentinamente, vítima de um colapso cardíaco fulminante (segundo a notícia oficial) ao subir apressadamente ao 7.º piso do prédio onde estava instalada a redacção da revista da fundação por si criada, a Expo, através da qual denunciava as poderosas organizações da extrema-direita do seu país. Tinha 50 anos.

Voltando à prometida ocorrência, nessa primeira noite de leitura do livro recém- adquirido (coisa para 539 páginas…) logo me apercebi da singularidade e da força emanante da história ali contada. Assim, num impulso repentino peguei no telefone e liguei para a livraria, no centro comercial, e fiz a pergunta que me impacientava: “Têm os 2.º e 3.º volumes da trilogia Millennium? Sim? Por favor reservem-me um exemplar de cada. Amanhã passo a buscá-los. Obrigado…”

Como já referi, terminei agora a leitura do último volume da obra. Foram, no seu todo, 2100 páginas lidas com incontida sofreguidão. Há muito que não assumia uma tarefa dessa ordem com tamanha absorção, não por culpa minha mas talvez porque, ao correr do tempo, me fui tornando mais exigente. Não terá sido por acaso que a Trilogia Millennium me prendeu à leitura com uma espécie de frenesim que me sabia tão bem. Daí o permitir-me pensar (como antes referi) que a culpa não é minha. Culpa, se alguém a tem, deve ser atribuída por inteiro a Stieg Larsson pelo talento enorme que teve a arte e o saber de passar para o papel.

Se a distracção, como aconteceu comigo, ainda não vos permitiu reparar na Trilogia Millennium aqui deixo a advertência: não deixem escapar a oportunidade de a compulsar.

Acreditem que vale a pena…

8 de agosto de 2012

Já basta o que basta!

Luís Farinha


Neste nosso martirizado país há duas áreas de criminalidade cuja frequência e gravidade têm vindo a crescer sem que - pelo menos aparentemente - sejam tomadas medidas susceptíveis de as minimizar. Refiro-me à pedofilia e aos incêndios que têm vindo a devastar o que resta da floresta portuguesa. É certo que a delinquência vem registando nos últimos tempos, na sua globalidade, uma gravidade preocupante, porém as que acima destaco parecem em vias de se tornarem de todo insanáveis por razões que escapam ao cidadão comum já assoberbado de medo por outras razões.

Não quero com isto significar que, tanto a pedofilia como os fogos postos [ou causados por descuido], sejam actos condenáveis recentes, mas lá que têm vindo a aumentar gradual e rapidamente isso é verdade. Basta acompanhar as notícias dadas à estampa diariamente para o confirmar.

Dir-me-ão (e é verdade) que antigamente, no tempo da outra senhora, a censura - com a sua obstinação no sentido de preservar a idílica imagem de Portugal como “um jardim à beira-mar plantado” ou um país de “brandos costumes” - portava-se como cão-de-fila não deixando a comunicação social dar conta do que, no seu entender, manchava a reputação bucólica da nação edificada e mantida em estado puro pelo senhor presidente do conselho de ministros de então. É igualmente verdade que nesses tempos a polícia (GNR incluída) não era ainda ensinada a tratar o delinquente comum com respeito e parcimónia. Era bruta a explicar as coisas e, mal entrava no posto levando o sujeito preso por arreata, em vez de começar a fazer perguntas ia logo cumprimentando e dando as boas vindas ao eventual criminoso com umas bordoadas, assim em jeito de apresentação. Seja porque os tempos eram outros ou lá pelo que fosse, a verdade é que as famílias podiam sair à noite a ver as montras iluminadas das “baixas” de Lisboa ou Porto sem medo de serem assaltadas ou maltratadas e de dia ainda não usavam o hábito de evitar as ruas pouco concorridas, sempre alerta, olhando de soslaio ou por cima do ombro.

Mas voltando à execrável pedofilia é de crer que tal crime vem de longe, de muito longe. Acontece, porém, que a relevância suscitada pela liberdade de imprensa trazida pelo 25 de Abril põe agora a nu um crime que antes era ocultado pelo antigo regime em nome dos tais “brandos costumes” a que já fiz referência. Acresce ainda o facto de que o abuso sexual das crianças é, em muitos casos, uma bestialidade que ocorre no seio das próprias famílias e, nesses casos, a vergonha suscitada por tais acções canalhas evita normalmente que o seu conhecimento chegue ao domínio público.

Outro caso, porém, é o que tem os incêndios como cenário. Fogos sempre houveram e a sua ocorrência sempre teve origem em três causas directas: 1. falta de prevenção na limpeza e vigilância das matas; 2. descuido dos seus utentes nas queimadas mal protegidas e 3. fogo posto. No primeiro caso é ao estado que devem ser imputadas as culpas. A falta dessa medida é notória e persistente vá-se lá saber porquê. No segundo, elas as culpas, são devidas ao descuido ou irresponsabilidade de quem por esta ou aquela razão frequenta os locais arborizados sendo sintomática da falta de civismo dessas criaturas. Repetindo-me: já que a limpeza das propriedades privadas é da responsabilidade dos seus proprietários a falta de cuidado na limpeza das mesmas ou da sua utilização indevida deviam ser fiscalizadas sistematicamente pelas autoridades, nomeadamente no princípio das épocas quentes e secas, penalizando com dureza os prevaricadores. Resta abordar aqui os incêndios popularmente designados de fogo-posto. O vandalismo, a embriaguez seja de que tipo for, a vingança pueril, o interesse monetário, a maldade na sua expressão mais crua, a imbecilidade e a loucura são geralmente as causas susceptíveis de transformar o ser humano num animal irracional capaz desse crime hediondo. Chegados a essa conclusão, resta às autoridades perseguir e privar da liberdade por largo tempo os autores deste desvario devendo essa acção ser entendida como uma prioridade da justiça. Só isso, conclui-se, pode levar os energúmenos a considerar que realmente o crime não compensa.
           
As entidades oficiais bem jogam com a abstracção dos números das estatísticas, tentando com essa engenharia aritmética mostrar que estão atentas aos problemas da nação, acabando quase sempre por concluir que, afinal, o diabo não é tão feio como o pintam. Senhores políticos, do alto dos meus muitos anos já vividos permito-me recomendar-vos que essa estratégia já deu o que tinha a dar. De estatísticas buriladas está o cidadão cansado. É árvore que já deu frutos… mas que secou.

Eu sei, nós sabemos que por vontade dos senhores governantes os problemas aqui enunciados não deviam ser focados assim tão frontalmente porque fazem prova da descorada operacionalidade de algumas cadeiras sensíveis do poder. Mas, como qualquer burro teimoso, não consigo alhear-me de que há mais anos do que aqueles que alguns dos senhores têm de vida me venho esforçando para constituir a pedra de tropeço de alguns políticos que têm vindo a alcandorar-se nos altos poleiros dos governos da Nação para melhor servirem os seus interesses pessoais e os do seu círculo de influência partidária.

Fiquemos por aqui…   

Vamos mas é arregaçar as mangas e trabalhar a sério pois é isso que o povo espera e precisa.

Medidas, senhores, medidas…

Deixemo-nos de querer mostrar a beleza da montra, quando no armazém a indigência é deprimente.

Já basta o que basta!

28 de julho de 2012

O que é feito de ti, António!

Luís Farinha


Escrito e publicado em
11.Março.1997
  
Vou contar-lhes a história de António, um homem que conheci há uns três anos no Hospital-Prisão de Caxias, quando ali fui fazer um trabalho jornalístico. É uma história que fala do que pode acontecer a qualquer um de nós, quando o destino se empenha em dar-nos cabo da vida…
  
António esteve emigrado em França durante 23 anos. Com ele, vivendo naquela pátria adoptiva de cerca de um milhão de portugueses, esteve sempre a sua mulher. Lá lhe nasceram filhos e de lá voltou, um dia, cansado de tantos sacrifícios, ruído das imensas saudades da sua terra, tão perto de Lisboa.

Regressado, montou no sítio onde nasceu uma oficina de reparações de automóveis, o seu ofício de sempre, onde continuou a fazer pela vida. Comprou uma casa... e deixou-se ir, ao sabor de um dia-a-dia rotineiro, vendo os filhos arrumarem as suas vidas e esperando a velhice que entretanto ainda vinha longe.

Só que, segundo o seu relato, António e a mulher nunca se deram lá muito bem. Embora gostasse dela, o feitio de ambos, verdadeiramente incompatível, não lhes consentia um relacionamento amigável. Depois do regresso a Portugal a vida em comum de António e da mulher foi piorando progressivamente e, embora a idade já não convidasse a grandes mudanças, certo é que acabaram por se separar, indo cada um para seu lado.

Um dia, já bem perto dos cinquenta, António iniciou uma nova relação quando encontrou uma mulher que também já fora casada. Porém... talvez porque o seu feitio mais não permitia, algum tempo depois a convivência com o seu novo amor também passou a não ser pacífica. Era um "pega e larga" (palavras suas) em que os intervenientes nunca conseguiam entender-se. Mais do que uma vez, a vida em comum esteve prestes a consumar-se para ser, logo depois, uma e outra vez adiada, à espera de melhores dias...

E a vida ia assim andando - ou desandando - para António e para os seus familiares.

Um dia, esgotada de vez a paciência, farto daquela espécie de inferno que ele próprio se encarregara de ajudar a criar, de cabeça perdida, num acto irreflectido António pegou na espingarda caçadeira e disparou sobre a mulher com quem mantinha aquela espécie de relação doentia. Depois, desvairado, dirigiu-se a casa da esposa, de quem se separara havia três anos e voltou a atirar. Em seguida, acabou por fazer um último disparo... contra si próprio. No somatório de consequências a esposa morreu, a outra mulher ficou inutilizada para o resto da vida e António foi parar ao hospital com o lado direito do tronco estraçalhado pelo disparo. Levado a tribunal, depois de socorrido e tratado, foi condenado a 20 anos de prisão por homicídio tentado e consumado.

Um dia destes, durante algum tempo, estive à conversa com António, na cadeia onde cumpre a pena que lhe foi aplicada. Detido há três anos, e agora com 52, o homem que tenho na frente é um ser solitário, calmo e resignado. Fala serenamente e lamenta angustiado aquele dia de loucura de há três anos atrás. Além disso, tem uma mágoa. Os filhos votaram-no ao mais absoluto desprezo e isso, sim, é o que mais lhe dói.

Era isso o que António me dizia quando na sala onde estávamos entrou uma jovem. Parada, olhou à volta procurando alguém. No instante seguinte os seus olhos encontraram os de António e então caminhou até à nossa mesa. Em pé, um em frente do outro, calados, ele expectante, ela com os olhos vidrados tentando reter as lágrimas que teimavam em explodir… depois, num impulso retido a custo, a jovem abriu os braços cingindo o pai comovidamente.

E ali ficaram, olhos nos olhos, calados, deixando que o silêncio evitasse palavras que, quem sabe, talvez trouxessem o desencanto. De resto, para quê as palavras, se o perdão era tão expressivo no rosto da jovem e o remorso tão evidente nos olhos cheios de água de António.

Saí devagar, sem me despedir, deixando-os sós, entregues à sua emoção. Achei melhor não perturbar aquele momento único na vida de António.

Às vezes, ser jornalista não é coisa fácil, acreditem que não…

26 de julho de 2012

“Esta pressa de agora…”

Luís Farinha
  

Passamos a vida a correr...

Melhor seria dizer que passamos a vida a correr atrás de coisa nenhuma!

É a ânsia de partir e de chegar. É o afogo e a cultura do “já devia lá estar!” É a pressa, o afã, a ansiedade, a impaciência. É o frenesi da loucura colectiva em que transformámos o dia-a-dia.

É assim que vivemos, ou melhor, é assim que não vivemos!

Sim, porque essa coisa de dizermos que esta é a vida que temos nos tempos que correm, não passa de uma expressão falaciosa. Porque, se virmos bem, esta é uma vida que não temos! Uma vida que não vivemos...

Porque isto assim, este corre-corre atrás de coisa nenhuma não passa de uma forma de ir gastando o tempo sem honra nem proveito.

Afinal, a pouco e pouco fomo-nos transformando em meros cumpridores de horários. E o mais curioso é que acabamos por não cumprir coisa nenhuma, uma vez que nunca chegamos a tempo seja aonde for.

É verdade ou não é?

E se pensam que estou a exagerar quando digo que somos assim uma espécie de atrasados compulsivos, basta observar a maneira como conduzimos nas estradas, ou nas ruas das cidades.

Já repararam na frustração que sentimos por não podermos ocupar o lugar de quem segue na frente ou na faixa do lado?

Quando conduzem na cidade, ainda não se deram conta da impaciência com que tocam a buzina assim que no semáforo se acende o sinal verde. Como se chegar e partir fosse uma coisa automática?

Na estrada, nas longas filas de viaturas que às vezes se formam, já repararam nos disparates que fazemos para ultrapassar o carro da frente, para em seguida continuarmos a passo de caracol?

Nas filas seja do que for que tenha um balcão ou um guichete já observaram as cenas que se fazem quando alguém se lembra de assomar à frente só para pedir um impresso para preencher? E tudo isso para depois, quando chega a sua vez, ficarem à conversa fiada, a falar de futebol, da telenovela ou de outra banalidade qualquer com o funcionário que o atendeu?

É... disfarçamos a frustração latente com essa imitação de urgência. E isso azeda-nos o dia-a-dia. Faz da nossa vida um caos, um inferno pegado.

É por isso que eu digo que temos de reaprender a viver. Temos de vencer essa apetência pelo... “já devia lá estar”. Temos, enfim de pensar que quanto mais corremos, mais depressa chegamos ao fim. E o fim, meus amigos é uma palavra feia, que soa mal, uma coisa que ninguém gosta de sentir. 
  
Acalmemos, portanto. Aprendamos a glosar as coisas boas que cada vez são mais difíceis de encontrar. Como a paciência, a calma, a tranquilidade.

Creiam que vale a pena. De resto, para nos envenenar a alma e os sentidos já basta a merda de vida que temos pela frente…

14 de julho de 2012

O direito à diferença

Luís Farinha


Afinal, ao contrário do que diz a canção, todos somos diferentes, poucos somos iguais.

Com a mudança política emergente da revolução de Abril, muitas expressões até aí “proibidas” foram introduzidas no linguajar dos portugueses. De todas elas, porém, a que trouxe verdadeiros acordes de música celestial aos ouvidos de muita gente foi o célebre direito à diferença.

Muitos portugueses, talvez a maioria, pensou então que, de uma vez por todas, ficaria estabelecido o conceito universalista de, como diz a canção do Paulo de Carvalho, somos todos diferentes, todos somos iguais.

Afinal, a realidade está aí para nos lembrar que não é bem assim. Que as cantigas são óptimas para embalar os sonhos.

Frase de muitas leituras, direito à diferença passou a soar, sobretudo, como um hino à liberdade das minorias. Trouxe consigo, na singeleza da sua construção, uma aragem de esperança àqueles grupos de cidadãos que até aí estavam proibidos de existir: associações políticas, religiosas e de cidadania; classes profissionais não agrupadas em sindicatos hipotecados ao Estado Novo; intelectuais não alinhados ou mais contestatários; homens e mulheres de cor e raça diferentes; minorias com outras opções de vida. E assim por diante.

O direito à diferença passou a ser a bandeira dos que sempre ousaram não alinhar com o estabelecido, com o convencional. Transformou-se em pedra de arremesso dos que, até aí, viviam exilados nos seus pequenos guetos. Dos que normalmente pagavam caro - às vezes com a própria vida - a temeridade de ser, pensar e querer de maneira não convencional. O 25 de Abril trouxe consigo, realmente, essa enorme conquista democrática: o direito à diferença. Mas não conseguiu fazê-la acompanhar da necessária mudança das mentalidades retrógradas.

Ainda hoje, e já passaram quase três décadas depois da mudança do regime político, há quem insista em querer preservar as velhas memórias do antigamente, em querer reinventar o sistema de restrições que fazia medrar a classe dos privilegiados. São os que ainda hoje, muitos anos depois da madrugada de Abril, fazem o que podem para perpetuar essa parte do passado que muitos pretendem esquecido, definitivamente, nos recessos do tempo. Os que mascaram das causas mais nobres as intenções inconfessáveis, quando não mesmo as suas pulhices. E para que elas colham, apelam ao populismo e, não raras vezes, à manipulação maquiavélica da opinião pública.

O ofício de jornalista tem-me mostrado isso vezes de mais. É assim que nascem as ditaduras: calando as vozes discordantes; erradicando as minorias; recusando o tão exaltado direito à diferença. Não foi assim que o salazarismo conseguiu garantir a sua permanência no poder durante décadas?

Não foi esse o modus operandi que permitiu a Adolfo Hitler deitar fogo à Europa com o aplauso de milhões e milhões de apaniguados dentro e fora da Alemanha? Por cá, quantas vezes isso já aconteceu depois de Abril? Quantas vezes foi exercida oposição a esse direito fundamental, sublinhado na Constituição da República? Quantos casos se podem contar? Foi a oposição ao direito de recusar o serviço militar por objecção de consciência. A resistência à assimilação dos imigrantes de outras raças na sociedade portuguesa. Os condicionalismos que, durante muito tempo, cercearam o voto dos imigrantes portugueses espalhados pelo mundo. A liberdade religiosa sistematicamente posta em causa a despeito de se tratar de um direito consagrado na Constituição. E, pior que tudo, a condenação implícita ou explícita de pensar e ser diferente, um direito que a Constituição reconhece mas que os grupos de pressão e as instituições com objectivos escusos porfiam à exaustão.

Em cada uma destas situações tem havido sempre quem se mostre vivamente apostado em organizar campanhas de defesa dos interesses da velha e boa “sociedade”, mobilizando meios e organizando oposição cerrada às minorias, sobretudo se estas se regem pelo direito à diferença. Afinal, ao contrário do que diz a canção, todos somos diferentes, poucos somos iguais.

© DR Luís Farinha Texto publicado em: 09/08/2003

28 de junho de 2012

Os novos ‘cavalheiros de indústria’


Luís Farinha


O regime está podre. De há uns anos a esta parte e vindos não se sabe bem de onde apareceram na sociedade portuguesa uns estranhos personagens animados de um projecto maquiavélico: enriquecer muito e rapidamente sem olhar a meios, inclusive à custa de quem trabalha, os mais fáceis de esbulhar. Constituídos em quadrilhas organizadas ou mesmo a solo, para atingir os seus planos os tratantes cuidaram de introduzir-se nos lugares-chave do aparelho do estado ou nos círculos influentes capazes de lhes facultarem acesso aos centros de decisão. A partir daí foi um nunca mais acabar de façanhas escabrosas, umas mais rendosas que outras mas todas altamente ruinosas para os cofres da nação e para os bolsos dos cidadãos contribuintes.
Em consequência da permissividade instalada no regime e da acção nefasta desses novos bandoleiros engravatados, em meia dúzia de anos, como navio cheio de rombos Portugal bateu com o casco no fundo. É certo que os tribunais estão cheios de dossiers que apontam nas mais diversas direcções mas a justiça, emperrada e pouco dada a questionar o sistema instalado, vai permitindo que os processos prescrevam e os meliantes se continuem a rir do povo que vão esbulhando, certos que estão da costumeira impunidade que por cá assentou arraiais.
Os casos de corrupção e arranjismo que chegaram ao domínio público e ficaram famosos são mais que muitos, a tal ponto que só recorrendo aos arquivos dos tribunais seria possível enumerá-los na sua assustadora quantificação. Os que neste momento me ocorrem são:
                         
“Caso Vale e Azevedo”
“Caso Caldeira”
“Caso Fátima Felgueiras”
“Caso Portucalle”
“Caso Gondomar”
“Caso Moderna”
“Caso Independente”
“Caso Furacão”
“Caso da Câmara de Lisboa”
“Caso Apito Dourado”
“Caso Face Oculta”
“Caso Isaltino”
“Caso Freeport”
“Caso BCP”
"Caso BPP"
“Caso dos submarinos”
“Caso SNS”

Mas há mais, há muitos mais…

Muitos dos processos a criar teias de aranha nos diversos tribunais portugueses serão, como referi, resultado da lenta capacidade de resposta da máquina judiciária, mas não deixa de ser sintomática a crítica que a directora do DIAP de Lisboa, Maria José Morgado, fez à prestação da PJ, no que toca à acção contra a criminalidade económico-financeira, numa declaração ao DN em 31 de Março de 2010. "Ao nível da Polícia Judiciária registam-se dificuldades graves no âmbito do combate ao crime …/… económico-financeiro. Tais dificuldades traduzem-se na quase paralisação de certos processos no crime económico”. Sendo uma declaração de alguém que, por força da voluntariedade e capacidade profissional demonstradas ao longo dos anos, é de ter em conta.

Que não se pense, contudo, que esta dificuldade em garantir um combate adequado aos crimes de “colarinho branco” é um problema confinado apenas a Portugal. Quem lê a imprensa estrangeira facilmente dará conta de quão difícil é contrariar a acção dos criminosos que agem no silêncio dos seus gabinetes. Citando Rodrigo Strini Franco, delegado da Polícia Federal de São Paulo (Brasil): “o criminoso de colarinho branco possui um plus, um escudo, uma imunidade que o exclui do poderio penal”. Com tal asserção, fácil é concluir que a criminalidade de colarinho branco gere uma notável desigualdade no controlo judicial. Voltando a Rodrigo Franco atente-se neste conceito: “Basta verificar a população carcerária para que se constate a origem das pessoas que lá estão”.

‘Para bom entendedor meia palavra basta’, diz a sabedoria popular. Tão sábia como: ‘com a vida dos outros podemos nós bem’, querendo significar que o que nos deve incomodar é o que se passa neste nosso rincão lusitano. Porém, vivemos num período de globalização que, por arrastamento, abre as fronteiras nacionais ao bom e ao mau que nos chegam lá de fora, quer queiramos ou não. É conveniente levar em conta esta realidade para que o espírito nos não atraiçoe com juízos de valor mesquinhos na toma das decisões menos comuns que se nos deparam pela vida adiante.

É perfeitamente concebível – e até desejável – que qualquer cidadão, por mais anónimo que seja, saiba (e consiga) projectar a sua vida pela via do enriquecimento resultante do trabalho sério. Há um sem número de casos que ilustram esta referência, casos que suscitam a admiração e o respeito geral. Tomemos um exemplo: Rui Nabeiro, um português oriundo de uma família humilde que, muito jovem ainda, fundou a empresa Delta Cafés, corria o ano de 1961. Muito trabalho depois era titular de uma sólida fortuna baseada no labor sem tréguas e na rectidão dos processos entretanto por si postos em marcha. Tendo deixado para trás os 80 anos e uma carreira de que se orgulha, Manuel Rui Azinhais Nabeiro é hoje uma figura que os portugueses respeitam e o exemplo vivo do homem rico que, por mérito próprio, é apontado como o arquétipo duma raça em vias de extinção.

Não é única a referência que acabo de citar. Outras mais poderia aqui revelar, o que me daria enorme prazer, mas esta serviu apenas para mostrar a diferença que hoje marca as actividades obscuras duma súcia de ricaços feitos à pressa, os tais que de ‘colarinho branco’ e gravata a condizer enxameiam a nova sociedade lusa, os muitos que optaram pelo enriquecimento construído de manigâncias, de conluios, de pouca-vergonha. Os gananciosos que não recuam perante a sordidez de tirar partido da lástima que avassala o Portugal de nós todos.
Que os filhos e netos desses trapaceiros encapotados não assimilem o exemplo vergonhoso que receberam por herança é o meu voto sincero.      

20 de junho de 2012

Os velhos do meu país

Luís Farinha
Quando naquele fim de tarde atravessava o Jardim Constantino, em Lisboa, não pude evitar uma breve paragem para observar uns velhotes que, apesar da morrinha que caía e da demasiada “frescura” que se fazia sentir, ali estavam, à volta de uma mesa improvisada e dum baralho de cartas. Jogavam, para matar o tempo inútil que é agora o seu.
O que me fez ficar com pele de galinha, foi a perspectiva de, também eu, um dia, poder fazer parte dum grupo como aquele.
Olhei aqueles rostos anónimos, quase sem expressão, e lembrei-me de muitos outros homens e mulheres, velhos como aqueles, que estiolam nos chamados “lares da terceira idade”, essa espécie de antecâmaras da morte cuja proximidade pressentem. Os "lares" para onde o egoísmo dos mais novos atira os seus idosos, como de trastes inúteis e incómodos se tratasse. Não, não estou a apontar o dedo seja a quem for, acreditem. A fazê-lo teria de começar por mim, pois ainda hoje (e já passaram tantos anos…) não consigo perdoar-me pela morte da senhora Virgínia, minha mãe, num desses locais desolantes inventados pela mesquinhes de que só os humanos são capazes.
Mas, voltando aos velhos do jardim, confesso que ante aquele quadro deplorável, fiquei profundamente consternado.
Induzido pelo cenário decrépito, acudiram-me à memória, de repente, algumas notícias lidas na imprensa referindo o repetitivo aviso de alguns governantes segundo os quais “o que cada português activo desconta para a segurança social, está a tornar-se insuficiente para manter o crescente número de aposentados”.
Se, como afirmam a cada passo os comentadores economistas, a segurança social não está de boa saúde, e se Portugal é hoje, reconhecidamente, um país de velhos, o que vai ser do cada vez maior número de pensionistas? É uma perspectiva que assusta, mais ainda quando os políticos manifestam uma tão evidente falta de talento para encontrar soluções capazes de garantir aos mais idosos a tranquilidade de que tanto precisam, e merecem...
Promessas têm-se ouvido muitas e é por isso que, sempre que se aproxima mais uma campanha eleitoral, se reacende a esperança dos idosos, levando-os a acreditar nas patranhas tão exaltadas pelos palavrosos candidatos a governantes. Entretanto, com as pensões de miséria que o Estado lhes concede relutantemente e lhes cerceia quando lhes dá na tineta, lá vão tentando enganar a miséria, enquanto alguns desses novos aristocratas do regime engendram para si reformas principescas, usando a seu favor o conhecimento adquirido no manejo da máquina do poder.
Ao cruzar o Jardim Constantino, parei a olhar aqueles idosos que ao frio jogavam as cartas para afastar a solidão. Quando por fim me afastei, senti os olhos húmidos. Mas não fiquem para aí a pensar que era de pena ou de raiva. Era da chuva miudinha que caía…
Entretanto, para trás ficou aquele grupo de velhos que do futuro nada esperam. Idosos que já há muito deixaram de sonhar.