7 de março de 2012

Portugal pelas ruas da amargura

Luís Farinha



Para comprovar a falta de talento dos políticos lusos para o exercício da governança basta observar como têm sido incapazes de, desde sempre, não terem conseguido retirar Portugal do lugar que ocupa por demérito na cauda da Europa. Por culpa de um chorrilho de medidas precipitadas tomadas pelos governantes mal amanhados que se têm passeado pelos corredores do poder e, sobretudo, em consequência dos efeitos perversos da centralização que o tornou dependente dos interesses dos seus primos ricos da Europa, Portugal está agora a ser fustigado duramente por uma desordem económica e social internas sem precedentes. O desastre é de tal monta que, em última instância, justificou até a directa intervenção estrangeira na governação do país.

Neste momento conjugam-se os maus ventos nesta ponta da Europa.
Deixando-se arrastar pela orgia de sedição que vai lá por fora e pelos excessos cometidos cá dentro, Portugal está - por assim dizer - virado de pernas para o ar. Na verdade, desde os grandes escândalos económicos aos despedimentos em massa. Desde o aumento da criminalidade até níveis nunca imaginados, à falência da Saúde, da Justiça, da Educação e da Segurança Social. Desde os gastos exorbitantes utilizados na construção de sumptuosos estádios de futebol e de um sem número de outras obras faraónicas edificadas a meio de uma precária situação económica sem precedentes. Desde as fugas fiscais e fraudes económicas dos que, para o efeito, atempadamente se colocaram a jeito, aos cortes desbragados dos salários dos trabalhadores, ao crescimento desmesurado das suas contribuições e ao aumento incessante do bens essenciais que atingem principalmente (e como de costume) os que menos têm, é mais que preocupante a situação presente dum Portugal que definha a olhos vistos havendo já indicadores de que uma eventual mudança para melhor não é previsível nos anos mais próximos.

Entretanto, no Parlamento, os políticos alijam responsabilidades acusando-se mutuamente enquanto trocam diatribes, adjectivando os adversários com expressões impróprias. Enquanto os do Governo falam, os da oposição armam sorrisos desdenhosos, sem lhes ocorrer que muito do que hoje o povo se queixa teve origem quando, eles próprios, ocupavam as cadeiras do poder.

Que confiança pode o cidadão comum extrair deste cenário de opereta bufa?

Pelo contrário, a credibilidade política vai esmaecendo de dia para dia por culpa exclusiva dos que tudo prometem em tempo de eleições mesmo que incapazes se sintam para resolver os grandes problemas nacionais de fundo.

E assim vai o Portugal pequenino que noutros tempos, com homens de outra têmpera, conseguiu dar novos mundos ao mundo.

O poder é dignificante quando exercido com saber e tendo em vista apenas o bem-estar e a melhoria de vida dos cidadãos. Infelizmente e de acordo com as provas dadas esse não é o caso decorrente. Esta é a conclusão da maioria dos portugueses que assiste com crescente preocupação ao agravamento progressivo das suas condições de vida, enquanto umas dúzias de espertalhões oportunistas tecem para si salários suculentos e reformas sumptuosas, deixando ao povo anónimo as sobras da sua ganância desmedida e o encargo de se haver com as nefastas consequências daí subjacentes.

É digna de reflexão a constante demonstração de ausência do sentido solidário das camadas bem instaladas da sociedade lusa: os políticos e beneficiários do sistema instalado, levando-nos a questionar como podem tais sujeitos com rendimentos de milhares de euros mensais ter ideia de como consegue sobreviver um trabalhador ou pensionista com rendimento de 300 ou 400 euros, aqueles a quem o senhor primeiro-ministro apoda de ‘piegas’. Os mesmos que se tornaram as vítimas preferenciais dos esburgos engendrados nos cómodos cadeirões do poder. O que estaria a pensar o mais alto magistrado da Nação ao queixar-se de que os seus rendimentos não chegam para satisfazer os seus encargos pessoais… o que se há-de pensar?  Como será que os ricos vêem o povo do seu país?

Por favor, um pouco de sensatez, meus senhores…    

24 de fevereiro de 2012

Óh p’ra mim há 80 anos!


Luís Farinha


“Mesmo com as casas de madeira, com a lama dos caminhos... quando acordei fiquei com saudade desse tempo das brincadeiras sem parque infantil”


De repente, sem aviso, o subconsciente prega-nos a partida.

Como é que episódios praticamente apagados da memória, inrropem, sem aviso, pela calada da noite, como a provar-nos que o que deixamos para trás acaba sempre por nos apanhar, quer queiramos ou não? Visões, sons, cheiros, pessoas, sentimentos... coisas que nos levam de volta aos tempos que já foram. Umas vezes, é um sonho bonito, e então, ficamos felizes e gratos com a viagem ao passado que ele nos levou a revisitar. Outras vezes são memórias que tínhamos como esquecidas mas que surgem do nada, inopinadamente, reabrindo feridas que pensávamos já saradas.

O sonho desta noite pertence ao primeiro grupo. Foi um sonho feliz!

Eu conto como foi...

Não escondo de ninguém, nem de resto vejo razão para o fazer, que a minha primeira infância foi passada num aglomerado de habitações mal amanhadas, na sua maioria construídas de madeira, uma porta, uma pequena janela e o interior composto de duas divisões normalmente separadas por uma cortina. Era numa quinta, à Penha de França, nesta Lisboa que hoje, vaidosa, abjura o passado. Ali, na Quinta da Bandeira, as ruas, ou antes, os caminhos eram de terra batida. Como referência, a quinta situava-se exactamente onde hoje se ergue a Escola Nuno Gonçalves, na avenida General Roçadas, artéria que ainda não existia nos idos da minha infância.

Para um garoto de 2, 3, 6 anos, viver nessas condições não seria exactamente razão de deleite. Mas nesses tempos, quando Lisboa acabava ali bem perto, no Areeiro, a maior parte das casas “pobres” não tinha água canalizada, nem saneamento básico e ainda se alumiava a petróleo, o que fazia com que viver num lar de madeira, como o meu, não fosse propriamente degradante porque era assim que vivia a grande maioria dos portugueses pobres, acrescendo ainda a circunstância de aquela ser a única habitação de que eu me lembrava. Daí não sentir falta do que não conhecia.

Enfim, como referi aquele era o modus vivendi da grossa fatia da população que habitava os chamados bairros tradicionais da capital portuguesa. Pelo menos daqueles que viviam dos seus ofícios, os operários. Há 80 e mais anos abundavam os artífices: carpinteiros, marceneiros, pedreiros, pintores, sapateiros, polidores, serralheiros, alfaiates, ourives, mecânicos, relojoeiros, latoeiros e um nunca acabar de tarefeiros indeterminados, todos eles a ganhar uma ninharia. O meu pai, ‘contramestre’ num pequeno fabricante de calçado em Lisboa, auferia 20 escudos diários, pagos à semana de seis dias, num patrão que o admitira há 18 anos atrás. Não havia, então o direito a férias nem subsídios disto e daquilo, inclusive o de doença – coisa que, de resto, o operariado aceitava sem protestar por ainda não ter adquirido consciência do que, muito depois, começou a entender-se comodireitos básicos dos trabalhadores. Não tinham ainda sido inventados os contratos de trabalho: os patrões admitiam os trabalhadores em condições que eles próprios estabeleciam e despediam-nos quando lhes dava na real gana, sem qualquer justificação laboral e sem indemnização. Em compensação, é também verdade que se arranjava emprego com mais facilidade, do mesmo modo que era muito fácil admitir quem realmente queria trabalhar. Os operários distinguiam-se pelos seus atributos profissionais, sendo vulgar designarem por “arte” o ofício que aprenderam. Só o seu bom desempenho profissional e o desábito de reivindicar era, nesse tempo, garantia de alguma estabilidade nos lugares que ocupavam.     

Uma coisa é (ou são) os nossos anseios ocultos, outra, bem diferente, é a realidade social deste país, realidade que não era boa nos meus tempos de garoto, e que continua a ser má, agora que já sou velho. Só que oitenta anos depois dessa época distante, aqueles que hoje se designam detrabalhadores continuam a ser pobres, embora, em boa verdade, eu sinta dificuldade em entender como pobre uma família que se queixa de que o que ganha não chega para pagar as prestações da casa, do automóvel, das férias, dos electrodomésticos e, ao mesmo tempo, compra os ténis, as roupas e utensílios escolares de marca, os telemóveis e as demais bugigangas electrónicas que as crianças da família exigem e a que têm direito.    

Voltando, porém, ao meu sonho, ele veio trazer-me à memória que, mesmo nas condições minguadas em que vivi a minha primeira infância, há vivências dessa época que me são muito gratas. A personagem do meu sonho foi a “avó”, uma velhota que morava na casa ao lado da nossa e a quem, toda a gente, com muito carinho, tratava com essa designação familiar.

A “avó”, do alto do seu saber feito de muita vida vivida, era quem diagnosticava e tratava as maleitas da criançada da quinta. Levantava as “espinhelas caídas”; “tirava” o Sol que atacava a miudagem que vivia à mercê dos caprichos do tempo... enfim, a “avó” era o SAP que não havia nesse tempo (hoje também já não há…), o médico que custava o que não podíamos pagar, o padre que não frequentávamos; era a amiga e conselheira dos casais desavindos, a confidente sempre disponível para toda a gente que a procurava.
Foi um sonho bonito, o da noite passada...

Voltei a vê-la, à simpática velhota, com os seus cabelos brancos, com as rugas bem vincadas que a idade lhe trouxera, com o seu sorriso bondoso. Senti-lhe a mão macia com que me afagava a face enquanto me “tirava” o Sol, com um copo de água, virado de borco sobre uma toalha, em cima da minha cabeça. Quase senti o sabor da colher de mel com que rematava cada consulta dada.

Mesmo com a casa de madeira, com a lama dos caminhos... quando acordei fiquei com saudade desse tempo das brincadeiras sem parque infantil. Das espigas altas onde nos perdíamos, das “azedas” que chupávamos, dos figos que roubávamos dos quintais dos vizinhos.

Que saudade...

Quem me procurasse na noite passada, não me encontrava, com certeza. Tinha partido de viagem aos tempos da minha infância. Tinha ido visitar a “avó”, uma figura que, só agora me dei conta, continua bem viva no fundo das minhas recordações.

22 de fevereiro de 2012

Esta noite eu sonhei...

É verdade que a realidade suja de que hoje é construído o quotidiano mundial, a miúdo nos ensombra o sono com noites mal dormidas, permitindo-nos ir tecendo conjecturas que contribuem para o desassossego que alimenta a nossa vida.

São as notícias apavorantes que a imprensa nos traz diariamente e que digerimos com imensa dificuldade. A crescente constatação da inaptidão demonstrada pela excelsa classe política para resolver os graves problemas que enfermam a Nação conduzindo-nos para um futuro cada vez mais inseguro. A crise económica portuguesa que há muito deixou de ser uma mera figura de retórica para se tornar uma realidade que todos sentimos dolorosamente nos bolsos. O aumento progressivo da criminalidade e da insegurança ante a postura da avestruz adoptada, neste e noutros casos, pelos que podem (e deviam) adiantar medidas que as minorasse. A denúncia de incontáveis casos provados de corrupção que, pela contumácia do crime, já nos habituaram a colocar sempre sob forte reserva as palavras e atitudes impantes duma chusma de senhores enfatuados que em bicos de pés nos querem à força convencer de que, sem a sua intervenção, Portugal será sempre um país sem futuro. A desfaçatez com que nos injectam doses maciças de escandaleiras mirabolantes na grande área do futebol, só para que nos passe despercebido o que vai acontecendo nos campos da política e da economia, cada dia mais periclitantes. É tudo isto que nos deixa a imagem dum país em processo de desmoronamento.

Enquanto isso, ocorre-nos nas noites de vigília, que na morna quietude dos gabinetes do poder se vai engendrando o esbanjamento de fortunas imensas na construção de novos campos da bola ao mesmo tempo que se vão forjando novas formas de esmifrar mais e mais a bolsa já bastante magra dos cidadãos, quer através de novas taxas e impostos, quer fazendo vista grossa ao sempre crescente aumento do custo de vida de quem já pouco ou nada tem para gastar.

Lá mais para o fim do meu sono desta noite deu-me ainda para evocar os fumos dos conflitos sangrentos cujos ecos vindos de longe chegam até nós fazendo com que nos sintamos impotentes face à matança desumana e desnecessária de tanta gente inocente por esse mundo fora e do crescente receio de que, um dia lá mais para diante, tal cenário de tragédia se propague a este nosso amado torrão nascido há novecentos anos na ponta da Europa.

Comecei por falar de sonhos e é a parte bonita do meu sonho desta noite que vos quero contar.

Sonhei, imaginem, que vivia num país, o meu, onde já não havia crianças e velhos com fome. Dei por mim a viver numa nação, a nossa, de gente honrada que subia ao poder para cumprir promessas feitas em áreas que antes criticava aos seus antecessores nas cadeiras do Poder. Sonhei que já se podia entrar num qualquer hospital sem receio de por lá morrer, devido ao desleixo ou à incúria de quem, por todos os meios, devia esforçar-se para minorar o sofrimento. Persuadi-me, no meu sonho bonito, de que os jovens já não estudavam em vão e que os idosos até olhavam o último quartel da vida sem receio de serem deixados apodrecer na penúria das suas pensões de miséria.

Cuidei, nesse sonho que me embalou a noite, que Portugal era agora um país independente e soberano que não vendia a honra em troca de um prato de lentilhas.

Mas a meio da noite, quando finalmente acordei, senti-me por instantes feliz até que, aos poucos, fui interiorizando que tudo não passara de um sonho. Na verdade, um sonho bonito mas longínquo que agora, já sem esperança, jamais verei realizado.

13 de fevereiro de 2012

… e quem fiscaliza as acções do Estado?

Luís Farinha


O debate que decorria na televisão tinha já entrado naquela fase morna, habitual, em que tudo fora dito e repetido até à exaustão, sem que valesse a pena continuar de olhos pregados no ecrã, adiando a ida para a cama, à espera que o sono viesse.

Não me recordo do nome do programa (o que lamento), lembro-me apenas que decorria na RTP1.

De repente, porém, os meus ouvidos despertaram da letargia em que tinham caído quando ouvi aquela frase que acabou por me roubar o sono, obrigando-me a ficar desperto, sem conseguir adormecer quando finalmente recolhi a lençóis.

Não me recordo do nome do autor da frase, pedindo-lhe desculpa pela omissão agora cometida. Tão-pouco serei capaz de reproduzir palavra por palavra o seu considerando, mas foi pouco mais ou menos assim:

"O Estado tem vindo a montar uma rede de controlo das mais variadas acções do dia-a-dia dos cidadãos. Porém, é caso para perguntar quem é que fiscaliza a acção do Estado?"

Este o sentido da pergunta que ouvi e que me tirou o sono durante um bom par de horas.

Falo dos abusos da governação cometidos contra os dez milhões de portugueses, dando como inquestionavelmente estabelecidas alterações decididas nos corredores do poder. Finalmente, conto ainda com a escassez de competência e a sobranceria manifestada em muitos serviços públicos, por funcionários claramente inaptos para o desempenho das tarefas para as quais estão a ser pagos. Permito-me sublinhar que não me refiro particularmente ao actual Governo em funções mas a todos os que passaram pelo poder em Portugal nos meus mais de oitenta anos de vida.

É evidente que nem em todos os serviços do Estado são merecedores do reparo que aqui deixo. Há repartições públicas onde encontro exemplos de funcionários com vontade de me servirem com eficiência através de explicações e acções objectivas, chegando alguns desses funcionários a exceder, no bom sentido, o limite das tarefas que lhes estão adstritas. São raros os casos em que isso acontece, é verdade. Mas será talvez por isso que tanto me surpreendo quando deparo com serviços do Estado onde me tratam com eficiência e atenção.

Observando a questão com desadorno sou levado a ter em conta as inúmeras ocasiões em que vou a uma repartição pública cumprir uma qualquer acção imposta pelo regime e sou atendido como se fosse rogar um subsídio ou outro qualquer favor a alguém que não conheço.

Tenho para mim que o Governo e os chefes de repartição estabelecem geralmente regras de boa receptividade, essenciais ao bom atendimento de qualquer cidadão. Contudo, nas questões de importância menor, dependendo da sua disposição no momento, os funcionários que nos atendem vão deixando que o cidadão contribuinte se desenrasque como puder, ao sabor da sua capacidade de improviso.

É por isso, acreditem, que reajo tão mal quando aos balcões de muitos serviços públicos me consideram abaixo de cão.

Isto vem a propósito da tal frase que ouvi na televisão...

O Estado tem vindo a montar uma rede de controlo das mais variadas acções do dia-a-dia dos cidadãos. Porém, é caso para perguntar... e quem é que fiscaliza a acção do Estado?

Pois é!

16 de janeiro de 2012

Não é este o Portugal que sonhei…

Luís Farinha


O que poderei chamar ao alento que me ajuda a tornar mais suportável a decepção que me invade quando verifico que, afinal, não é este o Portugal que sonhei?

Com tantos anos vividos confesso que me sinto indiferente ao convencional, ao social ou ao politicamente correcto. Já não vejo razões, quaisquer razões, ainda que muito singulares, para ficar atado a rabos-de-palha. Convenço-me que depois de olhar o mundo, abismado, durante décadas, procurando respostas que nunca encontrei ou caminhos que, afinal, só tarde de mais acabei por perceber que foram atapetados para uso exclusivo de outros que têm um pisar mais leve e elegante que o meu, posso conceder-me o direito de discordar da corrente veneradora e obrigada, de comentar o que considero errado, de dizer, enfim que o rei vai nu, sem me ater a consequências perversas para a minha carreira.

Que se dane a carreira, cada vez mais curta!

Mas digo mais: acabei por me convencer, tarde, nesta idade provecta, quando penso que as utopias já deixaram de marcar o ritmo da vida que me foi dada para viver, que os sonhos são o alimento que me sustenta o resto do tempo que me está a ser concedido depois de ter chegado ao fim do período de validade. Sem circunlóquios despejados… que outra coisa poderia chamar ao alento que me ajuda a tornar mais suportável a decepção que me invade quando verifico que, afinal, o mundo - e Portugal, em particular - não são aquela coisa bonita que num passado cada vez mais distante os meus sonhos construíram?

Eis um exemplo a ilustrar o que parece ser (mas seguramente não é) um ataque de efémero desalento:  

Nos idos do Estado Novo punha-me muitas vezes a imaginar como seria este meu país quando (e se) um dia vivesse em democracia. Qual seria a sensação de estar num café, em conversa com os amigos, sem antes ter de olhar à volta, localizando os “bufos”. Poder falar com quem calhava e do que mais prazer me desse sem me ater à desconfiança sempre omnipresente, como uma sentinela permanentemente alerta, pronta a avisar-me do perigo que corria. Sem acabar por descobrir, decepcionado, que até alguns colegas de trabalho não passavam de esbirros políticos encartados, postos no meu caminho, prontos a comprometer-me. Cogitava eu, então, como seria bom viver em liberdade, sem me ocorrer que, por ela, viria a ser-me exigido um alto preço. Preço que chega agora a parecer-me desmedido quando levo em conta que essa tal coisa chamada de "liberdade" não passa de uma expressão vazia de sentido, servindo apenas de tergiversação para branquear algumas proezas pouco inocentes dos muitos aproveitadores que por aí pululam.

Mais exemplos?

A situação actual vivida em Portugal oferece-os em profusão…

O que posso esperar dum país em profunda degradação financeira e social cujo primeiro-ministro não hesita em sugerir aos seus jovens licenciados e aos professores sem trabalho que procurem os caminhos da emigração? Será exagerada a minha estupefacção face a tal enormidade? Que esperança posso esperar do futuro que há-de vir se o que eu esperava ouvir da figura máxima do governo era palavras reveladoras do seu empenho em construir uma sociedade onde se tornasse descabida, senão mesmo inaceitável a emigração dos portugueses? E para que nos não restem dúvidas que a ideia de estimular a emigração dos jovens é um projecto para levar a sério basta ler na página 33 do CM do passado domingo, dia 08, o título: “Ministro elogia nova emigração”. Referia-se o artigo a uma declaração de Miguel Relvas nos paços do concelho de Penela: O ministro Adjunto dos Assuntos Parlamentares, voltou a defender que “os jovens devem pensar na emigração como solução para a falta de emprego que se regista em Portugal”. Não deixando de louvar a capacidade de adaptação dos portugueses a novas realidades, Relvas considerou que essa é uma “condição natural que deve ser aproveitada, em especial pela juventude”. Rematando, o ministro teve no entanto o cuidado de tranquilizar os que o ouviam: “Esta é uma emigração muito bem preparada”, garantiu.

Outro exemplo que explica este meu desencanto tem a ver com a polémica suscitada pela decisão do patrão dos supermercados Pingo Doce em mudar a sede fiscal das suas empresas para a Holanda, com o propósito, confessou, de “defender o seu património”. Quer isto dizer que Portugal serviu-lhe para amontoar a fortuna que tem, mas na hora em que seria natural ouvi-lo afirmar e demonstrar a sua solidariedade… pernas para que te quero! Entre as várias explicações até agora ensaiadas para justificar a sua decisão, Alexandre Soares dos Santos refere uma questão que levanta a ponta do véu: “Não sei se Portugal fica no euro e se sair será para o escudo” e remata: “Tenho o direito de defender o meu património”. Claro que tem, senhor Alexandre, claro que tem, ninguém lhe pode negar esse direito, como antes não foi negado a dezenas de outros seus confrades que escolheram o mesmo caminho. Mas sabe, sou um bocado mais velho que o senhor e aprendi em muito jovem que é nas acções e não nas palavras que se reconhecem os grandes homens. E a verdade é que foi mercê de algumas acções de ajuda e solidariedade que o senhor subscreveu que nos habituámos a admirá-lo como pessoa merecedora de todo o respeito e simpatia. Daí a desilusão…

Portugal atravessa o período mais crítico de que tenho lembrança. Circunstâncias a que não são estranhas a ganância de alguns, a inépcia de uns quantos e a cegueira de um povo inteiro confluíram para esta espécie de abismo em que o país se precipitou. E o preço a pagar por este desvario colectivo é tão alto que corre o risco de não conseguir ser saldado com honra. Aliás, os sinais do opróbrio são já evidentes. Portugal é, no presente, olhado de lado pelo resto do mundo. De parentes pobres da Europa os portugueses foram já relegados para a condição de “lixo” da zona euro, designação que nos reduz a nada e nos envergonha enquanto nação quase milenar.      

Sejamos coerentes: Portugal precisa de um rumo que ainda não encontrou. Porém, para que isso possa vir a acontecer é fundamental que cidadãos de grande saber (que os há…) dêem um passo em frente dispostos a salvar o que resta dos destroços deixados pela sucessão de políticos que ao longo do tempo têm vindo a mostrar que a sua acção começa e acaba em decisões governativas que têm como objectivo essencial propiciar benesses para os seus apaniguados. Na ditadura, como nesta espécie de democracia em que vivemos, os exemplos são mais que muitos. Assisto à distribuição de empregos altamente remunerados a indivíduos que, na maior parte dos casos, passaram pelos corredores do poder. Ex-ministros, ex-secretários de Estado, ex-acessores e ex-chefes de gabinetes, ex-isto e ex-aquilo do aparelho do estado são os grandes beneficiários do sistema vigente. Há até exemplos de primeiros-ministros que, a meio dos seus mandatos, atiraram às malvas as promessas feitas aos portugueses nas campanhas eleitorais e a jura solene feita no acto da tomada de posse, para correrem atrás de empregos mais bem remunerados deixando atrás de si, sem pudor, o caos social. Quanto à governação, propriamente dita, a falta de talento é mais que evidente: nada se faz e nada se deixa fazer. E o incumprimento das promessas feitas logo que está passado o afã eleitoralista é a tónica que sempre marcou a ordem do dia passado que está o fervor das campanhas.

Nasci, vivi e perto estarei do descanso final sem que tenha tido o privilégio de ver o Portugal que sonhei. A improvisação tem sido a “estratégia” comummente aplicada na governança da nação, com os resultados que estão à vista. A afectação presunçosa é a imagem que me fica dos que se têm vindo a empoleirar nas cadeiras do poder. Na recta final da minha vida comprida a decepção que sinto é já imensurável.

28 de dezembro de 2011

Novos tempos

Luís Farinha

Sinto-me totalmente fora de moda. Confesso-me culpado de não ter sido capaz de acompanhar os novos rumos que a vida e as pessoas decidiram tomar. Fiquei a olhar, distraído, para o mundo que corria à minha volta sem me dar conta que estava a perder o comboio da modernidade. Não me refiro a um ou outro aspecto em particular, mas ao todo que habitualmente se entende como "a sociedade".

A pergunta que hoje me coloco é esta: sou eu que tenho andado desatento nos últimos anos, ou deixei que tudo fosse acontecendo à revelia da minha capacidade de observação? A verdade, penso eu, é que a mudança se foi instalando com pezinhos de lã, enquanto eu olhava, embasbacado, para outras coisas.

Querem um exemplo?

Há uma coisa que até há um par de anos atrás seria tido como algo impossível de um dia vir a acontecer mas que actualmente é comummente aceite como normal no actual folclore da televisão. Refiro-me à recente versão do Big Brother, agora baptizada de “Casa dos Segredos 2” e ao implacável incitamento que a produção do programa faz para que os concorrentes enveredem pela exibição pública de sexo. A verdade é que os ditos concorrentes vão para ali rotulados de rapazes e moçoilas de boa moral. Contudo, até as suas famílias são levadas a intervir, pronunciando-se quanto às denúncias públicas de eventuais episódios de sexo protagonizadas pelas suas prendadas filhas.

Todos os dias a imprensa - não toda, evidentemente - publica o andamento do concurso (!), com títulos e subtítulos sugestivos: "Fulana e beltrano metem-se na cama e a mãe dela chateia-se". Entretanto, mais abaixo: "O pior é que nos intervalos, fulana agarra-se a outro...". Mais acima, em destaque, a mãe esclarece: "A minha filha não era assim". E em letra miúda, ao longo das páginas, outros pormenores vão apelando à avidez dos apreciadores deste edificante género de leitura. A coisa chegou a tal ponto que já não surpreendeu ninguém a ‘notícia’ vinda a lume em 27 de Dezembro passado, num jornal de ‘grande tiragem’, que ia a noite adiantada na Casa dos Segredos quando Zulmira (nome suposto) foi ao quarto de Reinaldo (nome suposto) e, sem mais aquelas, começou a fazer sexo oral e a masturbar o (sujeito). A notícia era acompanhada de fotos sugestivas.   

Como comecei por referir, devo ser eu que estou completamente fora de moda. Provavelmente, concluo agora, a culpa reside em mim por não ter sido capaz de acompanhar a evolução dos costumes e as novas normas de conduta desta sociedade modernaça.

Mas que querem?
Os anos não perdoam e eu venho dum tempo em que ainda não passava pela cabeça de ninguém que os meios de comunicação social viessem um dia a ocupar os seus espaços e tempos de antena com coisas que então eram apodadas de bandalheiras.

Relativamente à cena acima referida atrevo-me a pôr as seguintes questões: como é que a dotada menina irá enfrentar os seus conterrâneos quando regressar a casa? E os seus pais, face aos vizinhos, amigos e conhecidos? Provavelmente com toda a naturalidade. Pela amostra…

27 de dezembro de 2011

A mala de cartão

Luís Farinha


Li há mais de seis anos, no jornal on-line Portugal Diário de 27 de Outubro de 2005, mas ainda vivo a preocupação que a notícia me causou.

“Quase vinte por cento dos quadros técnicos portugueses vivem no estrangeiro, revela um estudo do Banco Mundial. Ocupamos o 21º lugar numa lista global, entre a República Dominicana e o Malawi. Especialistas consideram que a saída de licenciados impede o desenvolvimento das nações mais pobres”.

Grosso modo, isto queria dizer que quase 20 por cento dos portugueses com o ensino superior viviam no estrangeiro, o que levava Portugal a ocupar a primeira posição em termos percentuais entre os países europeus que mais são afectados pela saída dos seus quadros técnicos.

Uma conclusão a que desde logo cheguei foi que somos um país com inegável vocação emigrante. Até onde a história chega, tudo começou com os descobridores que, por mares nunca antes navegados, partiam em busca de riqueza e de povos estranhos, de cores e hábitos de vida diferentes dos nossos.

Séculos passados voltámos a partir aos milhares, porém, exportando então força de trabalho capaz de cumprir tarefas que os naturais recusavam. Assim, fixámo-nos por esse mundo fora, não sendo raro conseguirmos amealhar fortuna à custa de trabalho duro. Agora, como a contrariar o conceito de que a história não se repete, eis que uma vez mais nos aprestamos a procurar lá fora o que não encontramos em Portugal: trabalho que nos garanta o pão de cada dia e uma vida que nos não envergonhe.

Não merece crédito o oco argumento de que Portugal é pequeno demais e não possui as condições mínimas que permitam usufruir de uma vida aceitável pela maioria da sua população. Tal raciocínio não corresponde minimamente à realidade. Pelo contrário, tendo o país condições naturais singulares apreciáveis e gente que não teme o trabalho, por mais duro que seja, é fácil reconhecer que o problema não assenta na incapacidade laboral do povo português, mas na inabilidade dos seus governantes para gerir as dádivas em que, no nosso caso, a mãe Natureza foi pródiga.

Como a confirmar o que acabo de referir, assistimos agora a mais uma vaga de emigração, só que desta vez o êxodo é rodeado de características muito especiais. Se antes exportávamos aquilo que na gíria é conhecida como “força bruta”, ou seja: trabalhadores sem formação, actualmente os países que nos aceitam abrem as portas a operários qualificados e, pior do que isso, recebem de braços abertos os chamados cérebros, ou seja: portugueses com ensino superior. Tenhamos em conta o caso recente protagonizado pelo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho ao incentivar publicamente a emigração dos milhares de professores desempregados sugerindo que essa seria uma medida a seguir. Sendo no mínimo humilhante, a asserção do senhor governante teve ainda a grave resultância de despojar os portugueses dos restos do sentimento de esperança que tão importante é na fase particularmente penosa que o país atravessa. Das suas imprevidentes palavras fácil é deduzir que, sem solução, a Portugal nada mais resta. Outro caso seria se em vez da tão infeliz sugestão o senhor primeiro-ministro tivesse afirmado empenho pessoal em encontrar soluções que evitassem a saga de emigração dos cidadãos portugueses. Isso sim, seria motivo para nos sentirmos galvanizados, dispostos a aceitar de dentes cerrados os terríveis sacrifícios a que, sem entendermos, temos vindo a ser condenados.

Assim, confesso que senti, uma vez mais, o amargo sabor do desencanto…