6 de dezembro de 2011

Condomínios em apuros!


Luís Farinha

Comprar casa para viver tornou-se o sonho de [quase] todos os portugueses, particularmente dos jovens que anseiam constituir família e criar independência. O antigo hábito de um novo casal compartilhar a casa dos pais, dele ou dela, era normalmente entendido como uma solução provisória adoptada no sentido de ir aforrando fundos que dariam jeito na hora de dar o passo decisivo para uma “vida a dois” com a sonhada independência.
Mas tinha razão Camões quando escreveu: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Os apelos ao consumismo incentivados pelos ‘patrões’ das finanças ante a mudez cúmplice dos sucessivos governos da nação, pós-revolução dos cravos, produziram efeitos nunca antes alcançados. Empréstimos para a compra de habitação com oferta de amortizações a perder de vista foi o argumento força que transformou o português, por natureza cauteloso, num inchado proprietário. Como era previsível, o resultado desse grave desnorteio viria a ter, como se vê agora, um fim ruinoso impossível de sanar. É claro que o desvario iniciado pela aquisição imprudente de habitações foi agravado pelo contágio de outros escoadouros dos frágeis rendimentos dos jovens portugueses: mobílias, automóveis, electrodomésticos, viagens, férias, sem esquecer muitas futilidades que o comércio publicita agressivamente, foram acordando a ânsia de posse, latente na profundeza das almas crédulas dos jovens, ao mesmo tempo que obscureciam os restos da sua capacidade de discernimento.

Como hoje todos sabemos, a batalha pelo enriquecimento à custa dos outros acabaria por ser ganha pelos promotores do ‘compre agora e pague depois’. Quem já era rico descobriu na situação decorrente um filão inesgotável para aumentar o seu poder financeiro tirando partido dos falsos indícios de um melhor nível de vida, coisa de que uma boa parte da população se convenceu tomando como sérios os argumentos falaciosos dos políticos nascidos com o 25 de Abril. De Norte a Sul de Portugal, nomeadamente nas cercanias das áreas mais densas de habitantes, o consumo cresceu sensivelmente em resposta aos incitamentos vindos de todas as direcções veiculados pelos meios de comunicação. Se a aquisição da tão ansiada habitação era a prioridade que desde logo se impôs, outras “necessidades” se mostraram como não satisfeitas, como o(s) automóveis(s) para a família, as férias e viagens, as roupas de marca, os telemóveis e um sem número de outras bugigangas criadas para o “conforto” e satisfação do desejo de ter, tão constante na mente do cidadão comum. Em meia dúzia de anos nascia uma competição até aí desconhecida: a febre da ostentação, que viria a tornar-se a obsessão dominante da nova classe média - designação excessiva quando vista à luz da realidade.

Mas o português comum, ágil na ânsia dos direitos trazidos pela revolução esqueceu – mais uma vez – que esses só fazem sentido e frutificam quando se atende aos deveres do nosso vizinho. Ter direitos impõe que os mesmos não atropelem os que aos outros respeitam.

Vejamos o caso corrente, muito actual, da convivência entre condóminos nos espaços comuns dos prédios de habitações adquiridas em regime de propriedade horizontal. Não pagar as quotas mensais do condomínio é uma moléstia que se estende a largos milhares de casos em todo o país. Os administradores nomeados bem se esforçam para que essa obrigação legal seja cumprida atempadamente pelos condóminos em falta, porém o resultado é quase sempre nulo. Todos os argumentos servem de desculpa para o não cumprimento dessa cláusula prevista na lei. Entretanto, além das despesas correntes de manutenção há, em todo o território, um elevadíssimo número de edifícios construídos há dezenas de anos que começam a necessitar de reparações de fundo que as próprias autarquias impõem, como a assistência pormenorizada dos espaços e bens comuns, a substituição dos elevadores em fim de vida que já não oferecem a segurança exigida e a restauração exterior dos prédios.

Segundo o que está legislado, nos casos de falta dos pagamentos previstos na lei a recorrência aos tribunais é a solução eficaz. Com a força da lei, a justiça acabará por actuar sendo assim reposta a legalidade. Mas se o condomínio está já em precariedade financeira devida aos calotes da maioria dos condóminos, como se poderá recorrer ao tribunal? Como será pago o indispensável advogado e as custas processuais?

Num exercício de previsibilidade talvez seja oportuno lembrar que em função da actual crise que avassala Portugal e o desemprego que daí vai crescendo não será despiciendo concluir que o número de condóminos incumpridores vá aumentando substancialmente, com consequências desastrosas que começam a ser visíveis.

O que fazer então?

Porque não a criação (sem encargos) de um recurso legal que evite a catástrofe que se adivinha? Porque não se incumbem desse recurso as próprias autarquias a quem são pagas as contribuições prediais entre outros impostos já que, como é do conhecimento geral, aos Julgados de Paz falta-lhes a força legal que só os tribunais detêm?

O cenário deprimente que de há muitos anos padecem os chamados bairros históricos ou populares não tardará a estender-se às construções das últimas décadas. Há zonas habitacionais que a caminho do meio século dão já mostras de rápida degradação: canalizações em mau estado, paredes a escorrerem humidade, elevadores que não funcionam, frontarias depauperadas pelas intempéries e assim por diante.

Por outro lado, a falta de pagamento das chamadas quotas mensais, fundos de reserva e outras despesas comuns obrigatórias está a azedar as relações entre vizinhos já que para o não-cumprimento desse dever todas as razões [justificações] parecem válidas: se o condómino não habita a casa, parte do princípio de que não causa despesas e se não as faz pretende que nada terá a pagar; se não vive no andar e o tem alugado argumenta que a renda que o seu inquilino paga não dá para manter os encargos que a lei prevê. E depois restam ainda os que embora co-proprietários do edifício onde vivem, se queixam da ‘perseguição’ que o administrador lhes move tentando criar com esse subterfúgio um clima de isolamento e distanciamento que os proteja de serem incomodados.

É notória a tendência dos políticos pós-25 de Abril para protelarem a resolução de situações complicadas da governação para um ‘depois’ que nunca chega. É uma atitude que rapidamente se propagou aos quadros das autarquias. Lestos a fomentar a criação de novos parques residenciais e a conceder licenças de construção numa perspectiva de crescimento das contribuições, passam à velocidade das coisas imóveis quando os munícipes lhes reivindicam o arranjo de um passeio desempedrado, de um muro derrubado, de um acesso tornado intransitável por uma obra parada.

O caso dos condomínios em risco de ruína administrativa é grave e cresce a olhos vistos. Ignorar as consequências de uma tal situação é, se bem visto, deixar estabelecer a desordem urbana até ao insustentável. E depois, como será?    

4 de dezembro de 2011

404 era o seu nome



Luís Farinha



Quando ele nos confidenciou que era funcionário do Jardim Zoológico de Lisboa, logo imaginámos aquele esgalgado de 1.80m a dar de comer – sei lá – aos macacos, aos leões ou às girafas. Entretanto, como confessou, nas horas vagas fazia com paixão teatro amador


Há episódios, figuras e factos tão marcantes na vida de todos nós, que nem o tempo, os anos que passam, conseguem apagá-los do registo das nossas memórias. O que hoje lhes vou contar passou-se há tanto tempo que só porque realmente se trata de um período singular da minha vida, é que ainda o guardo com toda a clareza no fundo das minhas lembranças.

Corria o ano de 1950. Há portanto muitos anos! O local onde tudo se passou, nessa data longínqua era, na época, um dos quartéis do Regimento de Artilharia Antiaérea Fixa, espaço que foi mais tarde transformado em sede da Legião Portuguesa, de má memória e posteriormente instalado o Comando-Geral da Polícia de Segurança Pública, na Penha de França, em Lisboa.

Foi ali que eu cumpri o serviço militar, dando à Pátria a contribuição que então era ainda obrigatória.

Todos os que nesse tempo eram jovens como eu, lembram-se ainda, com certeza, do que eram esses recrutamentos. Ainda se recordam como decorriam aqueles primeiros dias em que uma postura institucional obrigava mancebos das mais diferentes origens e estratos a conviverem à força, tentando vencer barreiras culturais que hoje se consideram geralmente intransponíveis.

Como sempre acontecia ano após ano, no recrutamento de 1950, lá, na Penha de França, apareceu um pouco de tudo: desde o jovem filho de família, a quem os anos de cabulice, no liceu, não conseguiram dar a possibilidade de se incorporarem como sargentos ou oficiais milicianos, ao rústico de Trás-os-Montes, das Beiras ou do Alentejo, rapazes que nunca tinham tomado um banho completo, nem mesmo na véspera de enfrentar aquele mundo desconhecido.

Lá, juntava-se de tudo, a esmo, sem barreiras, sem distinções e também sem privilégios.

Pois foi ali, no RAAF, que conheci aquele jovem alto, esquálido, com o aspecto de quem se pergunta a cada instante… “mas o que é que eu estou aqui a fazer?”

O número que lhe deram foi o 404 e, no momento em que esse número lhe foi atribuído, o seu nome seria de imediato relegado para o esquecimento, como mandava o regulamento militar. Todos os incorporados deixavam de ser indivíduos distintos para passarem a ser rebaptizados com um número abstracto, na nova qualidade de propriedade do Estado.

Uma noite, no silêncio da caserna, quando as confidências furavam a solidão restituindo aos jovens um pouco da individualidade deixada à entrada do portão de armas, o 404 também nos falou um pouco de si. Chamava-se… Varela e, segundo nos contou, era funcionário do Jardim Zoológico de Lisboa, uma confidência que fez rir os companheiros: de repente, todos imaginámos aquele esgalgado de 1,80m a dar de comer - sei lá - aos macacos, aos leões ou às girafas. Entretanto, como confessou, nas horas vagas fazia com paixão teatro amador. Aliás, no decorrer do tempo que se seguiu, quantas histórias reais testemunhei tendo o Varela como intérprete obrigatório, ali no quartel da Penha de França, e quantos serões clandestinos, no escuro das casernas ou da casa da guarda, passámos a ouvi-lo dizer versos interditos de poetas nesse tempo proibidos.

Recordo aquela vez em que o capitão Domingues o chamou, quando conversávamos, a quatro ou cinco metros de distância: “404… ó 404!” E o bom do Varela, nada… “Tu aí, ó 404!” insistiu o capitão. E nada de o 404 responder ao chamado. Exasperado, o oficial aproximou-se e com o mau modo que todos lhe conhecíamos, vociferou: “És surdo, ou quê, pá? Não ouviste eu chamar-te?” Com a surpresa estampada na cara, o magala responde: “Meu capitão desculpe!” E acrescenta com ar de inocente: “Sabe, meu capitão, há 20 anos que ouço chamarem-se ‘Varela’, agora, de um dia para o outro chamam-me 404 e não há meio de me habituar à mudança, desculpe…” Nessa altura o 404 desempenhava já o cargo de amanuense, na secretaria do quartel, dada a sua ‘comprovada’ inépcia para as coisas do foro militar, propriamente dito. Ali, nas calmas, sentado à secretária, de perna traçada, passava os dias à volta da escala de serviços dos oficiais e sargentos e de outras tarefas afins, enquanto cá fora na parada – ao sol e à chuva – os camaradas se desunhavam para acertarem o passo ou os movimentos das armas.
Verdade seja dita que na incorporação de 1950, no RAAF, na Penha de França, em Lisboa, ele foi o único soldado que nunca abdicou do nome com que foi baptizado, sendo por todos tratado por Varela.        

Depois da tropa cumprida e de muitas peripécias passadas naqueles dois anos que nunca mais acabavam, cada um dos mancebos voltou a fazer-se à vida, regressando uns ao amanho das terras, outros recuperando empregos anteriores e outros ainda cumprindo novos destinos. Eu, preparando-me para o ofício de jornalista, o Varela Silva - era esse o seu nome - seguindo a carreira teatral, agora como único modo de vida. Vida que nos juntou, depois, em ocasiões diversas, no cumprimento das nossas actividades. Entretanto o Varela casou com Celeste Rodrigues (irmã de Amália) e mais tarde com Simone de Oliveira, dois nomes também famosos.

O Varela Silva, nome consagrado dos palcos portugueses, deixou-nos vão já uns anos. Quanto a mim…

Bem... quanto a mim cá vou continuando, até que lá mais para a frente, numa nova incorporação, nos voltemos a encontrar, dessa vez já do outro lado da vida.

21 de novembro de 2011

A falsa classe média

Luís Farinha


No caso dos governos que nos têm calhado por desígnios caprichosos do destino, o que dirão a história... e os amanhãs que se perfilam no horizonte?

Há quem pense – e disso não faça segredo – que em Portugal a classe média é uma camada da população em vias de extinção. À primeira vista tal opinião parece não fazer sentido, particularmente ao olharmos a ostentação que se agita à nossa volta. Mas permitam que vos pergunte: têm a certeza de que o automóvel, o apartamento, o telemóvel, as mobílias, as viagens, as roupas da moda e demais sinais de desafogo material que vêem naqueles que vos rodeia, lhes pertence por direito? Será que são os donos legais desses bens que alardeiam? A confirmar-se essa conjectura como se explica então que, de acordo com Bruxelas, as famílias portuguesas sejam as mais endividadas de toda a Europa?

Alguma coisa não faz sentido, pois não?

É do conhecimento geral que é da chamada classe média que é extraído o grosso da receita do Estado. Enquanto a privilegiada classe dos profissionais liberais e as grandes empresas se subtraem à responsabilidade de manter em ordem as suas contribuições ao fisco, aos trabalhadores por conta de outrem (em que encaixa a tão badalada classe média) é deixado o pesado encargo de suportar quase toda a despesa pública. Resumindo, a receita do Estado é toda ela calculada em função das contribuições da tal classe que de “média” já não tem nada.

Perante este cenário, não há razão para temer que tal eufemismo venha a desaparecer do discurso político. A “classe média” mais não é do que o “bode expiatório” de tudo o que de mal e de bom é arquitectado pelo poder instituído. O cidadão compra um carro, uma casa, um fato novo, ou vai de férias? Logo o tacham de membro da “classe média”. A partir de então não cabe nos dois milhões de outros cidadãos que, esses sim, são considerados pobres porque não geram riqueza. Só que a sociedade portuguesa tem dois milhões de pobres. Nada menos do que dois em cada dez portugueses sobrevivem com menos de 60 por cento da média nacional de rendimentos. E o que mais dói em tudo isto é que enquanto o Estado faz “vista grossa” aos grandes caloteiros fiscais (embora saiba bem quem são e onde estão), aperta até ao estertor os membros da “classe média” que, por imposição da lei instituída não podem escamotear um centavo que seja do seu rendimento de trabalho. 

E assim vamos vivendo neste alegre faz-de-conta...
             
Uma das coisas que a vida me ensinou até chegar a esta etapa avançada da vida é que nada (de bom e de mau) acontece impunemente. Se durante o tempo útil que vivemos, espalhámos a paz, a harmonia e o amor ao próximo entre os que nos rodeiam, podemos esperar que o balanço final nos seja favorável. E se não for, resta-nos a compensação de chegarmos ao fim em paz com a nossa consciência. Se, pelo contrário, pela vida adiante só nos importámos connosco - e no uso pessoal e exclusivo esgotámos o cálice da vida, sem olharmos à volta - o fim será o que tal filosofia comporta: a solidão dos que lamentam não ter usufruído de mais e mais bens materiais, de que, de resto, para nada servirão então.

Vem isto a propósito dos governantes que durante anos se têm passeado pelos corredores do poder. Se exercitaram esse poder para construir uma sociedade melhor, resta-lhes a satisfação do dever cumprido e o reconhecimento eterno do mundo que deixam para trás. Se, pelo contrário, o que é mais corrente, usaram o poder exclusivamente para benefício próprio e do seu compadrio, resta-lhes o opróbrio e o ostracismo da história.

No caso dos governantes que nos têm calhado por desígnios caprichosos do destino, o que dirão a história... e os amanhãs que se perfilam no horizonte? Acredito que haverá muitos descendentes que evitarão, no futuro, usar os apelidos que lhes foram legados.     

11 de novembro de 2011

Crianças que a vida condenou

Luís Farinha


As redes pedófilas são a explicação mais comum para os contínuos desaparecimentos de que a imprensa dá conta

Sabe-se que ao longo dos tempos as crianças têm sido alvo de sevícias por parte de adultos, umas por incúria de quem delas devia cuidar com carinho, outras para satisfazer impulsos libidinosos. Contudo, ultimamente, por maior liberdade de informar ou por uma maior consciência humanitária têm chegado ao domínio público as notícias mais inverosímeis e tenebrosas. Exemplo disso, as recentes vindas a lume, segundo as quais foram registadas apreensões de um sem número de computadores recheados de imagens e listas de crianças apanhadas na prática da pornografia infantil. 

Uma coisa é certa: as crianças estão em perigo, fora e dentro de casa, vítimas inocentes dos ímpetos mais hediondos de que é capaz o ser humano. Em casa quando é a própria família a sujeitá-las a tratamento o mais degradante. No exterior, quando a bestialidade de homens e mulheres atinge o paroxismo. Quem não tem presente o caso dos jovens de paradeiro incerto desaparecidos ao longo dos anos, jovens cujos familiares choram diariamente a sua ausência e a incerteza do seu destino?

Histórias de crianças sujeitas a actos ignóbeis perdem-se na memória dos tempos e na lembrança dos homens e mulheres; eles e elas absorvidos num dia-a-dia cada vez mais difícil de levar em diante.

As redes pedófilas são a explicação mais comum para os contínuos desaparecimentos de que a imprensa nos dá conta. Quadrilhas de criminosos, para quem uma criança só tem o valor que o mercado especializado lhes oferece em troca de uma vida que destroem e de famílias que ficam desfeitas são cada vez mais numerosas. A Lei, ainda que mergulhada em burocracia e com uma absurda falta de meios adequados, lá vai procurando resolver um ou outro caso, mas na maioria das vezes o seu empenho esgota-se em autênticos becos sem saída.

É certo que obstar a que o nefando comércio prossiga e progrida não é tarefa fácil, mais ainda tendo em conta que os lucros por ele obtidos atingem valores de tal grandeza que chega para acordar o que de mais abominável o ser humano guarda dentro de si, aprimorando os processos de recrutamento e de fuga à justiça. Destinados a alimentar a perversão de uma certa classe de endinheirados, tudo é sacrificado na satisfação dos seus apetites hediondos arrasadores do que mais estimável há numa criança, a inocência. Para o efeito, vão-se sofisticando os métodos de aliciamento, de rapto e de tráfico, de que as tão aclamadas redes sociais são exemplo. E o pior de tudo é que, não raro, são as próprias famílias, mercê da sua inultrapassável miséria, que colaboram no primeiro passo a caminho da degradação total dos pequenos seres a quem deram vida.

É difícil aceitar esta teoria, eu sei, mas há verdades que não devem ser escamoteadas.      

10 de novembro de 2011

Pedaço do passado longínquo…

Luís Farinha


Talvez fosse a penumbra da sala que a deixou intimidada. O seu olhar, inquieto, hesitante, buscava um lugar para se sentar. A verdade é que qualquer coisa me trouxe, desde logo, a nítida impressão de que não era frequentadora habitual daquele meio. ‘Está a acontecer um vendaval naquela cabeça…’, pensei. E desviei a atenção, alheando-me aparentemente da sua presença para não a perturbar ainda mais.

Foi em meados da década de 50, do século passado que o episódio teve lugar. Naquela época o Maxime era um dos cabarés mais bem frequentados da vida nocturna de Lisboa. Duas boas orquestras, que se revezavam a cada 30 minutos, atracções estrangeiras de qualidade, boa frequência. A par do Arcádia, nas Portas de Santo Antão, o cabaré da Praça da Alegria distinguia-se pelo ambiente que oferecia. Quem cruzava a porta de entrada logo recolhia a sensação de que aquele era um sítio que convidava a ficar. Inclusive, as jovens frequentadoras eram naturalmente discretas e só abordavam uma mesa ocupada quando para isso eram convidadas.
Quem conheceu aquele espaço nos anos 50 e 60 dificilmente escapa, no presente, à nostalgia desses bons velhos tempos.

Quando voltei a rodar os olhos pela sala estava ela sentada a uma mesa não longe da minha, sozinha. Passado algum tempo levantei-me e, aproximando-me da jovem mulher, convidei-a a tomar comigo uma bebida. Hesitou durante um breve instante, mas acabou por me acompanhar, agradecendo o convite, embora aparentemente acanhada.

A conversa, retraída ao princípio, tornou-se mais solta logo depois e estendeu-se por largo tempo. Fiquei a saber que era a terceira vez que ali ia. Dias antes, contou, tinha sido levada por uma amiga que, como ela, vivia num quarto da mesma casa onde alugara o seu, ali perto, na Rua de Santa Marta, em frente do hospital com o mesmo nome. Nunca frequentara aquele meio, mas razões familiares, acrescentou, tinham-na levado a afastar-se para viver sozinha. Entretanto, passara já um mês desde que dera aquele passo e as fracas economias esgotavam-se rapidamente. Sem conseguir arranjar emprego, entrou em desnorteio por não atinar que volta dar à vida. Confusa, acabou por dar crédito à sugestão da sua vizinha de quarto. Também ela, disse-lhe, passara por idêntica situação até que decidira experimentar a vida nocturna. E dera-se bem, muito bem mesmo, segundo lhe dizia…

Histórias parecidas com a sua já eu ouvira antes. Algumas mais difíceis de levar a sério. Como as daquelas jovens que explicavam a sua presença naqueles lugares com o simples intuito de se ‘distraírem ouvindo um pouco de música ao vivo e darem um pezinho de dança’.

- “Acedi a experimentar mas confesso que me sinto deslocada, com vontade de não continuar”, confessou. Em seguida fez uma pergunta que me deixou sem jeito: - “Acha que isto é vida para alguém?”
Fiquei sem saber o que responder. Intimamente recusava tal fardo. Depois dum breve silêncio lá consegui titubear: - “Quem sou eu para lhe dar opinião sobre essa matéria?” Mas em seguida avancei um pouco mais: - “A sua vida deve ser, para si, importante demais para me permitir dar palpites acerca do que deve ou não fazer dela”. No entanto não consegui impedir-me de acrescentar: “Para já apenas lhe posso recomendar que tome muito cuidado com o caminho que lhe foi sugerido pela tal amiga. Reflicta, minha amiga, reflicta e tenha em conta que tem toda uma vida para viver e o que decidir agora vai condicionar o futuro que tem diante de si”.

Revelou que trabalhara no escritório duma fábrica de malhas durante os dois últimos anos; que saíra por causa do seu envolvimento com um colega que, soubera tarde demais, já era casado e com uma filha e que, por isso, tomara a decisão de ficar longe dele a partir daí. Despedira-se do emprego e, quando a família soube do sucedido, em pormenor, o pai arrumara o assunto à boa maneira desses tempos: deu-lhe ordem de saída lá de casa com o argumento de que ‘não queria que as outras duas filhas viessem a ser contagiadas pela leviana da irmã’.

Os seus olhos vidrados de lágrimas mostravam que toda a conversa havida até aí, em vez de a ajudar, tinha reaberto o caudal das suas aflições.
Acabou por me confessar que na véspera saíra dali com um senhor amável, já não muito novo, que a convidara a acompanhá-lo.
- “E então?”, perguntei.
- “Chorei o resto da noite. Não imagina a vergonha que tive de mim…”
- “Imagino, sim”, respondi. E continuei: “Se eu fosse você sabe o que fazia agora? Corria direitinha para casa, para o seu quarto, ia reflectir sobre a situação presente e como será a sua vida quando acabar por perder a vergonha que sentiu ontem à noite. Quando isso acontecer – se acontecer – acredite que já vai ser tarde demais para encontrar outro caminho”.

A seguir fez-se silêncio…

De olhos baixos, a jovem meditava certamente no que se passara naquela hora e meia sentada à minha frente, enquanto limpava os olhos ainda húmidos.
Acabei por quebrar o silêncio que estava a tornar-se incómodo, para lhe anunciar que me ia retirar.
- “Também saio”, respondeu.
- “Quer que a leve a casa?”.
- “Se me fizer esse favor, agradeço”.
Chamei o empregado, paguei a conta e em seguida saímos.
Já à porta da casa onde vivia, ali perto, ocorreu-me perguntar-lhe o número do telefone, prometendo que lhe ligaria daí a dias.
Agradeceu-me a companhia que lhe fiz, as palavras que lhe disse e rematou com um beijo na face.

Afastei-me, conduzindo devagar, enquanto rememorava a longa conversa da qual fiz aqui um pequeno resumo que, pela sua importância, me ficou gravado na memória, apesar dos quase 60 anos passados sobre o episódio.
Mal supunha então as muitas voltas que aquele conhecimento, igual ou parecido com muitos outros ocorridos comigo na mesma época, acabaria por me trazer.

Abreviando…

Quis o acaso – e o acaso tem nestas coisas uma importância inusitada – que dois dias depois, sentado na cadeira do barbeiro onde habitualmente cortava o cabelo, na Baixa de Lisboa, notasse a ausência da manicura que eu já conhecia de há anos, ali, sempre pronta a tratar das unhas dos clientes que a tal cuidado se davam. Soube então que se tinha mudado de armas e bagagem para um salão de cabeleireiro famoso, ali bem perto, nos Restauradores.

De imediato senti num canto do meu cérebro uma luzinha a brilhar…
- “E substituta?”, quis saber.
- “Estamos a tentar encontrar uma pessoa adequada”, informou o dono da loja; e aproveitando o balanço: “Não me diga que conhece alguém!”
- “Por acaso até conheço. É apresentável, boa moça e anda à procura de emprego”.
- “Mande-a cá falar comigo, sem compromisso, claro…”

Três anos depois, quando me afastei para seguir um outro percurso, ainda ela continuava na mesma barbearia na Baixa de Lisboa, lugar que por razões óbvias, deixei de frequentar. Foi um período que deixou marcas indeléveis, de difícil cicatrização. Muitas coisas aconteceram quando deixámos que a amizade inicial se transformasse numa relação mais íntima. Às vezes torna-se difícil acautelar as consequências dum passo descuidado. Foi o que nos aconteceu. Daí o afastamento dorido que marcou a separação.

Vinte anos passados estava eu à conversa com um amigo meu, na sua loja, em Alvalade. Sempre que por ali passava o encontro tornava-se obrigatório nem que fosse para saber de outros antigos companheiros de brincadeira que connosco tinham crescido no bairro tradicional onde nascêramos.
Foi quando, da porta, na rua, alguém me chamou pelo nome próprio. Virei-me para saber quem me chamava e reconhecia-a depois duma ligeira hesitação. Era ela, tinha agora a certeza. Os mesmos traços, a mesma silhueta, 20 anos mais velha… Pedi licença ao meu amigo, fui até à porta e cumprimentei-a. No passeio ficámos a olhar um para o outro, numa muda apreciação dos estragos que o tempo nos tinha causado. Acabámos por ir a um café próximo, sentámo-nos e cada um desfilou as etapas percorridas desde aquele dia, há uma vintena de anos.   
Ela encontrara um novo companheiro, um bom homem, com quem acabara por casar. Nasceram-lhes três filhos. Era feliz e tinha uma vida desafogada economicamente. Morava ali perto e viera às compras; vira-me entrar na loja e pensou reconhecer-me. Hesitou, mas acabara por não resistir.

Segura de si, o seu porte mudara radicalmente. Espontânea, palavra solta, dava a impressão que a vida deixara de lhe ser madrasta. “Lembras-te do nosso primeiro encontro?”.

Lembrava-me. E quando daí a pouco nos despedimos, acreditem: sentia-me feliz!

Foi a última vez que a vi. Desde então passaram mais quarenta anos.

É verdade, lembrei-me agora… se ela ainda andar por este mundo, já passou os oitenta anos de vida.

Como o tempo corre tão depressa, meu Deus…

31 de outubro de 2011

Enquanto isso...

Luís Farinha


Sei que um dia me vão dar razão... Quando; depois de quê, só o futuro dirá! Para já, apenas me limito a ir despertando a atenção das pessoas mais responsáveis, para o que se está a passar em termos de violência na sociedade portuguesa.

Recordo ainda o tempo em que nas grandes cidades, como Lisboa e Porto, se saía à noite, depois do jantar, para ir à "baixa" ver as montras, para passear na Avenida da Liberdade, para subir ao Monsanto e, lá do alto, ver a cidade iluminada, ou para ir até à Torre de Belém, apanhar um pouco da frescura do Tejo.

E hoje?

À "baixa" já não vale a pena ir porque as montras, além de terem optado pelas luzes apagadas, estão fortemente entaipadas por grades e portas de ferro. Um passeio à "Avenida" está fora de questão para quem se esquiva às eventuais cenas canalhas em que a noite se tornou fértil. Ao Parque Eduardo VII, antes, um lugar de usufruto das famílias lisboetas, já nem é bom falar. E quem se atreve a subir ao Monsanto (até de dia...) para usufruir de um pouco de ar não poluído, ou à Torre de Belém?

Realmente, as coisas mudaram muito desde há uns anos atrás.

E como sou dos que acreditam que nada acontece por acaso, quedo-me a pensar o que terá feito mudar o dia-a-dia dos portugueses…

Antigamente, as acusações ao regime de ditadura que então se vivia eram mais que muitas e, francamente, não era caso para menos. Não havia liberdade de cidadania, as polícias actuavam arbitrariamente, a censura quartava a criatividade dos intelectuais. Era um regime totalitário, com tudo o que de mau o poder absoluto sanciona. Curiosamente, porém, podíamos sair à rua, de dia ou de noite, sem receio que alguma coisa de grave nos acontecesse. Reportando-nos aos idos de 50 ou 60, que diferença fazia descer ao Casal Ventoso, percorrer as ruas de Alfama, subir ao Bairro Alto?

E hoje?

Hoje há liberdade, a polícia é publicamente criticada, a censura foi extinta. A tal ponto que é já possível organizar noites da má língua*, enquanto se tornou corrente a manipulação obscena da opinião pública nos meios de comunicação. A liberdade é tanta que, quando os jornais se excedem, os ofendidos desafrontam-se à bofetada em vez de recorrerem aos tribunais, como é de uso nos países tidos como civilizados.

Por falar nos meios de comunicação... quando se procura encontrar a alavanca que virou a sociedade portuguesa, há quem se detenha a pensar que à televisão cabe uma grossa fatia de responsabilidade no clima de violência em que hoje se vive neste jardim que antes era conhecido pela brandura dos seus costumes e do seu povo. Na verdade, talvez por simples coincidência, a mudança verificou-se exactamente a partir do advento das televisões privadas. Daí a interrogação muitas vezes feita se a luta pela conquista dos favores da audiência não redundou num crescendo de cenas de violência, de sexo mais ou menos explícito, da consagração dos valores da corrupção, tornando heróis os que se conseguem elevar aos lugares cimeiros sem olhar aos meios utilizados, num vale-tudo que deixa estarrecidos os mais temeratos.

As famigeradas telenovelas, adiantam muitos, funcionam como o principal elemento instigador da depravação dos costumes e da desagregação familiar. Assegura, quem assim pensa, que o apelo aos instintos primários dos cidadãos, evidente nessas cruas cenas de libertinagem moral, à força de ser repetido acaba forçosamente por criar raízes. Realmente, como será formado o carácter das crianças a quem é mostrado repetidamente que as divergências entre adultos são resolvidas não pelo diálogo mas a tiros de pistola ou com socos no nariz? O que se espera do comportamento futuro dos adolescentes ao mostrar-se que a celebração do casamento passou a incluir a data previsível da inevitável futura separação, e que as desavenças dos casais são dirimidas, "muito naturalmente", com o adultério? O que se espera que a sociedade responda quando as telenovelas exaltam reiteradamente as vantagens da pulhice, da deslealdade, da velhacaria?

É preciso ser de ferro para resistir a estes apelos, e o ser humano é feito de carne, de sangue e de vísceras...

Cabe então a pergunta: e vamos suportar isto até quando? Vai ser necessária a aniquilação total deste mundo, tal como o conhecemos, para se começar tudo de novo, desde o princípio? 
 
Não é isso o que se pretende, obviamente. Por isso os brados de alerta que lanço de vez em quando. Daí a repugnância que ressuma do que aqui escrevo. Mas francamente, não consigo ficar indiferente enquanto vejo o mundo desmoronar-se à minha volta. Sonho com um mundo tolerante mas feliz. Com um mundo feito de amor, onde não caiba a maldade premeditada.

Ver o mundo ruir enquanto as gentes aloucadas batem palmas, é mais do que em silêncio eu posso suportar.


*Programa da SIC emitido em meados dos anos 90

24 de outubro de 2011

O meio caminho da vida

Luís Farinha

É da vida, meus amigos... Os anos vão passando, e nesse rodar incessante do tempo é inevitável que um dia paremos para ponderar essa verdade assustadora que até aí ainda nos não ocorrera

Inevitável, é como quem diz, porque entretidos que sempre andamos, a exaurir sofregamente as benesses desta nossa sociedade de faz-de-conta, digam lá com franqueza que motivos encontramos para reflectir, nem que seja por breves instantes, sobre os amanhãs que hão-de vir. Só quando o cansaço nos vence com as desilusões sofridas, ou quando a idade já nos não deixa continuar a correr atrás de coisa nenhuma neste frenesim inútil em que esgotamos as horas de todos os dias, é que encontramos tempo ou razões para repararmos, imaginem, no que de resto é elementar: só então nos damos conta de que a estrada que a vista alcança, à nossa frente, é mais curta - inexoravelmente mais curta - da que já deixámos para trás.
Acreditem que é então (como me sucedeu a mim...) que começamos a olhar para o caminho andado. Uma mirada que nos traz cenas duma vida que já foi, revisitando lugares a que possivelmente não voltaremos nunca mais, rostos que a pouco e pouco se foram diluindo nos recessos do tempo, emoções que jamais se repetirão.
Umas vezes, as lembranças devolvem-nos vislumbres de cores, cheiros, sabores e contactos que ainda nos trazem vislumbres de episódios felizes. É quando regressamos por instantes às boas amizades que nos aconteceram, aos relacionamentos fugazes mas intensos, aos amores que aceleraram o ritmo do coração.
Mas há também recordações que nos trazem de volta situações menos felizes; algumas, penosas até. Rostos que nos arrependemos de ter conhecido. Pessoas com almas espantosamente feias, mas que o destino teimou em nos colocar no caminho.
Este retorno ao passado, viagem que fatalmente acaba por acontecer-nos com insistente frequência a partir de certa altura, é assim como um balanço que fazemos da muita vida apressadamente vivida e que subtilmente nos vem recordar que parte dessa nossa existência vivida a correr, é construída de memórias. É como se quiséssemos reter à força: casos, coisas, rostos e lugares que constituem, afinal, a história da nossa vida e que um dia, um pouco mais adiante, se apagarão para sempre, como uma luz que se extingue definitivamente.
Forma geral, pela vida de todos nós, da minha, da vossa, meus amigos, de todos os que já atingiram a maturidade, passaram algumas coisas bonitas, raros momentos felizes... Como num ecrã imaginário, vemos passar situações que muitas vezes sentimos pena de não poder repetir; vemos pessoas que amámos e amigos que estimámos sinceramente... alguns que já não fazem parte deste mundo, mas que – assim espero - reecontraremos quando também nós partirmos para o outro lado da vida.
No entanto, há recordações que, se pudéssemos, de bom grado suprimia-mos da memória. Há rostos que melhor seria não termos conhecido. Gente sórdida colocada no nosso caminho como a lembrar-nos que o mundo não é perfeito. Autores de acções e atitudes que a moral condena e que servem apenas para medir melhor o lado bom da vida. Esses, em franca minoria, serão para sempre o contraponto duma existência fugazmente feliz... a vossa e talvez a minha!
A pouco e pouco, no rodar incessante da vida, cumprida a nossa parte, outros tomarão o nosso lugar... até que, por sua vez, sejam substituídos pelos que hão-de vir.
É então que ocorre essa verdade inquestionável: nada somos e nada representamos no revezar constante da existência. Antes de nós, milhões de milhões de seres humanos já cumpriram destinos. Depois de nós, outros milhões de milhões virão para cumprir os seus. E no meio disto tudo, francamente, quem somos nós? Bem vistas as coisas, qual terá sido, na vida que foi a nossa, a importância que julgamos ter ou tivemos?
Não... alto aí! Assim, não! Creiam que não vale a pena terem ficado tão chocados assim com as respostas que lhes ocorreram agora... Até que nasçam outras gerações que nos consigam provar que o que acabo de dizer não passa duma exorbitância, insisto em afirmar que a importância que julgamos ter é sobretudo aquela que nos atribuímos por razões que aos outros escapam. Exceptuando um ou outro caso singular em que por inteligência excepcional somos ou fomos realmente úteis ao colectivo, tudo o que sobra é vaidade pessoal e um enorme apetite de protagonismo parolo.
Parolo, mas, convenhamos, às vezes bem rendoso...