10 de novembro de 2011

Pedaço do passado longínquo…

Luís Farinha


Talvez fosse a penumbra da sala que a deixou intimidada. O seu olhar, inquieto, hesitante, buscava um lugar para se sentar. A verdade é que qualquer coisa me trouxe, desde logo, a nítida impressão de que não era frequentadora habitual daquele meio. ‘Está a acontecer um vendaval naquela cabeça…’, pensei. E desviei a atenção, alheando-me aparentemente da sua presença para não a perturbar ainda mais.

Foi em meados da década de 50, do século passado que o episódio teve lugar. Naquela época o Maxime era um dos cabarés mais bem frequentados da vida nocturna de Lisboa. Duas boas orquestras, que se revezavam a cada 30 minutos, atracções estrangeiras de qualidade, boa frequência. A par do Arcádia, nas Portas de Santo Antão, o cabaré da Praça da Alegria distinguia-se pelo ambiente que oferecia. Quem cruzava a porta de entrada logo recolhia a sensação de que aquele era um sítio que convidava a ficar. Inclusive, as jovens frequentadoras eram naturalmente discretas e só abordavam uma mesa ocupada quando para isso eram convidadas.
Quem conheceu aquele espaço nos anos 50 e 60 dificilmente escapa, no presente, à nostalgia desses bons velhos tempos.

Quando voltei a rodar os olhos pela sala estava ela sentada a uma mesa não longe da minha, sozinha. Passado algum tempo levantei-me e, aproximando-me da jovem mulher, convidei-a a tomar comigo uma bebida. Hesitou durante um breve instante, mas acabou por me acompanhar, agradecendo o convite, embora aparentemente acanhada.

A conversa, retraída ao princípio, tornou-se mais solta logo depois e estendeu-se por largo tempo. Fiquei a saber que era a terceira vez que ali ia. Dias antes, contou, tinha sido levada por uma amiga que, como ela, vivia num quarto da mesma casa onde alugara o seu, ali perto, na Rua de Santa Marta, em frente do hospital com o mesmo nome. Nunca frequentara aquele meio, mas razões familiares, acrescentou, tinham-na levado a afastar-se para viver sozinha. Entretanto, passara já um mês desde que dera aquele passo e as fracas economias esgotavam-se rapidamente. Sem conseguir arranjar emprego, entrou em desnorteio por não atinar que volta dar à vida. Confusa, acabou por dar crédito à sugestão da sua vizinha de quarto. Também ela, disse-lhe, passara por idêntica situação até que decidira experimentar a vida nocturna. E dera-se bem, muito bem mesmo, segundo lhe dizia…

Histórias parecidas com a sua já eu ouvira antes. Algumas mais difíceis de levar a sério. Como as daquelas jovens que explicavam a sua presença naqueles lugares com o simples intuito de se ‘distraírem ouvindo um pouco de música ao vivo e darem um pezinho de dança’.

- “Acedi a experimentar mas confesso que me sinto deslocada, com vontade de não continuar”, confessou. Em seguida fez uma pergunta que me deixou sem jeito: - “Acha que isto é vida para alguém?”
Fiquei sem saber o que responder. Intimamente recusava tal fardo. Depois dum breve silêncio lá consegui titubear: - “Quem sou eu para lhe dar opinião sobre essa matéria?” Mas em seguida avancei um pouco mais: - “A sua vida deve ser, para si, importante demais para me permitir dar palpites acerca do que deve ou não fazer dela”. No entanto não consegui impedir-me de acrescentar: “Para já apenas lhe posso recomendar que tome muito cuidado com o caminho que lhe foi sugerido pela tal amiga. Reflicta, minha amiga, reflicta e tenha em conta que tem toda uma vida para viver e o que decidir agora vai condicionar o futuro que tem diante de si”.

Revelou que trabalhara no escritório duma fábrica de malhas durante os dois últimos anos; que saíra por causa do seu envolvimento com um colega que, soubera tarde demais, já era casado e com uma filha e que, por isso, tomara a decisão de ficar longe dele a partir daí. Despedira-se do emprego e, quando a família soube do sucedido, em pormenor, o pai arrumara o assunto à boa maneira desses tempos: deu-lhe ordem de saída lá de casa com o argumento de que ‘não queria que as outras duas filhas viessem a ser contagiadas pela leviana da irmã’.

Os seus olhos vidrados de lágrimas mostravam que toda a conversa havida até aí, em vez de a ajudar, tinha reaberto o caudal das suas aflições.
Acabou por me confessar que na véspera saíra dali com um senhor amável, já não muito novo, que a convidara a acompanhá-lo.
- “E então?”, perguntei.
- “Chorei o resto da noite. Não imagina a vergonha que tive de mim…”
- “Imagino, sim”, respondi. E continuei: “Se eu fosse você sabe o que fazia agora? Corria direitinha para casa, para o seu quarto, ia reflectir sobre a situação presente e como será a sua vida quando acabar por perder a vergonha que sentiu ontem à noite. Quando isso acontecer – se acontecer – acredite que já vai ser tarde demais para encontrar outro caminho”.

A seguir fez-se silêncio…

De olhos baixos, a jovem meditava certamente no que se passara naquela hora e meia sentada à minha frente, enquanto limpava os olhos ainda húmidos.
Acabei por quebrar o silêncio que estava a tornar-se incómodo, para lhe anunciar que me ia retirar.
- “Também saio”, respondeu.
- “Quer que a leve a casa?”.
- “Se me fizer esse favor, agradeço”.
Chamei o empregado, paguei a conta e em seguida saímos.
Já à porta da casa onde vivia, ali perto, ocorreu-me perguntar-lhe o número do telefone, prometendo que lhe ligaria daí a dias.
Agradeceu-me a companhia que lhe fiz, as palavras que lhe disse e rematou com um beijo na face.

Afastei-me, conduzindo devagar, enquanto rememorava a longa conversa da qual fiz aqui um pequeno resumo que, pela sua importância, me ficou gravado na memória, apesar dos quase 60 anos passados sobre o episódio.
Mal supunha então as muitas voltas que aquele conhecimento, igual ou parecido com muitos outros ocorridos comigo na mesma época, acabaria por me trazer.

Abreviando…

Quis o acaso – e o acaso tem nestas coisas uma importância inusitada – que dois dias depois, sentado na cadeira do barbeiro onde habitualmente cortava o cabelo, na Baixa de Lisboa, notasse a ausência da manicura que eu já conhecia de há anos, ali, sempre pronta a tratar das unhas dos clientes que a tal cuidado se davam. Soube então que se tinha mudado de armas e bagagem para um salão de cabeleireiro famoso, ali bem perto, nos Restauradores.

De imediato senti num canto do meu cérebro uma luzinha a brilhar…
- “E substituta?”, quis saber.
- “Estamos a tentar encontrar uma pessoa adequada”, informou o dono da loja; e aproveitando o balanço: “Não me diga que conhece alguém!”
- “Por acaso até conheço. É apresentável, boa moça e anda à procura de emprego”.
- “Mande-a cá falar comigo, sem compromisso, claro…”

Três anos depois, quando me afastei para seguir um outro percurso, ainda ela continuava na mesma barbearia na Baixa de Lisboa, lugar que por razões óbvias, deixei de frequentar. Foi um período que deixou marcas indeléveis, de difícil cicatrização. Muitas coisas aconteceram quando deixámos que a amizade inicial se transformasse numa relação mais íntima. Às vezes torna-se difícil acautelar as consequências dum passo descuidado. Foi o que nos aconteceu. Daí o afastamento dorido que marcou a separação.

Vinte anos passados estava eu à conversa com um amigo meu, na sua loja, em Alvalade. Sempre que por ali passava o encontro tornava-se obrigatório nem que fosse para saber de outros antigos companheiros de brincadeira que connosco tinham crescido no bairro tradicional onde nascêramos.
Foi quando, da porta, na rua, alguém me chamou pelo nome próprio. Virei-me para saber quem me chamava e reconhecia-a depois duma ligeira hesitação. Era ela, tinha agora a certeza. Os mesmos traços, a mesma silhueta, 20 anos mais velha… Pedi licença ao meu amigo, fui até à porta e cumprimentei-a. No passeio ficámos a olhar um para o outro, numa muda apreciação dos estragos que o tempo nos tinha causado. Acabámos por ir a um café próximo, sentámo-nos e cada um desfilou as etapas percorridas desde aquele dia, há uma vintena de anos.   
Ela encontrara um novo companheiro, um bom homem, com quem acabara por casar. Nasceram-lhes três filhos. Era feliz e tinha uma vida desafogada economicamente. Morava ali perto e viera às compras; vira-me entrar na loja e pensou reconhecer-me. Hesitou, mas acabara por não resistir.

Segura de si, o seu porte mudara radicalmente. Espontânea, palavra solta, dava a impressão que a vida deixara de lhe ser madrasta. “Lembras-te do nosso primeiro encontro?”.

Lembrava-me. E quando daí a pouco nos despedimos, acreditem: sentia-me feliz!

Foi a última vez que a vi. Desde então passaram mais quarenta anos.

É verdade, lembrei-me agora… se ela ainda andar por este mundo, já passou os oitenta anos de vida.

Como o tempo corre tão depressa, meu Deus…

31 de outubro de 2011

Enquanto isso...

Luís Farinha


Sei que um dia me vão dar razão... Quando; depois de quê, só o futuro dirá! Para já, apenas me limito a ir despertando a atenção das pessoas mais responsáveis, para o que se está a passar em termos de violência na sociedade portuguesa.

Recordo ainda o tempo em que nas grandes cidades, como Lisboa e Porto, se saía à noite, depois do jantar, para ir à "baixa" ver as montras, para passear na Avenida da Liberdade, para subir ao Monsanto e, lá do alto, ver a cidade iluminada, ou para ir até à Torre de Belém, apanhar um pouco da frescura do Tejo.

E hoje?

À "baixa" já não vale a pena ir porque as montras, além de terem optado pelas luzes apagadas, estão fortemente entaipadas por grades e portas de ferro. Um passeio à "Avenida" está fora de questão para quem se esquiva às eventuais cenas canalhas em que a noite se tornou fértil. Ao Parque Eduardo VII, antes, um lugar de usufruto das famílias lisboetas, já nem é bom falar. E quem se atreve a subir ao Monsanto (até de dia...) para usufruir de um pouco de ar não poluído, ou à Torre de Belém?

Realmente, as coisas mudaram muito desde há uns anos atrás.

E como sou dos que acreditam que nada acontece por acaso, quedo-me a pensar o que terá feito mudar o dia-a-dia dos portugueses…

Antigamente, as acusações ao regime de ditadura que então se vivia eram mais que muitas e, francamente, não era caso para menos. Não havia liberdade de cidadania, as polícias actuavam arbitrariamente, a censura quartava a criatividade dos intelectuais. Era um regime totalitário, com tudo o que de mau o poder absoluto sanciona. Curiosamente, porém, podíamos sair à rua, de dia ou de noite, sem receio que alguma coisa de grave nos acontecesse. Reportando-nos aos idos de 50 ou 60, que diferença fazia descer ao Casal Ventoso, percorrer as ruas de Alfama, subir ao Bairro Alto?

E hoje?

Hoje há liberdade, a polícia é publicamente criticada, a censura foi extinta. A tal ponto que é já possível organizar noites da má língua*, enquanto se tornou corrente a manipulação obscena da opinião pública nos meios de comunicação. A liberdade é tanta que, quando os jornais se excedem, os ofendidos desafrontam-se à bofetada em vez de recorrerem aos tribunais, como é de uso nos países tidos como civilizados.

Por falar nos meios de comunicação... quando se procura encontrar a alavanca que virou a sociedade portuguesa, há quem se detenha a pensar que à televisão cabe uma grossa fatia de responsabilidade no clima de violência em que hoje se vive neste jardim que antes era conhecido pela brandura dos seus costumes e do seu povo. Na verdade, talvez por simples coincidência, a mudança verificou-se exactamente a partir do advento das televisões privadas. Daí a interrogação muitas vezes feita se a luta pela conquista dos favores da audiência não redundou num crescendo de cenas de violência, de sexo mais ou menos explícito, da consagração dos valores da corrupção, tornando heróis os que se conseguem elevar aos lugares cimeiros sem olhar aos meios utilizados, num vale-tudo que deixa estarrecidos os mais temeratos.

As famigeradas telenovelas, adiantam muitos, funcionam como o principal elemento instigador da depravação dos costumes e da desagregação familiar. Assegura, quem assim pensa, que o apelo aos instintos primários dos cidadãos, evidente nessas cruas cenas de libertinagem moral, à força de ser repetido acaba forçosamente por criar raízes. Realmente, como será formado o carácter das crianças a quem é mostrado repetidamente que as divergências entre adultos são resolvidas não pelo diálogo mas a tiros de pistola ou com socos no nariz? O que se espera do comportamento futuro dos adolescentes ao mostrar-se que a celebração do casamento passou a incluir a data previsível da inevitável futura separação, e que as desavenças dos casais são dirimidas, "muito naturalmente", com o adultério? O que se espera que a sociedade responda quando as telenovelas exaltam reiteradamente as vantagens da pulhice, da deslealdade, da velhacaria?

É preciso ser de ferro para resistir a estes apelos, e o ser humano é feito de carne, de sangue e de vísceras...

Cabe então a pergunta: e vamos suportar isto até quando? Vai ser necessária a aniquilação total deste mundo, tal como o conhecemos, para se começar tudo de novo, desde o princípio? 
 
Não é isso o que se pretende, obviamente. Por isso os brados de alerta que lanço de vez em quando. Daí a repugnância que ressuma do que aqui escrevo. Mas francamente, não consigo ficar indiferente enquanto vejo o mundo desmoronar-se à minha volta. Sonho com um mundo tolerante mas feliz. Com um mundo feito de amor, onde não caiba a maldade premeditada.

Ver o mundo ruir enquanto as gentes aloucadas batem palmas, é mais do que em silêncio eu posso suportar.


*Programa da SIC emitido em meados dos anos 90

24 de outubro de 2011

O meio caminho da vida

Luís Farinha

É da vida, meus amigos... Os anos vão passando, e nesse rodar incessante do tempo é inevitável que um dia paremos para ponderar essa verdade assustadora que até aí ainda nos não ocorrera

Inevitável, é como quem diz, porque entretidos que sempre andamos, a exaurir sofregamente as benesses desta nossa sociedade de faz-de-conta, digam lá com franqueza que motivos encontramos para reflectir, nem que seja por breves instantes, sobre os amanhãs que hão-de vir. Só quando o cansaço nos vence com as desilusões sofridas, ou quando a idade já nos não deixa continuar a correr atrás de coisa nenhuma neste frenesim inútil em que esgotamos as horas de todos os dias, é que encontramos tempo ou razões para repararmos, imaginem, no que de resto é elementar: só então nos damos conta de que a estrada que a vista alcança, à nossa frente, é mais curta - inexoravelmente mais curta - da que já deixámos para trás.
Acreditem que é então (como me sucedeu a mim...) que começamos a olhar para o caminho andado. Uma mirada que nos traz cenas duma vida que já foi, revisitando lugares a que possivelmente não voltaremos nunca mais, rostos que a pouco e pouco se foram diluindo nos recessos do tempo, emoções que jamais se repetirão.
Umas vezes, as lembranças devolvem-nos vislumbres de cores, cheiros, sabores e contactos que ainda nos trazem vislumbres de episódios felizes. É quando regressamos por instantes às boas amizades que nos aconteceram, aos relacionamentos fugazes mas intensos, aos amores que aceleraram o ritmo do coração.
Mas há também recordações que nos trazem de volta situações menos felizes; algumas, penosas até. Rostos que nos arrependemos de ter conhecido. Pessoas com almas espantosamente feias, mas que o destino teimou em nos colocar no caminho.
Este retorno ao passado, viagem que fatalmente acaba por acontecer-nos com insistente frequência a partir de certa altura, é assim como um balanço que fazemos da muita vida apressadamente vivida e que subtilmente nos vem recordar que parte dessa nossa existência vivida a correr, é construída de memórias. É como se quiséssemos reter à força: casos, coisas, rostos e lugares que constituem, afinal, a história da nossa vida e que um dia, um pouco mais adiante, se apagarão para sempre, como uma luz que se extingue definitivamente.
Forma geral, pela vida de todos nós, da minha, da vossa, meus amigos, de todos os que já atingiram a maturidade, passaram algumas coisas bonitas, raros momentos felizes... Como num ecrã imaginário, vemos passar situações que muitas vezes sentimos pena de não poder repetir; vemos pessoas que amámos e amigos que estimámos sinceramente... alguns que já não fazem parte deste mundo, mas que – assim espero - reecontraremos quando também nós partirmos para o outro lado da vida.
No entanto, há recordações que, se pudéssemos, de bom grado suprimia-mos da memória. Há rostos que melhor seria não termos conhecido. Gente sórdida colocada no nosso caminho como a lembrar-nos que o mundo não é perfeito. Autores de acções e atitudes que a moral condena e que servem apenas para medir melhor o lado bom da vida. Esses, em franca minoria, serão para sempre o contraponto duma existência fugazmente feliz... a vossa e talvez a minha!
A pouco e pouco, no rodar incessante da vida, cumprida a nossa parte, outros tomarão o nosso lugar... até que, por sua vez, sejam substituídos pelos que hão-de vir.
É então que ocorre essa verdade inquestionável: nada somos e nada representamos no revezar constante da existência. Antes de nós, milhões de milhões de seres humanos já cumpriram destinos. Depois de nós, outros milhões de milhões virão para cumprir os seus. E no meio disto tudo, francamente, quem somos nós? Bem vistas as coisas, qual terá sido, na vida que foi a nossa, a importância que julgamos ter ou tivemos?
Não... alto aí! Assim, não! Creiam que não vale a pena terem ficado tão chocados assim com as respostas que lhes ocorreram agora... Até que nasçam outras gerações que nos consigam provar que o que acabo de dizer não passa duma exorbitância, insisto em afirmar que a importância que julgamos ter é sobretudo aquela que nos atribuímos por razões que aos outros escapam. Exceptuando um ou outro caso singular em que por inteligência excepcional somos ou fomos realmente úteis ao colectivo, tudo o que sobra é vaidade pessoal e um enorme apetite de protagonismo parolo.
Parolo, mas, convenhamos, às vezes bem rendoso...

27 de setembro de 2011

Mudar de vida

Luís Farinha

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas..."
(Guerra Junqueiro, escrito em 1886)

Longe vão os tempos em que os portugueses usavam uma expressão, contundente quanto podia ser atendendo à acção pertinaz do aparelho repressivo do estado, quando pretendiam pôr em cheque a interioridade salazarista que marginalizava o país no contexto duma Europa virada para o futuro: "Portugal é um país adiado", dizia-se, então.

Agora, passadas que estão mis de três décadas sobre a revolução dos cravos, há muitos que se interrogam: “de país adiado, Portugal não terá já passado ao estatuto de país sem futuro"? Na verdade, o que terá mudado de fundamental na vida dos portugueses, em consequência do 25 de Abril?
Mudado para melhor, bem entendido...

Paremos para pensar…

Numa espécie de viagem rápida ao passado, há quem se lembre ainda dos jovens que estudavam (e mesmo dos que não queriam saber dos estudos para nada) que sempre encontravam algo para fazer: um trabalho em qualquer parte, um emprego ou um ofício sempre à espera. E hoje? Que futuro espera os jovens que, completamente desmotivados, gastam o tempo e o dinheiro (que os pais não têm) a frequentar cursos superiores, raramente os da sua vocação, cujos certificados de habilitações não têm, depois, onde os utilizar? Será que, como nesses tempos, aos jovens de hoje só lhes restará continuar a saga da emigração? É nesse sentido que parecem apontar a situação actual e a debandada que já começou.

Mas não é só nesta área que não se vislumbra a esperada (e mil vezes prometida) melhoria de vida dos portugueses.

Por exemplo: que Saúde pública tínhamos no tempo da "outra senhora", e que Saúde temos agora? Acaso a diferença para melhor dá mesmo para se notar? Olhando à volta, francamente parece que não!

E quanto à Segurança Social? Para o que davam, nesses tempos, as reformas dos “empregados do Estado” depois de uma vida de trabalho? Para nada, diziam os idosos desses tempos. E agora? As reformas de velhice chegam para alguma coisa? Por exemplo, dão para que um idoso médio, que trabalhou uma vida inteira, encare o último quartel da sua existência sem uma profunda apreensão?

E a justiça, como era, como vai? Não vai, ponto final.

Antigamente dizia-se: “a política é para os políticos”. Era essa a expressão usada pelos que se acoitavam à sombra do antigo regime. Era um conselho muito usado pelos lados da António Maria Cardoso, quando alguém se aventurava a ter opinião própria. Hoje, porém, continua actual o conceito mais que provado que o que está a dar é ser ex-ministro de qualquer coisa. E os seguidores deste princípio são mais que muitos, como toda a gente vê.

Conclui-se daqui que Portugal pode não ser já "um país adiado", porque, pensarão muitos, passou a ser um "país sem futuro".

Hoje já ninguém tem dúvidas: esta tem sido uma terra abençoada para os espertalhões, para os corruptos e para os que se estão nas tintas para aquilo que noutros tempos era tradição dos portugueses... a vergonha. Tome-se como ilustrativa a multiplicação de escândalos ocorridos nos últimos anos.

Se alguma dúvida restar passemos os olhos pela comunicação social.

Porém, o que já toca as raias do inacreditável é que, sendo a corrupção e os crimes de ‘colarinho branco’ dois dos males maiores deste país, parece que os portugueses estão dispostos a aceitar este estado de coisas como um destino inevitável, como uma condenação atávica da raça lusa.

Há um aforismo popular que diz... "O que não tem remédio... remediado está!" Pois é. É dessa massa que os portugueses são feitos, e os espertalhões sabem isso muito bem. É com a nossa vocação para o ‘deixa andar’ que eles contam. Por isso estão à vontade!

21 de setembro de 2011

Cansado do mundo…

Luís Farinha


Estou cansado, meus amigos... confesso que estou cansado!

Creio que cheguei àquela etapa da vida em que, alguns de nós, nos quais me incluo, começam a sentir acentuada dificuldade em assistir diariamente à decomposição da sociedade, perante a indiferença geral.

Olho à volta e fico com a impressão que o mundo está a desabar. Todos os dias os noticiários da imprensa, da televisão e da rádio me trazem ecos da loucura que vai por aí. Deslumbrados pela materialidade, pela ambição, pela cegueira do poder ou dementados pela excessiva licenciosidade em uso, os homens já nem sequer tentam entender-se pelo diálogo ou comportar-se de acordo com a racionalidade que de si é esperada. As palavras já perderam sentido e, face a qualquer diferença, o único argumento a que se recorre é o da violência física verbal ou de atitude. Por outro lado, o espelho para onde olham todas as manhãs na ânsia de parecerem o que não são, de embaciado que está já não consegue reflectir quaisquer traços de seres cordatos e bem intencionados.

A violência tomou conta das ruas. E estas, por inferência, tornaram-se uma selva onde não faltam, sequer, as feras mais ferozes. 

Os jovens perderam a inocência e, baseados talvez no que vêem retratado nos meios de comunicação (leia-se: televisão), vão ganhando a convicção de que tudo se resolve com um tiro na testa ou um soco no nariz. Será por isso que de vez em quando os jornais nos dão conta de mais um caso inconcebível de um jovem que, na escola, pega numa arma e sem qualquer motivo começa a disparar.

Ultimamente, os homens supostamente de qualidade a quem entregamos o poder de nos representar, já descem à palavra soez, própria dos carroceiros de antanho, isto sem se darem conta de que não são os donos da sociedade que os abriga. Assisto, diariamente, à rábula do político seguro das suas certezas que impante de importância e solto nas palavras critica os seus adversários roçando o desvario. Podem argumentar até que tal atitude é ditada pelo calor da refrega, mas cedo me ensinaram que é nos pequenos nadas do dia-a-dia que se reconhecem os grandes homens.

Antigamente, uma das qualidades que distinguia o indivíduo de respeito, era o sentido da honra. Da palavra e da atitude pública. Era o tempo em que um aperto de mão selava um compromisso. Era quando a palavra dada valia por uma assinatura autenticada. Hoje, nem com mil assinaturas o homem honra o compromisso tomado. O mesmo ocorre com a sua postura pública. E o que é pior, é que é a estes novos homens que se oferece a cadeira do poder, e a quem depois, por vezes, se aclama a sua vulgaridade.

Antigamente, havia as casas de passe, onde as mulheres vendiam os seus favores. Hoje, perdido o respeito pelas reservas morais que alguns ainda resguardam por razões religiosas ou de pudor pessoal, o sexo é posto à venda nas páginas dos jornais. Que interessa o efeito que causam no núcleo da família? Quem está preocupado com isso? O importante é vender mais papel, nem que seja à custa da agressão aos princípios morais dos cidadãos mais reservados.

Estou cansado, meus amigos. Acreditem que sim. Estou extremamente cansado da loucura colectiva que faz do mundo a coisa feia em que o tornaram, neste sítio não recomendável em que nos é dado viver.

É por isso que às vezes chego a indignar-me, mal escondendo o azedume que me vai na alma.
            
Como hoje… aqui.

16 de setembro de 2011

Ser importante, hoje

Luís Farinha



O protagonismo está na moda.
Ser importante aos olhos dos outros é hoje a preocupação maior de qualquer indivíduo, independentemente da sua real valia ou do lugar que ocupa na esfera em que se move. Mostrar influência satisfaz mais do que sentir-se amado.

Este é o homem (e a mulher) actual: pimpão, intolerante, superior. O novo homem que a sociedade inventou, os valores que hoje se consagram são a presunção, a vacuidade, a ostentação.

Um homem importante na aparência, mas por dentro árido e seco como uma seara em Agosto.

A fome de importância chega a ser demencial. Para a satisfazer, renuncia-se a tudo o que dantes era fundamental para a afirmação fosse de quem fosse. Era assim quando a estatura do homem se avaliava pela sua verticalidade. Ser recto no julgamento, confiável no carácter e honesto em todas as situações eram, então, os dons maiores que distinguiam o seres verdadeiramente superiores. Ter a honra de ser honrado e cultivar a dignidade em todas as situações, constituía o património maior que um Homem podia legar aos vindouros.

Mas tudo isso está ultrapassado...

Hoje avalia-se o homem (e a mulher) por aquilo que parece e não pelo que realmente é. A imagem de marca é um culto que passou a fazer parte da cosmética social. Invertidos os valores em que antes a sociedade se escorava, assiste-se actualmente à  promoção da aparência, à exaltação do faz-de-conta.

Para serem aceites pela opinião pública as figuras e os figurões que por ai pululam contratam quem lhes cuide do aspecto exterior, mesmo que depois, no dia-a-dia, as suas acções desmintam a imagem que procuram fazer passar. O estilo trauliteiro substitui a seriedade, mais difícil de sustentar. A  falta de inteligência é mascarada com uma postura arrogante, mais fácil de exibir. A fidelidade à palavra dada vai deixando de ter sentido. Aliás, é inegável que, duma forma geral, vai-se impondo o conceito de que tudo tem um preço, até o respeito próprio. A justiça passou a ser apenas uma força de expressão vazia de sentido. A palavra, com o uso imponderado, está a transformar-se numa pedra de arremesso.

Enfim, paulatina mas seguramente, a sociedade tal como os antigos a conheceram, vai caindo em desuso.

E a seguir, o que virá?

3 de setembro de 2011

Portugal, hoje

Luís Farinha

Portugal atravessa um período marcado por uma conjuntura particularmente difícil a nível económico, financeiro e social. Contudo, ao contrário do que alguns sustentam, esta situação não é consequência exclusiva da crise internacional precipitada pelo crime financeiro do senhor Bernard Madoff e da falência do banco de investimentos Lehman Brothers, nos EUA. A situação periclitante a que Portugal chegou é, antes do mais, o resultado inevitável duma sucessão de medidas governativas imprudentes postas em prática pelos vários governos que têm passado pelas cadeiras do poder desde alguns anos, aliada à impudicícia que tem norteado os cultores da alta-roda endinheirada.

Haja em conta o desaparecimento progressivo da classe média, o aumento imparável da pobreza crescente que avassala a população e as dificuldades financeiras que o Estado tem vindo a registar, ao longo das últimas décadas, resultantes das políticas de compromisso viradas para o clientelismo directo e indirecto.

Provando a teoria de que o que está a dar é ser ex-ministro ou ex-secretário disto ou daquilo há os que, enquanto no desempenho de cargos políticos, preparam para si os caminhos da fortuna, sabe-se lá a troco de quê. A verdade é que, ao mesmo tempo que o país definha, são cada vez mais numerosos os ordenados e reformas principescas auferidas por uma numerosa coluna de sujeitos colocados estrategicamente em lugares privilegiados.

Em contraste com o salário mínimo nacional e a reforma miserável atribuída à maioria dos portugueses esses proventos milionários chegam a ser atentatórios da dignidade social duma nação europeia do século XXI. Cinco, dez, quinze, vinte mil euros de reformas ou salários mensais são pagos a indivíduos que, ao mesmo tempo, vão buscar outras pensões de vultoso valor por cargos anteriormente desempenhados, alguns transitoriamente.

É por isso que num período em que Portugal esbraceja num mar de incertezas, em risco iminente de soçobrar, o enriquecimento desbragado funciona à rédea solta, como se – de um dia para o outro – tivesse sido estabelecido pelos seus cultores o “aproveitar enquanto é tempo”.

Só assim, de resto, se poderá entender a notícia veiculada pelo jornal Correio da Manhã do dia 18 de Agosto segundo a qual “Nos primeiros cinco meses do ano voaram cerca de nove milhões de euros para paraísos fiscais. Medo da troika acelerou fuga de capital para fora”.

No dizer de um amigo meu, cultor da gíria popular: ‘nove milhões de euros é muiiiito papel’!

Como é do conhecimento geral, ao referir os paraísos fiscais estamos a falar de instituições financeiras inacessíveis, localizadas nas Ilhas Virgens Britânicas e Caimão, nas Antilhas Holandesas, Bermudas e Guernsey entre muitas outras igualmente usadas para guardar e branquear as fortunas provenientes da fuga aos impostos e de outras manigâncias conducentes ao enriquecimento ilícito.

No mês de Março passado, quando o governo ultimou o pedido de ajuda financeira ao exterior, instalou-se entre os figurões cá do burgo o pânico de que os milhões, ganhos ‘com o suor dos seus rostos’, poderiam acabar por ser levados pelas medidas de austeridade. Assim, para ficarem a coberto dessa eventualidade tão pouco atraente trataram de colocar a salvo, nos paraísos fiscais, só nesse mês, a bonita soma de 440 milhões. Afinal, tratou-se dum pânico infundado, como ficou provado pelas palavras do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, em entrevista ao diário espanhol El Pais quando afirmou que recusava a aplicação de medidas fiscais muito duras aos detentores de riqueza, considerando que essas medidas podiam levar à fuga de capitais.

“De Janeiro a Maio Portugal já viu fugir para paraísos fiscais mais de 1,3 mil milhões de euros. É uma média de 9 milhões de euros de capitais por dia que saem do País para offshores, fugindo assim ao Fisco”, referia o CM. Mais não fora, esta é prova irrefutável de que enquanto Portugal se afunda está, ao mesmo tempo, a ser objecto de uma operação de fuga de capitais levada a cabo por uma súcia de ricaços que, num momento em que o país ameaça soçobrar ao peso da crise instalada, aproveita para escamotear e pôr a bom recato fortunas mal explicadas.