23 de agosto de 2011

Este mundo não é nosso…

Luís Farinha

"Este mundo não é nosso. Nosso é apenas o privilégio de o podermos habitar por algum tempo. O tempo de uma vida"


É isso, amigos...
  
É preciso ter presente que não recebemos o mundo como herança, dos nossos antepassados. A verdade é que o tomámos emprestado aos vindouros, aos filhos dos nossos filhos.

Com efeito, este mundo não é nosso, na verdadeira acepção do termo. O mundo já cá estava quando chegámos e deixá-lo-emos quando um dia dele partirmos. Estamos aqui de passagem. E nessa condição apenas vamos aqui ficar provisoriamente.

Em boa verdade, tomámos este lugar por empréstimo, enquanto durar a nossa curta passagem pelo mundo.

É por isso que considero criminosa a forma como muitos de nós tratamos este bem perecível de que não somos donos, um bem que apenas nos foi confiado transitoriamente, talvez por se julgar o homem um ser merecedor de confiança.

Mas não o somos, como nos fartamos de provar…

Atentamos contra a Natureza das formas mais aviltantes. Queimamos as florestas. Contaminamos as águas dos rios e os mares. Conspurcamos a atmosfera que temos de respirar. Aperfeiçoamos constantemente a arte de nos matarmos uns aos outros. Dizimamos as espécies consideradas menores, os animais, nossos companheiros no planeta, quer queiramos ou não. Tudo isto, movidos pelo egoísmo, pela ambição desmedida, pela maldade dura e crua. Só porque nos consideramos donos do que nos não pertence, deste mundo, onde estamos apenas de passagem e que vamos ter de deixar aos que vierem depois.      

Quero acreditar que muitos dos atentados, que todos os dias cometemos contra o património universal, são praticados involuntariamente, por omissão ou desleixo. O mesmo não sucede, contudo, quando penso nos políticos. Se todos temos responsabilidade na preservação dos bens terrenos, é a eles, aos políticos, que cabe a tarefa de criar uma sociedade justa e equilibrada e de proceder à distribuição equitativa do que Deus pôs à disposição de todos e não apenas de alguns. Em vez disso, porém, é deles que vêm normalmente as sementes da discórdia. São os políticos, com as suas disputas partidárias, com os seus conflitos de interesses, que fomentam a desordem, instalando a regra do “salve-se quem puder”.

Há ricos cada vez mais ricos porque há pobres cada vez mais pobres. A maioria pouco tem porque uns quantos se arrogam o direito de terem tudo. A injustiça social só é possível porque essa é a única forma de sustentar os desequilíbrios da sociedade tão do interesse das classes privilegiadas.

É em nome desse egoísmo insano que o mundo é despejado das coisas boas que Deus criou. É assim que as florestas ardem, que os rios são contaminados, que a terra é corrompida, que as espécies são extintas. Tudo porque os poderes que governam as nações desleixam a sua missão, eximindo-se da responsabilidade que um dia assumiram.

Este mundo não é nosso. Nosso é apenas o privilégio de o podermos habitar por algum tempo. O tempo de uma vida. A vida, que é transitória. A ele viemos de mãos vazias e de mãos vazias partiremos um dia.

Quando alguém nos franqueia a porta da sua casa, mandam as regras de boa convivência que limpemos os pés à entrada, que lá dentro nos comportemos urbanamente, que não cuspamos no chão, nem sujemos as paredes. Se é essa a conduta que usamos numa casa que não é nossa, o que nos autoriza a abandalharmos este mundo que apenas nos foi franqueado por tempo limitado?

22 de agosto de 2011

Encontrei o Edgar!

Luís Farinha


Contas feitas, não via o Edgar há uma boa dúzia de anos. Perdera-lhe o rasto desde que, numa decisão inopinada, a meio de um dia de trabalho, nos anunciou que ia abandonar o jornalismo.

Assim, sem mais nem menos…

No dia seguinte já não se apresentou na redacção, deixando também de aparecer no pequeno bar onde habitualmente se juntava aos colegas depois de terminado o turno da tarde. Tudo isto sem adiantar razões, sem falar sobre os motivos da sua decisão, sem revelar o que iria fazer a seguir.

No princípio, ainda nos perguntávamos se alguém o tinha visto por Lisboa, mas como as respostas eram sempre negativas, acabámos por, a pouco e pouco, deixar de falar no Edgar, até que absorvidos pela agitação do dia-a-dia, ele se apagou de todo das nossas preocupações.

Foi por isso que, no Verão de 2008, estava eu sentado no muro sobranceiro à praia, na cidade espanhola de Salou, a escassos quilómetros de Barcelona, fiquei mudo de espanto quando vi passar um tipo que me fazia lembrar o Edgar.

Olhando melhor e já convencido de que aquele era mesmo o meu ex-colega, chamei: "Edgar! Ó Edgar!"

E o Edgar virou a cabeça atendendo ao chamado.

E também me reconheceu.

   - Que fazes tu aqui, malandro?

   - Se calhar o mesmo que tu - respondi.

Abraçámo-nos e ali ficámos de pé, em frente um do outro, ambos surpreendidos por nos termos reencontrado a mais de mil quilómetros do nosso habitat natural.

Disse-lhe que estava ali de férias.

   - Quanto a mim, vivo aqui - disse o Edgar, acrescentando - … por enquanto.
  
   - Tão longe de Lisboa?

   - Estava farto daquilo tudo. Do trabalho que tinha, da cidade e até do meu país.

   - Mas porquê, homem!

E a conversa foi-se desenrolando enquanto nos encaminhávamos para um barzinho ali perto...

   - Para ser franco, tanto tempo depois ainda nem eu próprio sei explicar bem o que aconteceu comigo. O mais provável é que eu tenha querido fugir da bagunçada que se vinha instalando na sociedade portuguesa, nomeadamente no nosso meio, os media.

   - Não disseste nada a ninguém. Nem connosco te abriste. Desapareceste, simplesmente, e pronto!

   - Acredita que andava a fazer um esforço do caraças. As conversas cansavam-me; já não tinha prazer no convívio; a inspiração para escrever era cada vez menor; já há muito que vinha considerando o discurso político uma treta. Era assim como um castelo de areia a desfazer-se sem que eu o pudesse evitar.

   - Nada acontece por acaso...

   - E quem te disse que a situação a que cheguei foi obra do acaso?

   - Mas tu eras um tipo aparentemente tão seguro; tão sólido nas tuas convicções...

   - Era jornalista!

   - E isso faz a diferença?

   - O ofício de redigir notícias instalou em mim o hábito de querer olhar para dentro das coisas. Com o tempo, o quê, quem, quando, onde, porquê, passaram a fazer parte do meu modus vivendi. A tal ponto, que ia sempre cair nessas estafadas regras da profissão, não só no exercício do jornalismo como também fora dele. Ultimamente, qualquer questão, fosse de que natureza fosse, era sempre rematada por uma interrogação. A subjectividade deixou de fazer parte das minhas cogitações. Punha tudo em causa e tudo tinha de ter uma explicação coerente. E na sociedade portuguesa, como bem sabes, a coerência já há muito que vinha caindo em desuso. Agora não sei... e francamente nem quero saber!

   - Nunca me apercebera - nem os nossos colegas - do buraco profundo em que te deixaste cair.

   - Onde me deixei cair ou para onde a vida me atirou. E isto não é uma desculpa!

   - Tens a certeza de que te afastaste só pelas razões que referes?

   - Aos poucos deixei de encontrar respostas para muitas coisas. Exemplo disso, válido ainda hoje, é que enquanto a sociedade científica procura encontrar formas de prolongar e melhorar a qualidade de vida das pessoas, as pessoas vão-se tornando mais e mais suicidárias. Inventam conflitos, sacaneando quem ouse atravessar-se no seu caminho. Atropelam os interesses alheios. Tudo isso com o objectivo quase sempre mal escondido - sublinhou - de tirar maior e melhor partido das benesses que a tal sociedade de faz-de-conta põe ao dispor dos atrevidos.

   - Onde tu chegaste, meu caro Edgar!

   - A vida tornou-se uma selva, meu amigo. Ou ainda não deste por isso?

   - Bem, a vida não é fácil, mas sempre se vai levando...

   - ...desde que se esteja disposto a olhar para o lado. E eu, francamente, não estava. E continuo a não estar, se queres saber.

   - Então agora vives feliz...

   - Não diria tanto, mas pelo menos não tenho que pactuar com a bandalhice que anda por lá, pela nossa terra.

   - Ainda não me disseste o que fazes agora; do que vives; porque estás aqui tão longe do teu poiso natural.

   - Vivo aqui em Salou, de um pequeno negócio. Uma lojinha que vai dando para comer, deixando que a vida vá correndo sem grandes sobressaltos.

   - Não pensas regressar a Lisboa, a Portugal?

   - Quem sabe o que nos espera? Por agora - e já lá vão uns anos - vou continuando por aqui. Amanhã logo se vê...     

16 de agosto de 2011

No corredor da morte

Luís Farinha

Hospital de Santa Marta
Serviço 3 – Sala 1 (Angiologia)



Foi aí, nesse serviço hospitalar, degradante na época, que há alguns anos, em 85 do século passado, para ser mais exacto, durante dois longos meses assisti aos episódios mais dramáticos e traumatizantes de toda a minha vida. Dois meses em que me dei conta de até onde pode chegar a degradação do ser humano quando a infelicidade se obstina em reduzi-lo a nada, a coisa nenhuma.
  
Foi nesses dois meses, longos, muito longos, no cenário da mais deprimente miséria física, a minha e a dos meus companheiros, que aprendi a soletrar a palavra solidariedade.
  
Nesses infindáveis 60 dias vi entrar e sair muita gente do Serviço 3, de Santa Marta. Uns, que como eu conseguiram ultrapassar as suas crises; outros, que acabaram ali os seus dias no meio do maior sofrimento, alguns bem em frente dos meus olhos.

O Serviço 3, de Angiologia, no Hospital de Santa Marta, é (era) onde se tratam os problemas vasculares. É lá que vão parar os casos desesperados de pessoas, principalmente do sexo masculino, que se deixaram apanhar nas malhas da arteriosclerose, da hipertensão arterial e de outras doenças do mesmo ramo. Foi ali, ao Serviço 3, de Angiologia, que eu vi chegar alguns homens com a altura normal de 1,70m e saírem de lá com apenas 80 centímetros. Sem pernas, amputadas em resultado da associação infeliz dos problemas vasculares com a diabetes.
  
Vi seres humanos acabarem reduzidos à condição de semi-homens. Ouvi, dias e noites a fio, os gritos mais angustiantes que a dor física pode provocar.
  
Sem poder valer-lhes, impotente face ao seu sofrimento, vi homens chorarem, desesperados, com vergonha de enfrentarem o mundo. Homens reduzidos a tocos disformes depois de passarem pela mesa de operações.
  
Escutei pedidos aloucados de uma morte rápida, morte que os livrasse do sofrimento que consumia os seus corpos martirizados. E vi também a força do vício que tudo subjuga, até à irracionalidade. Até ao teimoso alheamento dos danos irreparáveis que o tabaco provoca em quem já vive por um fio...

Comigo, no Serviço 3, estava internado um homem cuja história nunca poderei esquecer. Há alguns meses tinha sido amputado de uma das pernas em resultado da tal associação sinistra: má circulação-diabetes. Quando o conheci, no Serviço 3, tinha ele voltado ali porque a outra perna começara a manifestar sinais evidentes da progressão da doença. Recordo-me que havia naquele serviço hospitalar uma regra a que ninguém podia desobedecer: todos estávamos rigorosamente proibidos de fumar!
  
Compreende-se porquê...

É que o cigarro e a circulação sanguínea não casam lá muito bem. Entre ambos, o antagonismo vive sempre latente.
  
Pois o tal sujeito, enfermeiro de profissão, por isso mesmo perfeitamente consciente dos riscos que corria, nunca deixava de dar umas fumaças sempre que para isso arranjava oportunidade. Isto, apesar das advertências que todos lhe fazíamos para que parasse de fumar, e de os médicos o avisarem constantemente até onde o podia levar a sua teimosia.
  
Um dia qualquer, estava eu ansioso para saber o resultado de mais uma intervenção cirúrgica a que o tal colega de infortúnio fora submetido, quando verifiquei, à saída da sala de operações, que também ele tinha diminuído de altura: a outra perna tinha, finalmente, seguido o caminho da primeira.
  
Segundo mais tarde um médico me contou, essa situação podia ter sido evitada se, atempadamente, ele tivesse parado de fumar.
  
Nos dias que se seguiram, o semi-homem em que ele próprio se transformara não parou de chorar, lamentando a sua desgraça, incapaz de enfrentar o mundo.

Lembrei-me disto, agora, porque numa conversa entre amigos foi recordada a figura desse grande desportista, guarda-redes do Benfica e muitas vezes internacional, o Costa Pereira, ele próprio um dos que não resistiu por muito tempo após a sua passagem pelo Serviço 3, de Angiologia, do Hospital de Santa Marta.
  
Foi a recordação da sua e minha permanência nesse lugar de morte que me trouxe dos recessos do tempo memórias antigas que supunha já esquecidas, definitivamente.

4 de agosto de 2011

Um olhar para trás

Luís Farinha


Agora, quando para mim o tempo corre mais depressa, fico muitas vezes a pensar no que ficou para trás. Fico a pensar, principalmente, no bem que não consegui fazer, no amor que não fui capaz de dar, nas boas acções que deixei por praticar.

Pergunto-me o que terá sido feito de alguns dos princípios que, noutros tempos, faziam com que a vida apetecesse ser vivida. Tenho para mim – e creio não estar sozinho nesta presunção – que a despeito do regime em que muitos viveram a sua vida toda: despótico, autocrático, restritivo, era mais franco e amigo o relacionamento entre os que se queriam bem. Era praticada a boa vizinhança, uma prática de vida que não cabe no modelo pretensioso da sociedade que está na moda.            

Agora, quando o meu passado é bem mais comprido do que o futuro que há-de vir, é tempo de eu ir fazendo o balanço duma vida que já vai longa. É tempo de reflectir sobre valores que têm vindo a desaparecer, tornando o mundo menos belo, as pessoas mais feias, e o dia-a-dia cada vez mais sombrio. Será que os outros não vêem isso? Ou esses são valores que a própria vida fez cair em desuso?

Hoje, quando olho à volta, verifico que se tomam por qualidades apreciadas formas de comportamento que antes eram consideradas autênticas aberrações de carácter. E o exemplo disso é-me oferecido até pelo ofício que escolhi, o jornalismo. Na verdade, a comunicação social acabou por transformar a informação num espectáculo mediático onde a “notícia” se tornou menos importante do que o efeito que causa. Vive-se do sensacionalismo, da espectacularidade, do escândalo desbragado, da insinuação grosseira. Nos media o que ‘vende’ é o excessivo, a desumanidade, o selvagismo. E por mais que os ‘entendidos’ me tentem convencer que isso não exacerba o comportamento dos meus vizinhos, dos jovens, dos néscios e dos intelectuais, não creditarei as suas opiniões que o dia-a-dia desmente.

Há quem diga que vivemos num mundo louco... e não sei se há ou não alguma razão para tal juízo. Mas uma coisa é certa: a sociedade em que hoje vivo não é, nem pouco mais ou menos, aquela em que me fiz homem. Depois, nos idos da minha juventude ainda havia a esperança de melhores dias. Ainda se vivia a ilusão de que um dia a liberdade seria o cenário em que as nossas crianças se fariam adultas. E só isso bastava para seguirmos em frente, pesem embora as limitações absurdas que nos eram impostas.

Afinal, ao longo das últimas décadas tenho vindo a assistir à transformação da sociedade numa coisa feia, às vezes até aviltante. Vejo valores antes essenciais, transformarem-se em excrescências dum sistema corrupto. Testemunho a consagração da vacuidade e o culto do protagonismo. Com surpresa, constato que tudo se vende e compra, inclusive o respeito próprio. A palavra dada, o compromisso inviolável, passaram a ser coisas vazias de sentido. A vergonha, que antes açaimava a indignidade, está hoje afastada dos compêndios da conduta pessoal. A honra tornou-se elástica e o amor-próprio, de, tão incómodo, está a cair em desuso. Hoje, rimo-nos do que noutros tempos daria vontade de chorar e tomamos como completamente fora de moda princípios de que antes nos orgulhávamos.

É esta a sociedade glorificada pelos que aprenderam a retirar dividendos generosos desta confusão imensa.

Para muitos, porém, é também como uma queda no vazio absoluto, irreversível.          

27 de julho de 2011

Amo-te!

Luís Farinha


Amo-te!
Uma palavra que, a um tempo, pode ser doce... como pode esconder, sob essa doçura aparente, o mais abjecto embuste!
Amo-te!
Um rio de promessas... ou um oceano de falsidade!
Amo-te!
Quantas vezes terei ouvido essa palavra susurrada ao meu ouvido? E quantas vezes a terei dito eu, só porque me perguntavam... amas-me?
Amo-te!
Há quem pense que a ideia alumia... mas que o amor aquece. Que a ideia é luz... mas que o amor é fogo. Que a ideia molda... mas que o amor funde. Que a ideia apura glórias... mas que o amor opera milagres.
Contudo, do fundo dos anos que já vivi, vem-me a convicção de que a palavra amo-te, serve apenas de música de fundo nos momentos fugazes da paixão em que consumimos os corpos e os sentidos.
Amo-te!
Ouvi tantas vezes esta palavra, e tantas vezes a disse que hoje a sinto gasta pelo uso e despolida pela banalidade.
Bernardim de Saint-Pierre dizia: "Não há amigo tão agradável como uma amante que nos ame sinceramente".

Meu caro Saint-Pierre... sempre pensei que você fosse mais sabido nestas coisas do amor...

Amo-te, é uma expressão que à força de ser utilizada sem sentido se transformou numa forma rebuscada e mais sonante de dizer... "quero-te"! Só que na palavra "quero-te", há muito mais sinceridade porque, sem recursos adocicados, limita-se a deixar adivinhar o desejo simples da posse.
Assim, "amo-te"... cheira a uma expressão bacoca que quer dizer aquilo que se não sente.
Amo-te!
Pela vida adiante, quantas vezes lhe disseram isto?
... e quantas vezes você a terá dito também?
E afinal... quantos casamentos, quantos romances fracassados começaram pela exclamação... amo-te!
Sabem que mais?
Realidade ou desejo incerto, o amor é o elemento primitivo de actividade interior. É a causa, o fim e o resumo de todos os afectos humanos.
Mas verdadeiro, verdadeiro, é "o amor que sai de Deus e a Deus volta"... o resto é, na maioria das vezes, apenas e simplesmente obra do diabo...

19 de julho de 2011

A mais velha profissão do mundo

Luís Farinha

Ela mandava parar o táxi numa rua da zona dos Anjos, em Lisboa, à porta dum prédio de aspecto vulgar, sempre o mesmo, e metia-se no elevador. Quando saía, algumas horas depois, trazia a carteira bem mais confortável.

Ela era minha vizinha, lá no bairro onde eu morava. Casada, quarentona mas ainda atraente. Uma vez, depois outra e mais outra, numa sucessão de acasos fortuitos reparei que, logo após o almoço, a minha vizinha saía de casa sempre bem vestida e maquilhada. Numa rua próxima apanhava um táxi e seguia.

A explicação da estranha rotina da minha vizinha chegou-me casualmente, em circunstâncias que envolvem alguém cuja identidade não vem a propósito nem é importante para a história.

Minutos depois, já na zona dos Anjos, em Lisboa, ela mandava parar o táxi à porta dum prédio de aspecto vulgar e metia-se no elevador.

Quando saía, algumas horas depois, trazia a carteira bem mais confortável.

Ao fim da tarde, em casa, preparava o jantarinho, esperava que o marido chegasse, comiam e acabavam o serão vendo a telenovela ou o futebol, como se a vida de ambos fosse feita da morna rotina familiar, comum a muitos outros casais.

Quem a via, lá nas ruas do bairro, nem por sombras imaginava a vida dupla que fazia.

É costume afirmar-se que a prostituição é a mais velha profissão do mundo. Não sei se é tão velha, assim. Nem nunca me dei ao cuidado de averiguar se esta asserção é baseada em dados concretos, se tem algum fundo de verdade, ou se é apenas uma força de expressão inventada pelos escritores e poetas para conferir mais dramatismo ao que escrevem quando dissertam sobre as coisas da vida. O que eu sei é que a prostituição é assim como um novelo de muitas pontas, cada uma delas capaz de nos levar ao seu núcleo principal ou apenas a uma fracção com caminho para nenhures.

A pergunta mais comum é: o que faz uma mulher chegar à prostituição? Porém, quando a fazemos logo recebemos como resposta um sem número de razões que, cotejadas entre si, nos levam à conclusão de que cada uma anula a precedente, desfazendo teorias e reduzindo a lógica a coisa nenhuma. A quem me refere que a venda do corpo resulta directamente das dificuldades económicas (o que em muitos casos até é verdade), contraponho que conheci, na longa estrada que deixei para trás, várias prostitutas que precediam de famílias economicamente favorecidas. Aos que argumentam que ela, a prostituição, é consequente do mau ambiente familiar (o que também acontece), posso refutar que há casos de prostitutas que representam, elas próprias, a degenerescência de lares perfeitamente estáveis e equilibrados. Para rebater os que defendem a teoria de que a "vida fácil" deriva da necessidade de arranjar dinheiro para a aquisição de drogas (o que hoje é muito vulgar), posso questionar que as prostitutas de há 50 ou 60 anos não eram, geralmente, toxicodependentes.

Estes são apenas alguns exemplos que apontam para o facto evidente de que a prostituição se explica de muitas formas diferentes. Quer dizer: não há um factor determinante que explique a existência daquela a que chamam “a mais velha profissão do mundo”...mas muitos!
Tantos quantos possamos imaginar!

Contudo, uma coisa é certa: a prostituição é sempre a sequela de um conflito moral ou material.

Noutros tempos, a prostituição era praticada em lugares próprios, as chamadas casas de passe (ou de "meninas", como muitos diziam). Actualmente, porém, já não há as casas de passe. Ou melhor: continua a haver casas de passe, só que, agora, se chamam casas de massagens ou ainda, mais sofisticadamente: agências de acompanhantes. Antigamente, nos anos 40, 50 e 60 do século passado, essas casas situavam-se em profusão nas ruas do Bairro Alto, duas nos números 21 e 35 da velha Rua dos Canos (ou, correctamente: Rua Silva e Albuquerque) e no 14 da Rua do Socorro, ambas no Martim Moniz. Uma outra muito frequentada era no 58 da Rua dos Cavaleiros e, a puxar para o fino, a Madame Blanch, na Rua da Glória, a dois passos dos Restauradores, o 100 da então Rua do Mundo (hoje, Rua da Misericórdia) ou Madame Calado (só para gente endinheirada) no Rossio. Para os outros, os contavam os tostões, restavam as casas de meninas da Mouraria, mais manhosas, nas ruas da Amendoeira e João do Outeiro.

Hoje, porém, as casas de meninas do século XXI nascem e florescem em locais mais sofisticados, não só nas ruas e avenidas novas desta Lisboa que não pára de crescer para a periferia, como nas ruas mais centrais das cidades da província.

Antigamente, não havia o descaramento de pôr anúncios promovendo os serviços oferecidos pelas casas de meninas. Hoje, requintado mesmo é anunciar nos jornais os predicados sexuais das jovens que se podem encontrar, disponíveis, nas tais casas de massagens ou nas agências de acompanhantes. “As mais doces”, “as devoradoras”, “o menu do prazer”, “as acompanhantes de alto nível para satisfazer os seus desejos”, “A Vanessa, 18 anos, muito bonita e meiguinha que atende em apartamento privado, sem inibições”... e assim por diante. Muitos dos anúncios, talvez a maior parte, exibem fotos de jovens mulheres, desnudas, em poses pretensamente eróticas. Poses que, naturalmente, suscitam a curiosidade dos miúdos lá em casa, conjecturando sobre aquelas ‘coisas’ no jornal que o pai comprou no quiosque da esquina, estranhando, porque nunca viram a mamã em tais propósitos.

E não se pense que essas vendedoras de prazer desinibidas e doces têm alguma coisa a ver com a imagem que normalmente fazemos das chamadas mulheres da vida. Não, a realidade do tempo presente não tem nada a ver com essas velhas lembranças dum passado que já foi!

Hoje, as prostitutas dos anúncios do jornal são provenientes de estratos sociais bastante diversificados. Ali, nas novas casas de meninas podem encontrar-se filhas de famílias com princípios morais elevados, estudantes universitárias, secretárias desempregadas, raparigas com cursos superiores e outras apenas com educação elementar mas com físicos espampanantes. Lá, nesses prostíbulos modernos, podem encontra-se, inclusive, mulheres casadas que vendem o corpo, às escondidas, para alimentarem o seu desejo de vestir bem, de ter dinheiro para o luxo, ou para outros fins, os mais diversos.

O caso verídico que acabei de vos contar é apenas um exemplo disso mesmo.

11 de julho de 2011

Sem resposta…

Luís Farinha

"Mas que raio de país vou deixar ao meu filho?"

Depois de tantos anos parece que ainda estou a ouvir o som da sua voz quando a conversa puxava para a política… “mas que raio de país vou deixar ao meu filho?”

Estávamos ainda muito longe do 25 de Abril, num tempo em que o Hitler ainda não tinha deitado fogo à Europa e, por cá, o Salazar continuava, firme, na cadeira do poder.

Nesse tempo, que continua bem vivo na minha memória, já Portugal era, por direito próprio, o escárnio do resto do mundo. Orgulhosamente sós - um slogan que os políticos de então vulgarizaram - vegetávamos na cauda dos outros países, exibindo o título de “o País mais atrasado da Europa”.

Os anos passaram, o menino que eu era transformou-se num jovem cheio de esperança, veio a guerra, e Portugal foi atravessando todo esse período como uma nação parada no tempo.

Entretanto, cansado de correr atrás de coisa nenhuma, o meu pai foi-se embora deste mundo e eu deixei de o ouvir dizer, preocupado, “mas que raio de país vou deixar ao meu filho?”

Correram os anos 50… 60 e, em meados de 70, numa manhã de Abril, reacendeu-se a esperança dos portugueses.

Quando isso aconteceu, quando se começou a falar de liberdade, tive pena de o meu pai não estar por cá para assistir à mudança; para constatar que, afinal, o mundo que ele um dia me deixou ia ser bem melhor do que aquele em que ele vivera a sua vida inteira.

E mais anos se passaram…

E a pouco e pouco fui deixando a juventude para trás. As rugas apareceram e os meus cabelos foram-se tingindo de branco. Quanto ao País, à terra onde nasci, após a revolução dos cravos as mudanças foram também acontecendo. Os políticos têm vindo a revezar-se nos corredores do poder, sempre e sempre prometendo uma vida melhor para todos. Mas no final, quando relutantemente cedem os seus lugares a outros, o que resta das suas promessas é uma vida melhor para eles próprios. Quanto ao povo, esse continua na mesma. Como Portugal, que continua no seu lugar de sempre… na cauda da Europa.

É por isso que sempre me lembro do meu pai quando me ouço, hoje, em desespero, repetindo a tal pergunta aos meus amigos... “mas que raio de país vou deixar ao meu filho?”
Curiosamente, como há 70 e mais anos a pergunta continua sem resposta…