11 de julho de 2011

Sem resposta…

Luís Farinha

"Mas que raio de país vou deixar ao meu filho?"

Depois de tantos anos parece que ainda estou a ouvir o som da sua voz quando a conversa puxava para a política… “mas que raio de país vou deixar ao meu filho?”

Estávamos ainda muito longe do 25 de Abril, num tempo em que o Hitler ainda não tinha deitado fogo à Europa e, por cá, o Salazar continuava, firme, na cadeira do poder.

Nesse tempo, que continua bem vivo na minha memória, já Portugal era, por direito próprio, o escárnio do resto do mundo. Orgulhosamente sós - um slogan que os políticos de então vulgarizaram - vegetávamos na cauda dos outros países, exibindo o título de “o País mais atrasado da Europa”.

Os anos passaram, o menino que eu era transformou-se num jovem cheio de esperança, veio a guerra, e Portugal foi atravessando todo esse período como uma nação parada no tempo.

Entretanto, cansado de correr atrás de coisa nenhuma, o meu pai foi-se embora deste mundo e eu deixei de o ouvir dizer, preocupado, “mas que raio de país vou deixar ao meu filho?”

Correram os anos 50… 60 e, em meados de 70, numa manhã de Abril, reacendeu-se a esperança dos portugueses.

Quando isso aconteceu, quando se começou a falar de liberdade, tive pena de o meu pai não estar por cá para assistir à mudança; para constatar que, afinal, o mundo que ele um dia me deixou ia ser bem melhor do que aquele em que ele vivera a sua vida inteira.

E mais anos se passaram…

E a pouco e pouco fui deixando a juventude para trás. As rugas apareceram e os meus cabelos foram-se tingindo de branco. Quanto ao País, à terra onde nasci, após a revolução dos cravos as mudanças foram também acontecendo. Os políticos têm vindo a revezar-se nos corredores do poder, sempre e sempre prometendo uma vida melhor para todos. Mas no final, quando relutantemente cedem os seus lugares a outros, o que resta das suas promessas é uma vida melhor para eles próprios. Quanto ao povo, esse continua na mesma. Como Portugal, que continua no seu lugar de sempre… na cauda da Europa.

É por isso que sempre me lembro do meu pai quando me ouço, hoje, em desespero, repetindo a tal pergunta aos meus amigos... “mas que raio de país vou deixar ao meu filho?”
Curiosamente, como há 70 e mais anos a pergunta continua sem resposta…

9 de julho de 2011

No meu tempo…

Luís Farinha

“Há que ir aceitando as diferenças porque, desde a origem, o mundo está em constante mudança”, defendia o Henrique, um amigo meu, músico de profissão, filósofo por vocação, sempre que as conversas do nosso pequeno grupo se perdiam pelos emaranhados do “no meu tempo…”.
Jovem que eu era, na época a que me refiro, sentia então alguma dificuldade em levar a sério a mudança por ele anunciada como inevitável, coisa que desmentia a mesmice do quotidiano de que eu então já me queixava, sem dar conta de que a minha ânsia de viver, comum a todos os jovens, é que não me deixava descobrir que não há dois dias iguais.
Nessa altura, Henrique - o meu amigo - já ia nos quase sessenta, sendo eu o mais novo da pequena tertúlia que habitualmente, nos fins de tarde, ganhara o hábito de tomar o cafezinho no “Vává” da Av. De Roma, em Lisboa. Ainda não fizera os 30 anos e nessa idade, nos anos 50 do século passado, o tempo não corria como hoje.

Passaram os anos e, entretanto, o Henrique, há muito arredado do piano, partiu para o outro lado da vida. Os outros, como ele, são hoje apenas uma memória que ficou gravada no tempo. Os dois que restam, velhos p´ra caramba, já só se falam pelo telefone, nas vésperas dos dias festivos. Um deles sou eu, o mais novo, nos meus agora oitenta anos.

Triste já não fico…

Vem isto a propósito das mudanças do mundo e da sociedade a que hoje assisto com a sensação de que estou a ser esvaziado da matéria que fez de mim a pessoa que sou.
Curiosamente, é agora, quando já me habituei a contar os anos em modo decrescente e, em contrapartida, me entretenho a recordar as fazes da vida que me ficou para trás, que me dou conta da razão que tinha o meu amigo Henrique quando teimava em dizer que ‘o mundo está em constante mudança’.
Não digo que ainda fico muito triste quando leio em qualquer publicação ou página ‘cor-de-rosa’ a facilidade com que as jovenzinhas que fazem as delícias das telenovelas, da moda, ou da apresentação de programas e eventos, anunciam o fim dos seus romances amorosos, deixando, implícita, a sua disponibilidade para encetarem uma nova relação. Triste já não fico, mas ainda não consigo deixar de me surpreender com a facilidade com que o fazem, sabendo-se como se sabe que o adjectivo ‘namorado’ tinha, “no meu tempo”, um significado que não se pode confundir com a conotação um tanto licenciosa que hoje se lhe atribui.

O que ontem era repudiável é hoje admissível na sociedade moderna.

Outra mudança que me causa engulhos é a cada vez mais tolerada cupidez material, a falta de escrúpulos dum número crescente de espertalhões que tomam como um direito seu a fruição enviesada da riqueza que é pertença de todos. Foi a ganância desses quantos que permitiu a vulgarização de designações criminosas como corrupção, tráfico de influências, branqueamento de capitais, abuso de poder, fraude fiscal e crimes de colarinho branco, crimes que a imprensa nos traz de vez em quando. Noutros tempos, a tudo isso se chamava ‘desfalque’, ‘abuso de confiança’, ‘desvio’, ‘trapaça’, ‘corrupção’, ‘saque’ ou ‘roubalheira’ e os actores dessas proezas eram irremediavelmente condenados ao ostracismo geral. Hoje, por efeito da acomodação da sociedade aos novos tempos, tende-se a não levar muito a sério a gravidade desses delitos, havendo que reinventar uma forma de conviver com o que hoje é tido como “corriqueiro” fazendo com que os criminosos se passeiem impunemente pela comunidade. Um exemplo dessa espécie de impunidade vitalícia é-nos oferecido pelo anafado Vale de Azevedo. Por alguma razão a Justiça é tida geralmente como bastante indulgente em casos que tenham a ver com aqueles tipos de crimes, mormente em Portugal onde sua prática pegou moda.
Estes são apenas dois aspectos dos efeitos da aceitação das diferenças que marcam a sociedade dos dias de hoje. Aos mais antigos, continua a ser muito difícil acatar tal estado de coisas. Os outros, os que ainda não desenvolveram a capacidade de se indignar vão-nas aceitando com estranha naturalidade fazendo com que o que ontem era reprovável seja hoje entendido como normal e admissível numa sociedade moderna.
Os amanhãs que estão para vir mostrarão um mundo que hoje nos parece inaceitável.

2 de julho de 2011

Portugal de pantanas

Luís Farinha

As virtudes da democracia medem-se essencialmente pela felicidade do povo anónimo.


Há três áreas da vida portuguesa responsáveis pelo crescente mal-estar que se sente crescer na opinião pública do país. Refiro-me aos sectores da Saúde, Justiça e Segurança Social, que são hoje motivo de todas as conversas, matérias obrigatórias de notícias, crónicas e debates nos diversos meios de comunicação.

Realmente, parece que em quaisquer daquelas três áreas chegámos ao ponto de rotura, nódoas negras da sociedade que se arrastam desde os velhos tempos do Estado Novo. Só que, ao invés do que nos foi prometido pelos revolucionários de Abril - promessas em que acreditámos plenamente - trinta e muitos anos depois continuamos na mesma e, em alguns casos, até pior do que então.

Tal como antigamente, a Saúde e a Justiça, só funcionam para quem tem dinheiro para pagar bons médicos e advogados. Os pobres, que constituem a grossa maioria da população portuguesa, continuam a sofrer a inclemência dum serviço público de Saúde profundamente degradado e duma Justiça cuja equidade só existe em teoria. Quanto à Segurança Social, para quê dissertar sobre o que é tão evidente? Em que país da União Europeia as reformas e pensões dos trabalhadores são tão infamemente indigentes? Em que sociedade do velho continente os idosos são tão desprezados? Quais são os países da família comunitária, onde o nível de vida é tão rasteiro?

Não basta dizer que a democracia é um sistema político melhor que a ditadura. O que é preciso é provar, com factos, que essa é uma realidade irrefutável. Indispensável é demonstrar, na prática, que o povo vive mais feliz e satisfeito num sistema democrático do que numa ditadura. O que se torna aberrante é pretender que a democracia em Portugal garanta apenas mais liberdade de expressão e de opinião sem ter em conta outras componentes fundamentais para o bem-estar dos cidadãos. Instituir deveres ao mesmo tempo que são minimizados os benefícios de quem tanto deles carece faz crescer o cepticismo atávico que os portugueses sempre demonstraram relativamente à política e aos políticos. Uma sociedade baseada num sistema político que se afirma de democrático não pode incorrer na incoerência de consentir que os pobres tendam a transformar-se em indigentes enquanto os privilegiados são cada vez mais numerosos e favorecidos. Por mais que se tente justificar essa discrepância, ela não cabe na cabeça de ninguém. As virtudes da democracia medem-se essencialmente pela felicidade do povo anónimo. Os ricos e os que souberam cavar para si as benesses que o sistema disponibiliza aos que se sabem colocar a jeito são sempre felizes em qualquer regime político que o país adopte. Ao contrário desses, há os que têm de se virar com os €246,36 da pensão mínima do regime geral. Chega a ser obscena a diferença entre as pensões douradas e demais complementos e privilégios de uns quantos e as pensões de miséria de milhares de portugueses a quem, para cúmulo, se atribuiu a ‘regalia’ de arcar com os sacrifícios de que o país precisa na situação difícil em que foi colocado pela sucessão de governantes inaptos que por cá têm passado.

Tendo em conta o estudo segundo o qual a pensão média em Portugal é de 397 euros, torna-se fácil concluir que este é um país a duas velocidades. A confirmar este raciocínio tomemos como exemplo um caso ao acaso sendo que vários outros podiam ser aqui trazidos. Mira Amaral, um ex-ministro e ex-administrador da CGD tem de pensão a confortável soma de 18 mil euros mensais, sem esquecer os dois meses em que esse valor cresce para o dobro em função dos subsídios de férias e do Natal. Seja a que título for, por mais argumentos que se avancem no sentido de justificar tal exorbitância num país que desde há muito vem arrastando uma enormíssima carência de recursos, esta pensão constitui prova eloquente do desvario reinante. Não será o caso, mas por maior que tenha sido a contribuição do senhor Amaral para o engrandecimento de Portugal nos contextos interno e externo, 18 mil euros por mês será sempre um desconchavo por se tratar de uma clara exorbitância num país que está de pantanas. Será verdade que esta como outras pensões do mesmo nível por aí distribuídas, terão sido sancionadas pelos códigos em vigor, o que vem confirmar a teoria das duas velocidades acima referida.

É pois este país em frangalhos que Pedro Passos Coelho e a sua equipa no governo se propõem tirar do lamaçal em que foi atolado. É cedo para conjecturar sobre o seu êxito ou fracasso porém, a expectativa é enorme. Todos nós, os cidadãos atentos, torcemos para que o seu empenho não esmoreça, conseguindo resistir às manobras seitosas a que os politiqueiros obedecem para alcançar os seus desígnios.

26 de junho de 2011

Falamos disso depois…

Luís Farinha

A que se deve atribuir a dificuldade de comunicação entre novos e velhos e vice-versa?

É cada vez mais notória e comum a dificuldade de comunicação dos jovens com as pessoas mais velhas, sendo certo que o mesmo se passa na situação inversa.
No fim de contas, o que será que está na origem desta espécie de divórcio entre as gerações de ontem e de hoje?
O que lhe dará motivo?
Porque será que os filhos não dialogam com os pais? E porque será que estes manifestam uma indisfarçável impaciência sempre que os filhos lhes vêm com os seus problemas pessoais?
É uma pergunta que me faço com muita frequência...
Noto que é até vulgar acontecer que os jovens se mostrem mais dispostos a “abrir-se” com estranhos do que com os pais. Do meu ponto de vista, isso é sinal de que os pais não souberam (ou não se mostraram disponíveis) para fazerem uma pausa nos seus próprios afazeres e preocupações para se ocuparem das dúvidas e dos problemas dos filhos.
E o resultado é o que está à vista, claro...
Em recurso, os jovens seguem habitualmente dois caminhos: fecham-se em si mesmos, interiorizando e deixando avolumar preocupações que não têm capacidade de resolver sozinhos ou procuram junto de outros jovens, que se debatem com as mesmas dificuldades, a solidariedade que, nestes casos, nem sempre é a mais desejável.
Nós, os mais velhos, temos uma tendência acentuada para vermos nos filhos as eternas crianças que eles muitas vezes já não são. Daí, acharmos que “ainda é cedo” para, em conjunto, abordarmos frontalmente certas questões. Esquecemo-nos que os jovens de hoje crescem mais depressa, e que também mais cedo são confrontados com situações que, nos tempos idos, só apareciam muito mais tarde.
Minimizamos o seu discernimento; esquecemo-nos de ter em conta as suas opiniões e com isso, fazemo-los, enfim, sentirem-se rejeitados como pessoas e como peças importantes do núcleo familiar.
Normalmente, só quando é tarde de mais é que nos damos conta de quanto fomos egoístas, ocupados que andávamos com as nossas próprias questões pessoais.
Na minha opinião, perdemos a oportunidade gratificante de assistirmos e acompanharmos a sua transformação de crianças em adolescentes e depois em seres adultos. Quando acordamos do egoísmo em que andámos mergulhados enquanto os filhos cresciam, é que nos apercebemos que lá em casa há mais um homem ou uma mulher, um elemento familiar que conhecemos mal, alguém que quer viver a sua própria vida, de preferência sem a intromissão tardia dos “velhos”, velhos com quem, afinal, nunca conviveram de perto, com quem nunca, de resto, tiveram grandes afinidades.
Claro que esta é a minha forma pessoal e fria de ver o relacionamento entre gerações e – penso eu - a razão de queixas muitas vezes ouvidas.

18 de junho de 2011

Quem o feio ama...

Luís Farinha

   Pitigrilli dizia que “um rosto belo é uma caveira bem vestida” e, se bem pensarmos, não deixava de ter razão...

   Na verdade, quando elogiamos a beleza, pretendemos significar o quê, exactamente? Que alguma coisa satisfaz o nosso conceito do que é belo, de algo que condiz com a nossa concepção pessoal do que é bonito ou feio. Porém, essa concepção muda de pessoa para pessoa. Não tem que ser coincidente, como é óbvio. Então, não é o próprio povo, que na sua imensa sabedoria costuma dizer que... “quem o feio ama, bonito lhe parece”?

   É isso... o que é belo para mim, não tem que ser igualmente bonito para outra pessoa qualquer. É por isso, porque há essas diferenças, que o mundo se equilibra tão bem.

   Há quem explique, com rara propriedade, o facto de os feios ou feias sempre arranjarem alguém que por eles se apaixonam. Dizem essas pessoas, ainda baseadas na voz do povo, que... “quando se faz uma panela, logo se arranja uma tampa para ela...!” O que talvez queira dizer que o que nos parece menos belo a nós, pode constituir para outros a expressão máxima da beleza.

   Lembro-me, quando há algumas décadas frequentava com assiduidade o velho Café Lisboa, não o de agora, mas o outro, ali mesmo junto ao Parque Mayer. Havia lá um empregado que, quando via entrar ou passar à porta uma mulher bem nutrida, coisa aí para cima dos 100 quilos, entrava em completo desnorteio. E que ninguém se lembrasse de rir ou de dizer o que fosse em desabono daquelas figuras excelsas que punham o nosso amigo no mais incontrolável delírio...

   Só visto!

   Quantas vezes tenho observado em festas sociais, restaurantes, boites, teatros e cinemas... mulheres lindíssimas completamente “babadas” por indivíduos sem qualquer graça aparente?

   Quantos casos conhecemos de homens com óptimas figuras, bem apresentados, insinuantes, cultos, que vivem amores tórridos com mulheres que consideramos autênticos “cavacos”? Estou a lembrar-me do príncipe Carlos, do Reino Unido, da princesa Diana e da Camilla Parker-Bowles, Duquesa da Cornualha…

   Não sendo o Frank Sinatra ou o Charles Aznavour o que se pode chamar de “belos homens”, quantas mulheres belíssimas não se apaixonaram por eles ao longo da vida?
  
   Enfim, o conceito de beleza muda de pessoa para pessoa. Aliás, como muda, igualmente, de época para época. Quem não se lembra das paixões escaldantes desencadeadas pelas curvilíneas Gina Lolobrígida, Sofia Loren e Marilyn Monroe ? Contudo, se compararmos a sua beleza com a que hoje se vê nos desfiles de moda, ou no cinema... bom, são para esquecer!

   E quem fala dos símbolos femininos, pode falar também dos masculinos, evidentemente. Qualquer avó da actualidade ficava extasiada quando, há alguns anos, via no cinema as figuras insinuantes do Charles Boyer, do Elvis Presley ou do Cary Grant. Porém, eles apenas fariam rir as moçoilas de agora.

   É assim!

   O conceito da beleza é individual e muda conforme os olhos que a vêem, como mudam ciclicamente os padrões do belo, que hoje se regem de uma maneira diferente de ontem e de amanhã.

   Por isso, aos mais jovens aqui fica um conselho... “quando ouvirem os vossos pais falarem de beleza, por favor não se riam! Lembrem-se só que um dia, lá mais para diante, os vossos filhos também podem cair no riso quando vos ouvirem falar, enlevados, da Sharon Stone, da Irina Shayk, do Brad Pit, do George Clooney, do Ronaldo, da Angelina Jolie ou da Catarina Furtado. 
      

11 de junho de 2011

Cansaço!

Luís Farinha


“Não ligues… deixa p´ra lá!”
“Vive e deixa viver…”
“Ó homem, leva as coisas a brincar!”

Com pequenas variantes, é esta a tónica dos conselhos que ouço dos meus amigos quando lhes falo da minha dificuldade em aceitar a vida como ela é neste tempo sem espaço para sonhar os tempos que hão-de vir.

Ouço-os mas não sou capaz de me desligar dum conceito que a vida me ensinou: "quem sabe, faz… quem não sabe dá conselhos". A verdade é que nenhum desses que me aconselham a encerrar-me numa redoma dá sinais de que siga, ele próprio, a espécie de autismo que me sugere.

Acreditem, sinto-me mesmo cansado!

Estou cansado de assistir, impotente, ao alegre aviltamento desta nossa Nação que vai avançando no tempo, trôpega, aos trancos e solavancos.

Estou cansado de políticos sem palavra; sem carácter; sem sagacidade; homens e mulheres interessados exclusivamente em alimentar o seu avoado protagonismo. Como cansado estou das suas promessas ocas.

Confesso a minha incapacidade de olhar indiferente para a indiferença que noto nas gentes do meu país face ao quadro misérrimo em que vivem e que só Deus sabe por quanto tempo mais continuarão a viver. Por culpa da sua mansidão cúmplice, evidentemente.

Estou cansado de esperar, em vão, que Portugal se livre da mediocridade a que a governação lamentável duma sucessão de homens sem brilho o tem vindo a condenar sem esperança.

Gostava de ter força bastante para sacudir com fúria a consciência adormecida dos homens e mulheres do meu país. Mas sinto-me já cansado do esforço que tenho feito. Em vão.

Gostava de conseguir despertar nesses homens e mulheres quebrantados pela inércia tíbia em que sempre viveram, o seu direito à indignação. Queria poder explicar-lhes que nada os obriga a aceitar esta indigência a que se julgam irremediavelmente condenados. E que o país onde nasceram pode ser tão próspero como outros tão pequenos quanto ele. Sobretudo, queria levá-los a acreditar na verdade indesmentível que, se eles quiserem, Portugal também pode ser uma nação com futuro e todos nós mais felizes.

Mas estou cansado, podem crer. Um cansaço feito de desilusões que vêm dum tempo que me parece eterno. Desde há muito que venho passando mensagens de sensibilização em meios de comunicação os mais diversos, mensagens construídas de palavras umas vezes angustiadas, outras, muitas outras insubmissas, todas elas incómodas, eu sei.

E o resultado desse esforço? Alheios à prática duma cidadania plena, os portugueses vão continuando a viver um quotidiano sem perspectivas, encerrados nos seus pequeninos universos pessoais onde os valores maiores são constituídos de telemóveis, telenovelas, popós repletos de extras, jogos da bola e viagens ao estrangeiro, num desfile de parola vaidade, num faz-de-conta construído de créditos por liquidar.

Insânia? Bobagem? Idiotice? Seja lá o que for, a verdade é que tanta mansidão faz dos portugueses cidadãos impressionantemente passivos, roubando-lhes o discernimento que seria desejável num período tão crítico como este que atravessamos. Fazer como a avestruz numa altura destas, mais do que lamentável deve ser encarado como profundamente melindroso para quem, inapropriadamente, a si próprio se atribui a qualidade de cidadão responsável.

O namoro noutros tempos

Luís Farinha


Recordar é, como já vos disse, um dos meus entretenimentos preferidos no tempo que hoje vivo. Não é raro, nesse exercício a que me entrego, quedar-me perplexo com as diferenças profundas que se foram introduzindo no quotidiano desde que, ainda jovem, os apelos da curiosidade me criaram o hábito de querer saber os ‘porquês’ das coisas. Recusando a recorrência ao ‘acaso’ - a fórmula comummente usada e aceite para justificar os acontecimentos menos triviais - cedo me habituei a procurar explicação para as singularidades que o dia-a-dia nos traz.

O episódio que hoje vos trago, ocorrido há mais de 60 anos, se contado aos jovens de hoje corre o risco de ser tido como mais um exagero dos que já passaram a fasquia dos 80. Porém, como prometi no início deste blogue todas as estórias que aqui trago são marcadas pela fidedignidade de quem as viveu ou que delas obteve pleno conhecimento.

A ideia de vos contar este episódio ocorrido da minha juventude surgiu-me quando lia mais um capítulo do livro “Amor e sexo no tempo de Salazar”, da jornalista Isabel Freire. Trata-se dum documento que recomendo vivamente aos que constatam com reserva a dificuldade manifestada pelos mais velhos em perceber como o mundo poude mudar tanto, depois dos anos 50 do século passado.    

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Eram irmãs e muito bonitas. Filhas dum comerciante estabelecido no bairro da Penha de França, em Lisboa, as duas jovens aliavam à sua beleza a compostura própria das criaturas de condição. Teriam a minha idade nesse tempo, à volta dos 18 anos.

Conheci-as por puro acaso em circunstâncias que já não recordo com muita nitidez. Uma delas, era namorada de um amigo meu e, estou hoje convencido, terá sido esse pormenor que propiciou a aproximação. Fosse lá como fosse, a verdade é que acabei por pedir namoro à outra irmã. Cabe aqui lembrar que o meu amigo e a namorada só saíam juntos se e quando acompanhados da mana. Foi numa dessas saídas, ao fim da tarde, para a costumeira voltinha pelo bairro, que tive a ousadia de lhe manifestar a minha admiração. Avesso ao uso de preâmbulos introdutórios em casos que requerem acção prática, avancei com o pedido de namoro.

“Que já tinha reparado em mim quando há algum tempo eu tinha parado para os cumprimentar, que não lhe era de todo indiferente, mas que não aceitaria o pedido de namoro sem autorização dos pais”, foi a resposta que obtive. De qualquer modo, prometeu um encontro para o fim da tarde do dia seguinte para que pudéssemos conhecer-nos melhor. Foi um encontro que me ficou grudado na memória devido ao inusitado da situação: impaciente, à hora marcada lá estava eu de atalaia à porta da jovem, até que a vi surgir no patamar da escada acompanhada de duas senhoras, a mãe e creio que uma tia. E lá fomos, caminhando em estilo de passeio, as duas senhoras à frente e nós atrás, afastados uns três metros das acompanhantes.

Não me recordo do que disse e ouvi durante a passeata pois a confusão em que me sentia afundar impedia-me de conciliar as ideias…

Pouco treinado nas coisas do amor platónico, confesso que fiquei mudo de espanto. Não conseguia evitar de pensar que o nosso namoro ia ser sempre assim, em grupo, para garantir a castidade da minha namorada. A imagem do meu amigo e das suas passeatas com a prometida, com guarda à vista, não me saia da retina.

E agora, o que é que eu faço? Perguntei-me.

As minhas dúvidas dissiparam-se dois ou três dias depois…

Num fim de tarde alguém bateu à porta da casa dos meus pais, onde eu vivia. Aberta a porta, depara-se-nos um senhor de idade avançada, fato clássico de muito bom corte e postura extremamente cuidada. Após ter confirmado que aquela era a morada que procurava, identifica-se como padrinho da jovem a quem me declarara e pede que o receba afim de termos uma breve troca de palavras.

Escorreito no falar, expõe então ao que vai…

“Quem era eu, com quem vivia, a minha ocupação, quem eram os meus pais, o que faziam, a minha escolaridade, os meus projectos de vida e se eu sabia bem quem era a jovem a quem me declarara”. Finalmente: “quais as intenções que me levaram ao pedido de namoro?”

A tudo respondi tão escorreitamente quanto consegui; a minha mãe, essa ficou muda e continuou calada até ao fim… e o meu pai que não chegava!
Finalmente o senhor levantou-se da cadeira, agradeceu tê-lo recebido e retirou-se.

E mais uma vez: “e agora, o que é que eu faço?”

Nunca me tinha visto numa situação igual ou parecida com a que acabara de ter lugar, nem imaginava que ‘aquelas’ coisas funcionavam assim.

Sem que nada tivesse ainda contado à minha mãe acerca daquela história, esta olhou-me, ainda muda, até que lá conseguiu tartamudear: “Mas o que é que se passa? Quem é este senhor? O que é que tu fizeste?”

Expliquei como pude que pedira namoro a uma rapariga que conhecera.

“E afinal, o que é que o senhor queria?”

A resposta veio dois dias depois numa carta entregue pelo carteiro. Era assinada pelo o pai da beldade, o destinatário era eu próprio e o texto trazia a autorização para o namoro, sem esquecer de reiterar o desejo de que eu merecesse a confiança que me era concedida.

Meus caros, o susto foi tão grande, a certeza de que jamais me poderia permitir um gesto de ternura, por pequeno que fosse, que só encontrei uma saída: numa carta que enderecei ao pai da jovem apresentei os meus agradecimentos pela sua aquiescência ao pedido de relacionamento com a sua prendada filha, mas lamentava ter de comunicar que dava por sem efeito o projecto e o pedido de namoro por razões de ordem familiar que me levavam a trocar inesperadamente Lisboa pela cidade do Porto.

Foi uma mentira mal amanhada, eu sei, deselegante e talvez atabalhoada, como alguns de vós, muito justamente, não deixarão de considerar. Uma desculpa desastrada e desastrosa, até porque continuei a viver na Graça, em Lisboa, por mais 30 longos anos.

Era assim nos tempos da minha juventude. Por isso, como referi no princípio, não podem deixar de me espantar muitas das mudanças que o tempo foi introduzindo no nosso dia-a-dia actual. O namoro, que antigamente correspondia ao período de convivência que antecedia o noivado e depois o casamento passou a querer dizer uma coisa inteiramente diferente. Namoro, hoje, equivale ao que há 50 ou mais anos era chamado de concubinato, mancebia, amiganço. Creio até que essa coisa de pedir namoro desapareceu dos hábitos dos e das jovens. Pois se as moças conhecidas, mormente as que fazem as delícias da imprensa cor-de-rosa, anunciam na imprensa, com toda a naturalidade, que estão de “namoro” pegado com fulano, ou que acabaram o “namoro” com beltrano, pormenorizando que deixaram de viver em comum e considerando-se disponíveis para um novo amor…

“No meio é que está a virtude” era um ditado muito em voga nos tempos de antigamente. ‘Virtude’ queria, nesse adágio popular, significar o que está bem, o que é aceitável, o que pode ser considerado como razoável por uns e outros, por diferentes que sejam as suas convicções. Contudo, no que respeita aos usos e costumes que marcam o correr das gerações, parece que a virtude deixou de funcionar como a baliza que, nos tempos idos, estabelecia os parâmetros do comportamento racional e o funcionamento da sociedade em que nos é dado viver.

Entretanto, cautela!

Não quero significar que gostaria de desenterrar esqueletos. Bem longe de mim a ideia de me pôr à espera, onde a terra termina e o mar começa, na esperança que do nevoeiro surjam os fantasmas de outrora. Ora tendo-me a vida ensinado, entre outras coisas, que nada é imutável, que os conceitos mudam à velocidade da luz e que é inimaginável alguém pretender que o mundo deixe de girar, só muito mais adiante fui capaz de começar a aceitar como inevitáveis as mudanças que o dia-a-dia nos traz. Contudo, talvez hoje já seja capaz de compreender com relativa facilidade a carta que o pai da jovem lá do meu bairro me escreveu e a visita que me fez o seu amável padrinho.

Uma coisa é certa: peço-vos desculpa mas não consigo deixar de sentir saudades do tempo em que o namoro, tal como o conheci, significava uma coisa diferente daquela a que hoje a mesma palavra se refere.

Coisas de velho, enfim…