25 de maio de 2011

Desculpem, estou com medo!

Luís Farinha

Como já vem sendo hábito em Portugal nos períodos que antecedem as eleições legislativas, vulgarmente designados de “campanhas eleitorais”, assiste-se uma vez mais ao palanfrório grotesco exibido pelos políticos de faz-de-conta que se assanham para conquistar ou dar continuidade ao poder que lhes permite satisfazer a sua ânsia de protagonismo. Só que desta vez a coisa atinge tal desbragamento que já chega a meter medo.

Abismado com a troca de galhardetes ouvidos a toda a hora na televisão, o Zé portuga deita as mãos à cabeça interrogando-se: “e agora, o que é que eu faço?”

Não sabe, como eu não sei, como ninguém com um palmo de testa pode saber.

Bem pode Mário Soares recomendar do alto do seu saber de experiência feito que “não lhes vale de nada andarem a insultar-se uns aos outros”, lembrando que “a situação do país é demasiado difícil para andarem às turras uns com os outros”. E bem recomenda: “eles vão ter de se associar para salvar Portugal”. Mas ‘eles’, os políticos de fancaria que nos coube por azar a nada dão ouvidos: de cabeça perdida só se ouvem a si próprios atribuindo-se uma capacidade de discernimento que, se alguma vez existiu, já se esvaziou há muito.

Para tornar a coisa ainda mais esculhambada do que já está vêm ainda os ‘artistas secundários’ deste circo de saltimbancos ajudar à festa com rábulas revisteiras de qualidade menor como aquela que ouvi na passada terça-feira saída da cabeça dum frequentador da AR conhecido pela sua aversão aos artefactos de trabalho dos jornalistas. Não tomei nota das falas porque já me vai faltando pachorra para isso, daí que apenas me tenha dado conta que a chalaça envolvia um submarino com um senhor em bicos de pés. Imagem importante numa altura em que o país precisa urgentemente de gente capaz de o salvar do abismo.

Olhando os interpretes da ópera-bufa em que foi transformado um dos actos mais importantes da função política em Portugal – eleger o governo da Nação – estou sem saber em quem devo votar, já não direi em “alguém capaz de encontrar soluções adequadas para levar o barco a bom porto” – tarefa que pelo que tenho observado ultrapassa o talento dos intervenientes – mas que, pelo menos, em alguém que tenha arte e engenho suficientes para não deixar que ela (a Nação) se afunde irremediavelmente. Honestamente, não sei!

Pior ainda é não me sentir capaz de optar – já não digo: pelos melhores - mas pelo menos por quem menos estrago seja capaz de causar depois de eleito. Assusta-me a eventualidade de errar por não ter sido capaz de escolher melhor. De não ter sido mais perspicaz. E o que temos está à vista.

É que, para cúmulo do meu desnorteio, a ninguém ouvi propostas de actuação claras e concisas. Pelo contrário: tudo o que se parece com argumento válido vem sempre embrulhado em discursos labirínticos, preparados de molde a evitar que seja tomado como compromisso sério, do qual haverá que prestar contas. Em vez de planos de acção concretizáveis, vem o acinte; no lugar da reflexão ponderada, proferem-se diatribes que não ajudam a desvendar novos caminhos; o dedo em riste comanda os discursos; a banalidade é o recurso usado por quem pouco tem para dizer.  

O insulto soez, a culpabilização gratuita, o escarnecimento reles e a zombaria mesquinha têm vindo a servir de argumentos numa acção que, em princípio, se destina a escolher os mais capazes de corrigir os erros até hoje praticados por quem deixou Portugal chegar ao estado lamentável em que se encontra. Entretanto, seja qual for o resultado conseguido nesta campanha de tão baixo nível uma coisa restará na memória dos cidadãos: a menoridade política que, ultrapassando fronteiras, começa a reflectir-se na forma como ultimamente temos vindo a ser tratados pelos nossos compinchas europeus.

Atavismo resignado
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas..."
                                                                                         Guerra Junqueiro 
                                                                                          (escrito em 1886) 

10 de maio de 2011

Os “retornados”… lembram-se?

(Quarenta anos depois)

Luís Farinha

Foi há cerca de quatro décadas que ocorreu o regresso do meio milhão de portugueses, homens, mulheres e crianças, que tinham procurado em África o que aqui lhes tinha sido negado: uma forma de, através do trabalho, conquistarem uma vida digna.

Mais de quinhentas mil pessoas que, de repente, se viram na contingência de abandonar às pressas as suas casas, os seus bens, os seus negócios, as amizades, até alguns familiares que entretanto optaram por ficar, enfim... meio milhão de seres humanos que, de um dia para o outro se viram despojados de tudo aquilo que lhes havia demorado muitos anos a construir. Pessoas que apressadamente regressaram às suas terras de origem, embora entre elas viessem também muitos que, entretanto, já tinham nascido naquelas paragens africanas.

O retorno desse grosso contingente constitui hoje, sem dúvida, um capítulo sombrio da história portuguesa. Um pedaço de história que põe a nu as fragilidades políticas do pós 25 de Abril, deixando às claras a falta de vocação política dos homens que então chamaram a si a resolução dos grande problemas nacionais.

Ainda hoje, e já lá vão quatro décadas, não lembrem aos deslocados de África as condições em que se viram obrigados a deixar os imensos territórios que entretanto aprenderam a amar, e a recepção que aqui lhes foi feita quando, de mãos a abanar, saíram dos aviões e navios que os trouxeram.

Muitos, durante anos habituados a viver num ambiente mais aberto e com um certo nível de vida viram-se constrangidos a procurar familiares e amigos no interior de Portugal continental, pessoas que os ajudassem a ultrapassar a miséria moral e física em que se tinham visto colocados. Outros, também aos milhares, sem raízes familiares a que recorrer, foram metidos em hotéis, pensões de recurso e até em parques de campismo, à espera de melhores dias. 

Enfim... foi um desnorteio sem fim a que os políticos de então não conseguiam dar resposta adequada e que durou alguns anos a debelar.

A tudo isto - convém lembrar - acrescente-se a fauna de oportunistas que, como abutres, viram nos planos de emergência constituídos às pressas pelas entidades governamentais  (para apoiarem a instalação dos retornados)  uma forma de enriquecer à custa da exploração vergonhosa destes muitos milhares de homens e mulheres desenraizados à força. Foram transformadas em pensões muitas instalações adaptadas rudimentarmente onde tudo faltava, inclusive condições mínimas de higiene. Tudo isso na mira do lucro fácil proveniente dos subsídios (IARN) para o efeito canalizados pelo governo. Completado o plano de evacuação, e numa espécie de selecção natural, assistiu-se depois a um fenómeno muito curioso: uma vez na metrópole, como então se dizia, os deslocados de África dividiram-se em dois grandes grupos: de um lado os que adoptaram e transformaram o Rossio numa espécie de “muro das lamentações”, local onde aos milhares se encontravam diariamente para falar da sua infelicidade, contando (e, quantas vezes acrescentando) o que tinham deixado em África, ao mesmo tempo que criticavam a falta de apoio a que se sentiam com direito. Do outro, os que - uma vez instalados, às vezes muito mal - decidiram arregaçar as mangas e começar tudo do princípio, na base do trabalho duro. Bem perto de nós, onde quer que vivamos, há muitos exemplos dessa gente abnegada que cedo compreendeu que a sua vida tinha de ser refeita a partir da estaca zero. Cerrando os dentes de raiva, famílias inteiras atiraram-se ao trabalho e, mostrando a capacidade dos portugueses para se adaptarem às circunstâncias mais adversas, depressa deram mostras da massa de que eram feitos.

Já passaram muitos anos, mas ainda agora eles podem ser encontrados por aí, à frente dos pequenos negócios que montaram, nos empregos que arranjaram, no trabalho duro que descobriram. Outra vez realizados, fazem a sua vida, continuando a usar uma forma de ser e estar que a distância de milhares de quilómetros não conseguiu diluir: felizes, gostam de conviver entre si, desde que não lhes falem da “exemplar” descolonização com que os políticos diletantes desse período inesquecível deram cabo das suas vidas.

O regresso deste meio milhão de homens e mulheres escorraçados das terras longínquas a que um dia haviam aportado em busca de melhor vida foi uma das páginas mais dramáticas da diáspora lusitana. Foi uma odisseia homérica que os jovens terão hoje dificuldade em compreender. Não foi uma página brilhante da nossa história, um episódio que nos honre enquanto Nação, mas pode servir de exemplo na actual conjuntura político-social em que mais uma vez é dada prova da vocação dos portugueses para improvisarem soluções que não resolvem mas adiam os problemas sérios que ciclicamente lhes são postos. Não estávamos preparados há 40 anos para enfrentar a calamidade que a descolonização “exemplar” desencadeou e de novo somos apanhados agora com as ‘calças na mão’ quando a catástrofe económico-social se abate sobre nós. 

Afinal onde estão os ‘cérebros’ que, enfatuados, arrotam postas de pescada? Por onde param os vendedores da banha de cobra que tudo cura, desde a dor de dentes à queda do cabelo, à dor nas costas e aos calos dos dedos dos pés? Procurem-nos, alguns continuam em cima dum palanque, microfone na mão, a debitar promessas. Outros, já cansados de tanto governar, vivem na morna quietude dos gabinetes para si preparados nas muitas empresas de enriquecimento fácil e rápido que há por aí a granel.

7 de maio de 2011

Só me resta a memória…

Luís Farinha

Agora, quando os anos que me restam são bastante menos do que os que já vivi, dá-me, a miude, para lançar uma olhadela ao passado, relembrando cenas duma vida que já foi, revisitando lugares onde jamais voltarei, revendo caras e corpos que, a pouco e pouco, se vão diluindo nas brumas do tempo.
 
Umas vezes, as lembranças trazem-me cores, cheiros, sabores e contactos que me fazem bem à alma. É quando regresso por instantes às amizades que vieram para ficar, aos relacionamentos fugazes mas intensos, aos amores que aceleraram o ritmo do meu coração. Outras vezes, as recordações trazem-me de volta situações menos felizes. Rostos que me arrependo de ter conhecido. Pessoas com almas espantosamente feias, mas que o destino teimou em colocar no meu caminho, fazendo-me tropeçar vezes sem conta.
 
Este retorno ao passado, que agora me acontece com mais frequência do que antes, é assim como um balanço da muita vida vivida até ao presente. É como se quisesse reter à força: casos, coisas, rostos e lugares que constituem, afinal, a história da minha vida e que um dia destes se apagarão para sempre, como uma luz que se extingue definitivamente.
 
Pela minha vida passaram algumas coisas bonitas, uns quantos momentos felizes... e essas são as memórias que me acodem com mais frequência . Como num ecrã imaginário, vejo passar situações que tenho pena de não poder repetir. Vejo pessoas que amei e amigos que estimei sinceramente. Alguns que já não fazem parte deste mundo, mas que - segundo dizem - acabarei por reencontrar quando eu próprio partir, também, para o outro lado da vida.
 
Mas há recordações que me apetecia apagar da memória. Há rostos que melhor seria não ter conhecido. Gente sórdida colocada no meu caminho como a advertir-me que o mundo não é perfeito. Autores de acções e atitudes que a moral condena e que apenas servem para fazer o contraponto do lado bom da vida. Esses, em franca minoria, serão para sempre a parte dissonante duma existência razoavelmente feliz, a minha!
 
A pouco e pouco, no rodar incessante da vida, cumprida a minha parte outros tomarão o meu lugar... até que, por sua vez, sejam rendidos pelos que vierem depois.
 
É então que me ocorre uma verdade inquestionável. Nada somos e nada representamos neste revezar constante. Antes de nós, milhões de milhões de seres humanos já cumpriram destinos. Depois de nós, outros milhões de milhões virão para cumprir os seus. Neste quadro, a insignificância do que somos devia bastar para que nos não atrevessemos às exibições patéticas de sentimentos menores como a arrogância, a vaidade, a presunção burlesca.        

É que, quer acreditem ou não, no meio disto tudo pouco mais somos que um mero dado irrelevante...
 

5 de maio de 2011

A senhora do solar

Luís Farinha

 Todas as noites, ao princípio da madrugada, o telefone tocava. Lá longe, no Norte, em Cabanas de Viriato, sozinha no seu velho solar, a senhora tinha apenas o rádio a acompanhá-la. Como tantas vezes acontece (ou acontecia, nos tempos em que a televisão era ainda uma vaga promessa para os portugueses), havia sempre quem fizesse dos homens e mulheres da telefonia objecto das suas fantasias. Daí, as cartas que recebíamos, os telefonemas, e não só.
   E a senhora de Cabanas de Viriato (cujo nome não vem a propósito), tinha criado e desenvolvido uma acesa admiração por aquela voz que, de Lisboa, todas as noites lhe adoçava a solidão.
   O pretexto dos telefonemas, esse era sempre o mesmo: pedir um disco da sua preferência. A conversa, porém, extravasava sempre desse pedido singelo.
   A partir de certa altura comecei a receber cartas longas, muito longas, em que me falava do seu exílio voluntário nas altas terras da Beira, para ficar longe desta Lisboa que, dava ela a entender, lhe tinha sido madrasta.
   Tanto a sua voz, como a forma como se exprimia ao telefone (e mais tarde por escrito) deixava adivinhar o nível elevado da sua condição. Na verdade, falava e escrevia como alguém que tivera uma educação acima da mediania. Não pactuava com a vulgaridade, e o que dizia era profundo mas sem qualquer assomo ou cedência ao tão vulgar "namoro" de circunstância. De resto, se alguma admiração havia, como era notório, nunca a mesma passou da fase platónica, e a confirmá-lo está o facto de eu nunca ter conhecido pessoalmente a minha ouvinte de Cabanas de Viriato.
   Ela sim, conheceu-me, em circunstâncias que não vêm a propósito nem são importantes para a estória que vos conto.
   Uma noite, como se tornara habitual, a chamada lá veio. Estávamos no Inverno, um daqueles Invernos rigorosos de antigamente, quando as estações do ano, em Portugal, eram coisa para se levar a sério. Fazia um frio de morrer, mais ainda lá para as serrarias da Beira Alta, onde a aspereza do clima é que marcava o ritmo do dia-a-dia. Apesar dos mais de 40 anos passados, ainda me recordo de a ouvir comentar o frio que fazia e do aquecedor eléctrico que tinha junto à cama, para se aquecer. Lembro-me também de me falar da serviçal que diariamente lá ia para a lida caseira e que, logo o Sol se punha, regressava à sua própria casa e à família, deixando-a sozinha, até ao dia seguinte.
   Como de costume, também nessa noite depois de alguns minutos de conversa despedimo-nos afavelmente e desligámos, não sem que antes lhe recomendasse cuidado com o aquecedor eléctrico.

 No dia seguinte, pela manhã, cumprindo um ritual que ainda hoje faz parte do meu quotidiano, abri o jornal para me inteirar do pouco que nesse tempo chegava ao conhecimento público. Numa página interior algo chamou a minha atenção: a foto de uma casa calcinada pelas chamas, encimada por um título em caixa alta, mostrava o que desde logo me fez estremecer:

CHAMAS CONSOMEM SOLAR 
EM CABANAS DE VIRIATO
PROPRIETÁRIA MORREU NO INCÊNDIO

 No seu desenvolvimento, a notícia explicava que o fogo devia ter sido provocado pelo aquecedor que fora encontrado junto à cama.

 Um par de meses depois recebi na rádio a visita de um homem idoso, vestido com esmero. Identificando-se com familiar da minha ouvinte longínqua pretendia saber que tipo de relação tinha eu mantido com a sua parente chegada. Expliquei-lhe que a não conhecera pessoalmente, que a “relação” não passara de um caso igual a tantos outros que, nesses tempos longínquos, eram vulgares entre os locutores e os seus ouvintes. Talvez uma forma encontrada para ajudar a mitigar a solidão dos que viviam sós, acrescentei.  

 Aquele relacionamento com a minha desconhecida admiradora terminou assim, abruptamente, dele restando apenas uma memória esparsa que de quando em quando me visita fugazmente, sempre que, de relance, dou uma olhadela ao passado que deixei para trás.

Como hoje...

24 de abril de 2011

Não deixem morrer a esperança

Luís Farinha

Parece que foi ontem e já passaram 37 anos...

Três décadas e meia depois da Revolução de Abril há sonhos realizados e outros que ainda continuam adiados. Há expectativas plenamente preenchidas e outras que, entretanto, se frustraram. Há muita gente feliz e outra que não consegue calar a sua desilusão.

O 25 de Abril foi inventado, sobretudo, para dar ensejo aos portugueses de encontrarem uma nova identidade nacional. E o tempo que veio depois, serviu para esbater as mágoas acumuladas e, sobretudo para se aprender a soletrar a palavra liberdade.

Entretanto, pelo meio, resistindo aos tempos de mudança, ficaram os obstinados, os que não foram capazes de perceber que nada é imutável, menos ainda em política. E que a história dos povos, toda ela tem sido construída de convulsões.

A verdade é que apesar das comemorações e das palavras bonitas que nestas alturas se dizem, ainda há quem olhe para trás não conseguindo esconder a nostalgia.

O direito à diferença (que Abril consagrou) exige que respeitemos as convicções dos que preservam os valores do “antigamente”. Mas há outros, quiçá a maioria, que ainda hoje se emocionam quando recordam aquela madrugada, acordada em alvoroço há 37 anos atrás.

Espanto, incredulidade, medo, exultação, foram os condimentos que deram um sabor único aos acontecimentos daquele dia inesquecível. Quem poderá esquecê-lo?

E três décadas depois?

Ódios, rancores, recalcamentos, tudo isso se foi diluindo nos recessos do tempo. Com a democracia veio a tolerância, enquanto a liberdade fez esquecer a raiva. Hoje, aprendido já um novo ritmo de vida, olha-se o passado com alguma saudade. A saudade daquela manhã de Abril, em que Portugal acordou mais livre, em que todos acreditámos que Portugal encontrara finalmente o caminho para uma vida melhor.

Passada a data histórica já muito se falou e rios de tinta se gastaram para descrever as muitas histórias que fizeram desse tempo, um dos mais bonitos e mais conturbados do século XX, em Portugal.
Pintado de cores diferentes, conforme a perspectiva e os interesses de cada um, o 25 de Abril tem vindo, desde há 37 anos, a ser entendido negativamente por uns milhares de portugueses e positivamente por milhões de outros portugueses.

Faz 37 anos que Portugal mudou... ou que devia ter mudado para melhor, como muitos sustentam. Mas a verdade é que, pese embora as queixas, muitas coisas melhoraram e isso é inegável.

Conquistou-se, por exemplo, o direito de denunciar os excessos dos senhores governantes; o direito de informar a opinião pública acerca da corrupção que, passadas as indecisões do 25 de Abril, voltaram a fazer as delícias dos que detêm as rédeas das grandes instituições; conquistou-se o direito de dizer que “o rei vai nu”.

Seja como for, feito o balanço do tempo que passou e rememorando o Portugal do antigamente, fácil é chegar à conclusão de que o saldo é positivo. Fácil é concluir que os ganhos são bem maiores do que as perdas. É que, apesar de tudo, se o resultado da Revolução de Abril não foi nem trouxe o que muitos esperavam, a culpa não pode (não deve) ser atribuída a quem a promoveu e levou a cabo, mas sim à falta de talento dos que se apressaram a afirmar-se capazes de governar uma Nação renovada, quando – ao fim e ao cabo – as suas capacidades apenas se têm limitado a governar (e bem) os seus próprios interesses.

Faz 37 anos que Portugal mudou. E se não pode dizer-se que a mudança trouxe o que a maioria esperava, uma coisa é certa: pior do que estávamos antes de 1974, também não é possível.

Daí que, feitas as contas, sempre dá para (pelo menos) não lamentarmos o 25 de Abril.

22 de abril de 2011

Por favor, não!

Luís Farinha

O medo está instalado. Aliás, desde há séculos que o medo nunca deixou de condicionar o dia-a-dia da humanidade. Desde tempos imemoriais que o mundo vive em convulsão devido aos conflitos armados que explodem aqui e ali, umas vezes por efeito de ambições desmedidas, outras em resultado das assimetrias sociais instaladas pelo poder económico, outras ainda pela comprovada incapacidade que os homens têm para se entenderem pelo diálogo.

Nas últimas décadas tem sido um nunca acabar de lutas que dizimam populações inteiras, gente inocente que se vê, de repente, envolvida em guerras que não causou, mas das quais são as maiores vítimas. Foi a 2.ª Guerra Mundial; Coreia; Vietname; África; Médio Oriente; Timor-Leste; Golfo; Iraque; os conflitos étnicos e tribais, as guerras civis; as lutas internas, como as que ultimamente vêm incendiando os países árabes… e por aí adiante.

O ritmo das disputas internas e externas e bem assim a ingerência abusiva dumas quantas nações auto-promovidas a controleiras da vida interna de outras é o que mais me incomoda neste período da história do mundo. À força de se repetirem, estas acções tendem a vulgarizar-se, fazendo com que o respeito que deve presidir à autonomia dos povos que compõem a grande família mundial se vá diluindo, começando por não se saber como se pode preservar a soberania de cada país.

Numa rápida viagem pela actualidade, constata-se que há nações que a si próprias atribuem o direito de dominar a cena internacional e as que, por razões geopolíticas, se submetem a esse domínio. É em consequência de tal dislate, da arrogância de uns à submissão de outros, que vemos na televisão e na imprensa escrita imagens de povos a quem tudo falta, morrendo à míngua do essencial, enquanto outros se empanturram de tudo quanto o dinheiro paga.
  
É pois neste cenário absurdo que, num crescendo imparável, ecoam gritos de revolta enquanto se acendem conflitos que condenam à míngua, ao desespero e à morte populações inocentes, povos cujo único destino é serem mantidos pobres para poderem servir de joguetes dos interesses nunca saciados de quem detém o poder económico.

É já perceptível o rosnar daqueles para quem os pensamentos aqui expostos são rotulados de inaceitáveis. Porém, não será o medo que me fará silenciar o que considero crime. Matar à fome ou pela força das armas povos que apenas querem viver em paz, é um acto de perversa desumanidade. Homens, mulheres, crianças, morrem vítimas de bombardeamentos indiscriminados lá pelo Iraque e pela Palestina. Em África, são as crianças quem mais padece a morte lenta da fome. Na Ásia, tudo falta, até o essencial, enquanto a escravidão laboral vai enriquecendo os poderosos.

É assim o mundo de hoje. Sempre foi. Será assim até ao final dos tempos?

E enquanto isso, vamos continuar, calados, a assistir a esta bestialidade sem nome?

Por favor, não!

18 de abril de 2011

Somos o que a vida fez de nós

Luís Farinha
Estou absolutamente convencido de que somos o somatório daquilo que a vida fez de nós.

Pode ser que os sinais genéticos que trazemos das origens possam contribuir para a formação da nossa personalidade, mas… meus amigos, não tenho qualquer dúvida de que as boas ou más pessoas que somos, resultam quase inteiramente da maneira como, ao longo da existência, fomos absorvendo as lições que a vida nos deu.
Tudo isto porque nada acontece por acaso!
São os pequenos e grandes acontecimentos da vida de cada um de nós, são as boas e más recordações que vamos guardando nos recessos da nossa memória que marcam, no presente, a maneira de ser que caracteriza as pessoas em que nos tornámos.
O amor que somos capazes de dar aos outros, por exemplo, é normalmente inspirado pela brandura que as lições da vida foram destilando no nosso coração. Do mesmo modo, a impaciência ou a dureza que demonstramos nas nossas relações com os que nos rodeiam são, quase sempre, resultantes das injustiças e experiências amargas que fomos somando ao longo do tempo que deixámos para trás.
Não vale a pena fingirmos que somos o que não somos. Como diz a sabedoria do povo, “a mentira tem perna curta”!
Quer isto dizer que a bondade da alma é um sentimento que não se pode imitar eternamente. Do mesmo modo, a maldade do coração torna-se indisfarçável quanto mais nos esforçamos para a esconder.   
O sorriso forçado transforma-se em esgar. As  palavras amáveis ressumam a fingimento.
Reparem, meus amigos, que até os animais sentem a sinceridade do nosso afago. Se vocês são dos que, por exemplo, não gostam de cães, experimentem fazer uma festa a um deles, só para serem simpáticos ao dono. Ouçam então o rosnar do animal… ou sintam a dureza dos seus dentes.
É por isso que eu acredito que cada um é aquilo que a vida fez de si.
E não vale a pena fingirmos o que não somos. Com isso, não enganamos ninguém. Ou melhor… só nos enganamos a nós próprios. Isto não quer dizer, naturalmente, que de uma forma geral a vida que nos rodeia não seja constituída de um faz-de-conta que mais não é do que o inverso daquilo que já disse: que somos o somatório do que a vida fez de nós. Não! Há por aí muito boa gente que se esfalfa a querer fazer-se passar por aquilo que não é. São os que recusam as origens, o berço que os embalou, a família de que foram gerados. São aqueles que dissimulam a sua natureza verdadeira, aporcalhada e reles, para conseguirem sugar da sociedade que os cerca tudo o que ela lhes deve proporcionar seja a que preço for. Não acreditam? Vejam os exemplos que os media nos mostram diariamente: saltam à vista os que tudo dão e fazem para cultivar o protagonismo; os que se põem em bicos de pés para saírem da mediocridade de que é constituída a sua arrogância; os falhos dos valores que fazem de alguns de nós pessoas que marcam a diferença pelas melhores razões.
Refiro-me aos tais que todo o mundo conhece, àqueles para quem o ‘estar bem na vida’ significa algo que nada tem a ver com a boa consciência. Aos que não se envergonham com a imagem (a sua) que vêem reflectida no espelho quando nele se alindam para dissimular os sinais do opróbrio.